quinta-feira, janeiro 16, 2014

A Queda de um Anjo (Tempestade Mental)


 
            Camilo Castelo Branco é, para os verdadeiros cultores da língua portuguesa, a presença onímoda que a todos julga, porquanto na vernaculidade foi quem mais próximo chegou daquilo que seria licito chamar de “ideal”. Ainda os modernos, a despeito dos preconceitos de escola que, nesta terra, desde 1922, dita as regras do bem e mal escrever, dizíamos, os modernos de outro tempo ainda o usavam de metro auferidor– como Monteiro Lobato, camilianista de estrita observância, Graciliano Ramos, que o admirava, e Herberto Sales, que o imitava.
            A arte de Camilo nunca primou pela regularidade, pois a vida premida de dívidas e escândalos não lhe deixava o recreio d’alma suficiente para a feitura duma obra mais bem acabada; irônia das irônias, porém, é o fato de que as obras que lhe granjearam a celebridade definitiva foram justamente aquelas que escreveu na cadeia da Relação, no Porto, onde estava preso por bigamia – ali, no ergástulo que, pensaríamos, lhe seria a detração da fama, em verdade foi o palco donde manipulava, com novelas lacrimejantes, a opinião pública a seu favor, sobretudo o espírito feminil, transformando destarte a obra literária em defesa, e a imprensa e os editores em advogados. Desta época datam o Amor de Perdição e Doze Casamentos Felizes.
            Apodá-lo de “dicionário vivo”, a exemplo dos coevos, é não compreender-lhe a obra multifária, oriunda duma sanha a que se obrigava e lhe consumia as forças dia após dia. Camilo era, de certa forma – prestem atenção –, um homem do passado, genealogista amador, traça de velhos tomos carunchosos que recolhia em antigos mosteiros, arqueólogo de palavras antigas e desusadas, que pretendia ressuscitar no vernáculo – o que de fato não conseguiu. O torneio elegante e o vocábulo sempre exato provinha do aturado convívio com os clássicos portugueses, embora – diga-se – não fosse um purista estrito, como Antônio Feliciano de Castilho, o escritor mais soporífero que já surgiu em letras. Nem por isso deixou de ser romancista da moda, indo ao encontro das escolas em voga – embora se reconheça mais de uma vez filhoda escola romântica – com claro intuito de sanar dívidas e felicitar os editores. As duas tendências lhe ficaram gravadas na alma, numa briga dialética que jamais alcançou a síntese: cada uma dessas facetas acusava a outra, quer de passadista e gramatiqueira, quer de aproveitadora e mercenária; esse conflito é uma das forças da obra camiliana, e está desdobrado nas histórias e personagens.
 Havia um terceiro Camilo, o metafísico louco, que testemunhava o conflito e lhe achava graça; descrevia-a em termos aristotélicos – herança dos anos em que fora oblato beneditino – acreditando-a com a filosofia do Estagirita e, não vos surpreendais, menoscabando-a neste mesmo ato, numa paródia da intragável parlapatice de padres glutões e bacharéis boêmios.
Calisto Elói seria uma relíquia viva, dos tempos em que o regime municipal conferia aos feudos portugueses relativa independência diante do poder central do rei, um primo inter pares; a época em que vivia, contudo, testemunhava a franca centralização dos poderes na mão de Lisboa, herança do Marques de Pombal e prática do regime constitucional. A roda do progresso não o esmaga, pois a casa é onde tem ele o alcácer da “antiga honra portuguesa”, ao modo do feudo, para o que tudo o que se constituía ameaça vinha do exterior. Mas do exterior também vem a benção: basta pensarmos em certos fatos decorridos na longínqua e oriental Palestina, cujas ressonâncias conformariam tudo quanto dá ao nome português a sua essência. Se as regras do bom estilo primam pela brevidade, seria dizer bastante, sem dizer tudo, que Calisto Elói é um Quixote português, que vive uma vida de segunda mão, nas memórias dos varões ilustres e esclarecidos da idade heróica; o valor que lhe incute os exemplos dos ínclitos antepassados é verdadeiro e sincero, mas o solar onde habita na verdade é a estufa que o impede de defrontar a deterioração da ciência antiga – fruto do conhecimento humano, a que aplica erroneamente a virtude de quem a registrou; para Calisto Elói, os clássicos são os profetas dos acontecimentos passados, são os dogmas duma religião laica. A ciência humana é relativa, e a verdade que lhe é própria a transforma o tempo em “mentira”. O anjo, em Calisto, é a criança, cuja inocência os pais deveriam proteger até que tenha idade de encarar a sordidez do mundo; cuja virtude haveriam de alimentar para que se fortaleça e enfrente a corrupção do ambiente; a mulher – D. Teodora – , mais que esposa, é mãe do marido; ela é também outro anjo, cuja virtude principal é apego supersticioso aos costumes.
A derrocada começa com a deputação – instituto da democracia liberal, a qual se inclinou em nome de um valor maior: a salvação pública da pátria; o espírito de sacrifício, tão usual nos antigos lidadores e cavaleiros, não é um valor em si, porquanto a emulação pouco esclarecida pode terminar em desastre. Calisto saiu da casa para a rua, onde se organizavam os conventículos e tramóias políticas, e lhes deu ouvidos, ou seja, deu ouvidos ao mundo, conversou com o diabo.
Já aqui a realidade começa a recobrar os direitos. A realidade é a matriz da verdade, entretanto a realidade que impacta a sensibilidade de Calisto é a da cidade cainita, que odeia o inocente. As armas dos valores morais são de pouca valia se não estão arnesadas com a prática da aplicação concreta desses valores à realidade; o intelectual Calisto ora vivia nas alturas metafísicas, ora no esquadrinhamento minucioso de pormenores ambíguos e olvidados, mas nunca se dedicara ao exercício – dentre todos o mais difícil – de sintetizar ambos os conhecimentos num ato de experiência. O coração do homem é um pêndulo que busca mas não encontra descanso nesta terra; o conhecimento é uma tentativa de saciar os naturais anseios do homem pelo absoluto, por meio da faculdade que nele abrange o universal; porém, neste lugar de miséria, onde está perdida ou escondida a santidade, só a beleza parece encarnar à evidência a síntese duma perfeição perdida – forma ideal em corpo material –, duma promessa de paraíso. Mas Calisto nunca foi pontífice da própria inteligência: como saberia inteligir a forma pela matéria? Ao anjo se compara o homem puro, qual Adão, para quem sempre há de existir Eva. Os estudos de Calisto não o impedem de cair na voragem romântica; ao contrário, a idealização da mulher, presente nas gestas medievais, será a cunha que o sentimentalismo romântico usará para enfim quebrar a alma do descendente dos Barbudas de Silos.


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