quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte VI)

Capítulo VI: O monge não deve ter posses

1. Um irmão renunciara ao mundo e distribuiu seus bens aos pobres, conservando um pouco para si. Ele foi até a morada do abade Antão. O ancião teve notícia do fato e lhe disse: “Se queres te tornar monge, vai à vila, compra vianda, cobre com ela teu corpo nu e volta”. Obedeceu o irmão; os cães e os pássaros lhe rasgaram o corpo. De volta até a morada do abade Antão, o monge perguntou se ele cumprira a ordem e pediu para lhe ver o corpo rasgado. Foi quando lhe disse o santo: “Quem renuncia o mundo e quer ter dinheiro é dilacerado quando atacam-no os demônios”. (Antão, 20)

2. Segundo o abade Daniel, certo dia um servidor do império levou ao abade Arsênio o testamento dum senador de sua família que lhe deixava uma herança imensa. Arsênio pegou o testamento e quis rasgá-lo, mas o funcionário arrojou-se a seus pés: “Suplico-te, dizia ele, não no rasgues, que me cortam a cabeça!” Respondeu o abade Arsênio: “Mas antes que ele morresse, eu já era morto! Como poderia ele me instituir como herdeiro?” E devolveu o testamento sem aceitar coisa alguma”. (Arsênio, 29)

3. Certo dia na Cítia o abade Arsênio caiu doente; na sua miséria precisou duma soma insignificante de dinheiro; mas como nada tinha de seu, alguém lho deu como esmola, o que o fez dizer: “Agradeço-te, Senhor, de me tornar digno de recebê-la em teu nome; na precisão, implorei a caridade”. (Arsênio, 20)

4. Conta-se do abade Agatão o seguinte: ele dedicara muito tempo na construção duma cela junto com seus discípulos; quando ficou pronta, eles foram morar lá. Mas desde a primeira semana ele notou algo que lhe era molesto e disse aos discípulos: “Levantai-vos e saiamos daqui”. Eles ficaram comovidos e disseram: “Por que gastamos tanto tempo e trabalhos na construção desta cela, se a intenção estava toda em partir? As pessoas vão se escandalizar conosco e dizer: ‘Eis que aqueles volúveis vão se mudar mais uma vez!’” Vendo-os assim abatidos lhes respondeu ele: “Muitos podem se escandalizar, mas para outrem seremos motivo de edificação; eles dirão: ‘Felizes os homens que partiram pela causa de Deus e desprezam tudo’. Quem quiser vir, que venha; eu de mim me vou”. E os discípulos se prosternaram em terra, pedindo permissão para acompanhá-lo. (Agatão, 6)

5. Ensinava o abade Evagro: “Um irmão que de seu tinha só um evangelho vendeu-o para alimentar os pobres, dizendo esta palavra memorável: ‘Vendi a palavra que me ordena: Vende o que tu tens e dá aos pobres’ (Mt. 19, 21)”. (Evagro, Practicos 97; P.G. 40., 1249 D)

6. O abade Teodoro de Farméia possuia três livros preciosos. Ele foi em visita ao abade Macário e lhe disse: “Tenho três livros cuja leitura me agrada. Os irmão mos pedem para ler e tiram deles o mesmo proveito. Dize-me o que devo fazer”. Respondeu o ancião: “Bem, isso é bom, mas o melhor é nada possuir”. A essas palavras o abade Teodoro partiu para vender os livros em questão e deu o apurado para os pobres. (Teodoro de Farméia, 1)

7. Um Padre ensinava que a grande bondade do abade João o Persa o levara a uma inocência e simplicidade mui subidas. Ele habitava na Arábia do Egito. Certo dia tomou emprestado dum irmão uma peça d’oiro e comprou linho para trabalhar. Veio-lhe um irmão e disse suplicando: “Pai, tem a bondade de me dar um pouco de linho para eu costurar uma túnica”. Ele lho deu com alegria. Veio um segundo lhe pedir um pouco de linho para uma roupa; igualmente lho deu. A outros solicitadores ele deu levemente e com alegria. Por seu turno o mutuante da peça d’oiro apareceu e reclamou-a. Disse-lhe o velho: “Vou ta procurar e devolver”. Não tendo o que lhe dar, foi visitar o abade Tiago, o ecônomo, para pedir uma peça amoedada para dar ao irmão. Mas a meio caminho se deparou com uma peça d’oiro no chão; contudo não a tocou. Ele orou e retornou à cela. O irmão insistiu pela peça. Disse-lhe o macróbio: “Tudo bem, tens razão”. Ele arrepiou caminho e reencontrou a peça no mesmo sítio: orou novamente e retornou à cela. O irmão lhe veio importunar de novo. Disse-lhe então o velho: “Decerto, desta vez, ta entrego”. Arrepiou caminho, foi ao mesmo sítio e reencontrou a peça. Orou e a pegou. Ele foi até a morada do abade Tiago e lhe disse: “Pai, quando eu ia te visitar encontrei esta peça no caminho. Tem a caridade de perguntar se nas cercanias alguém a perdeu; se encontrares o proprietário, dá-la”. O econômo saiu e anunciou a descoberta durante três dias, mas não encontrou ninguém que havia perdido a peça. Então João disse ao abade Tiago: “Se ninguém a perdeu, dá-la ao irmão tal; com efeito eu lha devo. Encontrei-a quando vinha em busca do teu caridoso auxílio para pagar a dívida”. E o ecônomo ficou admirado de que, mesmo endividado, não ficasse logo com a peça encontrada para dá-la ao credor. Não menos admirável é que se alguém viesse lhe pedir algo emprestado, ele não dava com suas mãos mas dizia ao irmão: “Vai e pega o que precisas”. Se lhe devolviam o objeto, simplesmente dizia: “Põe no lugar”. Se o mutuário não lho devolvesse, não falava mais no assunto. (João o Persa, 2)

8. Um dos padres contou que no tempo do abade Isaque um irmão, vestido com um habito curto, certo dia foi à igreja das celas. O velho o expulsou dizendo: “Este é um lugar para os monges; tu que não passas dum secular não podes ficar aqui”. (Isaque das Celas, 8)

9. O abade Isaque dizia aos irmãos: “Nossos pais e o abade Pambo possuiam roupas velhas e remendadas. Mas agora tendes roupas luxuosas! Saí daqui, que convosco este lugar ficou deserto”. Quando eles iam fazer a colheita, lhes disse ele: “Não vos darei mais conselhos, pois não os escutais”. (Isaque, 7)

10. O abade Cassiano dizia que um senador renunciara ao mundo e distribuiu seus bens aos pobres, mas conservou uma parte para uso pessoal, pois não queria abraçar a humildade perfeita da renúncia total para além da regra comum dos monastérios. Basílio, de santa memória, lhe disse então: “Deixaste de ser senador, mas não és ainda monge”. (Cassiano, 7)

11. Um irmão disse ao abade Pistamão: “Que devo fazer? Estou encontrando dificuldade em vender o produto do meu trabalho manual”. Respondeu este: “O abade Sisóis e todos os outros vendiam seus trabalhos; nisso não há mal algum. Quando tu o venderes, diz antes de tudo o preço da mercadoria; se quiseres abaixá-lo um pouco, podes fazê-lo, e assim encontrarás paz”. Insistiu o irmão: “Se eu tiver mais do que preciso, me aconselhas a ainda me ocupar com os trabalhos manuais?” Respondeu-lhe o ancião: “Ainda que tenhas recursos, não negligencies o trabalho: faze-o enquanto possas, mas sem agitação”. (Pistamão,)

12. Um irmão interrogou o abade Serapião: “Pai, dize-me uma palavra”. Respondeu-lhe o ancião: “Que te diria eu? Tu pegaste os bens da viúva e do órfão e os puseste à tua janela”. Com efeito ele a tinha cheia de livros. (Serapião, 2)

13. Perguntaram a Sinclética, de bem-aventurada memória, se a pobreza era um benefício. “É um bem imenso para os capazes dela, respondeu, pois quem a pode suportar sofre na carne, mas tem repouso d’alma. Uma alma forte se fortalece mais e mais pela pobreza voluntária; ela se assemelha às roupas resistentes que se lavam e branqueiam batendo nas pedras e torcendo fortemente”. (Sinclética, 5)

14. Disse o abade Hiperéquios: “O tesouro do monge é a pobreza voluntária. Que o teu tesouro, ó monge, esteja no céu; lá te aguardam séculos sem fim de repouso”. (Hiperéquios, 6; Exhort. ad monachos, 40-41)

15. Um santo homem de nome Filagro habitava o deserto de Jerusalém e penava bastante para ganhar o pão. Certo dia, enquanto estava ele no mercado para vender o fruto de seu trabalho, alguém perdeu uma bolsa com mil peças d’oiro. O velho a encontrou e estacou naquele lugar, dizendo-se que quem a perdera havia decerto de voltar sem tardança. De fato, o homem retornou, aflito. O ancião levou-o a um canto e lhe devolveu a bolsa. O outro pediu para que aceitasse um tanto, mas o velho de todo recusou. E o outro começou a chorar: “Vinde ver o que fez um homem de Deus!” Mas o ancião escapou à furto e saiu da cidade para não ser reconhecido nem felicitado pela ação. (Filagro)

16. Um irmão perguntou a um ancião: “Que devo fazer para ser salvo?” Este desvestiu-se da túnica, cingiu os rins e estendeu as mãos ao céu dizendo: “Assim deve ser o monge: nu para as coisas materiais e crucificado para as tentações e provas deste mundo”. (N. 143)

17. Uma pessoa instou um ancião a aceitar dinheiro para ajudá-lo nas necessidades, mas este não o queria, pois o trabalho lhe asssegurava do necessário. Como o outro insistisse e suplicasse para aceitar pelo menos em nome dos pobres, lhe respondeu o ancião: “Seria para mim uma dupla vergonha: receberia a esmola sem precisão e recolheria a vã glória ao dá-la a outrem”. (N. 258)

18. Certo dia uns gregos foram a Ostracina para distribuir esmolas. Eles levaram consigo os ecônomos da igreja para que lhes apontassem os pobres mais necessitados. Os ecônomos os conduziram em primeiro lugar até um leproso e os gregos lhe quiseram fazer uma oferta. Mas este não quis receber coisa alguma e lhes disse: “Vedes estas palmas: eu as tranço e faço esteiras; como do pão que ganho”. A seguir conduziram-nos ao quarto que uma viúva ocupava com as filhas. Eles bateram à porta; a mãe saira para o trabalho. Uma das filhas foi atender mas estava sem roupa: a mãe que saíra para trabalhar era lavadeira. Os gregos deram à filha uma roupa e dinhero. Mas a criança não queria aceitar, pois sua mãe vinha de lhe dizer: “Tem confiança, Deus quis por bem que hoje eu encontrasse trabalho; teremos o que comer”. Quando a mãe retornou, os gregos instaram-na a aceitar alguma coisa, mas ela recusou e lhes disse: “Tenho meu Deus para atender minhas necessidades; agora quereis mo tirar?” Então vendo sua fé glorificaram a Deus. (N. 263)

19. Um generoso desconhecido levou à Cítia ouro e pediu ao padre desse deserto para distribuí-lo entre os irmãos. Respondeu o padre: “Os irmãos não têm precisão dele”. Como suas instâncias restaram ineficazes, o doador depôs uma corbelha cheia d’oiro à entrada da igreja; disse o padre: “Quem precise dele, pode pegá-lo”. Mas ninguém o tocou; alguns sequer o fitaram. Disse o ancião ao benfeitor: “Deus aceitou tua oferta; vai e dá aos pobres”. E o homem ficou muito edificado. (N. 259)

20. Uma pessoa ofereceu dinheiro a um ancião e lhe disse: “Toma-o para as tuas despesas, pois estás velho e doente”. Com efeito o ancião era leproso. Mas ele respondeu: “Após sessenta anos, tu me vens tirar o sustento? Eis que de há muito estou neste estado e nada me falta: Deus me dá o necessário e me alimenta”. E não quis nada. (N. 260)

21. Os anciãos contavam que um jardineiro trabalhava e gastava em esmolas tudo que ganhava, guardando para si só o necessário para comer. Ao fim de certo tempo o demônio lhe meteu estes pensamentos no coração: “Separa um pouco de dinheiro: terás precisão dele quando ficares velho ou doente”. Ele começou a entesourar e encheu uma bilha de moedinhas. Ora ele caiu doente: o pé gangrenava; ele gastou com médicos o que ajuntara, mas sem proveito. Veio depois um médico experimentado que lhe disse: “Se não cortas o pé, estás perdido”. Eles marcaram o dia da operação mas, na noite anterior, o ancião entrou em consideração. Arrependeu-se do que fizera e desatou a chorar: “Senhor, gemia ele, lembrai-vos das minhas boas obras d’outrora, quando trabalhava no jardim para socorrer os pobres”. A essas palavras o anjo do Senhor apareceu ante ele e lhe disse: “Onde está o dinheiro que separaste, e onde puseste tua esperança?” O ancião entendeu a lição: “Senhor, eu pequei, disse ele, perdoai-me! Doravante não faço de novo”. Então o anjo lhe tocou o pé, que ficou curado. De manhã o ancião foi trabalhar no campo. Como avençado veio o médico com seus instrumentos para lhe cortar o pé. Disseram-lhe que o ancião saíra para trabalhar no campo. O outro, admirado, foi até lá e vendo-o labutar, glorificou a Deus que lhe devolveu a saúde. (N. 261)

22. Um irmão perguntou a um ancião: “Permites-me guardar duas peças d’oiro para cuidar de minhas enfermidades?” O velho logo viu que seu desejo era o de conservá-las consigo; assim lhe respondeu ele: “Sim”. Entrado na cela a inquietude se apoderou do irmão, que se perguntava: “O ancião foi sincero ou não?” Reencontrou-se com o velho, lhe fez uma metania e perguntou instante: “Em nome do Senhor, dize-me a verdade, pois meus pensamentos me confundem por conta destas duas peças d’oiro”. Respondeu-lhe o ancião: “Disse para guardá-las, pois bem vi que esse era o teu desejo; todavia não é bom guardar mais que o necessário para o corpo. Se guardas estas duas peças d’oiro, nelas porás a esperança. E se chegas a perdê-las, Deus não se ocupará mais de ti. Depositemos as preocupações no Senhor, pois ele é quem cuida de nós”. (N. 262)

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte V)

Capítulo Cinco: Da Impureza

1. Disse o abade Antão: “No meu parecer o corpo tem movimentos carnais que lhe são inatos; tornam-se sem efeito se não lhes há consentimento, contudo eles só traem no corpo um movimento sem paixão, se é lícito dizê-lo. Outros movimentos provêm da saciedade do corpo e dos cozimentos do alimento e da bebida: o calor do sangue excita o corpo ao ato; daí aquilo do Apóstolo: ‘Não vos embriagueis de vinho, que é fonte de luxúria’ (Ef. 5, 18). Ademais, no Evangelho o Senhor disse como instrução aos discípulos: ‘Guardai-vos a vós e temei que vossos corações não se inebriem na luxúria e na embriaguez’. (Lc. 21, 34) Enfim, existe outra espécie de movimentos carnais entre os que militam na vida monástica: eles provêm das armadilhas e do ódio do demônio. Deste modo é preciso saber que há três espécies de movimentos carnais: os da natureza, os da abundância de alimento e, os últimos, dos demônios”. (Antão, 22; Carta 1, 35-41)

2. Disse o abade Geronto de Petra: “Muitos dos tentados pelas voluptuosidades corporais não pecam com o corpo, mas cometem a impureza em pensamento. Ao passo que guardam a virgindade de corpo, cometem a impureza com a alma. Por isso, meus bem amados, é bem fazer o que está escrito: ‘Que cada um guarde seu coração com todo o denodo’ (Pr. 4, 23).” (Geronto, 1)

3. Disse o abade Cassiano: “Isto nos ensinou o abade Moisés: ‘Não é bom afugentar os pensamentos, mas revelá-los a anciãos espirituais e com espírito de discernimento, e não a anciãos que o são apenas em idade. Com efeito, ao se fiar somente na idade, muitos monges disseram os pensamentos a gentes inexperientes, e em lugar de conseguir consolo, caíram no mais profundo desespero’”. (Cassiano, Conferência 2, 10-13)

4. Disse ainda: “Um irmão era cheio de zelo na observâcia, mas atormentado pelo demônio da impureza. Ele se foi encontrar com um ancião e lhe revelar seus pensamentos. Ao contá-los o ancião, a quem faltava discernimento, indignou-se e lhe disse: ‘Miserável! Quem tem semelhantes pensamentos não é mais digno de vestir o hábito monástico!” Ao ouvir tais palavras o irmão, desperado, abandonou a cela para retornar ao mundo. Mas uma disposição divina fê-lo topar com o abade Apolônio. Este vendo-o perturbado e exaurido de tristeza lhe perguntou: ‘Meu filho, qual a causa de tal tristeza?’ Nada lhe respondeu o outro, tamanha era sua vergonha, mas como o ancião o cumulava de perguntas para saber a causa, ele terminou por confessar: ‘Pensamentos impuros me atormentam; deles falei para um ancião: segundo ele já não me resta esperança alguma de salvação. Fiquei desesperado e retornei ao mundo’. Em resposta o abade Apolônio, qual um médico sábio, começou a animá-lo e a exortá-lo instantemente: ‘Meu filho, lhe dizia ele, não te espantes com teres tais pensamentos, nem te desesperes de ti mesmo. Eu mesmo, malgrado minha idade e maneira de viver, sou agoniado por pensamentos desse gênero. Não percas a coragem em meio às dificuldades: não são tanto nossos esforços, mas a misericórdia divina que os põe a termo. Por agora só te peço isto: retorna à tua cela’. Assim fez o irmão. Ao deixá-lo o abade Apolônio se dirigiu à cela do ancião que o fez cair em desespero. Ele ficou do lado de fora e pôs-se a suplicar a Deus com lágrimas dizendo: ‘Senhor, vós que suscitais as tentações para nosso proveito, afligi este ancião com a guerra que o irmão sustenta, para que na velhice aprenda por experiência o que os anos não no ensinaram. Que enfim tenha ele piedade dos perturbados com tais tentações!”. Terminada a oração, ele viu um etíope que estava próximo à cela e atirava setas contra o ancião. Este como trespassado logo se pôs a correr de lá para cá, como um homem ébrio; já não suportando mais, saiu da cela e, traçando o mesmo caminho do jovem monge, aprestava-se para retornar ao mundo. Compreendendo o que se passava, o abade Apolônio foi a seu encontro e lhe disse ao se aproximar dele: ‘Aonde vais? E porque tal agitação?’ O outro sentiu que o santo homem compreendera o que acontecera; confundido, não lhe respondeu nada. Disse-lhe então o abade Apolônio: ‘Retorna a tua cela e doravante reconhece tua fraqueza. Considera no fundo do teu coração que o diabo te ignorou ou te desprezou até agora, porque não tiveste sequer o mérito de travar combates contra ele, como os homens virtuosos. Que digo eu, combates? Tu não pudeste suportar um só recontro. Isso te ocorreu porque, ao receber um jovem homem atormentado pelo inimigo comum, em lugar de fortalecê-lo com palavras reconfortantes contra os ataques do demônio, levaste-o ao desespero, esquecendo o mandamento discretíssimo que nos ordena socorrer os ameaçados pela morte e salvar os que sofrem o suplício. (Pr. 24, 11) Tu esqueceste também esta palavra do Nosso Salvador que nos disse: ‘Não quebres o caniço rachado nem apagues a mecha ainda fumegante’ (Mt. 12, 20) Ninguém suportaria os ataques do inimigo nem os ardores da natureza sem a graça de Deus, que protege a fraqueza humana. Oremos a Ele instantemente para que Sua providência benfazeja arrede a flama que te enviou, pois é Ele que nos envia o sofrimento e nos santifica; Ele fere e Sua mão cura; Ele humilha e depois alevanta; Ele dá a morte e revivifica; Ele faz descer à morada dos mortos e fá-los subir novamente’. (1Re. 2, 6-7) Dito isso o ancião pôs-se em oração e se viu logo livre das tentações. Ato contínuo o abade Apolônio lhe aconselhou pedir a Deus a graça duma língua que saiba falar a bom falar”. (Cassiano, Col. 2, Ch. 13)

5-6. Interrogaram o abade Ciro de Alexandria acerca dos pensamentos impuros. “Se não tens tais pensamentos, não há esperanças para ti, pois se tu não tens pensamentos, é porque cometes os atos. Explico-me: se alguém não tem mister de lutar em pensamento contra o pecado, e não se lhe opõe com toda a alma, é dizer que ele pecou com o corpo. Quem peca com o corpo não é agoniado pelos pensamentos”.

Um ancião interrogou o irmão: “Não tens o hábito de conversar com mulher?” – “Não, respondeu o irmão, são pinturas antigas e modernas que me causam os pensamentos e me perturbam com lembranças de imagens de mulheres”. Disse-lhe então o ancião: “Não temas a morte, mas foge dos vivos, i. e., dos consentimentos e dos atos culpáveis. E sobretudo, reza ainda mais”. (Ciro, 1)

7. O abade Matóis contou isto: “Um irmão que veio me ver quis-me convencer que a maledicência é pior que a impureza. Respondi-lhe: ‘Exageras’ – ‘E por quê?’, me perguntou ele. Disse-lhe eu: ‘A maledicência é um mal, mas se cura rapidamente: o mais da vezes quem peca assim se penitencia dizendo: Falei mal, e está limpo, mas a impureza normalmente conduz à morte’”.(Matóis, 8)

8. Disse o abade Pastor: “Como o guarda que fica aos costados do príncipe, preparado para todo imprevisto, a alma há de estar sempre preparada contra o demônio da impureza”. (Poemão, 14)

9. Um irmão foi até a morada do abade Pastor e lhe disse: “Pai, que faço? Sofro tentações de impureza; fui até a morada do abade Ibistião, e ele me disse que não devia eu lhes permitir que se demorassem em mim”. Disse então o abade Pastor: “A vida do abade Ibistião se passa na companhia dos anjos, no mais alto do céu; ele ignora que nós, tu e eu, somos atormentados pela impureza. Se o monge permanece no deserto retendo a língua e o apetite, pode ficar tranqüilo que não morrerá”. (Poemão, 62)

10. Conta-se que o demônio da impureza atacou violentamente nossa mãe Sara durante treze anos, e nunca em sua oração ela pediu o livrar-se do combate; ela tão-só dizia: “Senhor, daí-me força”. (Sara, 1)

11. Acerca disso ainda se contava: Certo dia, esse demônio da impureza atacava-a mais sanhudamente que nunca e lhe sugeriu o pensamento de vaidades do mundo; mas ela, não menos sanhuda do temor de Deus e dos propósitos de ascese, subiu no teto [da cela] para orar. O demônio impuro visibilizou-se e lhe disse: “Tu me venceste, Sara” – “Não, não te venci, lhe respondeu ela, mas o Cristo meu Senhor”. (Sara, 2)

12. A impureza atacou um irmão; a refrega era como um fogo que ardia no peito dia e noite. Ele pelejava sem comprazer-se nem consentir com seu pensamento. Muito tempo depois a tentação se afastou, pois não pudera vencer sua perseverança. E logo uma luz penetrou no seu coração. (N. 163)

13. A impureza atacou outro irmão; durante a noite ele se levantou e foi até a morada de um ancião, a quem revelou seus pensamentos. O ancião o consolou; reconfortado, o irmão reentrou na cela. Mas ainda o tentava o espírito de impureza, e a coisa se repetiu mais e mais vezes. O ancião não o desencorajava, antes o esperançava com a utilidade da tentação e lhe dizia: “Não cedas ao demônio; não te deixes levar mas, ao contrário, a cada ataque do demônio vem me encontrar, e o demônio abatido vai se distanciar Nada repugna tanto ao espírito de impureza quanto a confissão dos seus ataques; nada contudo lhe regozija mais que a escondedura dos pensamentos”. Em onze investidas o irmão fora abrir-se com o ancião e na última vez lhe disse: “Pai, sê caridoso e dize-me uma palavra”. Respondeu-lhe então o ancião: “Crê em mim, meu filho, se Deus permitisse que os pensamentos que assombram minh’alma se pudessem transmitir à tua, não os suportarias e tombarias para o bem fundo”. As palavras do ancião, devido à virtude de sua grande humildade, pacificaram o aguilhão da impureza no irmão. (N. 164)

14. A impureza atacou outro irmão; ele começou a lutar e a redobrar a ascese. Durante quatorze anos ele não consentira ao mau desejo. Enfim compareceu à assembléia e revelou a todo o mundo o de que sofria. Todos receberam ordens de se esforçar para socorrê-lo; rezaram a Deus por ele incessantemente durante uma semana. Daí a tentação arrefeceu. (N. 165)

15. Um velho eremita dizia acerca dos pensamentos impuros: “Queres tu ser salvo após a morte? Labuta, penaliza-te, busca e encontrarás; vela, disciplina-te e abrir-se-te-á. No mundo os atletas são coroados quando mantiveram-se firmes sob a avalancha de golpes e mostraram-se fortes. Amiúde o atleta combate a um contra dois, mas excitado pelos golpes triunfa dos que o golpearam. Vê quamanho esforço ele sustenta nos exercícios físicos. Pois bem! sê firme e forte tu também, e o Senhor há de combater o inimigo em teu lugar”. (N. 166)

16. Ao discursar sobre os pensamentos impuros, dizia um ancião: “Faz como o que passa na praça defronte o albergue: ele sente os cheiros da cozinha e dos cozidos; se o cheiro lhe agrada entra e toma a refeição; se não, sente tão-somente o odor e segue seu caminho. Imita-o, afasta o mau odor e dedica-se a orar dizendo: ‘Filho de Deus, socorrei-me!’. Faze-o também para afastar outros pensamentos. Ademais, não somos desarraigadores, mas lidadores”. (N. 167)

17. Outro ancião disse acerca dos pensamentos impuros: “Toleramo-los devido à negligência; pois se estamos convencidos de que Deus habita em nós, jamais introduziríamos nele nada de estranho: o Senhor Cristo que faz morada em nós e vive conosco é testemunha de nossa vida. Por isso nós que trazemo-lO e contemplamo-lO não devemos nos neglicenciar a nós, mas nos santificar, como ele mesmo é santo. Chatemo-nos na Pedra; o rio nos há de açoitar com suas vagas, mas tu não o temerás, pois não corres o risco de sossobrar. Canta a alma tranquila: ‘Quem confia no Senhor se parece com a montanha de Sião: nunca será abalado o que habita em Jerusalém (Sl. 124, 1)”. (N. 78-79)

18. Um irmão perguntou a um ancião: “Se o monge sucumbe à tentação, não experimenta a angústia de sair do progresso ao regresso, bem como o dever de atormentar a si até que se reerga? E ao contrário, o que vem do mundo progride, porque começa do começo”. Respondeu-lhe o ancião: “O monge que sucumbe à tentação é semelhante à casa desabada. Se vela sobre seus pensamentos, reconstrói a casa derruída, pois encontra aí muito material: as fundações, as pedras, o madeirame; ele pode avançar em seu trabalho rapidamente, mais que quem não cavou nem ergueu as fundações, e nem nada do que é necessário, mas que se põe à obra com quase só a esperança de algum dia terminar. É assim o trabalho do monge: se ele sucumbe à tentação e retorna em direitura ao Senhor, tem ao pé de si a obra: a meditação da lei divina, o salmodia, o trabalho manual, a oração e tudo que sirva de apoio. Ao passo que o noviço aprende toda a tarefa, ele retorna a seu antigo posto”. (N. 168)

19. Um irmão a quem atormentava o demônio da impureza rendeu visita a um grande ancião e lhe suplicou dizendo: “Pai, tem a caridade de orar por mim, pois a impureza me atormenta”. O ancião orou ao Senhor, mas o irmão retornou ao pé dele e lhe repetiu a súplica. De si o ancião não negava orar a Deus por ele. “Senhor, suplicava ele, mostrai-me a causa da ação diabólica neste irmão, pois apesar de orar a Vós ele não reencontrou a paz”. Mostrou-lhe o Senhor o que se passava: o ancião viu o irmão sentado próximo ao demônio da impureza, que parece jogava com ele. O anjo enviado para socorro lá estava irritado, pois o irmão se não prosternava ante Deus, mas parecia se comprazer nos seus próprios pensamentos, nos quais de todo se transportava. O ancião compreendeu que o ponto era a falta do irmão: “Tu consentes aos teus pensamentos”, lhe disse ele e o ensinou a como resistir a tais sortes de pensamentos. O irmão, acalmado pela oração e ensino do ancião, encontrou repouso. (N. 169)

20. A impureza combatia o discípulo dum grande ancião. O ancião que lhe via em pena lhe disse: “Se quiseres, vou orar ao Senhor para te tirar dessa luta”. Mas respondeu o outro: “Pai, bem sei que estou penando, mas sinto também o fruto que em mim nasce dessa pena. Antes pede a Deus de me dar a força para suportar”. Disse-lhe então o seu abade: “Vejo agora, meu filho, que fizeste grande progresso e me superaste”. (N. 170)

21. Conta-se que um ancião foi de visita à Cítia com seu filho, que ainda era de peito como se criara no monastério, ignorava o que fossem mulheres. Quando veio a ser homem os demônios lhe figuraram imagens de mulheres, mas como ele se espantasse, deu notícia a seu pai. Ora certo dia foram ambos ao Egito; ao ver mulheres o moço disse a seu pai: “Pai, são eles que me vêm visitar na Cítia durante a noite!” – “Eles são monges que vivem no mundo, meu filho, lhe respondeu ele; eles se vestem deste modo, e os eremitas doutro”. O ancião se admirou que os demônios lhe tivessem mostrado na Cítia imagens de mulheres – e logo retornaram à cela. (N. 171)

22. Na Cítia havia um irmão, lidador experimentado. O inimigo lhe trazia à fantasia uma mulher graciosa e o atormentava deveras. Ora, por um efeito da Providência, outro irmão desceu do Egito à Cítia e, durante a conversação, lhe noticiou que a mulher de alguém morrera. Era justamente a que o atormentava. Ante essa notícia ele pegou seu manto e partiu de noite para o sítio onde a sabia enterrada. Ele escavou a sepultura e embebeu o manto no líqüido que porejava do cadáver. O fedor era intolerável, mas ele guardou aquele chorume consigo e combatia seus pensamentos dizendo: “Eis o que te espicaça; pois bem, tu o tens. Refastela-te”. E se impôs a si o tormento daquela podridão até que a refrega se tranqüilizasse nele. (N. 172)

23. Certo dia um homem foi à Cítia para se tornar monge. Consigo trazia o filho, que acabara de se desaleitar. Quando este tornou-se um jovem homem, os demônios começaram a atacá-lo e a tentá-lo. Disse ele então a seu pai: “Vou retornar ao mundo, pois não consigo tolher as paixões do corpo”. O pai o encorajava, mas o filho tornou a dizer: “Não tenho mais forças, Pai, deixa-me ir”. Disse-lhe então o pai: “Meu filho, escuta-me ainda mais uma vez: toma quarenta pães e folhas de palma para quarenta dias de trabalho. Vai para os longes do deserto e fica lá quarenta dias – e que seja feita a vontade de Deus!”. O jovem obedeceu a seu pai: tomou caminho e partiu para o deserto. Demorou-se por lá e deu-se a extremos trançando cordas de palmas secas e comendo pão seco. Depois de passados vinte dias na hesequia, ele viu se aproximar uma aparição diabólica: uma espécie de etíope se apresentou ante ele: ela era tão nojosa e dum ordor tão nauseante que ele não podia suportar a fetidez, lançando-a para longe de si. Disse-lhe então ela: “Sou aquela que parece suave ao coração humano; mas por causa da obediência e da ascese perseverante, Deus me não permitiu seduzir-te, dando-te a conhecer minha corrupção”. O monge foi-se dali e, dando graças a Deus, retornou até a morada de seu pai: “Pai, não mais quero voltar ao mundo, pois vi a obra do demônio e lhe senti o odor”. O pai, que recebeu uma revelação sobre a matéria, lhe disse: “Se permaneceras quarenta dias e observaras meu preceito, haverias de ter visto bem melhor”. (N. 173)

24. Um ancião habitava no grande deserto. Havia uma sua parenta que lhe desejava ver após muitos anos. Ela se informou do local onde ele morava e se pôs a caminho; ela topou com alguns cameleiros, a eles se juntou e adentrou o deserto em sua companhia. Ora o diabo era quem a levava. Ao chegar à porta do ancião ela se apresentou: “Sou eu, tua parenta”, e passou a morar com ele. Outro anacoreta, que vivia na parte inferior do deserto, encheu d’água a sua bilha na hora da refeição. De chofre a bilha emborcou e a água se derramou. Então, sob inspiração divina, ele disse para si: “Irei ao deserto dizer aos anciãos o que essa água me inspirou”, e foi-se ele. À noite ele dormiu dentro dum templo pagão que ficava no caminho. Durante a madrugada escutou os demônios conversarem: “Esta noite fizemos cair na impureza um anacoreta”. Ao ouvir tais palavras o irmão ficou pasmado. Ao chegar à morada do ancião, encontrou-o triste e lhe disse: “Que devo fazer, Pai? Eu enchi d’água minha bilha, mas ela emborcou no momento da refeição”. Respondeu-lhe o ancião: “Tu vens me interrogar porque tua bilha emborcou no momento da refeição, mas o que devo eu fazer, que nesta noite caí na impureza”. – “Eu o sabia”, respondeu o outro. “Tu? Como se deu isso?” – “Eu dormia num templo e escutei os demônios a falar de ti”. – “Arre! Vou retornar ao mundo”. Mas suplicava-lhe o irmão: “Não, Pai, fica aqui e despede esta mulher; ela veio aqui por culpa do inimigo”. O ancião o escutou e retomou coragem; redobrou a ascese e derramava lágrimas até que retornou ao estado antigo. (N. 176)

25. Disse um ancião: “A ausência de preocupação (amerímnia), o silêncio e a meditação no secreto engendram a pureza”. (N. 127)

26. Um irmão interrogou um ancião: “Se alguém sucumbe à tentação, qual não será o escândalo dos outros?”. O ancião lhe contou esta história: “Havia um diácono mui conhecido no cenóbio do Egito. Um magistrado perseguido pelo governador refugiara-se e sua família neste monastério. Sob os auspícios do maligno o diácono pecou com a mulher do magistrado, e todos os irmãos se cobriram de vergonha. O diácono foi ver um ancião a quem amava e lhe narrou o fato. Ora esse ancião tinha dentro da cela um esconderijo; quando o diácono o viu lhe disse: “Enterra-me vivo neste lugar e não digas a ninguém”; ele se meteu nesse reduto obscuro e fez verdadeira penitência. Muito tempo depois a enchente do Nilo parou de ocorrer. Enquanto todos rezavam um ancião teve a revelação de que a água só subiria se o diácono que estava escondido na cela dum outro ancião viesse rezar também. Ao saber disso os irmãos, admiradíssimos, tiraram-no do esconderijo onde se encontrava: ele começou a orar e a água subiu. Assim os antes escandalizados de sua conduta admiraram sua penitência e glorificaram a Deus”. (N. 177)

27. Dois irmãos foram à cidade para vender o seu fabrico. Na cidade ambos se separaram, e um deles caiu na impureza. Pouco mais tarde o outro irmão retornou e lhe disse: “Irmão, retornemos para a nossa cela”. – “Não, não vou para lá”, respondeu o outro. – “Por quê, meu irmão?” – “Quando me deixaste, confessou ele, fui tentado e cai na impureza”. Mas seu irmão qui-lo convencer e começou a lhe dizer: “O mesmo aconteceu comigo: depois que te deixei, cai eu também na impureza. Mas retornemos ambos, façamos penitência com todas as nossas forças, e Deus perdoará os pecadores que somos”. Quando retornaram às suas celas, contaram aos anciãos o que acontecera, e estes lhes prescrevam o modo por que deviam se penitenciar. Todavia um deles não se penitenciava por si, mas pelo irmão, e como se ele mesmo pecara. Mas Deus, vendo a disciplina a que se submetia por amor, após alguns dias revelou a um dos anciãos que perdoava o que caíra na impureza devido à grande caridade do que não pecou. Eis o que se chama dar a vida pelo irmão”. (N. 179)

28. Certo dia um irmão foi dizer a um ancião: “Pai, meu irmão me deixou para ir não sei onde e por isso sofro”. Encorajou-o o ancião: “Irmão, suporta sem te irritares e Deus, que vê a paciência com que obras, o trará para perto de ti. Bem sabes que a severidade e a dureza não mudam facilmente a idéia de uma pessoa. Tu o trarás pela mansidão. Nosso Senhor atrai as almas pela persuasão”. E ele contou a história seguinte: “Dois irmãos viviam na Tebaida, e um deles tentado pela impureza disse ao outro: ‘Vou retornar ao mundo’. Chorando o outro lhe respondeu: ‘Irmão, não quero deixar-te partir e perder a virgindade e o fruto dos teus trabalhos’. Mas o primeiro não aceitava: ‘Não quero ficar aqui, vou-me embora; das duas uma: ou tu vens comigo, e após retornarei contigo, ou deixa-me partir, e permanecerei no mundo’. Nosso irmão se foi a contar tudo a um grande ancião. ‘Vai com ele, aconselhara este, e Deus por conta da pena que sofres não o deixará sucumbir’. Ambos os irmãos retornaram ao mundo e no momento em que chegaram à cidade Deus, que via a pena do que acompanhava o irmão por amor e necessidade, suprimiu do outro o desejo mau’. ‘Irmão, disse o irmão tentado, retornemos ao deserto; suponhamos que tenha eu pecado com mulher: de que me serviria?’ E eles retornaram indenes às suas celas”. (N. 180)

29. Tentado pelo demônio um irmão foi dizer a um ancião: “Dois irmãos que andam juntos agiram mal”. O ancião percebeu que ele estava influído pelo demônio e mandou-o buscar os dois irmãos. Caindo a noite o ancião estendeu uma esteira e após lhes cobriu com um pano dizendo: “Os filhos de Deus têm alma magnânima e santa”. Em seguida disse a seu discípulo: “Fecha aquel'outro irmão sozinho numa cela, pois ele tem o vício de que acusa os outros”. (N. 181)

30. Um irmão disse a um ancião: “Que devo fazer, pois um pensamento vergonhoso me angustia?” Respondeu-lhe o ancião: “Quando uma mulher quer desmamar o filho, ela esfrega o seio nalgo amargo; quando a criança lhe vem mamar como sói, ela sente o amargor e larga o seio. Põe também tu algo de amargo no pensamento” “- E que seria tal coisa?” – “A meditação da morte e dos sofrimentos preparados para os pecadores no século futuro”. (N. 182)

31. Um irmão pediu a um ancião conselho acerca dos pensamentos impuros. Respondeu-lhe o ancião: “Nunca tive de lutar neste campo de batalha”. Descoroçoado o irmão foi até outro ancião e disse: “Eis o que ele me disse; fiquei sem coragem, pois suas palavras ultrapassam as forças humanas”. Respondeu-lhe o outro: “Esse homem de Deus não to disse sem motivos; vá pois fazer uma metania ao pé dele para que ele te faça conhecer o sentido dessas palavras”. O irmão retornou à morada o velho, fez uma metania e lhe disse: “Pai, perdoa-me, pois fui tolo de ter partido sem dizer adeus. Mas rogo-te, explica-me porque a impureza te não turba?” Respondeu-lhe o ancião: “Desde que sou monge não me sacio de pão, nem d’água, nem de sono; como não me deixo em paz o tormento das privações não me permitem sentir o aguilhão da impureza”. O irmão foi embora edificado pela resposta do ancião. (N. 183)

32. Um irmão interrogou um ancião: “Pai, que devo eu fazer: penso todo o tempo em impureza, não tenho repouso; minh’alma está exaurida!” Respondeu-lhe o ancião: “Quando os demônios metem pensamentos em teu coração sem que percebas, não te ponhas a discutir interiormente. Com efeito a função dos demônios é sugerir o mal; mas se bem que eles se não privem de fazê-lo, eles te não podem forçar. Depende de ti aceitar ou não.” – “Mas que fazer, respondeu o irmão, já que sou fraco e a paixão me domina?” – “Presta atenção ao que te vou dizer, acrescentou o ancião. Sabes o que fizeram os medianitas: ataviaram suas filhas com todos os adereços, as puseram à vista dos israelitas, mas não forçaram a ninguém a pecar com elas. Na sua indignação os israelistas os ameaçaram e vingaram-se matando os autores dessa impureza (cf. Nb. 25). Devemos fazer o mesmo contra a impureza: quando ela começa a te falar no fundo do coração, não lhe respondas, mas te levanta, faz uma metania e ora dizendo: ‘Filho de Deus, tende piedade de mim!’ Disse-lhe então o irmão: “Pai, eu medito, mas meu coração não se compunge, pois não compreendo o sentido das palavras”. – “Medita mesmo assim, respondeu o ancião; escutei o abade Pastor e muitos outros Padres dizerem que o encantador de serpentes não atina o significado das palavras que pronuncia, mas a serpente que o escuta o compreende, se humilha e se submete. Pois bem, façamos o mesmo! ainda que ignoremos o sentido das palavras que pronunciamos, os demônios que as escutam se amedrontam e fogem”. (N. 184)

33. Disse um ancião: “Os pensamentos impuros são como o papiro: quando jogados sobre nós, se os arredamos sem consentimentos, eles se rasgam facilmente; mas se tão logo se nos apresente o recebemos com prazer e consentimento, eles vem a ser como o ferro, difícil de partir. Devemos pois usar de discernimento ante tais pensamentos, pois para quem consente com eles não há esperança de salvação; já uma coroa está reservada para quem não consente com eles”.

34. Dois irmãos a quem a impureza combatia tomaram mulheres para si; mas depois se disseram entre si: “Que ganharíamos em abandonar a condição dos anjos por este estado de corrupção ao qual se seguirá o fogo e as maldições? Retornemos ao deserto e façamos penitência por o que ousamos cometer”. De volta ao deserto eles confessaram sua falta e pediram aos anciãos que lhes impusessem uma penitência . Os anciãos os encerraram durante um ano inteiro e deram a cada um a mesma quantidade de pão e de água. Ora, de compleição ambos eram iguais. Quando cumpriu-se o tempo da penitência saíram: os anciãos viram que um estava exangue e triste, e o outro saudável e contente, e disso se espantaram pois os irmãos receberam a mesma quantidade de alimento e bebida. Eles interrogaram o que estava triste e abatido: “Sobre que meditavas na tua cela?”, lhe disseram eles. Respondeu-lhes: “Pensava no mal que fiz e na punição que vou receber; o temor me colou a pele nos ossos”. Interrogado o outro por seu turno lhes respondeu: “Dava graças a Deus de haver me livrado das sujidades deste mundo e me reconduzido ao estado angelical; ficava cheio de contentamento ao pensar continuamente em Deus”. Os anciãos lhes disseram que suas penitências tinham igual valor aos olhos de Deus. (N. 186)

35. Na Cítia um ancião estava gravemente doente e os irmãos serviam-no. Vendo o trabalho que lhes dava disse o ancião: “Vou ao Egito para não incomodar mais estes irmãos”. Mas o abade Moisés lhe aconselhou: “Não vai, pois lá cairás na impureza”. O ancião atristou-se e replicou: “Meu corpo esta morto e tu me dizes isso?” Ele partiu então para o Egito. À nova de sua chegada os habitantes dos arredores lhe levaram muitos presentes – até mesmo uma virgem fiel ia servir o velho doente. Pouco tempo depois, restabelecido, ele pecou com ela e ela concebeu. Os habitantes da vila lhe perguntaram de quem ela concebera e ela respondeu: “O filho é desse velho”, mas não queriam acreditar nela. Disse-lhes o ancião: “Decerto é meu filho; cuidai por mim da criança que ela dará ao mundo”. Após o nascimento da criança e seu desaleitamento, o velho o montou sobre os ombros e foi à Cítia num dia de festa; ele adentrou a igreja diante de todos os irmãos, que começaram a chorar ao vê-lo. “Vede esta criança, lhes disse ele; é o filho de minha desobediência. Guardai-vos, meus irmãos, pois que fi-lo em minha velhice – e orai por mim!” Após o quê, reencontrou sua cela e recomeçou do começo seu antigo modo de vida. (N. 187)

36. Os demônios tentaram violentamente um irmão: eles se metamorfosearam em graciosas mulheres e durante quarenta dias seguidos se esforçaram para que ele cometesse o pecado. Mas como ele resistisse virilmente sem se deixar vencer Deus, que via a bonita peleja, lhe concedeu a cegueira para a tentação carnal. (N. 188)

37. Um anacoreta vivia no Baixo-Egito. Ele era mui célebre, sendo o único de seu monastério que vivera na solidão; mas por instigação do diabo uma mulher depravada, ao escutar falar dele, disse a algums moços: “Que me dareis vós para que faça cair vosso anacoreta?”, e esses avançaram o preço. Ela partiu à noite e foi até a cela, fingindo estar apavorada. Bateu na porta; o anacoreta saiu e ficou turbado ao vê-la. “Como chegaste até aqui?”, lhe disse ele. “É que eu me perdi”, respondeu ela chorando. Confrangido de piedade o monge fê-la entrar na morada; ele reentrou na cela e se trancou. Mas a desgraçada começou a gritar: “Pai, as bestas ferozes me vão devorar!” Perturbou-se novamente o monge e disse, no temor do julgamento de Deus: “Donde me vem esta dureza [de coração]?” Ele abriu a porta e fê-la entrar. O diabo começou a lhe picar o coração com frechas, e o monge compreendeu que as pontadas vinham do demônio. “Os caminhos do inimigo são trevas, se disse a si, mas o Filho de Deus é luz”. Ergueu-se para acender a lamparina, mas a paixão o devorava. “Ah!, pensava ele, os que cometem tal vão a tormentos. Pois bem!, prova-te: podes tu suportar o fogo eterno?” Enfiou um dedo no fogo, que o queimou e consumiu; contudo, ele nada sentiu, tamanha a violência da flama dos desejos maus. E assim fez até o amanhecer, queimando todos os dedos. Quanto à desgraçada, sentiu ela tal medo ao assistir a cena que ficou petrificada. No primeiro claro do dia os moços foram até a morada do anacoreta e lhe disseram: “Veio aqui uma mulher ontem à noite?” – “Sim, respondeu ele, e foi ali que ela dormiu”. Eles entraram e descobriram-na morta. “Pai!, gritaram eles, está morta!” Então ele retirou brucamente seu manto e lhes mostrou as mãos: “Eis o que me fez esta filha do diabo: perdeu todos os meus dedos”. E contou-lhes o ocorrido e acrescentou: “Está escrito: não pagues o mal com o mal”. Ele pôs-se em oração e a ressussitou. A mulher se converteu e doravante manteve boa conduta. (N. 189)

38. Tentado pela impureza um irmão fora até uma vila do Egito e viu a filha dum sacerdote pagão; tomou-se de paixão e disse a seu pai: “Dá-me a ela por mulher”. Mas o outro respondeu: “Não ta posso dar antes de interrogar meu deus”. Ele se dirigiu ao demônio ao qual adorava e lhe disse: “Veio me ver um monge, pois deseja desposar minha filha. Devo dá-la a ele?” Respondeu-lhe o demônio: “Pede-lhe que renegue a seu Deus, seu batismo e sua profissão monástica”. O sacerdote voltou até ao monge: “Renega teu Deus, teu batismo e tua profissão monástica, e depois dar-te-ei minha filha”. O irmão aceitou e logo viu uma pomba sair de sua boca e voar para o céu. O sacerdote mais uma vez consultou o demônio: “Ele prometeu fazer as três coisas”, lhe disse ele. Mas o outro respondeu: “Não lhe deis tua filha em casamento, pois seu Deus não o abandonou e ainda o ajuda”. O sacerdote retornou e falou ao irmão: “Não te posso dar minha filha, porque teu Deus não te abandonou e ainda te ajuda”. Ao escutar isso, o irmão se disse: “Deus me demonstra tanta bondade enquanto eu, miserável, o renego a Ele, a meu batismo e a minha profissão. É verdadeiramente bom o Deus que vem ao socorro do crápula que agora sou. Por que eu o abandonaria?" De novo na sua razão ele recobrou a calma e foi ao deserto até a morada dum grande ancião lhe contar o acontecido. Disse-lhe o ancião: “Fica comigo nesta gruta e jejua três semanas seguidas; vou orar a Deus por ti”. O velho começou a se disciplinar em favor do irmão e suplicou a Deus dizendo: “Senhor, imploro-vos, dai-me esta alma e recebei sua penitência”. E Deus o ouviu. Ao fim da primeira semana o ancião foi até onde o irmão e lhe perguntou se vira alguma coisa: “Sim, respondeu ele, vi a pomba acima da minha cabeça, no bem alto do céu” – “Vigia-te bem, disse o ancião, e ora a Deus com todas as forças”. Após a segunda semana retornou o ancião: “Viste algo?” – “Vi a pomba se aproximar da minha cabeça”, disse o irmão. O ancião lhe recomendou controlar os pensamentos e orar. Ao fim da terceira semana reveio o velho mais uma vez: “Nada viste de mais?”, perguntou ele. E o irmão respondeu: “Vi vir a pomba, que pousou na minha cabeça. Estiquei o braço para agarrá-la mas, alçando vôo, ela entrou na minha boca”. Então o velho rendeu graças a Deus e disse ao irmão: “Eia! Deus aceitou tua penitência. No futuro sê mais atento e guarda-te a ti”. Respondeu-lhe o irmão: “Doravante, fico contigo até a morte”. (N. 190)

39. Um ancião de Tebas contou este passo: “Eu era filho dum sacerdote pagão. Durante minha infância eu ficava no tempo e amiúde via meu pai entrar no santuário para oferecer sacrifícios ao ídolo. Certa vez entrei à furto após ele e vi satã na sua sé rodeado por seu exército. Um dos seus comandantes lhe veio adorar: “Donde vens tu?”, lhe disse satã, e aquele demônio lhe respondeu: “Estava num tal país onde suscitei guerras e grandes perturbações, nas quais se derramou sangue. Eu vim para to anunciar”. Interrogou-o satã: “Em quanto tempo tu o fizeste?” – “Em trinta dias”. Satã ordenou que lhe vergastassem e disse: “Tanto tempo para só isso!” Outro demônio lhe veio adorar: “Donde vens tu?”, lhe disse ele. “Estava sobre o mar; suscitei tempestades, engolfei navios e matei grosas de homens. Eu vim para to anunciar” – “Em quanto tempo tu o fizeste?”, perguntou satã. “Em vinte dias”. Satã ordenou que lhe vergastassem como ao outro e disse: “Por que levaste tantos dias para fazê-lo?” Veio um terceiro demônio adorá-lo. “E tu, donde vens?”, lhe disse ele. “Estava em tal cidade. Num casamento excitei rivalidades, fiz espalhar muito sangue e, em particular, consegui a morte do marido. Eu vim para to anunciar”. – “Em quanto tempo tu o fizeste?” – “Em dez dias” – e satã ordenou que lhe vergastassem pelo muito tempo que levara. Ainda outro demônio veio adorá-lo. “Donde vens tu?”, lhe disse ele. “Estava no deserto: lutava há quarenta anos contra um monge e, nesta noite, fi-lo cair na impureza”. Quando satã escutou isso se levantou e o abraçou e depois, tirando a coroa de si, lha pôs na cabeça e mandou-o sentar no trono onde estava, dizendo: “Eis um grande feito que me trazes, digno de um valente!” E acrescentava o ancião: “Eu que escutava e via aquilo tudo dizia comigo: ‘Verdadeiramente o estado monástico é algo de grande’”. (N. 191)

40. Após sua conversão um ancião que vivera no mundo era freqüentemente solicitado pela lembrança de sua mulher. Ele se abriu com os anciãos e estes, sabendo que era um lidador e fazia mais do que se lhe pedia, lhe impuseram uma tarefa capaz de enfraquecê-lo a tal ponto que se não aguentaria de pé. Por efeito da Providência um Pai andava por ali indo à Cítia. Ao passar perto da cela do ancião viu-a aberta, mas prosseguiu caminho admirado de que ninguém lhe saísse ao encontro. Ele voltou e bateu à porta: “O irmão que habita aqui, pensava ele, talvez esteja doente”. Ele entrou e encontrou nosso irmão sofrendo muito. “Pai, que tens?”, lhe disse ele; e o outro lhe contou sua história: “Eu vivi no mundo e agora o inimigo me atormenta com as imagens de minha mulher. Disse-o aos padres, que me impuseram diversas práticas. Quis cumpri-las à risca, mas agora me falecem forças, e contudo a tentação aumenta”. A essas palavras o velho penalizou-se e lhe respondeu: “Decerto os Padres, como gentes autorizadas, tiveram razão em te impor trabalhos esgotantes. Mas no meu humilde parecer, rejeita tudo isso, come um pouco quando convier para refazer-te as forças, recita um tanto o Ofício Divino e entrega-te a Deus, pois não podes triunfar com tuas próprias forças. Nosso corpo é como uma vestimenta: se cuidamos dela, dura; se a negligenciamos, desgasta-se”. O irmão fez o que se lhe disse e alguns dias depois a tentação foi embora. (N. 174)

41. Um anacoreta muito provado na vida espiritual morava outrora numa montanha na vertente que defrontava Antioquia. Muitos aproveitavam suas palavras como seus exemplos. Assim o adversário o quis ensoberbecer, como faz às gentes virtuosas. Ele lhe sugeriu, sob o disfarce da piedade, o pensamento seguinte: “Não deves pedir ajuda nem serviço a outrem; mas ao contrário deverás servi-los; se tu não o fazes, ao menos serve-te a ti mesmo. Vai à cidade e vende os cestos que fizeste e compra o de que necessitas; após retorna pressuroso para a solidão e não sejas pesado a ninguém”. Essas eram as sugestões do demônio ciumento de sua hesequia, do tempo que passava a louvar a Deus e do muito proveito que tirava. O inimigo se impacientava em lhe pegar no armadilha e fazê-lo cair. O anacoreta, contente do que acreditava ser uma boa idéia, ia sair da cela. Ele a quem todos admiravam ignorava contudo esses tipos de armadilhas. Muito tempo depois ele se encontrou com uma mulher; vulnerado por conta da falta de vigilância, ele tomou-se de paixão. Foi até um lugar deserto e com o diabo seguindo seus passos pecou às margens dum rio.

O arrependimento abateu-se sobre si logo que o inimigo se regozijou de sua queda; ele ficou desesperado, pois ofendera grandemente o Espírito de Deus, os anjos e os santos Padres, dos quais muitos triunfaram dos demônios – até dentro das cidades. Desesperado por não poder ser semelhantes a eles, esquecia que Deus dá forças aos que se voltam piamente para Ele. Na sua cegueira não enxergava como emendar sua falta e quisera se jogar no rio para tornar completa a alegria do demônio. O sofrimento intenso adoentou-o, e se a misericórdia de Deus não o houvesse socorrido, estaria morto sem penitência, para a maior alegria do inimigo. De volta à sua razão ele se propôs submeter-se à lida rija duma penitência agra e quisera rogar a Deus entre lágrimas e luto. Então retornou à cela, ferrolhou a porta e desatou a chorar, suplicando a Deus como se faz a um morto. De tanto velar e jejuar a força se lhe escapava do corpo; ele enlanguecia, contudo não estava certo de que sua penitência era bastante. Amiúde os irmãos iam-lhe visitar para seu proveito, batendo-lhe à porta: mas ele lhes repondia que não a podia abrir: “Fiz voto de durante um ano inteiro levar uma vida de penitência. Orai por mim!” Não sabia que responder sem escandalizar os que soubessem da sua queda, pois era tido por todos por monge respeitável e valoroso. Durante o ano inteiro foi jejuador infatigável e penitente ardoroso. Mas na Páscoa, na noite da Ressurreição do Senhor, pegou uma lâmpada nova, pô-la num vaso novo – que cobriu com um pano – e começou a rezar desde aquela hora: “Ó Deus compassivo e misericordioso, vós que podeis salvar até os Bárbaros e conduzi-los ao conhecimento da verdade, eis que me refugio ao pé de vós que sois o Salvador dos vossos fiéis; tende piedade de mim que tanto vos decepcionei: fui o escárnio do inimigo e morri ao obedecê-lo. Vós Senhor que tendes piedade até dos impiedosos, vós que ordenais ter piedade do próximo, tende piedade da minha abjeção. Nada vos é impossível, e eis que minh’alma é arrastada como poeira nas orlas do inferno. Tende piedade de mim, pois sois bondoso e misericordioso para vossa criatura, vós que ressuscitareis os corpos que já não são no dia da Ressurreição. Ouvi-me Senhor, meu coração fraqueja e minh’alma é bem desinfeliz. Meu corpo que manchei está para morrer. Falta-me a força de viver, porque não fui digno de confiança. Perdoai-me o pecado cuja penitência faço – redobrado pecado por conta de meu desespero. Daí-me a vida e eu serei refeito; ordenai a vosso fogo alumiar esta lâmpada. Recebendo a garantia da vossa misericórdia e da vossa indulgência pelo resto da vida que me deis, guardarei teus mandamentos, me não distanciarei do vosso temor e servir-Vos-ei ainda mais fielmente que outrora”. Havendo rezado nesse estilo e chorado copiosamente durante a noite da Ressurreição, ergueu-se para ver se a lâmpada estava alumiada e, tirando o pano do vaso, viu-a ainda apagada. Ele caiu novamente de cara na terra e disse ao Senhor em oração: “Senhor, bem sei que eu me queria coroar, mas não me mantive firme pois, para gozar dos prazeres sensuais, preferi ser condenado ao suplício dos malditos. Perdoai-me Senhor, confesso novamente a vossa bondade a minha vergonha, perante os anjos e perante os justos; confessá-lo-ia mesmo até perante os homens, se eles se não escandalizassem. Meu Deus, tende piedade de mim a fim de que possa eu ensinar a outros; sim Senhor, daí-me a vida”. Ele orou nesse estilo três vezes e foi escutado: ao se levantar viu na lâmpada um brilho refulgente. Então enbriagado de esperança e fortificado pela alegria do coração, admirou a graça de Deus que assim lhe perdoava os pecados e lhe dava garantia plena – segundo sua demanda e desejo. “Rendo-vos graças, Senhor, dizia ele, pois tivestes piedade de mim que sou indigno de viver neste mundo, e me renovastes a confiança por esse sinal maravilhoso e inaudito. Vós sois misericordioso para as almas que criastes – vós as poupais!” Surgia a alvorada, e ainda ele continuava seu canto de louvor e se regozijava no Senhor sem pensar em comer. Quanto ao fogo da lâmpada, ele o alimentara durante todo o tempo de sua vida, vertendo-lhe azeite à medida que se consumia e cuidando para que se não extinguisse. O Espírito Santo fez nova morada nesse monge que se tornou célebre entre todos; ele dava testemunho de sua humildade cantando ao Senhor e lhe rendendo graças alegremente. Finalmente ele recebeu a revelação de que iria morrer dentro de alguns dias. (N. 175).