segunda-feira, julho 04, 2011

Louis Lavelle - Corpo e Intimidade


A presença do corpo nos permite penetrar no mistério da intimidade, pois está ele – o corpo –  contido no universo de que faz parte; parece esta parte do universo a única a nos pertencer propriamente, pois é nela que reinamos e nos conservamos em nossa natureza original e nossa existência. Não é preciso admirar-se de que alguém que confunda o ser com o dado não enxergue distinções entre o eu e o corpo, mas é preciso que as enxergue. Se o empirismo é posição insustentável, deve-se a que não existe dado sem ato que o dê. Ora este ato – a partir do momento em que não me limito a executá-lo, mas que sinta que executei-o eu – parece que constitui a essência do eu, bem mais em profundidade que o corpo. Mais ainda, é o corpo doravante relegado ao estado de coisa, em que pese que tal coisa conserva uma relação necessária com o ato que a reduz a esse estado; destarte, hei de fazer dele uma representação, que só tem sentido para mim. Assim, ao passo que o meu corpo me permita inscrever-me no universo, o meu pensamento – sem o qual o meu corpo não existiria como dado – inscreve nele este dado e todos os demais. Neste pensamento há uma infinidade que a ele permite reconhecer-se de imediato como adequado ao Tudo, mas para que ele seja nosso, força é conter o Todo tão-somente em potência, i. e., que se depare sempre com dados novos que, à sua ausência, nada seriam e que se atualize a si a pouco e pouco.



(Versão inédita de De l’Acte, texto datilografado, sem data, p. 239)