sexta-feira, fevereiro 24, 2012

F. R. Leavis - Crítica literária e filosofia

Devo agradecer ao Dr. Wellek as pertinentes críticas ao meu trabalho, e acima de tudo à citação tão amiudada dum assunto apenas aludido num ou noutro comentador, assunto de que estou cônscio mais do que ninguém; avalio tal reconhecimento como parte essencial (pouco importando a qualidade da minha atuação) da apreciação da minha atividade de crítico literário. Aponta o Dr. Wellek com justiça que, nos meus trabalhos sobre poesia inglesa, fiz inúmeras suposições que não tratei de defender ou declarar. “Eu desejaria”, diz ele, “que o Sr. fosse mais explícito em suas afirmações e as defendesse de modo ordenado”. Após me oferecer um sumário de tais afirmações, pede-me ele que defenda a posição em abstrato e me torne mais consciente das formidáveis escolhas éticas, filosóficas e, obviamente, estéticas envolvidas.

Por minha vez, pediria ao Dr. Wellek para acreditar que, se não empreendi a defesa que tanto almeja, não foi por inconsciência: eu sabia que estava fazendo suposições (mesmo que as não soubesse declarar para mim como ele mesmo faz; de fato, ainda não sei), mas nem por isso estava menos atento ao que elas implicam. Gostaria de que ele pudesse dizer que compartilha comigo a maioria dessas suposições. Acrescenta, porém, que teria “sérias dúvidas se as listasse sem elaborar uma defesa explícita ou uma teoria nessa defesa”. Acredito que isso se deve ao fato de o Dr. Wellek ser um filósofo. Em primeiro lugar lhe respondo que eu de mim não sou filósofo e duvido que se preciso fosse pudesse elaborar uma teoria que lhe satisfizesse. Todavia não uso da modéstia como broquel. Se digo de tão boa mente que não sou filósofo, é porque sinto que posso permitir-me ser modesto e também porque tenho uma pretensão – a de ser crítico literário. Acrescentaria que, ainda que me sentisse qualificado para satisfazer o Dr. Wellek em seu próprio campo, teria desistido de tentá-lo naquele livro.

A mim parece que a crítica literária e a filosofia são disciplinas mui diferentes; pelo menos, penso que – por enquanto, em minha inocência – devem ser. (Espero que os trabalhos filosóficos geralmente sejam representantes dalguma disciplina séria, pois estou quase certo de que os trabalhos de crítica literária não representam nenhuma). Nisto não quero sugerir que o crítico literário enquanto tal não é o mais indicado para um treinamento filosófico, mas se fosse acredito que sua vantagem manifestar-se-ia de certa forma na clara compreensão de que crítica literária não é filosofia. Precipitei-me um pouco ao dizer “as duas disciplinas...”, a frase pode sugerir uma simplificação exagerada: sem dúvida é possível indicar vários tipos de escritos de valor que representam os vários tipos de aliança entre o crítico literário e o filósofo, mas não estou muito seguro da necessidade da existência duma crítica literária em senso estrito, nem da defesa da crítica literária como disciplina distinta e independente.

A dificuldade de quem quer que verse sobre uma disciplina munido com os hábitos doutra disciplina – a dificuldade de compor uma aliança de trabalho entre as duas – me parece que está ilustrada na maneira em que o Dr. Wellek se refere ao tema da crítica literária: “Permita-me o Sr, diz ele, delinear o seu poeta ideal, a ‘norma’ com que mede cada um dos poetas...” A mim parece significante o deslize que ele comete ao assentar as coisas nestes termos, pois imagino que, se for desafiado, concorde que esteja sugerindo uma idéia falsa sobre o método da crítica. Seja como for, dá-me uma desculpa para tecer, à laia de lembrete, algumas observações elementares sobre tal método.

Entendo que o crítico de poesia é o leitor completo: o crítico ideal é o leitor ideal. Exige a poesia e a filosofia leituras muito diferenciadas. Não me seria fácil definir a contento a diferença entre ambas, mas o Dr. Wellek sabe qual seja; deveria ele ao menos dar uma descrição suficiente dela, assim como faço eu. Filosofia, dissemos, é “abstrata” (atendo assim o Dr. Wellek, que me pediu que defendesse minha posição “mais em abstrato”), e a poesia “concreta”. As palavras da poesia nos convidam não a “pensar sobre algo” e julgar, mas antes a “sentir em algo” ou “tornar-se algo” – ou seja, a perceber a experiência complexa descrita em palavras. Elas não exigem tão-somente uma resposta de corpo inteiro, mas a mais completa das correspondências – uma correspondência incompatível com a interpretação judicativa e padronizada sugerida na frase do Dr. Wellek: “a ‘norma’ com que mede cada um dos poetas.”

Bem se preocupa o crítico, ou leitor de poesia, com o valor do texto poético – mas imaginá-lo como o portador duma norma-padrão, a partir da qual se mede o objeto desde fora, é deturpar o processo. Antes do mais, a função do crítico é meditar, com a maior sensibilidade e completude possíveis, tudo quanto lhe prenda a atenção – e essa meditação implica certa valorização. Ao fio e à medida que amadureça a experiência do novo objeto, de modo implícito ou explícito pergunta-se ele a si: “Donde isso veio? Que relação tem com isso ou aquilo? Quão importante parece ser?” Dentro de uma dada ordem, esse objeto se “encaixa” com outros objetos similares a ele e que também estão “encaixados”; verifica-se a pertinência dos objetos entre si por meio da comparação de uns com outros, e não a partir dum sistema teórico ou fundamentado em considerações abstratas.

Decerto (como já admiti) é possível que um treinamento filosófico fizesse – ou faria, ao menos em idéia – do crítico alguém mais seguro e penetrante, quer na percepção de significados e relações quer nos juízos de valor. Note-se porém que o progresso que almejamos concerne ao crítico – ao crítico enquanto tal – e para que o logremos é mister que logremos a consecução dum ideal dificultoso. Daí não seria demasia preocupar-se com a atenção: ao estragar uma disciplina com os hábitos doutra, a atenção poderia ficar com o fio embotado, perder o corte e transviar-se do caminho. O objetivo da crítica literária é alcançar certa plenitude de resposta e observar sobretudo a relevância do desdobramento da resposta na forma de comentário; deve o crítico se aquartelar contra a abstração indevida do que está bem a sua frente e contra qualquer generalização – da obra ou por causa da obra – prematura ou irrelevante. A preocupação principal do critico é tomar posse dum dado poema (por assim dizer) na sua integridade concreta; a preocupação constante, nunca perder a completude da posse, antes incrementá-la. Ele, ao fazer julgamentos de valor (e julgamentos de importância) de modo explícito ou implícito, fá-los sem completude de posse mas com plenitude de resposta; não se pergunta: “Como estes critérios concordam com os caracteres da bondade em poesia?”; seu propósito é tornar totalmente conciente e articulado o sentido imediato do valor distintivo do poema.

Claro, o processo de “tornar totalmente consciente e articulado” é um processo de exposição e organização, e o “sentido imediato de valor” deve, ao passo que o crítico amadurece com a experiência, representar uma estabilidade crescente de organização (o busilis é a combinação entre estabilidade e crescimento). Com o decurso dos testes e das verificações e com o acúmulo de experiência, quais hão de ser minhas preferências constantes, os traços permanentes das minhas respostas? Qual estrutura há de se declarar a mim no campo da poesia que me é familiar? Qual de meus mapas ou levantamentos da poesia inglesa representa a maior consistência e coerência de resposta mais abrangente?

Com tal consistência e coerência (à medida que eu as atinja), decerto haveria de ser possível eleger princípios e formular normas abstratas. A primeira crítica do Dr. Wellek é (na acepção mais fraca que possa ter) a de que não cuidei de eleger princípios nem normas; que ao tomar a empresa de escrever o livro não empreendera escrever outro, em que discorreria mais a miúdo as implicações teóricas do primeiro (pois ainda que houvesse apenas um livro, era o assunto matéria para dois tomos). Novamente repliquei com modéstia; em todo caso, não confio na minha capacidade de satisfazer o Dr. Wellek; por isso de novo afirmo: não penso que a modéstia esteja apostada contra minhas qualificações para escrever um livro. Nutria esperanças de exercer algum poder de convencimento sobre outros leitores de poesia – leitores de poesia enquanto tais; ao lhes revelar minha própria “coerência de respostas”, manifesta numa crítica que se conservasse mais que possível próxima às realidades concretas, nutria esperanças de fazê-los assentir (decerto, exibindo-lhes minhas credenciais de crítico) de que o mapa e a ordem essencial da poesia inglesa vista em conjunto assemelhar-se-iam à experiência dos leitores. Idealmente talvez eu tivesse de estar habilitado (repito, todavia, que não hei de expor minha posição nos termos a mim prescritos pelo Dr. Wellek) a rematar o trabalho com uma teoria, mas estou certo de que o trabalho que empreendi é uma pré-condição à validade de qualquer teoria que valesse a pena.

Se ainda insistir o Dr. Wellek sobre o que é do meu dever, não obstante ele decline a elaboração da filosofia implícita nas minhas asserções, para que a gosto ou a contragosto seja eu mais explícito acerca delas – minha única réplica possível é a de que me embebi da explicitude tanto quanto me era possível, e que não antevejo qualquer proveito no gênero de explicitude exigida (apesar de que antevejo o que se perde com ela). Algum dos meus leitores desenganar-se-ia dos critérios essenciais do meu livro se eu registrasse nele proposições tais como: “A poesia tem uma relação íntima com a realidade; ela deve possuir uma compreensão inabalável do real e do objeto, e conservar laços estreitos com a vida; não convém extraí-la diretamente da vida ordinária, entretanto precisa de certa humanidade...” Se evitei, como de fato evitei, tais generalizações, não foi por timidez, mas antes me pareciam elas muito simplórias para que tivessem utilidade. Pensava cá comigo que houvesse granjeado algo melhor.

Esforçara-me por trabalhar em termos de julgamentos concretos e análises particulares: “É isto, não é? e possui tal relação com aquilo; é de tal espécie, não achas? e amolda-se melhor que aquilo”, etc. Se tivesse eu de generalizar, minha generalização em vistas à relação entre poesia e “vivência ordinária e direita” ou “a vida real” haveria de transcorrer da seguinte maneira, de preferência àquela que sugeriu o Dr. Wellek: tradições ou convenções ou hábitos preponderantes, que tendem a pervasar a poesia em geral a partir da vivência ordinária e direta e do real, ou que dificultam ao poeta levar até ao interior da poesia seus mais circunspectos interesses, qual um adulto que vive o seu tempo – têm um efeito desvitalizante. Não consigo vislumbrar como acrescentaria algo à clareza, à persuação ou à utilidade do meu livro se enunciasse tal proposição (ou discutisse-a em teoria). Mais uma vez, não afirmei que a linguagem poética “não deve lisonjear a voz poética, não deve ser meramente melíflua’, etc. Ilustrei de modo concreto, por comparação e análise, as qualidades que aquelas frases indicavam, apontei para certas limitações que lhe acompanhavam, e tentei demonstrar nos termos da moderna história da poesia que haveria sérios prejuízos em perfilhar-se numa tradição que insistisse na essencialidade de tais qualidades poéticas.

De fato, embora esteja mui cônscio das deficiências do meu trabalho, sinto que alcancei com meus próprios métodos uma precisão tal que resumi-los seria duma canhestrice e inadequação intoleráveis. Não hei de, mais uma vez, argumentar em termos gerais que dispensem “o amor à emoção, a inspiração, a emotividade pura e irrestrita e o deleite na dor e na alegria”, mas com os intrumentos da escolha, da disposição e da análise dos exemplos concretos confiro àquelas frases (quer dizer, até que tenha logrado meus propósitos) uma precisão significativa impossível de obter por qualquer outra via. Existe, assim espero, uma chance de que talvez por esta senda eu tenha contribuido para o avanço da teoria, mesmo que não haja teorizado. Bem sei que a força e a precisão a que aspirei têm seus limites, mas acredito que qualquer aproximação implica limitações e destarte, ao reconhecê-las e lidar com elas, o crítico pode alentar a esperança de que fez alguma coisa.

O Dr. Wellek ainda levanta mais uma crítica contra mim: é que a minha falta de interesse pela filosofia me torna um sujeito injusto ante os poetas do período romântico. Espero que ele me perdoe se eu disser que tal demonstração para mim possui mormente o efeito de demonstrar o quão difícil é ser ao mesmo tempo filósofo e crítico literário. Segundo ele, o alvo positivo das suas observações se resume em “mostrar que a visão romântica do mundo... esteia e pervarde a poesia de Blake, Wordsworth e Shelley, elucida as muitas dificuldades aparentes e é, enfim, uma visão de mundo que é possível discutir. – ‘Uma visão romântica do mundo’, uma visão comum a Blake, Wordsworth, Shelley e outros mais – sim, já ouvi falar disso; mas em que interessa ao crítico literário? Para o crítico e para o leitor – cujo interesse principal está na poesia – estes três poetas são tão radicalmente diferentes um do outro, ao longe ou ao perto, que a oferta de assimilá-los a todos numa filosofia em comum só sugere a irrelevância da abordagem filosósica.

Minha atitude para com Blake o Dr. Wellek, assim o penso, não entendeu. Decerto ele interpretou mal meu veredito acerca dum poema em particular, a introdução a Songs of Experience. A comparação com Ash-Wednesday se inseria em certo contexto no capítulo em que se apunha a nota que o Dr. Wellek contestou, mas longe de argumentar que o poema de Blake “é tão ambíguo que não demonstra nenhum ‘sentido certo’”, eu consignei naquela nota a intenção explícita de demonstrar a que alturas Blake, com a sua técnica original e extraordinária, logra algo da extraordinária precisão de Ash-Wednesday. E de modo geral, quando se trata de Blake, minha intenção vai na contramão do desprezo. Deveras a minha visão do poema me parece mais favorável que a que o Dr. Wellek sugeriu, o qual afirma: “De fato acredito que o poema só tem um sentido possível, que se pode averigüar com o estudo do conjunto da filosofia simbólica de Blake”. Eu de mim, um crítico literário, estou interessado em Blake porque é possível afirmar com referência a alguns de seus trabalhos que a sua filosofia simbolica é uma coisa e a sua poesia outra. Sei mesmo que até na sua melhor poesia aparece o simbolismo – e eu estava atento ao simbolismo do poema em análise; mas julgo deva evitar uma longa discussão que, a partir do ponto em que me propunha discuti-lo, parece acessória.

Hei de dizer agora, não obstante, que quando na poesia de Blake os símbolos funcionam poeticamente têm eles, acredito, uma vida independente da sua “filosofia simbólica”: por ex., “Earth”, “starry pole”, “dewy grass” e “wat’ry shore”, na introdução de Songs of Experience, parece-me dum evidente poder evocativo. A sabedoria segundo a arbitrária designação de valores simbólicos de Blake talvez ajude amiúde a explicar porque tenha ele escrito o que escrevera aqui, lá ou em qualquer lugar; realmente não acredito que tal sistema haja mudado em bom poema o que antes era falhado; Hear the voice of the Bard!, penso, está sem dúvida entre os bons. A avaliação do Dr. Wellek acerca do tema parece justificar a minha afirmação de que eu de boa mente poderia discutir o poema sem mencionar símbolos; só não consigo enxergar de que modo a sua avaliação tenderia a invalidar a minha. De fato não enxergo porque haveria de supô-lo, ou antes, enxergo sim, pois ele só admite que o que estamos dilucidando é um texto de filosofia simbólica – assim escrito e assim interpretado.

A convicção de sua paráfrase me fez abrir os olhos. É uma convicção de filósofo – a convicção de quem no dobrado vigor do treinamento filosófico e do conhecimento do sistema de Blake ignora o trabalho poético. Dir-se-ia que a principal diferença entre o filósofo e o poeta seria a de que ao poeta se permite, no interesse do ritmo e de meros quesitos materiais desta casta, certa frouxidão e uma largueza de expressão, cujo único motivo é o ritmo, pois o sentido está claríssimo. – Sim, mui claro, se se deriva do “conjunto da filosofia simbólica de Blake” a convicção de realizar essas miúdas operações. Mas eu de mim acredito que neste poema Blake está usando as palavras com uma precisão bastante incomum – a precião dum poeta que poetiza.

Eis a precisão que o Dr. Wellek ignora em sua paráfrase e objeta às minhas observações:

Em que pese a queda o Homem ainda há de controlar o universo (“the starry pole”)... E não é possível que o “that” seguinte se refira a Deus mas à alma ou ao Homem, que após o renascimento há de controlar o “starry pole”. Não é mister evocar Lúcifer.

Decerto seja lícito afirmar que o “Homem” capaz de controlar o universo tomou para si algo de Deus e quiçá, assim sugiro esteado na sintaxe de Blake – na sua peculiar organização do sentido –, não seja tão distinto de Deus quanto o exija a noção de “sentido claro” e de “um só sentido possível” do Dr. Wellek. E se a “fallen, fallen light” não leva o Dr. Wellek ao complexo de associações com Lúcifer –

                            from morn
To noon he fell, from noon to dewy eve,
A summer’s day, and with the setting sun,
Dropt from the zenith like a falling star
On Lemnos, the Aegean isle

– então penso que estamos diante dum exemplo de filósofo que desabilita o crítico, dum exemplo de abordagem filosófica que induz o leitor de poesia a uma severa impercepiência e insensibilidade. Blake não está se referindo às idéias abstratas de Homem e renascimento; ele trabalha no concreto e evoca pelo uso de associações assaz distantes do prosaísmo (era aqui onde eu queria chegar) o senso dum estado de desolação que é por contraste mais atroz num estado imaginário de contentamento em que o Homem, na posse total e harmoniosa de suas potencialidades, divinar-se-ia, qual Lúcifer antes da queda e do pecado (Milton, lembremos, era da parcialidade do Demônio sem se perceber disso).

Em Blake as estrelas cintilantes sempre significam a luz da Razão e a orla aquosa o limite da matéria ou do Tempo e Espaço. Neste poema Blake obviou a identificação entre a Terra e o Homem com uma ilustração – desenhada em especial para o poema – que representa uma figura masculina inclinada sobre a “watery shore” e, tendo o “starry floor” como pano de fundo, ergue a cabeça dolorosamente.

Despertaria a atenção do Dr. Wellek para o poema Earth’s Answer, que vem logo após ao que está em discussão. Começa assim:

Earth raised up her head
From the darkness dread and drear.
Her light fled,
Stony dread!
And her locks cover’d with grey despair.
Prison’d on wat’ry shore.
Starry Jealousy does keep my den:
Cold and hoar,
Weeping o’er,
I hear the father of the ancient men.

Citei as estâncias de modo a sugerir a ele que a tradução clara e convícta dos símbolos não vai funcionar (não estou afirmando que “Reason” e “Jealousy” não poderiam se reconciliar); mesmo um argumento que se apoie numa das ilustrações de Blake não teria o poder coercitivo que o Dr. Wellek presume.

Mais uma vez, quando se trata de Wordsworth o Dr. Wellek parece não entender a minha intenção. “Bem ao contrário da sua conclução (p. 164)”, diz ele, “eu ainda conservaria a coerência, a unidade e a sutiliza da concepção de Wordsworth”. – Pois bem, eu li e escutei comentários à concepção de Wordsworth, sobre que decerto já correu muita tinta, mas o meu negócio é com a poesia de Wordsworth; nunca propus, e não hei de propor agora, que o considerem um pensador filosófico. Quando olho a p. 164 do meu livro percebo que a única passagem a que o Dr. Wellek poderia referir-se é esta: “Seu filosofar (no sentido dos estudos e usos de Leslie Poles Hartley) não tem o valor que o autor lhe confere; antes é a expressão da intensidade da sua seriedade moral e um modo daquela essencial disciplina da contemplação que dá consistência e estabilidade a sua experiência”. Ao dizer o filosofar de Wordsworth não tem o valor que o autor lhe confere estava eu indicando que a sua doutrina não tem relação, como supunha o autor, com o oficio de poeta – e a minha análise ainda me parece conclusiva. O Dr. Wellek só discute em termos gerais e para si mesmo não conclusivos: “Não consigo enxergar porque não se poderia parafrasear o argumento do Canto II do Prelude”. – Pode sim, garanto de bom grado, ser mui facilmente parafraseado se se lograr a reprodução em termos gerais do tipo de pensamento envolvido, bem como a aceitação do argumento de que o poeta expressa frouxamente o que os filósofos formulam precisamente. Se o Dr. Wellek chega a levar a sério e se contenta em prosa com a frouxidão das afirmações e argumentos filosóficos de Wordsworth em verso – tem ele um critério muito menos rigoroso para a filosofia enquanto filosofia que eu para a poesia enquanto poesia. Tivesse Wordsworth uma filosofia, só o poeta importaria: lembremos de que até a força do “pensamento” que ele nos dá está na poesia; na posição de crítico acreditamos haver encontrado algo melhor a fazer do que dar precisão e completude ao seu argumento abstrato.

Não auguro que serviço o Dr. Wellek presta a si ou à filosofia ao aduzir o cap. V do livro Science and the Modern World: que um eminente matemático, lógico e filósofo especulativo como o professor Whitehead se mostre interessado em poesia – é louvável, mas sempre achei que a qualidade das suas incursões em poesia correspondia à que se esperaria duma autoridade com tais qualificações. Acrescentarei, com certa ousadia e a desoras, que as manifestações do professor Whitehead referidas pelo Dr. Wellek se me afiguram má poesia; decerto no contexto próprio tornam-se em algo diferente, mas não posso conceber o porquê deveriam elas afetar a visão da crítica literária acerca de Wordsworth e Shelley.

Quando o Dr. Wellek analisa Shelley ele sequer intenta empreender um esforço sério a fim de promover contra mim a sua causa: a fraqueza da sua posição resta francamente exposta. Está tão interessado em filosofia que não presta real atenção às minhas análises sobre poesia. Vejam-se, por ex., as interpretações sugeridas para alguns pontos da Ode to the West Wind; não é tão-somente que sejam, ao menos para mim, inaceitáveis: fossem elas doutra casta, não fariam diferença substancial à minha análise cuidosa e elaborada do modo de funcionamento da poesia de Shelley. E porque presumiria o Dr. Wellek que estivesse defendendo Shelley ao argüir que “os galhos trançados do Paraíso e Oceano talvez aludam à ‘antiga concepção mística das árvores do Paraíso e da Terra entrelaçadas’”. Isso não significa que estou atacando a Ode to the West Wind – eu tão-só ilustro a partir dela o trabalho característico à poesia de Shelley – nem que estou atacando Mont Blanc. Quando diz o Dr. Wellek: “Não consigo enxergar o menor sinal de confusão no parágrafo inicial de Mont Blanc”, a mim parece que deixou escapar uma depreciação de Shelley – depreciação explicável na sugestão insinuada na sentença posterior àquela: “Ele declara uma proposta epistemlógica claríssima”. Já para mim o parágrafo inicial de Mont Blanc evoca com grande vivacidade a excitação dum estado de espanto e admiração. Um patente elemento wordswothiano no poema sugere a comparação com Wordsworth e, com o meu respeito aos dois poetas, que me impede de declarar propostas epistemológicas ou vindicar concepções gerais, mas antes a reagir a propósito diante de similares casos concretos – a comparação que de fato realizei me parece justificada. Quando me diz o Dr. Wellek que a passagem de Prelude citada por mim “não tem filosoficamente nenhuma ligação com a introdução de Mont Blanc de Shelley”, não faz ele senão confirmar a minha convicção de que filosofia e crítica literária são coisas mui distintas.

Como descrevi certos hábitos de Shelley teria de indicar que eles levam consigo uma tendência para certos vícios, e ao diagnosticar tais vícios o crítico literário de repente se vê no papel de moralista. Eu conduzo o argumento com muito tato e nos termos duma análise particular, mas não vejo no Dr. Wellek nenhum esforço sério a fim de lidar com isso. Não vejo porque deveria ele pensar que a sua interpretação alternativa para a terceira estância de When the lamp is shattered tornaria o poema menos ruim nalgum dos pontos em que julguei-o mau. Mas o que de fato vejo é que – não leio como crítico literário – ele falha ao responder com a sua sensibilidade à peculiaridade da virtude de Shelley, à voz pessoal da última estância, e destarte falha em compreender a força do meu julgamento radical sobre o poema (Não posso recaptular o argumento inteiro aqui).

Em verdade, é claro, a atenção do Dr. Wellek está em qualquer lugar exceto na poesia de Shelley e na minha análise. “Estas notas”, e aqui ele desliza, “foram tomadas apenas a fim de estear o meu ponto principal, de que a filosofia de Shelley – penso – é espantosa e perfeitamente unificada e coesa”. – Não considero do meu dever debater essa proposição, e demais o Dr. Wellek não me deu ensanchas para que eu julgasse a poesia de Shelley como algo diferente do que julguei que fosse. Se em réplica à minha acusação de que a poesia de Shelley é repetitiva, vaporosa, ensimesmada até à monotonia, apostada no patetismo e por isso, para não falar muito, tediosa – diz-me o Dr. Wellek que Shelley era um idealista, só me resta imaginar se alguém já cunhou uma hipótese desfavorável sobre o idealismo. Mais uma vez, para quem aborrece a caracterísica vaporosidade de Shelley não é consolo ter de ouvir isto:

“Em Shelley as esferas dos diferentes sentidos equivalem-se umas às outras na fusão de suas rápidas transições e emoções, desde a dor e o sofrimento até a alegria. Shelley gostaria também de que nós ignorássemos, ou antes, transcendêssemos os limites da individualidade entre as pessoas, a exemplo da superação – que a filosofia hindu ou Schopenhauer nos recomenda – da maldição ou do fardo do principium individuationis.”

Claro que, de acordo com tal filosofia, a poesia talvez não passe de engano ou ilusão – algo a ser deixado para trás. Mas o Dr. Wellek a custo objetará que, não obstante a antipatia do meu comentário, tenho sido injusto com a poesia de Shelley.

A deslealdade que ele cometeu contra os poetas, posto que manifeste interesse na filosofia deles – é claro –, em geral diz respeito a mim. Conclui assim a nota:

“Seu livro... vislumbra duma nova maneira o tema da “crença” do poeta e do quanto a simpatia por tal crença e a compreensão dela é necessária para a apreciação da poesia. Este é um tema que se tem largamente debatido, como o Sr. bem sabe, e não me agradaria – esteado no seu livro – resolvê-lo à pressa.”

Limitar-me-ei a comentar, sem querer contestar a justiça da conclusão, que o Dr. Wellek me parece admitir muito ao de leve que a “crença” essencial ao poeta é aquela que com maior facilidade se consegue extrair dos seus trabalhos de filósofo.