sábado, fevereiro 22, 2014

Georges Bernanos - A educação da mocidade

Desde o séc. XVII, a Igreja desconfia da mocidade. Oh, sorride à vontade! Vosso sistema de educação se caracteriza, bem o desejais, mais pela solicitude que pela confiança. Não é mau proteger os rapazinhos dos perigos da adolescência, mas os bons moços que expondes nos concursos são meio faltos de temperamento, não achais? Se são mais castos que os ancestrais do séc. XVII, ignoro-o. Cá para nós, tenho lá minhas dúvidas. Tenho dúvidas ainda se tais produtos selecionados da formação humanista e moralista, que os jesuítas puseram em moda na época clássica, não absorvem a vossa atenção ao ponto de perderdes o contato com uma mocidade bem diferente, que de mais a mais raramente ultrapassa os umbrais de vossas casas. [...] No fundo os vossos métodos engenhosos parecem menos inspirados no Evangelho que nos moralistas, quão mais loução que vós é o Evangelho! Quem vos escuta acreditaria que a mocidade é uma crise infelizmente inevitável, uma provação a se superar. Tendes uma cara de quem vigia as complicações dessa doença, o termômetro à mão, qual fosse escarlatina ou rubéola. Assim que abaixa a temperatura, soltais um suspiro de alívio, como se o doente estivesse fora de perigo, quando mais a miúdo ele se limita a ocupar um posto entre os medíocres, que entre si se denominam homens sérios, ou práticos, ou dignos. Eia! É a febre da mocidade que conserva o mundo na temperatura normal. Quando se resfria a mocidade, o resto do mundo bate os dentes [...] Quando um ministro ou um banqueiro entrega a progênie em vossas mãos, espera que vós a modeleis à imagem e semelhança dele; destarte, não podeis lograr a expectativa do pai. E vós nunca a lograstes. A fina flor do ateísmo enciclopédico saiu de vossas casas. “Tratamo-los bem, dizeis vós, protegemo-los contra o mal, eles não têm o que temer junto a nós.” Sim, pena que o barco se fez ao mar! Se nunca houvesse saído às ruas nós ainda o veríamos pintado de novo, lavado de fresco, embandeirado com lindos pavilhões [...]
Pouco se dá que façais moços cristãos e meões, pois o mundo moderno caiu tão fundo que “cristão meão” já sequer conserva ainda o significado de homem probo. É inútil que formeis cristãos meões, a idade torná-los-á assim. Concedo, só Deus sonda os corações mas, medíocre por medíocre, considerando tão-só os rendimentos, qualquer patrão responsável vos dirá que um cristão meão tem todos os defeitos da espécie comum, com um quinhão suplementar de orgulho e hipocrisia, sem falar duma atitude lamentável de decidir a favor de si os casos de consciência. “Não é possível fazer melhor”, responderíeis vós. Sem dúvida. Todavia é de temer que vós tenhais então caído na ilusão dos autores de programas universitários. Querendo um pouco de tudo, não quisestes o suficiente. Infelizmente os vossos produtos correspondem à idéia que os professores de letras se inculcam sobre o caráter francês: ponderado, adequado, moderado. Entendo bem que seria arriscado explorar a revolta natural da mocidade, ante uma sociedade organizada a despeito dela, que não saberia encaixá-la em nenhum lugar [...] A desgraça é que só com dificuldade reanimareis, mais tarde, a chama que a vossa prudência haverá de esconder debaixo da corcunda.


Georges Bernanos, Os grandes cemitérios sob a lua (1938), Plon, p.168-170