quarta-feira, agosto 31, 2011

Émile Boutroux - A História da Filosofia


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ARISTÓTELES, Et. Nic., I, 7, 1097b 35.

À medida que se multiplicam em todos os sentidos os trabalhos históricos, vem a ser cada vez mais difícil um acordo acerca do objeto da história: é ela aquela ciência que cultivou Renan, que buscava na seqüência dos fatos as leis morais da humanidade e do universo, e Fustel de Coulanges, que ignorava a existência de leis morais e cuja ambição limitava-se a coligir uns e outros fatos às suas causas próximas?

Não foge a tal condição a história da filosofia; Hegel e Groto tinham dela idéias bem distintas. Vemo-la assumir cariz filosófico, psicológico, social, filológico e naturalista, sem que se divise claramente para que forma inclina-se ela a fixar-se. É mister para quem se dedique a ela, se não quer limitar-se a seguir tal e qual corrente, interrogar-se a si sobre a finalidade desta ciência e submeter à apreciação as várias definições que se lhe podem conferir.

Qual o objeto próprio à história da filosofia? Qual o método conveniente a seguir?

Trata-se tão-somente de agrupar e classificar segundo a geografia e a cronologia os fatos a que cabe o epíteto de filosóficos?

Trata-se de remeter cada um desses fatos, após a operação de triagem, às particularidades do meio onde se produziram, como que a suas condições e causas?

Ou antes – se se acredita que a filosofia até certo ponto possui existência e desdobramento próprios, e constitua uma espécie de organismo –, trata-se de desimbricar e seguir esse desenvolvimento autônomo que perpassa as invenções, aparentemente caprichosas, dos indivíduos? Consideraremos nós cada filosofia qual um instrumento algo dócil do espírito imanente e universal? Tomaremos a peito o dever de extrair e completar as partes fecundas da obra de cada pensador, abandonando as que agora ou depois o tempo há de levar consigo? Não é esta uma das atividades que se espera do historiador: a de tudo ler, estudar e criticar, a fim de remergulhar na noite dos acontecimentos os que não mereçam ocupar a memória dos homens?

Se escrupulizamos em julgar as produções filosóficas em nome da idéia meio mística da filosofia perene, não desejaríamos ao menos diferenciar, dentre as concepções do homem de gênio, as em que é ele verazmente autêntico, inovando e preparando o futuro, daquelas em que ele ao invés é apenas o eco dos antecessores?

Não existe concepção da história da filosofia (bem compreensível, se se considera sua relação com as ciências positivas) segundo a qual o papel do historiador seria o de adotar como objeto de estudo não a filosofia, senão os filósofos, e demonstrar de cada um deles, numa análise psicológica, por qual evolução – sopesados o temperamento, a educação e as circunstâncias de vida – produzir-se-ia necessariamente as idéias que deu à luz.

Ninguém duvida de que estes pontos de vista não tenham valor ou não sejam de interesse; contudo, parece que nenhum deles é o ponto de vista do historiador da filosofia.

Seria demasiada modéstia limitar-se a colecionar e organizar em seqüência cronológica as manifestações filosóficas; somente nas doutrinas e nos sistemas filosóficos, em que a filosofia se realiza, é possível que se ofereçam a nós nalguma medida um encadeamento lógico dos fatos com os fatos em si mesmos.

Ao contrário, seria bem audacioso afirmar que para esta concepção há todo o futuro à frente, enquanto para aqueloutra o tempo já acabou. Na época de Voltaire a metafísica foi sentenciada de morte; ora essa foi justamente a época do nascimento da filosofia alemã.

De que se compõe a ambição de encontrar as origens históricas e inconscientes e a gênese mecânica das idéias dum pensador? Quem de nós, até mesmo os mais atentos e hábeis no exame dos próprios estados de consciência, poderia explicar deveras a origem de suas opiniões e doutrinas? Como discernir, dentre as inumeráveis e complexas influências a que se submete continuamente a vida, quais foram profundas e duráveis, e como expressar com justiça em que sentido elas se exerceram? Enfim, por que desejar a todo custo que as idéias nasçam a partir de influências exteriores, de cuja fonte produtora ignoramos totalmente?

Junto destas várias concepções da história da filosofia, quer tímidas em excesso quer temerárias e aventurosas, há uma que escandaliza menos o espírito, pois em aparência é menos científica, mas que talvez responda com maior exatidão à natureza do objeto de estudo: se não estou enganado, trata-se da concepção a que se aplicam amiúde os escritores cujo objeto próprio está em se ocupar do trabalho do historiador da filosofia, sem outra qualquer preocupação que lhe seja estranha.

Consiste esta tarefa, em primeiro lugar, em abraçar para tema de estudo o dado que é-nos imediato, i. e., tal ou qual doutrina em sua inerente complexidade, ou ainda tal ou qual conjunto de idéias que o filósofo apresenta como se formasse um todo. Onde não se cumpra esta condição, podemos estar diante dum refinado moralista, dum espírito profundo ou dum pensador original, mas não em presença dum verdadeiro filósofo. O problema é saber qual relação lógica o filósofo estabeleceu de fato entre suas idéias, quais delas reputa princípios, em que ordem e de que maneira estabelece os laços de dependência de suas principais idéias com as demais. Filósofo é um homem que confronta os conhecimentos e as crenças humanas, buscando-lhes as relações; queremos saber como Platão e Leibniz conceberam tais relações. E já que o filósofo não é um vidente em quem a verdade caia qual um raio, mas um inquiridor paciente que medita, critica, hesita e só se curva à razão, queremos saber por que caminho metódico, observações e raciocínios o autor chegou a suas conclusões. Aqui não está em causa o trabalho inconsciente e mecânico do cérebro, mas o esforço consciente e voluntário que almeja romper as barreiras da individualidade, pensar universalmente e descobrir a verdade.

Se isto for assim, não há de ser a filosofia em geral e como um todo, nem a evolução psicológica de cada filósofo em particular que irá compor o objeto imediato da história da filosofia, mas antes as doutrinas dos filósofos. Conhecer e compreender tais doutrinas em profundidade, explicá-las na medida do possível – como faria o próprio autor – expô-las segundo o espírito e até certo ponto conforme o estilo do autor é a tarefa essencial a que as demais devem se subordinar.

É ao certo útil atentar ao homem, e não apenas à obra isolada, sobretudo porque amiúde o homem nos ajuda à compreensão da obra: deve o cartesianismo alguns caracteres à pessoa de Descartes. Em que erro incorrer-se-ia, se se recusa observar a história da alma individual!

Igualmente é interessante investigar, na sucessão dos sistemas, as transformações da filosofia em si, de seus avanços ou sua imobilidade; contudo, não pode o estudo geral substituir o das doutrinas em si mesmas e da concepção de seus autores, pois que este é pressuposto daquele.

Não se negligencie nenhuma parte de determinada doutrina, a pretexto de que já se encontra ela nalgum filósofo anterior – este argumento é insuficiente; um grande homem não busca a novidade ou originalidade, porém a verdade. Desprezaria ele certa parte, por que outro já a descobrira? Nas épocas de literatura clássica, não havia quem acreditasse na capacidade duma criação ao estilo de Deus, ex nihilo: Corneille e Molière abasteciam-se a mancheias nas obras dos antecessores; seriam eles originais o bastante se daqueles elementos compusessem trabalhos de valor. Com maior razão Aristóteles, Leibniz e Kant eram conservadores zelosos do que de bom os homens tinham descoberto antes deles; a apropriação dos conhecimentos operava-se pela maneira de utilizá-los: “No jogo de pela, diz Pascal, joga-se a mesma bola dum lado ao outro, mas um dos lados a direciona melhor.” É comum a mais banal das idéias assumir nova fisionomia, em virtude das novas relações [que surjam] no meio em que se encontre.

Por sua vez a idéia que mais tarde se revelaria importante e fecunda talvez desempenhasse no sistema em que aparecera apenas um papel secundário e apagado. Embora consideremos interessante tal encontro ou pressentimento, evitemos pô-lo em evidência, com a desculpa de obsequiar o autor, dando-lhe à idéia um colorido mais moderno: não devemos conjeturar Descartes qual seria hoje em dia, mas qual fora em 1644, reduzindo todos os problemas ao da certeza, cuja difusão está a nosso encargo.

A tarefa que nos incumbe a nós determina com precisão os meios adequados de pormos mão à obra. Nos possíveis desdobramentos ulteriores dum sistema em novas doutrinas, nas apreciações e interpretações de contemporâneos e sucessores, ou ainda nas recensões históricas e biográficas acerca da pessoa do autor e suas obras – buscaríamos tão-somente indícios dos problemas sobre que devemos nos perguntar, ou dados materiais que determinassem dalgum modo o terreno onde devemos pisar. Apenas nos monumentos que nos legaram os filósofos pode-se encontrar a fonte da história da filosofia.

Cada obra filosófica exige consideração em seu conjunto e nos detalhes. O trabalho do espírito é oscilação contínua do todo às partes e das partes ao todo. Este é o processo de compreensão do drama, da poesia e da obra de arte; é o movimento alternativo de indução e dedução em que se constroem as ciências. Destarte, ao explicar-se o autor por si mesmo, as idéias gerais pelas doutrinas particulares e as doutrinas particulares pelas idéias gerais, teremos oportunidade de captar seu pensamento.

Não basta descobrir textos curiosos, quiçá inéditos. Quem de nós se revela de todo em tudo o que diz? Que falar duma carta escrita a um correspondente desaparelhado para compreender o filósofo que tenha mais valor do que os tratados longamente sazonados e destinados à posteridade? O historiador que não está em busca de anedotas, mas da justa apreciação da obra dum grande homem, cuidará antes de tudo em penetrar cada vez mais no pensamento do autor, lendo e relendo inúmeras vezes o conjunto de suas obras, e não em trazer à baila e manipular quantidades impressionantes de textos isolados; ele há-de entrar na pele do autor, caminhar em suas pegadas, segui-lo nos contornos de suas meditações, partilhar as suas emoções filosóficas e desfrutar com ele da harmonia em que está repousada sua inteligência.

Os sistemas filosóficos são pensamentos vivos; por isso a esperança de entendê-los repousa em quem busca nos livros os meios de ressuscitar tais pensamentos em si.

segunda-feira, julho 04, 2011

Louis Lavelle - Corpo e Intimidade


A presença do corpo nos permite penetrar no mistério da intimidade, pois está ele – o corpo –  contido no universo de que faz parte; parece esta parte do universo a única a nos pertencer propriamente, pois é nela que reinamos e nos conservamos em nossa natureza original e nossa existência. Não é preciso admirar-se de que alguém que confunda o ser com o dado não enxergue distinções entre o eu e o corpo, mas é preciso que as enxergue. Se o empirismo é posição insustentável, deve-se a que não existe dado sem ato que o dê. Ora este ato – a partir do momento em que não me limito a executá-lo, mas que sinta que executei-o eu – parece que constitui a essência do eu, bem mais em profundidade que o corpo. Mais ainda, é o corpo doravante relegado ao estado de coisa, em que pese que tal coisa conserva uma relação necessária com o ato que a reduz a esse estado; destarte, hei de fazer dele uma representação, que só tem sentido para mim. Assim, ao passo que o meu corpo me permita inscrever-me no universo, o meu pensamento – sem o qual o meu corpo não existiria como dado – inscreve nele este dado e todos os demais. Neste pensamento há uma infinidade que a ele permite reconhecer-se de imediato como adequado ao Tudo, mas para que ele seja nosso, força é conter o Todo tão-somente em potência, i. e., que se depare sempre com dados novos que, à sua ausência, nada seriam e que se atualize a si a pouco e pouco.



(Versão inédita de De l’Acte, texto datilografado, sem data, p. 239)

sexta-feira, maio 13, 2011

Louis Veuillot - O Trabalho do Estilo

Com adaptações, bem vereis.

Não é questão de multiplicar as obras, cuja prolificidade depende da natureza da alma e em particular dos temas sobre que pretendemos versar. Afirmo que, em tudo quanto empreendemos, temos de obrar o nosso melhor, dar aos escritos toda a solidez e até a coerência possível, a fim de que a formosura do vaso, se for do caso, torne aceitável a beberagem cuja virtude é ademais feita de amargura. Quais os meios para que se alcance esta igualdade? Em primeiro lugar, entregar-nos à vocação, não em razão de seu encanto, mas antes porque vem ela de Deus: o trabalho para que nos impele é o verdadeiro trabalho que de nós espera. Se a isto nos chama Deus, sejamos escritores e não desejemos nada além; sacrifiquemo-nos, se for necessário, para que não sejamos nada além. No trabalho das letras, recebemos um como sacerdócio; não o usemos para acréscimo da fortuna, ou inda para a satisfação da vaidade. Providenciará Deus que vivamos dum trabalho que lhe consagramos, e a vida assim sustentada há de ser daquelas bem ocupadas. Recorda-nos aqui a sabedoria humana de que a quem caiba o dom do conselho mui raramente possui o dom da ação. Nós nos imiscuiremos com suficiência nos assuntos mundanos, se nos limitarmos a dar aos que neles labutam conselhos desinteressados, que talvez aproveitarão melhor que nós; a nossa palavra será de maior autoridade quando o público notar que não a empregamos como instrumento de ambições mesquinhas.

Em segundo lugar, estudemos incessantemente. Não acreditemos de pronto e ao primeiro golpe numa imaginação que parece inesgotável. No início da carreira, é comum pensar que um século não bastaria para despachar todas as invenções, as idéias e os maravilhosos discursos que sentimos em germe; mas já na segunda obra percebemos a repetição da primeira, e a imaginação inexaurível afinal era só imaginação. A terra fecundíssima, se não é arada, amanhada e regada de suores contínuos, só produz sarmentos e rebentos loucos e vãos: mostruário pomposo que mal dissimula uma esterilidade real e logo irremediável. Estudemos: somos nós o campo e o estudo é a relha sulcadora, a semente fecundante, a chuva revigorante e sol madurador, que fortifica o existente, renova o languescente e cria o inexistente.

Busquemos o estilo: apego-me a tal pensamento, pois que é essencial. Seja-nos imposta a modéstia e o estudo (i. e., neste caso, a probidade): sem sombra ou senão de dúvida, aquiescerá a consciência cristã; mas alguns jovens crentes tem por quase nada escrever com maior ou menor correção, concordância ou destreza. Eu de mim afianço que, depois da fé e da instrução, nada há de mais necessário: destarte seremos lidos e conquistaremos a atenção e a estima do mundo; eis o êxito que é força conseguir, mas não a nós (não praz a Deus que o diligenciemos para nós!) antes às verdades que Deus nos dá a proclamar e conservar; antes ao mundo, que há de amar as verdades da caridade e refugiar-se ao seu divino regaço.

Demais, a arte sublime que construiu palácios imorredouros do pensamento humano – o Estilo – não nos é, católicos franceses [e brasileiros, por que não?], uma glória familiar, que é dever honrar? Considero nossa história literária e percebo as letras nacionais no que têm elas de magnificente e elevado: o serem filhas da Igreja.

Vós, a quem toca em particular a vocação do ensino e da escrita, conjuro-vos a restituir à linguagem a velha ortodoxia e a dignidade antiga. Lede e estudai os escritores do séc. XVII e saturai-vos deles – não para que se apresentem como imitadores servis, mas legítimos continuadores. Além disso, do proveito desse estudo gozareis excelentes prazeres espirituais. Prometo verdadeiros gozos aos que se dediquem aos livros dos escritores religiosos, que de boa mente chamaria de as obras inéditas desses homens de escol, pois quem se inquieta hoje de saber o que escrevia Bossuet, Fénelon, Bordaloue, Massillon, [Antônio Vieira, Manuel Bernardes, Luís de Souza, Antônio das Chagas] e em geral os grandes mestres, tão pouco freqüentados, da literatura cristã?

Volto ao pensamento que me domina, e repito que devemos, meus irmãos, já agora nos dedicar – se quisermos que nos escutem, e por muito tempo – à formação dum estilo nobre que versará mui dignamente de Deus e do homem, [...]. Não prometo tornar-nos grandes escritores: na arte há um grau de elevação, a que nem o estudo, nem a vontade mais assídua, nem os desforços mais constantes seriam capazes de alçar aquele a quem Deus não destina ou outorga certas qualidades, raras na história do espírito humano; mas à força de trabalho chegaremos a ser um escritor puro, claro, correto e até elegante; manobramos uma linguagem que não se enverga ante o pensamento excelso, nem deixa estropiada nenhuma idéia. Quando, com tal instrumento em mãos, cantamos a verdade de Deus, deparamos tons escutadiços a todo ouvido humano, o que enciúma os gênios. Concedo que os escritores do séc. XVII, religioso ou profano, não eram todos tais como Bossuet, Fenelon, Racine, Pascal, [Vieira, Bernarde, Sousa, Gregório], talentos fora de linha, cujas faculdades superiores rutilavam, se é licito dizer, a cada palavra. Mas em todo lugar, com toda gente, até entre os que não eram da profissão, havia ordem, clareza, elegância, escolha e nobreza na expressão! E que talento, diríamos hoje em dia quase milagroso, de precisar concisamente os pensamentos mais profundos, de sublinhar na dicção as coisas mais comezinhas! Lede em voz alta uma página escrita outrora, e após lede uma das que se escrevem agora (e destas escolhei a mais aquilatada), e aí compreendereis, melhor do que se poderia exprimir, a decadência assustadora do pensamento e da arte.

sábado, fevereiro 12, 2011

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte IX)

Capítulo IX: Não se deve julgar ninguém
 1. Aconteceu a um irmão do monastério do abade Elias sucumbir à tentação; posto porta afora, partiu em direção à montanha para se encontrar com o abade Antão, e lá ficou um tempo, até Antão o remeter ao monastério donde viera. Mas tão logo o viram os irmãos, expulsaram-no novamente. Retornou o irmão até onde o abade Antão e lhe disse: “Pai, não me quiseram receber”. Transmitiu-lhes este recado o ancião: “Certa vez, naufragou um navio no mar e perdeu a carga. Às duras penas conseguiu aportar, mas vós quereis submergir a nave que chegou sã e salva à margem.” Quando souberam que outro não era senão o abade santo que lhes devolvia o faltoso, receberam-no sem pestanejar. (Antão, 21).
2. Pecara um irmão, e por isso ordenara-lhe o padre saísse da igreja. Contudo, levantou-se o abade Bessarião e saiu com o irmão dizendo: “Também devo eu sair, que sou pecador.” (Bessarião);
3. Certo dia foi o abade Isaque de Tebas a um cenóbio. Ao testemunhar a falta dum irmão, julgou-o. Ao retornar ao deserto, apareceu-lhe um anjo do Senhor defronte a porta da cela e lhe disse: “Não hei de deixar-te entrar!” Perguntou-lhe o ancião a razão daquilo, no que lhe ripostou o anjo: “Enviou-me Deus a perguntar-te: ¿Para onde me ordenas tu mandar aquele irmão culpado que julgaste?” Num instante Isaque fez uma metania e disse: “Eu pequei, perdoai-me ! » E lhe disse o anjo: “Ergue-te, Deus te perdoou, mas guarda-te doravante de nunca mais julgar ninguém, sem que Deus o faça antes.” (Isaque de Tebas).
4. Certo dia cometeu uma falta um irmão da Cítia. Os anciãos em conselho mandaram se pedisse a presença do abade Moisés, que se recusou a ir. O mensageiro encaregou a outro que lhe dissesse: “Vem, que te esperam os irmãos.” Ergueu-se o abade, pegou dum saco furado, encheu-o de areia e pô-lo sobre os ombros, e com ele foi até onde os irmãos. Saindo-lhe ao encontro, perguntaram os irmãos: “¿Que é isto, Pai?”, ao que lhes respondeu o ancião: “Meu pecados escorrem às minhas costas, e não nos vejo eu; ¿e tenho eu agora de julgar os pecados alheios?” Ao escutarem aquela palavra conceituosa, já não tocaram mais no assunto os irmãos e perdoaram o culpado. (Moisés, 2).
5. Perguntou o abade José ao abade Pastor o seguinte: “Dize-me: ¿como alguém se torna monge?” Respondeu-lhe o ancião: “Se quiseres encontrar repouso neste e noutro mundo, em todas as ocasiões levanta-te esta questão: ‘¿Quem sou eu?’ e não julgues ninguém.” (José de Panefo, 2).
6. Outro irmão interrogou o abade Pastor lhe dizendo: “Se vejo a falta do meu irmão, ¿faço bem em escondê-la?” Ripostou-lhe o ancião: “Cada vez que escondemos o pecado do irmão, esconde Deus o nosso; e cada vez que denunciamos as faltas dos irmãos, denuncia Deus as nossas igualmente.” (Poemão, 64)
7. Certo dia no cenóbio cometeu um irmão uma falta. Naqueles páramos vivia um anacoreta, que de há muito estava em recolhimento. Foi-lhe visitar o abade do monastério, para falar do irmão manchado de culpa. Disse o anacoreta: “Expulsa-o”. Expulsaram destarte o irmão, que foi-se refugiar numa ravina, onde chorava. Acontecia de passar outros irmãos que se iam até onde o abade Pastor, e que escutando o choro do irmão na ravina desceram o barrocal e depararam-no mergulhado em nímia tristeza. Convidaram-no a ir até a morada do ancião, mas recusou-se dizendo: “Hei de morrer aqui.” Encaminharam-se os irmãos até onde o abade Pastor e lhe contaram a história. Instou-lhes o ancião a retornar ao local onde estava o irmão e lhe dizer: “O abade Pastor te chama”. Pôs-se a caminho o irmão. À vista de sua tristeza, ergueu-se o ancião e abraçou-o e convidou-o amavelmente a comer. Logo após enviou o ancião até onde o anacoreta um dos discípulos com missão de lhe dar este recado: “Anos há que te desejo ver, pois que já tive notícias de ti, mas a preguiça minha e tua nos empeceu o encontro. Mas eis que, com a vontade de Deus, se nos aparece a ocasião. Sofre vir atéqui, para que possamos nos ver.” De fato ele nunca havia abandonado a cela. Ao receber a mensagem, disse entre si o anacoreta: “Se não houvesse revelação de Deus sobre mim, não ordenaria o ancião me procurassem.” Ergueu-se pois e saiu ao encontro do ancião. Após mútua e alegre saudação sentaram-se ambos e tratou o abade Pastor de começar assim: “Dois homens habitavam no mesmo lugar, e cada um tinha um morto em casa, mas um deles deixou o seu para chorar o do outro.” Com tais palavras, arrependeu-se o anacoreta e recordou o que tinha feito. Respondeu ele: “Pastor, tu moras no mais alto do céu, e eu no mais abatido da terra!” (Poemão, 6)
8. Um irmão interrogou o abade Pastor dizendo: “¿Que devo fazer quando na cela sinto me faltar coragem?” Disse-lhe o macróbio: “Não desprezes a ninguém, não julgues a ninguém e não infames a ninguém, assim dar-te-á Deus repouso e tua vida na cela será tranqüila.”
9. Certo dia reuniram-se os padres da Cítia por amor de falar dum irmão que pecara; todavia o abade Pior calava-se, até qu’enfim levantou-se, saiu, tomou dum saco que encheu d’areia e pô-lo às espaldas; tratou também de meter uma pouca de areia num cestinho que lhe estava adiante. Aos padres que perguntaram o significado daquilo respondeu: “O saco cheio d’areia são meus pecados; como são numerosos, pu-los às espaldas para não lamentá-los nem deplorá-los. Já a pouca de areia são os pecados do meu irmão, nos quais me reconcentro a julgá-los. Não é isto contudo o que se há de fazer: antes devia levar meus pecados ao diante de mim, para neles meditar, e pedir a Deus mos perdoar.” Aos escutar isso exclamaram os padres: “Verdadeiramente, esse é o caminho da salvação!” (Pior, 3).
10. Disse um ancião: “Se fores casto, não condenes o lúbrico, pois que tu bem transgridirias na mesma lei. Com efeito, quem disse: ‘Não fornicarás’, também disse: 'Não julgarás'”. (N. 11).
11. Um padre que servia na basílica foi até onde um anacoreta, por mor de celebrar o sacrifício eucarístico e lhe dar a comunhão. Mas o anacoreta recebeu visita dalguém que muito aborrecia o padre, de quem falou mal, e ficou escandalizado. Assim quando veio o padre como de hábito celebrar o sacrifício, o anacoreta não lhe quis abrir as portas. Diante disso, foi-se embora o padre. Então o anacoreta passou a escutar uma voz que lhe dizia: “Os homens me a mim defraudaram do julgamento.” Reptado em êxtase, vislumbrou um poço d’oiro, um cântaro d’oiro e uma corda d’oiro. O poço era de água muito doce e limpa; à borda estava um leproso que puxava água e a revia num vaso. Quis o anacoreta bebê-la, mas se não podia resolver, porque quem a puxava – era um leproso. Novamente escutou a voz, a lhe perguntar: “¿Por que não bebes desta água? ¿Que pouco vai quem a puxa? Seu encargo é só o de encher o cântaro e revê-lo no vaso.” De volta a si, refletiu o solitário acerca do sentido da visão e reclamou o padre e lhe pediu celebrasse o sacrifício eucarístico como outrora. (N; 254).
12. Num cenóbio viviam dois irmãos vida exemplar; mereceu cada um enxergar noutro a graça divina. Mas numa sexta-feira um dos irmãos saiu do monastério e viu alguém que começara a comer já no ar-do-dia. Disse-lhe o irmão: “¿Isto são horas de comer numa sexta-feira?” No dia seguinte cantou-se o ofício como de ordinário. Ora o outro irmão, fitando o companheiro, notou que o abandonara a graça divina, o que lhe desolou. Mal reentraram na cela, interrogou-o: “¿Que hás feito, meu irmão? Não vi sobre ti a graça divina de Deus.” – “Mas, respondeu o outro, a consciência não me acusa de ação ou pensamento culpável”. Insistiu: “¿Não disseste alguma palavra má?” – “Sim, respondeu o irmão, a quem o fato retornava à memória. Vi alguém que comia já no sol-das-almas e lhe disse: ‘¿Isto são horas de comer numa sexta-feira?’ Eis o meu pecado. Façamos pois penitência juntos durante duas semanas e oremos a Deus que me perdoe.” O que de fato fizeram, e duas semanas depois o irmão percebeu a graça de Deus que retornava sobre o outro. Ficaram assim consolados ambos e renderam graças a Deus, que é o só bom. (N. 255)