sábado, fevereiro 12, 2011

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte IX)

Capítulo IX: Não se deve julgar ninguém
 1. Aconteceu a um irmão do monastério do abade Elias sucumbir à tentação; posto porta afora, partiu em direção à montanha para se encontrar com o abade Antão, e lá ficou um tempo, até Antão o remeter ao monastério donde viera. Mas tão logo o viram os irmãos, expulsaram-no novamente. Retornou o irmão até onde o abade Antão e lhe disse: “Pai, não me quiseram receber”. Transmitiu-lhes este recado o ancião: “Certa vez, naufragou um navio no mar e perdeu a carga. Às duras penas conseguiu aportar, mas vós quereis submergir a nave que chegou sã e salva à margem.” Quando souberam que outro não era senão o abade santo que lhes devolvia o faltoso, receberam-no sem pestanejar. (Antão, 21).
2. Pecara um irmão, e por isso ordenara-lhe o padre saísse da igreja. Contudo, levantou-se o abade Bessarião e saiu com o irmão dizendo: “Também devo eu sair, que sou pecador.” (Bessarião);
3. Certo dia foi o abade Isaque de Tebas a um cenóbio. Ao testemunhar a falta dum irmão, julgou-o. Ao retornar ao deserto, apareceu-lhe um anjo do Senhor defronte a porta da cela e lhe disse: “Não hei de deixar-te entrar!” Perguntou-lhe o ancião a razão daquilo, no que lhe ripostou o anjo: “Enviou-me Deus a perguntar-te: ¿Para onde me ordenas tu mandar aquele irmão culpado que julgaste?” Num instante Isaque fez uma metania e disse: “Eu pequei, perdoai-me ! » E lhe disse o anjo: “Ergue-te, Deus te perdoou, mas guarda-te doravante de nunca mais julgar ninguém, sem que Deus o faça antes.” (Isaque de Tebas).
4. Certo dia cometeu uma falta um irmão da Cítia. Os anciãos em conselho mandaram se pedisse a presença do abade Moisés, que se recusou a ir. O mensageiro encaregou a outro que lhe dissesse: “Vem, que te esperam os irmãos.” Ergueu-se o abade, pegou dum saco furado, encheu-o de areia e pô-lo sobre os ombros, e com ele foi até onde os irmãos. Saindo-lhe ao encontro, perguntaram os irmãos: “¿Que é isto, Pai?”, ao que lhes respondeu o ancião: “Meu pecados escorrem às minhas costas, e não nos vejo eu; ¿e tenho eu agora de julgar os pecados alheios?” Ao escutarem aquela palavra conceituosa, já não tocaram mais no assunto os irmãos e perdoaram o culpado. (Moisés, 2).
5. Perguntou o abade José ao abade Pastor o seguinte: “Dize-me: ¿como alguém se torna monge?” Respondeu-lhe o ancião: “Se quiseres encontrar repouso neste e noutro mundo, em todas as ocasiões levanta-te esta questão: ‘¿Quem sou eu?’ e não julgues ninguém.” (José de Panefo, 2).
6. Outro irmão interrogou o abade Pastor lhe dizendo: “Se vejo a falta do meu irmão, ¿faço bem em escondê-la?” Ripostou-lhe o ancião: “Cada vez que escondemos o pecado do irmão, esconde Deus o nosso; e cada vez que denunciamos as faltas dos irmãos, denuncia Deus as nossas igualmente.” (Poemão, 64)
7. Certo dia no cenóbio cometeu um irmão uma falta. Naqueles páramos vivia um anacoreta, que de há muito estava em recolhimento. Foi-lhe visitar o abade do monastério, para falar do irmão manchado de culpa. Disse o anacoreta: “Expulsa-o”. Expulsaram destarte o irmão, que foi-se refugiar numa ravina, onde chorava. Acontecia de passar outros irmãos que se iam até onde o abade Pastor, e que escutando o choro do irmão na ravina desceram o barrocal e depararam-no mergulhado em nímia tristeza. Convidaram-no a ir até a morada do ancião, mas recusou-se dizendo: “Hei de morrer aqui.” Encaminharam-se os irmãos até onde o abade Pastor e lhe contaram a história. Instou-lhes o ancião a retornar ao local onde estava o irmão e lhe dizer: “O abade Pastor te chama”. Pôs-se a caminho o irmão. À vista de sua tristeza, ergueu-se o ancião e abraçou-o e convidou-o amavelmente a comer. Logo após enviou o ancião até onde o anacoreta um dos discípulos com missão de lhe dar este recado: “Anos há que te desejo ver, pois que já tive notícias de ti, mas a preguiça minha e tua nos empeceu o encontro. Mas eis que, com a vontade de Deus, se nos aparece a ocasião. Sofre vir atéqui, para que possamos nos ver.” De fato ele nunca havia abandonado a cela. Ao receber a mensagem, disse entre si o anacoreta: “Se não houvesse revelação de Deus sobre mim, não ordenaria o ancião me procurassem.” Ergueu-se pois e saiu ao encontro do ancião. Após mútua e alegre saudação sentaram-se ambos e tratou o abade Pastor de começar assim: “Dois homens habitavam no mesmo lugar, e cada um tinha um morto em casa, mas um deles deixou o seu para chorar o do outro.” Com tais palavras, arrependeu-se o anacoreta e recordou o que tinha feito. Respondeu ele: “Pastor, tu moras no mais alto do céu, e eu no mais abatido da terra!” (Poemão, 6)
8. Um irmão interrogou o abade Pastor dizendo: “¿Que devo fazer quando na cela sinto me faltar coragem?” Disse-lhe o macróbio: “Não desprezes a ninguém, não julgues a ninguém e não infames a ninguém, assim dar-te-á Deus repouso e tua vida na cela será tranqüila.”
9. Certo dia reuniram-se os padres da Cítia por amor de falar dum irmão que pecara; todavia o abade Pior calava-se, até qu’enfim levantou-se, saiu, tomou dum saco que encheu d’areia e pô-lo às espaldas; tratou também de meter uma pouca de areia num cestinho que lhe estava adiante. Aos padres que perguntaram o significado daquilo respondeu: “O saco cheio d’areia são meus pecados; como são numerosos, pu-los às espaldas para não lamentá-los nem deplorá-los. Já a pouca de areia são os pecados do meu irmão, nos quais me reconcentro a julgá-los. Não é isto contudo o que se há de fazer: antes devia levar meus pecados ao diante de mim, para neles meditar, e pedir a Deus mos perdoar.” Aos escutar isso exclamaram os padres: “Verdadeiramente, esse é o caminho da salvação!” (Pior, 3).
10. Disse um ancião: “Se fores casto, não condenes o lúbrico, pois que tu bem transgridirias na mesma lei. Com efeito, quem disse: ‘Não fornicarás’, também disse: 'Não julgarás'”. (N. 11).
11. Um padre que servia na basílica foi até onde um anacoreta, por mor de celebrar o sacrifício eucarístico e lhe dar a comunhão. Mas o anacoreta recebeu visita dalguém que muito aborrecia o padre, de quem falou mal, e ficou escandalizado. Assim quando veio o padre como de hábito celebrar o sacrifício, o anacoreta não lhe quis abrir as portas. Diante disso, foi-se embora o padre. Então o anacoreta passou a escutar uma voz que lhe dizia: “Os homens me a mim defraudaram do julgamento.” Reptado em êxtase, vislumbrou um poço d’oiro, um cântaro d’oiro e uma corda d’oiro. O poço era de água muito doce e limpa; à borda estava um leproso que puxava água e a revia num vaso. Quis o anacoreta bebê-la, mas se não podia resolver, porque quem a puxava – era um leproso. Novamente escutou a voz, a lhe perguntar: “¿Por que não bebes desta água? ¿Que pouco vai quem a puxa? Seu encargo é só o de encher o cântaro e revê-lo no vaso.” De volta a si, refletiu o solitário acerca do sentido da visão e reclamou o padre e lhe pediu celebrasse o sacrifício eucarístico como outrora. (N; 254).
12. Num cenóbio viviam dois irmãos vida exemplar; mereceu cada um enxergar noutro a graça divina. Mas numa sexta-feira um dos irmãos saiu do monastério e viu alguém que começara a comer já no ar-do-dia. Disse-lhe o irmão: “¿Isto são horas de comer numa sexta-feira?” No dia seguinte cantou-se o ofício como de ordinário. Ora o outro irmão, fitando o companheiro, notou que o abandonara a graça divina, o que lhe desolou. Mal reentraram na cela, interrogou-o: “¿Que hás feito, meu irmão? Não vi sobre ti a graça divina de Deus.” – “Mas, respondeu o outro, a consciência não me acusa de ação ou pensamento culpável”. Insistiu: “¿Não disseste alguma palavra má?” – “Sim, respondeu o irmão, a quem o fato retornava à memória. Vi alguém que comia já no sol-das-almas e lhe disse: ‘¿Isto são horas de comer numa sexta-feira?’ Eis o meu pecado. Façamos pois penitência juntos durante duas semanas e oremos a Deus que me perdoe.” O que de fato fizeram, e duas semanas depois o irmão percebeu a graça de Deus que retornava sobre o outro. Ficaram assim consolados ambos e renderam graças a Deus, que é o só bom. (N. 255)