quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte VI)

Capítulo VI: O monge não deve ter posses

1. Um irmão renunciara ao mundo e distribuiu seus bens aos pobres, conservando um pouco para si. Ele foi até a morada do abade Antão. O ancião teve notícia do fato e lhe disse: “Se queres te tornar monge, vai à vila, compra vianda, cobre com ela teu corpo nu e volta”. Obedeceu o irmão; os cães e os pássaros lhe rasgaram o corpo. De volta até a morada do abade Antão, o monge perguntou se ele cumprira a ordem e pediu para lhe ver o corpo rasgado. Foi quando lhe disse o santo: “Quem renuncia o mundo e quer ter dinheiro é dilacerado quando atacam-no os demônios”. (Antão, 20)

2. Segundo o abade Daniel, certo dia um servidor do império levou ao abade Arsênio o testamento dum senador de sua família que lhe deixava uma herança imensa. Arsênio pegou o testamento e quis rasgá-lo, mas o funcionário arrojou-se a seus pés: “Suplico-te, dizia ele, não no rasgues, que me cortam a cabeça!” Respondeu o abade Arsênio: “Mas antes que ele morresse, eu já era morto! Como poderia ele me instituir como herdeiro?” E devolveu o testamento sem aceitar coisa alguma”. (Arsênio, 29)

3. Certo dia na Cítia o abade Arsênio caiu doente; na sua miséria precisou duma soma insignificante de dinheiro; mas como nada tinha de seu, alguém lho deu como esmola, o que o fez dizer: “Agradeço-te, Senhor, de me tornar digno de recebê-la em teu nome; na precisão, implorei a caridade”. (Arsênio, 20)

4. Conta-se do abade Agatão o seguinte: ele dedicara muito tempo na construção duma cela junto com seus discípulos; quando ficou pronta, eles foram morar lá. Mas desde a primeira semana ele notou algo que lhe era molesto e disse aos discípulos: “Levantai-vos e saiamos daqui”. Eles ficaram comovidos e disseram: “Por que gastamos tanto tempo e trabalhos na construção desta cela, se a intenção estava toda em partir? As pessoas vão se escandalizar conosco e dizer: ‘Eis que aqueles volúveis vão se mudar mais uma vez!’” Vendo-os assim abatidos lhes respondeu ele: “Muitos podem se escandalizar, mas para outrem seremos motivo de edificação; eles dirão: ‘Felizes os homens que partiram pela causa de Deus e desprezam tudo’. Quem quiser vir, que venha; eu de mim me vou”. E os discípulos se prosternaram em terra, pedindo permissão para acompanhá-lo. (Agatão, 6)

5. Ensinava o abade Evagro: “Um irmão que de seu tinha só um evangelho vendeu-o para alimentar os pobres, dizendo esta palavra memorável: ‘Vendi a palavra que me ordena: Vende o que tu tens e dá aos pobres’ (Mt. 19, 21)”. (Evagro, Practicos 97; P.G. 40., 1249 D)

6. O abade Teodoro de Farméia possuia três livros preciosos. Ele foi em visita ao abade Macário e lhe disse: “Tenho três livros cuja leitura me agrada. Os irmão mos pedem para ler e tiram deles o mesmo proveito. Dize-me o que devo fazer”. Respondeu o ancião: “Bem, isso é bom, mas o melhor é nada possuir”. A essas palavras o abade Teodoro partiu para vender os livros em questão e deu o apurado para os pobres. (Teodoro de Farméia, 1)

7. Um Padre ensinava que a grande bondade do abade João o Persa o levara a uma inocência e simplicidade mui subidas. Ele habitava na Arábia do Egito. Certo dia tomou emprestado dum irmão uma peça d’oiro e comprou linho para trabalhar. Veio-lhe um irmão e disse suplicando: “Pai, tem a bondade de me dar um pouco de linho para eu costurar uma túnica”. Ele lho deu com alegria. Veio um segundo lhe pedir um pouco de linho para uma roupa; igualmente lho deu. A outros solicitadores ele deu levemente e com alegria. Por seu turno o mutuante da peça d’oiro apareceu e reclamou-a. Disse-lhe o velho: “Vou ta procurar e devolver”. Não tendo o que lhe dar, foi visitar o abade Tiago, o ecônomo, para pedir uma peça amoedada para dar ao irmão. Mas a meio caminho se deparou com uma peça d’oiro no chão; contudo não a tocou. Ele orou e retornou à cela. O irmão insistiu pela peça. Disse-lhe o macróbio: “Tudo bem, tens razão”. Ele arrepiou caminho e reencontrou a peça no mesmo sítio: orou novamente e retornou à cela. O irmão lhe veio importunar de novo. Disse-lhe então o velho: “Decerto, desta vez, ta entrego”. Arrepiou caminho, foi ao mesmo sítio e reencontrou a peça. Orou e a pegou. Ele foi até a morada do abade Tiago e lhe disse: “Pai, quando eu ia te visitar encontrei esta peça no caminho. Tem a caridade de perguntar se nas cercanias alguém a perdeu; se encontrares o proprietário, dá-la”. O econômo saiu e anunciou a descoberta durante três dias, mas não encontrou ninguém que havia perdido a peça. Então João disse ao abade Tiago: “Se ninguém a perdeu, dá-la ao irmão tal; com efeito eu lha devo. Encontrei-a quando vinha em busca do teu caridoso auxílio para pagar a dívida”. E o ecônomo ficou admirado de que, mesmo endividado, não ficasse logo com a peça encontrada para dá-la ao credor. Não menos admirável é que se alguém viesse lhe pedir algo emprestado, ele não dava com suas mãos mas dizia ao irmão: “Vai e pega o que precisas”. Se lhe devolviam o objeto, simplesmente dizia: “Põe no lugar”. Se o mutuário não lho devolvesse, não falava mais no assunto. (João o Persa, 2)

8. Um dos padres contou que no tempo do abade Isaque um irmão, vestido com um habito curto, certo dia foi à igreja das celas. O velho o expulsou dizendo: “Este é um lugar para os monges; tu que não passas dum secular não podes ficar aqui”. (Isaque das Celas, 8)

9. O abade Isaque dizia aos irmãos: “Nossos pais e o abade Pambo possuiam roupas velhas e remendadas. Mas agora tendes roupas luxuosas! Saí daqui, que convosco este lugar ficou deserto”. Quando eles iam fazer a colheita, lhes disse ele: “Não vos darei mais conselhos, pois não os escutais”. (Isaque, 7)

10. O abade Cassiano dizia que um senador renunciara ao mundo e distribuiu seus bens aos pobres, mas conservou uma parte para uso pessoal, pois não queria abraçar a humildade perfeita da renúncia total para além da regra comum dos monastérios. Basílio, de santa memória, lhe disse então: “Deixaste de ser senador, mas não és ainda monge”. (Cassiano, 7)

11. Um irmão disse ao abade Pistamão: “Que devo fazer? Estou encontrando dificuldade em vender o produto do meu trabalho manual”. Respondeu este: “O abade Sisóis e todos os outros vendiam seus trabalhos; nisso não há mal algum. Quando tu o venderes, diz antes de tudo o preço da mercadoria; se quiseres abaixá-lo um pouco, podes fazê-lo, e assim encontrarás paz”. Insistiu o irmão: “Se eu tiver mais do que preciso, me aconselhas a ainda me ocupar com os trabalhos manuais?” Respondeu-lhe o ancião: “Ainda que tenhas recursos, não negligencies o trabalho: faze-o enquanto possas, mas sem agitação”. (Pistamão,)

12. Um irmão interrogou o abade Serapião: “Pai, dize-me uma palavra”. Respondeu-lhe o ancião: “Que te diria eu? Tu pegaste os bens da viúva e do órfão e os puseste à tua janela”. Com efeito ele a tinha cheia de livros. (Serapião, 2)

13. Perguntaram a Sinclética, de bem-aventurada memória, se a pobreza era um benefício. “É um bem imenso para os capazes dela, respondeu, pois quem a pode suportar sofre na carne, mas tem repouso d’alma. Uma alma forte se fortalece mais e mais pela pobreza voluntária; ela se assemelha às roupas resistentes que se lavam e branqueiam batendo nas pedras e torcendo fortemente”. (Sinclética, 5)

14. Disse o abade Hiperéquios: “O tesouro do monge é a pobreza voluntária. Que o teu tesouro, ó monge, esteja no céu; lá te aguardam séculos sem fim de repouso”. (Hiperéquios, 6; Exhort. ad monachos, 40-41)

15. Um santo homem de nome Filagro habitava o deserto de Jerusalém e penava bastante para ganhar o pão. Certo dia, enquanto estava ele no mercado para vender o fruto de seu trabalho, alguém perdeu uma bolsa com mil peças d’oiro. O velho a encontrou e estacou naquele lugar, dizendo-se que quem a perdera havia decerto de voltar sem tardança. De fato, o homem retornou, aflito. O ancião levou-o a um canto e lhe devolveu a bolsa. O outro pediu para que aceitasse um tanto, mas o velho de todo recusou. E o outro começou a chorar: “Vinde ver o que fez um homem de Deus!” Mas o ancião escapou à furto e saiu da cidade para não ser reconhecido nem felicitado pela ação. (Filagro)

16. Um irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer para ser salvo?” Este desvestiu-se da túnica, cingiu os rins e estendeu as mãos ao céu dizendo: “Assim deve ser o monge: nu para as coisas materiais e crucificado para as tentações e provas deste mundo”. (N. 143)

17. Uma pessoa instou um ancião a aceitar dinheiro para ajudá-lo nas necessidades, mas este não o queria, pois o trabalho lhe asssegurava do necessário. Como o outro insistisse e suplicasse para aceitar pelo menos em nome dos pobres, lhe respondeu o ancião: “Seria para mim uma dupla vergonha: receberia a esmola sem precisão e recolheria a vã glória ao dá-la a outrem”. (N. 258)

18. Certo dia uns gregos foram a Ostracina para distribuir esmolas. Eles levaram consigo os ecônomos da igreja para que lhes apontassem os pobres mais necessitados. Os ecônomos os conduziram em primeiro lugar até um leproso e os gregos lhe quiseram fazer uma oferta. Mas este não quis receber coisa alguma e lhes disse: “Vedes estas palmas: eu as tranço e faço esteiras; como do pão que ganho”. A seguir conduziram-nos ao quarto que uma viúva ocupava com as filhas. Eles bateram à porta; a mãe saira para o trabalho. Uma das filhas foi atender mas estava sem roupa: a mãe que saíra para trabalhar era lavadeira. Os gregos deram à filha uma roupa e dinhero. Mas a criança não queria aceitar, pois sua mãe vinha de lhe dizer: “Tem confiança, Deus quis por bem que hoje eu encontrasse trabalho; teremos o que comer”. Quando a mãe retornou, os gregos instaram-na a aceitar alguma coisa, mas ela recusou e lhes disse: “Tenho meu Deus para atender minhas necessidades; agora quereis mo tirar?” Então vendo sua fé glorificaram a Deus. (N. 263)

19. Um generoso desconhecido levou à Cítia ouro e pediu ao padre desse deserto para distribuí-lo entre os irmãos. Respondeu o padre: “Os irmãos não têm precisão dele”. Como suas instâncias restaram ineficazes, o doador depôs uma corbelha cheia d’oiro à entrada da igreja; disse o padre: “Quem precise dele, pode pegá-lo”. Mas ninguém o tocou; alguns sequer o fitaram. Disse o ancião ao benfeitor: “Deus aceitou tua oferta; vai e dá aos pobres”. E o homem ficou muito edificado. (N. 259)

20. Uma pessoa ofereceu dinheiro a um ancião e lhe disse: “Toma-o para as tuas despesas, pois estás velho e doente”. Com efeito o ancião era leproso. Mas ele respondeu: “Após sessenta anos, tu me vens tirar o sustento? Eis que de há muito estou neste estado e nada me falta: Deus me dá o necessário e me alimenta”. E não quis nada. (N. 260)

21. Os anciãos contavam que um jardineiro trabalhava e gastava em esmolas tudo que ganhava, guardando para si só o necessário para comer. Ao fim de certo tempo o demônio lhe meteu estes pensamentos no coração: “Separa um pouco de dinheiro: terás precisão dele quando ficares velho ou doente”. Ele começou a entesourar e encheu uma bilha de moedinhas. Ora ele caiu doente: o pé gangrenava; ele gastou com médicos o que ajuntara, mas sem proveito. Veio depois um médico experimentado que lhe disse: “Se não cortas o pé, estás perdido”. Eles marcaram o dia da operação mas, na noite anterior, o ancião entrou em consideração. Arrependeu-se do que fizera e desatou a chorar: “Senhor, gemia ele, lembrai-vos das minhas boas obras d’outrora, quando trabalhava no jardim para socorrer os pobres”. A essas palavras o anjo do Senhor apareceu ante ele e lhe disse: “Onde está o dinheiro que separaste, e onde puseste tua esperança?” O ancião entendeu a lição: “Senhor, eu pequei, disse ele, perdoai-me! Doravante não faço de novo”. Então o anjo lhe tocou o pé, que ficou curado. De manhã o ancião foi trabalhar no campo. Como avençado veio o médico com seus instrumentos para lhe cortar o pé. Disseram-lhe que o ancião saíra para trabalhar no campo. O outro, admirado, foi até lá e vendo-o labutar, glorificou a Deus que lhe devolveu a saúde. (N. 261)

22. Um irmão perguntou a um ancião: “Permites-me guardar duas peças d’oiro para cuidar de minhas enfermidades?” O velho logo viu que seu desejo era o de conservá-las consigo; assim lhe respondeu ele: “Sim”. Entrado na cela a inquietude se apoderou do irmão, que se perguntava: “O ancião foi sincero ou não?” Reencontrou-se com o velho, lhe fez uma metania e perguntou instante: “Em nome do Senhor, dize-me a verdade, pois meus pensamentos me confundem por conta destas duas peças d’oiro”. Respondeu-lhe o ancião: “Disse para guardá-las, pois bem vi que esse era o teu desejo; todavia não é bom guardar mais que o necessário para o corpo. Se guardas estas duas peças d’oiro, nelas porás a esperança. E se chegas a perdê-las, Deus não se ocupará mais de ti. Depositemos as preocupações no Senhor, pois ele é quem cuida de nós”. (N. 262)

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