terça-feira, agosto 31, 2010

Os Apotégmas dos Padres do Deserto (Parte VIII)

Capítulo VIII: Da fuga da notoriedade


1. Escutara o abade Antão a história dum jovem monge que operara um milagre enquanto caminhava: ao avistar uns anciãos que também faziam estrada e estavam fatigados, ordenara a uns onagros que aparecessem e lhes servissem de montaria até Antão. Apeados, os anciãos contaram o fato a Antão, que ripostou: “A mim esse monge parece um navio sobrecarregado de riquezas, mas ignoro se chega a surgir ao porto”. Pouco depois, começou a chorar o abade Antão e a se lamentar, arrancando os cabelos. A tal cena perguntaram os discípulos: “Pai, ¿por que choras?” – “Acabou de ruir uma grã coluna da Igreja”, respondeu ele. Referia-se ao jovem monge. Acrescentou ele: “Ide até onde ele e vede o que aconteceu”. Partiram os discípulos e depararam o monge sentado sobre uma esteira e deplorando seu pecado; quando notou os discípulos do ancião, lhes disse ele: “Dizei ao ancião para suplicar que Deus se digne ceder-me apenas dez dias, pois tenho esperanças de reparar o mal”. Mas cinco dias depois, estava ele morto. (Antão, 14).


2. Monges elogiaram um irmão na presença do abade Antão. Quando o irmão veio lhe ver, quis experimentá-lo o ancião a fim de saber se suportava a injúria; ao reconhecer que não, lhe disse ele: “És semelhante a uma casa de admirável fachada, mas em cujo interior roubam os ladrões.” (Antão, 15).


3. Contavam que o abade Arsênio e o abade Teodoro de Farméia detestavam os homens acima de tudo. Com pouca freqüência ia Arsênio à presença dum visitante. Já Teodoro ia, mas como quem trespassado por espada (Arsênio, 31).


4. O padre Eulógio foi discípulo do arcebispo João. Era o padre um asceta que só quebrava o jejum a cada dois dias, chegando em certas épocas a conservá-lo a semana inteira. Louvavam-no os homens, pois só comia pão e sal. Um dia foi até Panefo onde habitava o abade José, pois pensava encontrar lá nele supina austeridade. O ancião o acolheu com imenso gozo e lhe mandou preparar o que de comida havia, como testemunho de afeição. Disseram-lhe contudo os discípulos de Eulógio: “O padre só come pão e sal”. José continuava a comer sem falar palavra. Permaneceram Eulógio e os discípulos três dias nesse lugar sem que escutassem os discípulos de José orar ou salmodiar, pois que a obra espiritual deles se cumpria no secreto; sairam dali desedificados. Ora, por disposição divina cerrou a nebrina e os viajores erraram o caminho e retornaram até onde o ancião. Antes que batessem à porta, escutaram os irmãos a salmodiar; ficaram ali longo tempo a escutar e só então bateram, ao que lhes recebeu o ancião com alegria. Os discípulos de Eulógio pegaram uma quartinha [que acharam] e lhe deram a ele de beber, pois fazia calor: como era uma mistura de água do mar com água do rio, Eulógio não a conseguiu engolir. Caindo em si, prosternou-se Eulógio ante o ancião, no desejo de lhe obter o segredo de seu modo de vida: “¿Que quer dizer isso, Pai?”, lhe disse ele, “não salmodiáveis enquanto estávamos aqui, só começastes após nossa partida; em seguida, quando quis beber água, só a encontrei salobra.” Ripostou-lhe o ancião: “O irmão anda meio turbado; deve ter-se enganado e misturado por engano [a água doce] com água do mar.” Mas insistia Eulógio, pois queria conhecer a verdade. Acabou que lhe disse o ancião: “Aquela copita de vinho era obra da caridade; já essa água é a beberagem ordinária dos irmãos.” E assim lhe ensinou o ancião o discernimento dos pensamentos e desviou seus pensamentos das considerações humanas. Eulógio passou a agir como o ordinário das gentes e comia o que se lhe apresentava. Tambem aprendera Eulógio a como agir no secreto. Ao final disse ele ao ancião: “Decerto as obras vossas são isentas de hipocrisia.” (Eulógio).


5. Dizia o abade Zenão, o discípulo do abade Silvano: “Não habites jamais em lugares afamados, não residas com homem de grã reputação, nem faças fundações a tua cela”. (Zenão, 1).


6. Chegou-se um irmão até onde o abade Teodoro de Farméia e durante três dias lhe suplicou uma palavra, mas o abade não lhe respondia e o irmão se foi dali triste. Disse a Teodoro um discípulo: “Pai, ¿por que nada disseste? Ele se foi triste daqui.” – “Crê em mim, lhe respondeu o ancião, nada lhe disse porque é um traficante que quer gloriar-se com a palavra alheia.” (Teodoro de Farméia, 3).


7. Interrogou um irmão ao abade Teodoro: “¿Quereis permitir-me, Pai, não comer pão durante alguns dias?” Respondeu-lhe o ancião: “Bem farás; eu de mim farei o mesmo.” Acrescentou o irmão: “Vou levar ervilhas ao moinho e fazer farinha.” Replicou o abade Teodoro: “Se vais ao moinho, faze pão. ¿Mas há mister de ir até lá?” (Teodoro de Farméia, 7).


8. Um irmão foi encontrar-se com o abade Teodoro e disparou a falar e versar sobre assuntos de que não tinha experiência. Disse-lhe o ancião: “Ainda não achaste o navio, nem guardaste a bagagem e, mesmo antes de zarpar, eis tu já chegado à cidade aonde queres ir. Quando praticares tudo quanto me noticiaste, poderás falar comigo”. (Teodoro de Farméia, 9).


9. Contou o abade Cassiano que um irmão foi ao encontro do abade Serapião, que o convidou a recitar a prece cotidiana, mas o irmão recusou: confessava-se pecador, indigno de usar o hábito monacal. Quis o ancião lhe lavar os pés, mas com os mesmos protestos recusou-se de todo. Daí o ancião lhe deu de comer e com caridade lhe interpelou: “Meu filho, se queres progredir, fica na cela, vela sobre ti e aplica-te ao trabalho manual, pois para ti é melhor ficar que sair.” Com tais palavras irritou-se o irmão e deformou a cara, de modo que não pode disfarçar ao ancião. Disse-lhe o ancião: “Atequi dizias: ‘Sou pecador’, e te declaravas indigno de viver, mas porque te admoestei com caridade, ¿ficas assim irritado? Se queres deveras te tornar humilde, aprende a suportar com ganas o que vem dos outros, e não fales para que nada digas.” Ao escutar isso, o irmão fez uma metania defronte o ancião e se foi dali aproveitado. (Serapião, 4).


10. Certo dia o govenador da província teve notícias acerca do abade Moisés e foi até a Cítia vê-lo. Anunciaram ao ancião a visita, mas ele se refugiou no pântano. O governador com o séquito o encontrou: “Velho, disse ele, indica-nos onde é a cela do abade Moisés.” Ao que este respondeu: “¿Por que quereis vê-lo? ¡É um sandio e um herético!” Retornou o governador à igreja e disse aos religiosos: “Ouvir falar do abade Moisés e vim aqui a vê-lo. Mas deparamos um velho que ia ao Egito e lhe perguntamos onde era a cela do abade Moisés, ao que nos respondeu: ‘¿Por que o buscais? ¡É um sandio e um herético!’” Com tais palavras se afligiram os religiosos e perguntaram: “¿Como era o ancião que vo-lo disse?” – “Era um velho, espadaúdo, negro de pele e com roupas bem ruçadas”, ripostaram os recém-chegados. “¡Mas que era o abade Moisés em pessoa!, declararam os religiosos. Ele vos não queria receber, por isso falou nesse estilo.” O governador se foi dali edificado em extremo. (Moisés, 8).


11. Interrogou um irmão ao abade Matóis: “Se fosse eu morar nalgum lugar, ¿como deveria me comportar?” Respondeu-lhe o ancião: “Onde habitares, em nada busques nomeada, seja ao dizer: ‘Recuso-me a ir à assembléia dos irmãos’, ou ainda: ‘Não como tal ou qual coisa’. Tais práticas te darão um bafo de celebridade e bem logo sofrerás aborrecimentos, pois os homens acorrem ao sítio em que ouvem dizer que há coisas deste jaez”. (Motios, 1).


12. Cruzava o deserto o abade Nisteros o Grande junto a um irmão. Avistaram ambos uma serpe e deram às de vila-diogo. “¿Até tu tens medo, Pai?”, lhe disse o irmão. “Medo não tenho, meu filho, lhe respondeu o ancião, mas é salutar fugir à vista da serpente pois, como ela, não tenho como afugentar o demônio da vanglória”. (Nisteros, 1).


13. Certo dia quis o governador da província visitar o abade Pastor, mas este não lho consentira. Para lograr seu intento, mandou prender – juiz que era – o filho da irmã do abade, qual fosse ele um malfeitor, e jogou-o na prisão; depois fez saber de que relaxaria a pena se o ancião lhe viesse pedir a liberdade. Foi a mãe da criança até a morada do irmão, o abade Pastor, e derramou muitas lágrimas ante a porta da cela, mas ele não disse palavra. Golpeada de dor, pôs-se ela a lhe repreender: “Se teu coração é bronze, dizia ela, e não te demove a compaixão, ao menos tem piedade do teu sangue”. Contudo, mandou Pastor lhe ripostar que não tinha filho. Partiu dali sua irmã. Ciente do ocorrido, fez saber o governador: “Só uma palavra, e eu o soltarei”. Mas o ancião lhe mandou este recado: “Examina a causa segundo a lei; se é caso de morte, morra; se não é, faz como bem te saíres”. (Poemão, 5).


14. Disse o abade Pastor: “Que aprenda teu coração a observar o que tua língua ensina aos outros”. Disse ainda ele: “Quando falam, querem os homens parecer perfeitos; mas na prática dos dizeres, já não querem tanto.” (Poemão, 63 e 56).


15. Certo dia foi o abade Adelfo, outrora bispo de Nilópolis, render visita ao abade Sisóis à montanha. Quando estava prestes a retornar, Sisóis lhe ofereceu comida e aos discípulos ao despontar o dia; ora, aquele era dia de jejum. Já estavam aprestando a mesa, quando alguns irmãos bateram à porta de Sisóis. Disse ele a um seu discípulo: “Dá-lhes um pouco de caldo, pois estão fatigados.” Interveio o abade Adelfo: “Deixai-os esperar um tanto, para que não saiam por aí contando que Sisóis comia desde a manhã.” Cravou-lhe os olhos Sisóis, surpreso, e disse ao discípulo: “Vai logo e dá-lhes o que comer”. Quando viram o caldo, perguntaram os irmãos: “¿Tendes hóspedes? ¿Come convosco o ancião?” – “Decerto”, respondeu o outro. Atristaram-se os irmãos e começaram a dizer: “¡Que Deus vos perdoe por permitir que o ancião comesse a tais horas! ¿Não sabeis que ele o há de expiar dias a fio?” A tais palavras o bispo fez uma metania e disse ao ancião: “Pai, perdoa-me, pois cogitei ao estilo dos homens, mas agiste segundo Deus”. Ripostou-lhe o abade Sisóis: “Se vem do homem a glória do homem, e não de Deus, é sem consistência”. (Sisóis, 15)


16. O abade Amão de Raitu interrogou o abade Sisóis: “Quando leio as Escrituras, preocupo-me em aparelhar um discurso cuidado, com fito de responder às questões”. Respondeu-lhe o ancião: “Não é necessário: antes trata de adquirir o dom da palavra com a pureza do coração, e ficarás livre de tal preocupação”. (Sisóis, 17).


17. Certo dia foi-se o governador da província visitar o abade Simão, mas este, assim que o soube, pegou da correia que lhe servia de cinta e a usou para trepar numa palmeira, que começou a podar. Apropinquaram-se os visitantes e lhe perguntaram: “¿Onde está o ancião que habita neste ermo?” – “Aqui não há anacoretas”, respondeu ele. Ante tal resposta afastou-se o governador. (Simão, 1).


18. Certa outra vez, outro governador foi visitá-lo. Adiantaram-se os religiosos e disseram ao ancião: “Pai, prepara-te, pois o governador ouviu notícias sobre ti e vem te pedir a benção”. Respondeu ele: “Bem, vou-me preparar”. Vestiu-se de saco e, tomando pão e queijo, sentou-se à porta da cela e começou a comer. Com um séquito chegou o governador; quando viram o ancião, puseram-se a zombar dele dizendo: “¿É este o anacoreta de quem ouvimos dizer tantas virtudes?” E logo deram meia-volta para retornar a casa. (Simão, 2).


19. Disse Santa Sinclética: “Pilha-se o tesouro tão logo o descobrem; assim, arruina-se a virtude tão logo ganhe notoriedade pública. De fato, como o fogo derrete a cera, o louvor enfraquece o vigor e a energia da alma.” (Sinclética, 3).


20. Disse ela também: “É impossível ser ao mesmo tempo forragem e grão; assim, é impossível a quem possui a glória do mundo produzir fruto para o céu.” (Sinclética, 4).


21. Certo dia de festa nas Celas, comiam juntos os irmãos na igreja. Disse um deles a quem o servia: “Não como alimento cozido, somente sal com pão.” O servo chamou outro e lhe disse ante todos: “Este irmão cá não come alimento cozido; oferece-lhe sal.” Então se ergueu um ancião e disse: “Para ti melhor seria comer vianda na cela que te ouvir dizer isso na presença de tantos irmãos.” (N. 256).


22. Certo irmão, grande asceta e abstêmio de pão, rendeu visita a um ancião. Por obra da Providência, outros pelegrinos chegaram também. Preparou-lhe o ancião um caldo. Quando iam começar a comer, o asceta pegou um só grão embebido de grão de bico e o comeu. Após a refeição, o ancião chamou o irmão a parte e lhe disse: “Irmão, quando fores até onde alguém, não faças pregão de tua prática: se tens de observá-la, fica na tua cela e jamais saias.” Convenceu-se o irmão às palavras do ancião e, quando se via entre os irmãos, conformava-se aos usos comuns. (N. 257).


23. Disse um ancião: “A inquietação de agradar aos homens acaba com a corpulência espiritual e vos deixa descarnado.”


24. Disse um ancião: “Ou bem te apartas dos homens, ou bem escarneces do mundo e dos homens mundanos e faças-te de louco o mais que possas.” (N. 320).