segunda-feira, dezembro 16, 2013

Pe. Castellani - Comentário à Perícope do Terceiro Domingo do Advento


                O evangelho do terceiro Domingo do Advento (Jn 1, 19) traz o segundo testemunho de João Batista sobre Jesus Cristo, dada às autoridades religiosas oficiais.
                Vem no início do Evangelho do outro João, depois do solene prefácio em que o evangelista declara que “o Verbo era Deus”. João a Águia liga o próprio testemunho, de que Cristo era Deus (objeto do quarto Evangelho), com o testemunho de João o Lobo, de que Cristo era o Messias, completando-o.
                O testemunho do Batista sobre Cristo e si mesmo aos fariseus aconteceu mais ou menos na metade de sua curta carreira, que foi ainda mais curta que a de Cristo. João sobreveio de repente como um meteoro, iluminou o que tinha de iluminar, e se apagou bruscamente.
                São Lucas marca com denodo o começo e o fim da curta tarefa do Precursor, como se esses dois extremos tivessem importância notável. No princípio da missão limitou-se a predicar, embora com força extraordinária, “penitência urgente, porque é chegado o tempo”. Os ouvintes sabiam com perfeição o que significava “o Tempo”, que então era objeto de ardentíssimas discussões: as Setenta Semanas de Daniel já estavam cumpridas, a esperança de Israel e das Nações a ponto de realizar-se – era a plenitude dos tempos.
                Aqueles que davam mostras de arrependimento pelas faltas – alguns chegavam a confessá-las em público – João os batizava por imersão, advertindo-lhes de que era um batismo “provisório”, e lhes impunha uma regra simples de conduta, emprestada da moral natural; porque para reconhecer o Messias, era mister dispor-se, retirando as remelas dos olhos interiores. Com isto, o seu trabalho estava feito.
                As imprecações contra o farisaísmo só começaram após a investigação oficial que narra o evangelho de hoje. João sabia perfeitamente quem eram os fariseus – pois era de família sacerdotal – sobretudo se fora essênio, como acreditamos; porém era, em retidão e humildade, como ouro acendrado; e assim como Cristo, não iria começar a sua missão religiosa com um levante contra as autoridades religiosas, pois essa não era a maneira de começar dos santos; embora às vezes seja essa a maneira de acabar, e porque acabam com ele. Veja-se por exemplo o acabamento do filósofo Súrem Kirquegor.
                Quando no remanso solitário de Besch-Zedá apresenta-se uma legação de “sacerdotes e levitas” comissionados de Jerusalém, João os acolhe com simplicidade e sem descortesia; provavelmente até com reverência. O nome dele já corria de boca em boca, com fama de ser um varão extraordinário; as mulheres e alguns entusiastas permitiam-se dizer que era nada menos que “o Messias”. Já não se haviam cumprido os Quinhentos Anos de Daniel? O Cabido de Jerusalém – que em hebraico se chama Sam-Hedrim e em grego Synhedrio – embora propenso a depreciar, não podia passar pela situação em branco; assim mandou que lhe tomassem declaração:
                “- Mas quem diabo és tu?” – o diálogo entre o Batista e os delegados é típico no maior grau –. “João confessou e não negou, e confessou dizendo...” sublinha o evangelista, indicando que se tratava de uma “confissão” ou declaração de consciência, quiçá arriscada. – Eu não sou o Messias, disse São João, lendo-lhes a intenção. – Então, declara quem és: és por acaso Elias? – Não sou Elias. – És o Profeta? – Não... – A última resposta saiu seca.
                Todavia Cristo, que não mente, dirá depois que João era de certo modo Elias, e que era o maior dos Profetas. Por que negou João que era profeta? “Por tédio dessa gente soberba”, dirá Teofilato. “Por humildade”, dirá Crisóstomo Mas a humildade não contende com a verdade, “a humildade é a verdade”, diz Santa Teresa. João não negou que era profeta, mas “o Profeta”... que estava na mente dos interlocutores. Cheios de vaidade e idéias “nacionalistas”, pensavam eles num Messias Guerreiro; e num Precursor Caudilho, naturalmente.
                Esse Profeta que eles imaginavam, um Elias ou Davi, não era João. Não obstante era mais que Davi, com sua humilde mansarda e aspeito áspero e selvagem: era o dedo que apontava para Cristo; neste sentido, metaforicamente, era também Elias.
                Numa comparação capenga, era como se na Argentina, pobre país que tateia no escuro sem saber donde lhe virá a ordem e a salvação, surgisse um Mão Santa capaz de ordenar, sanear e levar o país para frente; e outro homem capaz de abrir o caminho nesta empresa milagrosa; porque as coisas grandes se fazem a dois. Lá então foram os rosistas e os antirrosistas e perguntaram ao Precursor:
                - És tu o Libertador?
- Não sou o Libertador.
- És tu o segundo Dom João Manuel? – ou Dom Bernardino, ad libitum –.
- Não sou o segundo Dom João Manuel.
- És ao menos o Caudilho?
- Não sou o Caudilho.
- Então, quem diabo és?
- Sou um pobre argentino que faz o que pode, nada mais e nada menos do que aquilo que Deus quer dele; e assim mesmo não é lá grandes coisas...
Daí todos os politiqueiros o desprezariam, bem como a Cúria Eclesiástica, e os grandes jornais. Noutro plano, assim respondeu o Batista:
- Quem diabo és tu e o que nos dizes de ti mesmo, para levarmos Respostas para quem nos enviou...” Era a cominação da autoridade. João não a evita:
“- Eu sou A-Voz-Que-Grita-No-Deserto” (em aramaico é uma só palavra, como se disséssemos Wuesterlichrufendestimme em alemão, “esse é o meu nome”...). O mundo naquele tempo, religiosamente falando, era um deserto. João era uma mera voz; pobre e potente voz, uma voz quase sem corpo, um corpo humano feito pura voz.
- Que grita essa voz?
- Grita: Preparai os caminhos do Senhor, como disse Isaías Profeta. Só isso.
Os fariseus o desprezaram: era um dentre os tantos gritadores. Era um fanático da revolução messiânica. Estava na cara que esse aí não iria vencer Pilatos, nem derrubar Herodes e os herodianos. Politicamente, um zero.
- Então, por que diabo batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?
Os judeus tinham uma grande consideração pelo batismo; a mesma que temos nós. Perdoar pecados só pode Deus ou quem o representa; para eles e para nós esse lavacro de água significa a limpeza das crostas morais.
João já batizara a Cristo e tivera a sublime revelação do Espírito sobre ele. “Aquele sobre quem vires descer o Espírito em forma visível, é Esse”. Assim declarou direta e decididamente o Testemunho, o que devia anunciar, aquilo para que nascera, para uns ouvidos tampados e indignos de recebê-lo:
- Eu batizo com água: no meio de vós esta Outro, que vós desconheceis, que batizará com fogo. Esse é o que há de vir depois de mim, e que foi feito antes de mim. Esse é maior do que eu, e em tal medida, que não dou digno nem de lhe amarrar os cordões do calçado”.
Há, aqui sim que o pegamos – pensaram os fariseus; esse é doido. Depreciaram João e não aceitaram o batismo precursório, para prejuízo deles, diz o Evangelho. Mais tarde Cristo os porá em grande aperto, referindo-se justamente ao batismo de João.
Vejamos outro episódio paralelo a esse. No Templo, numa das últimas contendas de Cristo com os hipócritas empedernidos, que exigiam dele o mesmo que de João, ao perguntar “com que autoridade fazes essas coisas”, respondeu mui sabiamente o Senhor:
- Dizei-me antes vós, por favor: o batismo de João era de Deus ou [invenção] dos homens?
Ferraram-se, porque viram que se respondessem era de Deus, reconheciam que Cristo tinha autoridade de verdade; se dissessem era coisa de homens fanáticos, temiam a ira popular. “Não sabemos”, disseram.
- Então tampouco posso dizer-lhes que autoridade tenho eu!
Parece um dos hábeis truques usados pelos “contrapontistas” palestinos; uma “resposta de galego” que, segundo os catalães, respondem perguntando – e é isso mesmo. Mas é mais que isso: é responder implicitamente a pergunta: “Se João Batista tinha autoridade de Deus, eu tenho autoridade de Deus”. Era responder e não responder, que é o que basta aos mal-intencionados.
Como essa autoridade, o Precursor de Cristo começou a partir de então a denunciar os fariseus, e a admoestá-los aos berros, que era a única forma que restava para salvá-los, embora certamente poucos tenha salvo. “Filhos de víboras, raça de serpentes, geração bastarda e adúltera: que pensastes vós? Que poderíeis escapar da ira de Deus que se aproxima?” João denunciou os fariseus como os piores corruptores da religiosidade, denúncia que Jesus Cristo havia de retomar mais tarde, em grande e pujante estilo.
O farisaísmo é a sífilis da religião, e o pior mal que existe no mundo. É o “pecado contra o Espírito Santo”. Tanto é assim que algum Santo Padre predicou que os únicos que vão ao inferno (ou seja, que de fato se condenam) são os fariseus; e isso significava o dito de Cristo: “esse pecado não tem perdão nem nesta vida nem na outra”, proposição que eu não subscreveria, porque não sei em absoluto quem está de fato no Inferno, como pretendia saber Dante Alighieri. Ninguém sabe. Lembro-me de quando estava prestes a ser padre, o pároco da minha aldeia, um piemontês chamado Olessio, me disse: “Aprovo a tua decisão; mas te previno que o inferno está cheio de padres...” Nem ele tampouco sabia de nada, certamente.
Tampouco sei se São João foi o maior santo que existiu, maior que São Francisco, São Paulo e São José. Essa discussão não interessa.
Os jesuítas acreditam que o maior santo é Santo Inácio; os dominicanos, que foi São Domingos; os espanhóis, que foi Santa Teresa; os franceses, Joana d’Arco; e num povoado andaluz que se chama Recovo da Rainha, cujo patrono é São Pantaleão, acredita-se que o maior santo da corte celestial é ele:

Glorioso São Pantaleão
Eis um santo de corpo inteiro
E não como outros santinhos
Que nem se vêem pelo chão...

                O Seu Polinar acreditava de boa-fé, como narra Pereda, que os maiores santos do mundo, depois de Nossa Senhora, eram os santos Mártires de Santander Emerêncio e Torcato. Não interessa saber quem foi o maior dos santos – todos são os maiores, cada um em seu nicho, como todas as obras-primas –, mas chegar a contar-se entre eles, ainda que seja como o mais pequeno.

                João Batista foi o maior santo do Antigo Testamento; mas o menor santo do Novo Testamento é maior que ele, disse Cristo, se quiserem saber. E com isso já chega.