sexta-feira, setembro 17, 2010

Marcel de Corte - Prefácio de "A Inteligência em Perigo de Morte"

Quando comecei a traduzir este livro, cujo prefácio dou a público, imaginava em  publicá-lo em letra redonda, mas a tradução nunca me caiu no goto. Contudo, pode-se ler sem grande prejuízo, pois que nela há pouca traição ao original - até prova em contrário.
Luiz de Carvalho.



A obra que apresentamos ao público com o título A inteligência em perigo de morte faz parte da série de trabalhos que consagramos à crise da civilização contemporânea: Encarnação do homem, Filosofia dos costumes contemporâneos, Ensaio sobre o fim da civilização e O homem contra si mesmo. No decorrer de nossas longas meditações, o diagnóstico foi-se pouco a pouco acurando. Aqui o encontramos em seu último estágio.

Aproximamo-nos assim o máximo possível da origem dessa estranha doença que afeta o homem da segunda metade do séc. XX e infecta a articulação entre a alma e o corpo, naquele ponto em que se é especialmente homem. Cremos ter encontrado a causa na própria alma do homem, no cume de seu ser, em sua diferença específica: a inteligência.

O homem contemporâneo – que se precipita pelas quebradas sob o impulso do homem do séc. XVIII e da Revolução – sacrificou a inteligência especulativa (que se esforça em relacionar a realidade dos seres e das coisas) e a inteligência prática (que tenta conciliar os meios utilizados com o fim último da vida humana que o atrai) à inteligência operante, que fabrica um mundo, uma sociedade e um homem artificiais. O homo sapiens não evoluiu, como soia acontecer nas velhas mitologias evolucionistas que se ensinavam nos bancos das escolas, durante minha juventude: substituíram-no pelo homo faber.

Estamos no último estágio dessa mudança, dessa “mutação”, mortal como todas as mutações biológicas – como bem ilustra o carneiro de cinco patas –, em que as noções de verdade e bem, apreendidas pela inteligência especulativa e prática, são imoladas em benefício da vontade de poder do homem, doravante um cego intelectual e moral a difundir a eficácia em todo o universo e o gênero humano.

Não nos enganemos: o poder de transformar as coisas, com que se alimenta o homem, só se restringe a justos limites ou só funciona normalmente quando se regula pelas luzes da inteligência especulativa e prática. Uma vez que o homem a ignora, mergulha ele nas trevas da idolatria de si mesmo, que decerto lhe destrói o ser e a diferença específica e é mais danoso que a pior das ignorâncias ou perversões morais. Revelam-se a ignorância perfeita e a imoralidade absoluta com a rejeição da condição humana. Armado das técnicas que possibilitam a recusa e a construção de um “novo mundo” que justificará tal “mutação”, o homem mata em si a inteligência que lhe censura o rompimento dos limites do real.

Ultrapassar os limites do real equivale a entrar no imaginário. Vivemos cada vez mais em um mundo de artifícios, em uma sociedade utópica, assombrados por fantasmas que se fazem e desfazem a nosso talante, segundo o implacável “movimento da história”. Esse é o último estado da doença. Morta a inteligência, nada mais resta ao homem senão a animalidade, “o formigueiro perfeito e definitivo”, como falava Valéry, ou o espectro monstruoso do “Leviatã”, evocado por Pio XII.

Dois grafites e uma das “teses” que os estudantes revoltados há pouco deixaram após si na Sorbone mostram-nos as três etapas do colapso.

1° “Rêve + Évolution = Révolution”; 2 º “Imaginem novas perversões sexuais”; 3 º “A partir de hoje já não se nomeará nenhum professor. Está sanada a crise do recrutamento de professores, já que todo homem educado induzirá a semelhante esforço – na forma de adaptação e ensinamento – àquele a quem ele teria ensinado”. Todos improvisam e ensinam a todos, todos improvisam e ensinam a cada um – em uma nova prisão batizada de “Novo Éden”.

Vão nos censurar – sobretudo nos meios católicos, onde este câncer se espalhou – porque empregamos uma classificação aristotélica, “obviamente ultrapassada”, das atividades do espírito. Apenas pedimos aos contraditores que nos apresentem uma censura que seja objetiva e repouse sobre a natureza mesma dos seres e das coisas com as quais o espírito humano pode travar relação. Estamos seguros de que o “diálogo” não iria muito longe.

No que nos cabe, iremos mais longe. Afirmamos, sem medo de engano, que a substituição de uma atividade do espírito por outra provoca num átimo a desordem e a perturbação orgânica na alma do homem. Foi devido ao abandono dessa classificação e à substituição das atividades especulativas e práticas do espírito pela atividade poética (aquela que faz, fábrica, constrói etc.) que o homem perdeu o equilíbrio natural e se desencaminhou: não apreendemos o verdadeiro ou o bem pelas mesmas vias por que construímos uma obra, executamos um trabalho, introduzimos a forma na matéria. Nossa análise, apoiada na experiência dos desastres engendrados por tal confusão, prová-lo-á.

Essa classificação corresponde à realidade e à “metafísica natural da inteligência humana”, que Bergson desenovelava, encantado, na filosofia grega.

A filosofia grega é a filosofia do senso comum, do realismo e da inteligência humana e fiel à sua essência – enfim, a filosofia da integridade superior do homem. Cada vez que a repudiamos, sofremos as conseqüências.

Só precisamos de um exemplo – e de um exemplo formidável.

A religião cristã – em particular a religião católica – não se ligou à filosofia grega por causa do mero acaso histórico, mas do ímpeto da fé em busca da inteligência, da fides quarens intellectum, e portanto em busca de uma concepção espiritual que fosse universal como a mensagem do Evangelho. A concepção dos gregos acerca da inteligência – faculdade do real em que todos os homens se encontram e concordam entre si – lhes garantia essa universalidade.

A solidariedade entre o realismo sobrenatural da fé e o realismo natural da inteligência humana durou cerca de dois milênios e, em meio a diversas peripécias, constituiu o eixo do cristianismo e sustentáculo da Igreja como depositária e guardiã vigilante da fé, da inteligência e dos costumes. Essa solidariedade se rompeu durante o Vaticano II.

Nunca se saberá a magnitude, para a Igreja e para a humanidade, da catástrofe que uma gangue de padres conciliares provocou na inteligência sem rumo. Sabe-se que, por ordem de João XXIII, a preparação do Concílio deu-se segundo as normas tradicionais e conforme o vocabulário escolástico – forma evoluída de linguagem, própria à “metafísica natural do espírito humano”. Arrastada pela minoria “estruturada”, a maioria do Concílio recusou o método de apresentação e declarou-se a favor de uma formulação pretensamente mais acessível ao espírito moderno e ao aggiornamento solicitado pelo Papa. Parecia que se tratava tão-somente de uma simples mudança na apresentação da mensagem evangélica e do dogma. Até os padres mais apegados à tradição pareciam requisitar o preconizado retorno à linguagem bíblica – pelo menos em alguns setores, sobretudo na prédica. Desse modo, os girondinos do Concílio entregaram-se à tarefa sem peso na consciência, e as propostas foram passando como cartas debaixo da porta. Mas as cartas estavam recheadas de explosivos. Começamos a sentir os primeiros abalos causados pela deflagração do artefato.

Com efeito, não se troca de linguagem como de roupa. Decerto a língua é uma convenção. Na origem a linguagem é um sistema de expressão verbal do pensamento, composto de sinais artificiais inventados pelo homem. Mas no esforço de criar sinais, a inteligência humana teve a poderosa ajuda de sua natureza, que ordena a inteligência à realidade a que deve o ato corresponder para ser verdadeiro. Aqui como em tudo, a arte humana se une à natureza, sob pena de degenerar em puro arbítrio, cujo único significado vem da vontade subjetiva, cuja única satisfação é devida a si mesmo. A língua participa do dinamismo da natureza intelectual, que busca a verdade. Quanto mais se desenvolva essa natureza, mais a linguagem se abastecerá de significados objetivos. É o caso do grego – língua do povo mais inteligente do mundo –, veículo que conduziu através das turbulências da história “a metafísica natural do espírito humano”. É o caso do latim escolástico, seu herdeiro direto.

No momento em que o Concílio se recusou a utilizar a linguagem escolástica – pela qual o esforço natural do espírito humano, dedicado à busca da verdade, alcançou uma perfeição incomparável –, ele se desincumbiu do realismo de que a Igreja se encarregara até então. Não emborcou a garrafa para servir o vinho novo, senão o vento tempestuoso da subjetividade humana, cujas devastações presenciamos, horrorizados, na Igreja e na civilização cristã. Quando ele repudiou a língua – de cujos sinais se valem os conceitos – repudiou as coisas, e quando repudiou as coisas, mergulhou na subversão e na Revolução permanentes – para grande espanto dos padres, ou da maioria deles.

Bem que tentaram impedir essa ruína – com pudicícia denominada de “mentalidade pós-concilar” – que até os espíritos menos avisados poderiam prever. Como não encontrassem unidade na verdade, que é o objeto da inteligência contemplativa, os padres levaram o Concílio para o caminho da “ação”: apagam-se os desacordos quando se persegue um mesmo anseio. Por isso o Concilio se declarou estritamente pastoral, em contraste com todos os Concílios anteriores. Não proclamou dogmas – e nem poderia fazê-lo sem articular suas definições com os dogmas tradicionais e demonstrar sua impotência para definir, para se ajustar às essências, para utilizar como instrumento, sicut ancilla, a única filosofia que se harmoniza com a fé e cuja fecundidade a história da Igreja demonstrou.

Mas, como constatamos, a tentativa de circunscrever o Concílio como “pastoral” devia abortar. O “pastoral” é apenas um conjunto de regras de conduta destinadas a guiar o homem em direção ao fim sobrenatural; sua aplicação está a cargo dos pastores do rebanho. Contudo como levar o homem até ao fim sobrenatural se ele não conhece o fim sobrenatural? A estratégia pressupõe o conhecimento do terreno: no caso, o homem inserido no mundo. A graça não abole a natureza, muito menos a substitui. Como o homem conheceria o fim sobrenatural se ignorava o lugar que ocupa no universo e a relação fundamental de sua inteligência com o real e o Princípio da realidade? O “pastoral” não pode abstrair a filosofia prática e a filosofia especulativa. Como recorrer às filosofias, já que a marca do nosso tempo – do qual o cristianismo deseja a todo custo sair – é ignorá-las e substituí-las somente pela atividade poética do espírito?

O “pastoral” não tinha escolha. Era e ainda é preciso que se torne uma atividade poética do espírito, fabricante do novo mundo, edificadora da nova sociedade, construtora do novo homem. O “pastoral” se tornou ou tende a se tornar revolucionário, subversivo e, à medida que projeta formas imaginárias na realidade, mistificador. Igualmente se tornou o álibi e a máscara da vontade de potência progressista e do teocratismo que não ousa dizer seu nome, dissimulando a pior das tiranias, da qual dizia Chesterton que toca n’alma com a clave do “amor”.

Esse fenômeno extraordinário de destruição interna da Igreja e da civilização, perpetrado pelos que outrora as salvaram do desastre, acontece ante nossos olhos. As páginas que se seguem hão de lançar sobre eles uma luz que não quisemos atenuar.

A Igreja (pelo menos a que está no controle, monopolisa a informação e espoja-se na barafunda do aggiornamento), ao manifestar sem escrúpulos sua indiferença e desprezo pelo valor da verdade dos conceitos intelectuais e das fórmulas que os exprimem; ao romper o cordão umbilical bimilenar que a unia à filosofia aristotélica do senso comum – adentrou a velas enfunadas na ficção. Manifesta-o, por exemplo, o Novo Catecismo, aprovado pela unanimidade do espiscopado holandês. A Comissão encarregada de examiná-lo assinala não menos que dezoito pontos principais, cujas concepção e formulação não correspondem às realidades de fé. As entorses menores ao dogma e ao sobrenatural são mais numerosas. Ora, os autores do dito catecismo não escondem que quiseram deliberadamente se defazer do aristotelismo e do tomismo “superados”.

A primazia da atividade poética do espírito e, por conseguinte, da vontade de potência, parece universal na Igreja contemporânea – salvo as exceções numerosas quanto possível, contudo espalhadas, isoladas, desprovidas de meios de difusão abrangentes, às vezes reduzidas ao silêncio. Por onde se vá, quer-se “fazer alguma coisa”, transformar tudo. Nada escapa ao zelo dos novos reformadores, que impõem a todos sua jactância. Tal Igreja está assim impelida a competir com os sistemas políticos e sociais – já que vítimas da mesma doença –, quiçá a tomar o lugar deles. Como eles, assinala-se a Igreja com um selo artificial, pré-fabricado nos cenáculos e nos clubes. A nova forma segundo a qual a “pastoral” modela as almas, como o escultor a argila, é “o Reino de Deus” aqui embaixo – o inverso da ascenção, a exaltação da queda, o sim ao Tentador que oferece os poderes da terra a quem se prostre em adoração ante ele. Agora se compreende o significado profundo da palavra do bispo Schmitt: “A socialização é uma graça”, e das declarações numerosas e paralelas de tantos prelados que introduzem, conforme a admirável fórmula de Dietrich Von Hildebrand, “o Cavalo de Tróia na Cidade de Deus”, ao falarem da identidade entre comunismo e cristianismo.

Evidentemente, essa “mutação” da Igreja não se operaria sem a “mutação” do homem moderno – fenômeno que analisamos neste livro.


Fizemos três incisões, se é lícito afirmá-lo, no tecido orgânico da humanidade sofredora.

Alguém pode se espantar por falarmos apenas de passagem sobre a arte e a sua decomposição atual: eis um caso evidente. A arte contemporânea (e a literatura) quer eximir-se da ordem do universo. Ela está em revolta permanente contra a condição humana. Ao termo da “liberação”, só lhe resta a atividade poética esvaziada de substância espiritual, intelectual e moral. Reduziu-se ela a um poder bruto que introduz uma forma informe, se é lícito afirmá-lo, numa matéria amorfa qualquer. O artista contemporâneo executa sobre o papel, a tela, o barro, o bronze etc., o que os “intelectuais”, os “cientistas”, os “informadores” – de quem falamos nos capítulos que lhes consagramos – querem fazer do mundo e do homem: um mundo que é só obra de homens, de homens que são obra apenas de si.

Estudamos com denodo três setores dentre os mais infectados da sociedade contemporânea. Os três grandes ídolos de nossa época são a intelligentzia e suas utopias; os “milagres” da Ciência, em maiúscula; e os Mass Media of Communication. Eles veiculam as forças que mais trabalham em prol da desintegração do mundo e do homem da civilização tradicional, assim como da petrificação e da modelagem do “novo mundo” e do “novo homem”. Demais tendem eles a se articular em um único mecanismo gigantesco, análogo às enormes linhas de montagem de carros – é a informação deformante generalizada e logo substituída pela “informática” psicossocial; o Admirável Mundo Novo, de Huxley, e o 1984, de George Orwell, nos descrevem seu extraordinário poder de transformação.

A inteligência está em perigo de morte.


Tilff-sur-Ourthe,

na véspera da Assunção de 1968.