sexta-feira, maio 13, 2011

Louis Veuillot - O Trabalho do Estilo

Com adaptações, bem vereis.

Não é questão de multiplicar as obras, cuja prolificidade depende da natureza da alma e em particular dos temas sobre que pretendemos versar. Afirmo que, em tudo quanto empreendemos, temos de obrar o nosso melhor, dar aos escritos toda a solidez e até a coerência possível, a fim de que a formosura do vaso, se for do caso, torne aceitável a beberagem cuja virtude é ademais feita de amargura. Quais os meios para que se alcance esta igualdade? Em primeiro lugar, entregar-nos à vocação, não em razão de seu encanto, mas antes porque vem ela de Deus: o trabalho para que nos impele é o verdadeiro trabalho que de nós espera. Se a isto nos chama Deus, sejamos escritores e não desejemos nada além; sacrifiquemo-nos, se for necessário, para que não sejamos nada além. No trabalho das letras, recebemos um como sacerdócio; não o usemos para acréscimo da fortuna, ou inda para a satisfação da vaidade. Providenciará Deus que vivamos dum trabalho que lhe consagramos, e a vida assim sustentada há de ser daquelas bem ocupadas. Recorda-nos aqui a sabedoria humana de que a quem caiba o dom do conselho mui raramente possui o dom da ação. Nós nos imiscuiremos com suficiência nos assuntos mundanos, se nos limitarmos a dar aos que neles labutam conselhos desinteressados, que talvez aproveitarão melhor que nós; a nossa palavra será de maior autoridade quando o público notar que não a empregamos como instrumento de ambições mesquinhas.

Em segundo lugar, estudemos incessantemente. Não acreditemos de pronto e ao primeiro golpe numa imaginação que parece inesgotável. No início da carreira, é comum pensar que um século não bastaria para despachar todas as invenções, as idéias e os maravilhosos discursos que sentimos em germe; mas já na segunda obra percebemos a repetição da primeira, e a imaginação inexaurível afinal era só imaginação. A terra fecundíssima, se não é arada, amanhada e regada de suores contínuos, só produz sarmentos e rebentos loucos e vãos: mostruário pomposo que mal dissimula uma esterilidade real e logo irremediável. Estudemos: somos nós o campo e o estudo é a relha sulcadora, a semente fecundante, a chuva revigorante e sol madurador, que fortifica o existente, renova o languescente e cria o inexistente.

Busquemos o estilo: apego-me a tal pensamento, pois que é essencial. Seja-nos imposta a modéstia e o estudo (i. e., neste caso, a probidade): sem sombra ou senão de dúvida, aquiescerá a consciência cristã; mas alguns jovens crentes tem por quase nada escrever com maior ou menor correção, concordância ou destreza. Eu de mim afianço que, depois da fé e da instrução, nada há de mais necessário: destarte seremos lidos e conquistaremos a atenção e a estima do mundo; eis o êxito que é força conseguir, mas não a nós (não praz a Deus que o diligenciemos para nós!) antes às verdades que Deus nos dá a proclamar e conservar; antes ao mundo, que há de amar as verdades da caridade e refugiar-se ao seu divino regaço.

Demais, a arte sublime que construiu palácios imorredouros do pensamento humano – o Estilo – não nos é, católicos franceses [e brasileiros, por que não?], uma glória familiar, que é dever honrar? Considero nossa história literária e percebo as letras nacionais no que têm elas de magnificente e elevado: o serem filhas da Igreja.

Vós, a quem toca em particular a vocação do ensino e da escrita, conjuro-vos a restituir à linguagem a velha ortodoxia e a dignidade antiga. Lede e estudai os escritores do séc. XVII e saturai-vos deles – não para que se apresentem como imitadores servis, mas legítimos continuadores. Além disso, do proveito desse estudo gozareis excelentes prazeres espirituais. Prometo verdadeiros gozos aos que se dediquem aos livros dos escritores religiosos, que de boa mente chamaria de as obras inéditas desses homens de escol, pois quem se inquieta hoje de saber o que escrevia Bossuet, Fénelon, Bordaloue, Massillon, [Antônio Vieira, Manuel Bernardes, Luís de Souza, Antônio das Chagas] e em geral os grandes mestres, tão pouco freqüentados, da literatura cristã?

Volto ao pensamento que me domina, e repito que devemos, meus irmãos, já agora nos dedicar – se quisermos que nos escutem, e por muito tempo – à formação dum estilo nobre que versará mui dignamente de Deus e do homem, [...]. Não prometo tornar-nos grandes escritores: na arte há um grau de elevação, a que nem o estudo, nem a vontade mais assídua, nem os desforços mais constantes seriam capazes de alçar aquele a quem Deus não destina ou outorga certas qualidades, raras na história do espírito humano; mas à força de trabalho chegaremos a ser um escritor puro, claro, correto e até elegante; manobramos uma linguagem que não se enverga ante o pensamento excelso, nem deixa estropiada nenhuma idéia. Quando, com tal instrumento em mãos, cantamos a verdade de Deus, deparamos tons escutadiços a todo ouvido humano, o que enciúma os gênios. Concedo que os escritores do séc. XVII, religioso ou profano, não eram todos tais como Bossuet, Fenelon, Racine, Pascal, [Vieira, Bernarde, Sousa, Gregório], talentos fora de linha, cujas faculdades superiores rutilavam, se é licito dizer, a cada palavra. Mas em todo lugar, com toda gente, até entre os que não eram da profissão, havia ordem, clareza, elegância, escolha e nobreza na expressão! E que talento, diríamos hoje em dia quase milagroso, de precisar concisamente os pensamentos mais profundos, de sublinhar na dicção as coisas mais comezinhas! Lede em voz alta uma página escrita outrora, e após lede uma das que se escrevem agora (e destas escolhei a mais aquilatada), e aí compreendereis, melhor do que se poderia exprimir, a decadência assustadora do pensamento e da arte.