terça-feira, janeiro 19, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte IV)

Capítulo Quatro: Do Domínio de Si.

1. Quiseram alguns irmãos da Cítia visitar o abade Antão. Entraram num barco onde encontraram um ancião, que queria também ele ir até onde Antão, mas não abiam os irmãos desse propósito. Sentados no barco, discorriam-se sobre as sentenças dos Padres ou das Escrituras ou ainda sobre os trabalhos manuais. O ancião, no entanto, guardava silêncio. Ao aportarem souberam que o ancião ia ele também até onde o abade Antão. Quando chegaram à morada de Santo Antão, este disse: aos irmãos “- Encontrastes bom companheiro de viagem na pessoa deste ancião”. E ao ancião: “- Estáveis entre bons irmãos, Pai!” Respondeu-lhe o ancião: “- Bons eles são, mas sua morada não tem porta: qualquer um entra no estábulo e desamarra o burro!” Ele falava assim porque os irmãos diziam tudo o que lhes passava na cabeça. (Antão, 18)

2. O abade Daniel contava que o abade Arsênio passava a noite a velar. Quando velava a noite inteira e na entremanhã queria dormir, para satisfazer à natureza, dizia ao sono: “- Vem, escravo miserável!” e sentado dormitava à furto para logo se levantar. (Arsênio, 14)

3. Dizia o abade Arsênio: “Ao monge, se é fragueiro, basta dormir uma hora”. (Arsênio, 15)

4. Dizia o abade Daniel: “O abade Arsênio morou anos entre nós; dávamos-lhe a cada ano uma só medida de trigo e mesmo assim, todas as vezes que íamos vê-lo, comíamos dela!”. (Arsênio, 17)

5. Dizia ainda o abade Daniel que o abade Arsênio só trocava uma vez por ano a água com que limpava as palmas [com que trançava]; o mais do tempo contentava-se de completá-la. Com as palmas fazia esteiras que cosia até a hora sexta. Os anciãos lhe perguntaram porque não trocava a água das palmas, que cheirava mal. “Eu preciso, respondeu ele, usar agora desse fedor em troca dos perfumes e óleos cheirosos de que me servia no mundo”. (Arsênio, 18)

6. Conta ele ainda: “Quando o abade Arsênio percebia que os frutos de cada espécie estavam maduros, mandava trazê-los e provava uma só vez um pouco de cada um, dando graças a Deus”. (Arsênio, 19)

7. Conta-se que o abade Agatão ficou com um calhau na boca durante três anos, até que conseguisse guardar silêncio. (Agatão, 15)

8. Certo dia o abade Agatão viajava com seus discípulos. Um deles encontrou no caminho um saquinho com pêras verdes e disse ao ancião: “Pai, se quiseres, eu o levo.” Espantado, Agatão se voltou e disse: “Foste tu que o puseste lá?” – “Não”, respondeu o irmão. – “Como, retrucou o ancião, queres levar o que não depositaste!”. (Agatão, 11)

9. Certo dia um ancião que fora à morada do abade Aquilies percebeu que este cuspia sangue: “Que é isto, Pai?”, lhe perguntou ele. – “Isto aí, respondeu, é a palavra dum irmão, a qual me contristou e que me vi forçado a guardar em mim sem retrucá-lo. Rezei a Deus para tirar de mim essa palavra, que se tornou em sangue em minha boca. E eis que a cuspi: reencontrei a paz e esqueci a tristeza”. (Aquiles, 4)

10. Certo dia na Cítia o abade Aquiles adentrou na cela do abade Isaías e o encontrou a comer. Ele pusera sal e água num prato. Mas vendo que ele a cuspia atrás dumas cordas de palma, perguntou-lhe o abade Aquiles: “Dize-me o que comias?” – “Perdoa-me, Pai, respondeu o outro, eu cortei umas palmas e voltei na calma da tarde. Então temperei com sal somente um pequeno bocado e o pus na boca. Mas a garganta me estava tão ressequida que ele não descia. Fui logo forçado a emborcar uma pouca d’água sobre o sal para engoli-lo. Perdoa-me!” – “Hei!, replicou o abade Aquiles, vinde ver Isaias, o comedor de sopa da Cítia! Se queres sopa, retorna ao Egito!”. (Aquiles, 3)

11. O abade Amoés era doente e tivera de ficar deitado durante anos. Mas jamais permitira que bisbilhotassem o interior de sua cela e examinassem o que tinha à sua disposição, pois lhe traziam muitas coisas como sói a um doente. Quando seu discípulo João entrava ou saia, ele fechava os olhos para não ver o que aquele fazia. Ademais sabia que João era monge confiável. (Amoés, 3)

12. O abade Benjamim, padre das Celas, fora até onde um ancião da Cítia e quisera lhe dar um tanto de azeite. Este lhe disse: “Vê onde está a quartinha que me trouxeste há três anos – ela está tal como ma trouxeste.” Ao escutar isso, ficamos admirados da prática desse velho. (Benjamim, 2)

13. Contava-se isto sobre o abade Dióscoro de Náquias: “Ele comia pão de cevada e farinha de lentilha. Todo ano se propunha ele a prática duma particular observância, por exemplo, não ir para a morada de ninguém durante aquele ano, ou não falar, ou não comer alimento cozido, ou ainda não comer nem frutas nem legumes – e assim fazia com todas as práticas possíveis: mal terminava uma, já começava outra, e por um ano”. (Dióscoro, 1)

14. Disse-nos o abade Evagro as palavras que conservava dum ancião: “Eu arredo os deleites carnais para suprimir as ocasiões de cólera, pois bem sei que a cólera sempre me atormenta por ocasião desses deleites: ela turba meu espírito e afasta o conhecimento de Deus”.

15. Certo dia Epifânio, o bispo do Chipre, mandou um mensageiro dizer ao abade Hilarião: “Vem, para que nos vejamos antes de morrer”. Com efeito se encontraram e, enquanto comiam, levaram-lhes uma galinha. O bispo a ofereceu ao abade Hilarião, mas disse o ancião: “Pai, excusa-me, pois desde que vesti este hábito, não como vianda”. Respondeu-lhe Epifânio: “E eu, desde que vesti este hábito, jamais permiti alguém se deitar tendo algo contra mim, e jamais dormi com ressentimento contra alguém”. Disse-lhe então Hilarião: “Perdoa-me, tua prática é melhor que a minha”. (Epifânio, 4)

16. Dizia-se que o abade Eládio morou vinte anos nas Celas sem nunca alevantar os olhos para olhar o domo da igreja. (Eládio, 1)

17. Certo dia a abade Zenão viajava pela Palestina, quando fatigado se sentou para comer perto dum cultivo de pepinos. Soprava-lhe o pensamento: “Pega um pepino para ti e come-o. Que é um mero pepino?” Mas ao pensamento respondeu ele: “Os ladrões são postos a tormento: experimenta-o para ver se podes suportá-lo”. Ele se levantou e durante cinco dias expôs-se ao sol a pino e, enquanto grelhava, dizia-se a si: “Não, não posso suportar as torturas!” – “Pois bem, continuava ele, se não as pode suportar, não roubes para comer”. (Zenão, 6)

18. Disse o abade Teodoro que a privação extenua o corpo do monge. Mas conforme outro ancião as vigílias extenuam-no mais (Teodoro, 2).

19. Disse o abade João o Nanico: “Quando um rei quer conquistar uma cidade dos inimigos, primeiro corta a água e os víveres; então, esgotados pela fome, capitulam. Assim é com as paixões da carne. Quem vive no jejum e na fome há de ver os inimigos que lhe despedaçam a alma derrocarem”. (João Kolobos, 3)

20. Disse ainda o abade João o Nanico: “Certo dia eu percorria o caminho da Cítia levando cordas de palmas. Vi um caravaneiro cujas intenções me encolerizaram. Então, abandonei meu fardo e fugi”. (João Kolobos, 5)

21. O abade Isaque, o padre das Celas, disse: “Conheço um irmão que, ao fazer a colheita dum campo, quis comer uma espiga de trigo. Ele pediu ao proprietário do campo: ‘Permite-me comer uma espiga somente’. Respondeu-lhe o homem, cheio de admiração: ‘Pai, este campo está a tua disposição e tu me perguntas isso?’A fineza desse irmão chegava a tal ponto”. (Isaque, 4)

22. Um irmão interrogou o abade Isidoro, o padre da Cítia: “Por que o temem tanto os demônios?” Respondeu o ancião: “Desde que me fiz monge, esforço-me em impedir a cólera de me subir à garganta”. (Isidoro, 2)

23. Durante os quarenta anos em que o abade Isidoro da Cítia se sentia interiormente inclinado ao pecado, jamais – dizia ele – consentira nem à concupiscência nem à cólera. (Isidoro, 3)

24. Contava o abade Cassiano que o abade João, higúmeno do Grande Monastério, fizera uma visita ao abade Paésius, que habitara quarenta anos o mais afastado do deserto. Ele amava profundamente Paésius e o interrogou com a liberdade que essa afeição lhe dava: “Vives na anacorese há muito tempo, e à custo um homem consegue te turbar; dize-me, a que resultado chegaste?” – “Desde que me fiz solitário, respondeu Paésius, nunca o sol me viu comer” – “E a mim, disse o abade João, nunca ele me viu colérico”. (Cassiano, 4 Inst; Coen. 5, 27)

25. Disse ainda o abade Cassiano: “O abade Moisés nos contou esta história que ouviu do abade Serapião: ‘Durante a mocidade, dizia este, eu morava com o meu ancião, o abade Teonas. Comíamos juntos, mas ao término duma refeição, por instigação do diabo, furtei um pãozito e comi-o às escondidas, sem o conhecimento do ancião. Como continuasse a fazê-lo depois de certo tempo, o vício começava a me dominar, já não tinha forças para me conter: minha consciência era a única a me condenar, e tinha vergonha de falar disso ao ancião. Mas, por disposição da misericórdia divina, alguns irmãos vieram se encontrar com o ancião por bem de suas almas e interrogaram-no sobre seus pensamentos. Respondeu-lhes o ancião: ‘Nada é mais daninho aos monges e regozija mais aos demônios que dissimular os pensamentos aos pais espirituais.’ Após lhes doutrinou sobre a continência. Durante a conversação, considerei que Deus revelara ao ancião o meu furto. Tomado de arrependimento, comecei a chorar e tirei do bolso o pãozito que tinha por mal hábito roubar, depois me prostrando ao solo implorei o perdão para o passado e a oração para me guardar no futuro. Então me disse o ancião: ‘Meu filho, tua confisão te libertou da escravidão, sem que eu dissesse palavra; ao te acusares a ti venceste de pronto o demônio que entenebrecia teu coração por causa de teu silêncio. Ademais, jamais ele terá espaço em ti, pois ele há de sair do teu coração no grande dia’. Mal acabara de falar o ancião, a sua palavra se tornou visível: uma espécie de chama saiu do meu peito e empestou a casa, de modo que os presentes pensaram que se havia queimado um montão de enxofre. Disse pois o ancião: ‘Meu filho! O Senhor nos vem dar neste sinal a prova da realidade das minhas palavas e da tua libertação’”. (Cassiano, Coll, 2, 11)

26. Quando se recreava com os irmãos, Macário se impunha esta lei: se houvesse vinho, bebê-lo por causa dos irmãos; mas depois, para cada copa de vinho, passaria um dia inteiro sem beber água. Os irmãos lhe davam vinho, acreditando que isso lhe aprazia, e o ancião o aceitava com alegria para depois se mortificar. Mas seu discípulo, que conhecia essa sua resolução, disse aos irmãos: “Pelo amor de Deus, imploro-vos, não lho deis mais, pois ele se tortura em sua cela”. Quando os irmãos o souberam, não lhe deram mais vinho. (Macário, 10)

27. Na Cítia o abade Macário o Ancião dizia aos irmãos após reuni-los em assembléia: “Fugi, irmãos!”. Um deles lhe perguntou: “Pai, para onde fugir mais senão neste deserto?” O abade pôs o dedo sobre a boca dizendo: “Eis donde eu digo para fugir”. E ele mesmo entrou na cela, fechou a porta e ficou só. (Macário, 16)

28. Disse o abade Macário: “Se tu te irritas ao repreender alguém, satisfazes tua própria paixão. Não te deves perder para salvar o próximo”. (Macário, 17)

29. Disse o abade Pastor: “Se Nabuzardão, o mestre-cuca, não viera, o Templo do Senhor não se incendiara (cf. 4 Re., 25, 8 sq. segundo os LXX). Assim se a satisfação do ventre cheio não entra na alma, nunca o espírito sucumbirá ao combater o inimigo”. (Poemão, 16)

30. Quando convidavam o abade Pastor para almoçar, ele ia para não constristar o irmão com a desobediência, mas ia pesaroso e contrariado”. (Poemão, 17)

31. Citaram ao abade Pastor o caso dum monge que não bebia vinho. Respondeu o abade Pastor: “O vinho não convém a todos os monges”. (Poemão, 19)

32. Disse o abade Pastor: “O fumo espanta as abelhas e permite tirar o seu produto saboroso; assim o bem-estar corporal espanta da alma o temor do Senhor e lhe retira toda boa obra”. (Poemão, 57)

33. Eis o que contou um ancião sobre o abade Pastor e seus irmãos: “Eles moravam no Egito. Sua mãe desejava vê-los, mas não o lograva. Certo dia ela ficou de atalaia e se lhes apareceu quando iam à igreja. A sua vista eles retornaram para a cela e lhe fecharam a porta na cara. Então de pé ante a porta, ela se pôs a gritar e a chorar amargamente. O abade Anub, que a tudo escutava, foi até onde o abade Pastor e lhe disse: “Que poderíamos fazer por essa pobre mulher que chora à porta?” O abade Pastor se dirigiu até à porta e, de dentro, escutou os gemidos realmente dignos de pena. Ele lhe disse: “Por que choras assim, boa mulher?” Mas ela ao escutar a voz redobrou os gritos e gemidos. “Quero-vos ver, meus filhos, disse ela. Que há de acontecer se vos vejo? Não sou vossa mãe? Não vos aleitei, e não são meus cabelos agora todos brancos? Com que emoção não escutei a tua voz!” Disse-lhe Pastor: “Preferes nos ver a nós cá embaixo ou no outro mundo?” – “Se não vos vejo cá embaixo, ver-vos-ei lá no alto, meus filhos?”, replicou ela. – “Se tens coragem para nos não ver cá embaixo, ver-nos-ás lá no alto’. Daí se foi a mulher, alegre a dizer: “Se estou certa de vos ver lá no alto, já não vos posso ver cá embaixo”. (Poemão, 76)

34. O abade Pior comia andando. Alguém lhe pediu a razão disso. Ele respondeu que não comia como quem faz uma obra (ergôn), mas como quem faz algo de acessório (parergôn). A outro que lhe viera com a mesma questão respondeu: “Para a alma não sentir deleite corporal enquanto como”. (Pior, 2)

35. O abade Pedro Pionita, que habitava nas Celas, não bebia vinho. Quando ficou de idade, os irmãos instavam-no a beber um pouco. Como ele não aceitasse, misturaram-no com água e assim lhe ofereceram. Disse-lhes ele: “Acrediteis em mim, meus filhos, considero isso um luxo”. E condenava-se a si por causa dessa água tinta de vinho. (Pedro Pionita, 1)

36. Certo dia se celebrava a Oblação sobre a montanha do abade Antão, e lá havia um pouco de vinho. Um dos anciãos pegou um copinho e levou-o ao abade Sisóis, que o bebeu, e bebeu também outro copo que se lhe ofereceu. Mas o terceiro copo recusou: “Pára, irmão, não sabes que Satã existe?”.

37. Um irmão interrogou o abade Sisóis: “Que devo fazer? Quando vou à igreja, à miúdo os irmãos me detêm amicalmente para a refeição” – “É mui perigoso”, respondeu o ancião. Seu discípulo Abraão então disse: “Se o irmão vai à igreja o sábado e o domingo, é muito beber três copos?” – “Não seria muito se Satã não existisse”. (Sisóis, 2).

38. Freqüentemente dizia o discípulo ao abade Sisóis: “Vamos, Pai, come!” – “Nós já não comemos, meu filho?”, respondia ele. “Não, Pai”. – “Pois bem, se não comemos ainda, traz o necessário e comamos”. (Sisóis, 4).

39. Certo dia o abade Sisóis dizia com parresia: “Crede-me: há trinta anos que já não rezo a Deus por meus pecados, mas Lhe digo em oração: ‘Senhor Jesus Cristo, guardai-me de minha língua!’. Mas até agora eu caio por causa dela e cometo o pecado!” (Sisóis, 5)

40. Certo dia o abade Silvano e seu discípulo Zacarias chegaram a um monastério; lá fizeram-nos comer um pouco antes de partir. Durante o caminho, o discípulo encontrou água à beira do caminho e quis beber, mas o abade Silvano lhe disse: “Zacarias, hoje é dia de jejum!” – “Pai, respondeu Zacarias, já não comemos hoje?” – “Aquela comida, lhe disse o ancião, era uma caridade; mas agora, meu filho, observemos o jejum”. (Silvano, 1).

41. Disse Santa Sinclética: “O estado que escolhemos nos obriga a conservar a castidade mais perfeita; a castidade fingida dos mundanos está de mistura com seu contrário, pois se inclinam para todos os sentidos: seus olhares são imoderados, seus risos desordenados”. (Sinclética, 2)

42. Ela disse ainda: “As drogas amargas espantam os animaias venenosos; assim o jejum acompanhado da oração espanta da alma os maus pensamentos”. (Sinclética, 3)

43. Ela disse ainda: “Não te deixes seduzir pelos prazeres que os ricos buscam neste mundo, como se esses gozos tivessem alguma utilidade. Por isso essas gentes têm em consideração, por conta do prazer, a arte culinária. Mas tu consideres mais delicioso que suas refeições o jejum e o alimento abrutalhado. Não te satisfaças nem de pão e não desejes vinho”. (Sinclética, 4)

44. Disse o abade Sisóis: “Dominar a língua é a verdadeira xenitéia”. (Titóis, 2) [xenitéia: é o estado de quem é estrangeiro onde habita; em sentido espiritual, é abandonar tudo que obstaculiza o caminho até Cristo].

45. Disse o abade Hiperéquios: “O leão é terrível para os onagros (cf. Sl. 13, 23); assim o monge experimentado para os pensamentos concupiscentes”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 66).

46. Ele disse ainda: “O jejum é o freio do monge. Quem o abandone vem a ser como um cavalo abrasado”. (Hiperéquios, 2; Exhort. ad monachos, 80).

47. Disse o abade Hiperéquios: “Graças a um galho seco, Eliseu fez a lâmina do machado escalar do fundo do abismo (2 Re. 6, 5); por causa de um corpo seco, o monge tira sua alma da fossa. O jejum do monge seca as fontes dos prazeres”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 89-90)

48. Ele disse ainda: “O monge casto será honrado na terra e coroado no céu pelo Altíssimo”.

49. Ele mesmo disse: “O monge que não retém a língua na hora da cólera não reterá as paixões da carne no momento azado”. (Hiperéquios, 3; Exhort. ad monachos, 97)

50. Ele disse ainda: “Mais vale comer carne e beber vinho que comer a carne dos irmãos, denegrindo-os”. (Hiperéquios, 4; Exhort. ad monachos, 144)

51. Ele disse ainda: “O monge não dirá palavras más, pois a vinha não traz espinhos”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 112)

52. Ele disse ainda: “A serpente, com diz-que-diz-ques, tirou Eva do Paraíso. O monge que murmura contra o próximo parece com ela: perde a alma de quem o escuta e não salva a sua!”. (Hiperéquios, 5; Exhort ad monachos, 153)

53. Num certo dia de festa na Cítia levaram uma copa de vinho a um ancião. Ele a recusou dizendo: “Afasta de mim esse veneno! (literalmente: essa morte)”. A vista disso os outros que comiam com ele não beberam mais. (N. 144).

54. Outra vez na Cítia levaram uma bilha de vinho novo para dele distribuir um copo para cada um. Um dos irmãos chegara e, vendo que aceitavam vinho, fugiu para sob a cúpula dum cômodo; mas a cúpula desabou. Ao barulho os irmãos acorreram e encontram o irmão estendido e meio morto. Eles começaram a escarnecê-lo: “Bem feito para ti, diziam eles, pois foste acometido de vanglória!” Mas o abade o reconfortou dizendo: “Fica tranqüilo, meu irmão, fizeste uma boa ação; e, pelo Senhor!, enquanto eu viver essa cúpula não será reconstruída, para que o mundo saiba que uma cúpula desabou na Cítia por causa de uma copa de vinho”. (N. 148)

55. Certo dia o padre de Cítia fora visitar o bispo de Alexandria. Ao retornar os irmãos lhe perguntaram as novidades da cidade, e lhes respondeu ele: “Crede-me, irmãos, não vi ninguém lá embaixo, apenas o bispo”. Com tal resposta eles se inquietaram e lhe disseram: “A população foi aniquilada, abade?”. Mas o padre repisou: “Não é isso; mas não fui vencido pela tentação de olhar os homens”. Essa narrativa levou os irmãos à admiração e os fortificou na observância de não elevar os olhos. (N. 161)

56. Certo dia um ancião foi até onde outro ancião que disse a seu discípulo: “Faz-nos um pouco de lentilhas”, e ele lhes fez. Depois: “Parte-nos o pão”, e ele o partiu. Mas os anciãos ficaram a conversar de coisas espirituais até à sexta hora do dia seguinte. Então o ancião disse pela segunda vez a seu discípulo: “Filho, faz-nos um pouco de lentilhas”. – “Preparei-as ontem”, respondeu ele; e puseram-se a comer. (N. 149)

57. Outro ancião visitou um dos Padres. Este mandou cozer um pouco de lentilhas. “Recitemos um pequeno Offício, propusera ele, depois comeremos”. Um disse o psaltério inteiro, e o outro recitou de cor e na ordem as leituras dos grandes profetas. De manhã, o visitante se foi: eles haviam esquecido de comer. (N. 150)

58. Um irmão estava com fome desde a manhã. Ele lutou contra a sugestão, para só comer depois de terças; em terças, ele se fez violência para esperar sextas. Ele partiu o pão e se sentou para comer, mas logo se levantou dizendo: “Resistirei bem até noas”. Em noas rezou e viu a tentação diabólica sair de si como fumaça; e ele parou de ter fome. (N. 145)

59. Um ancião caiu doente e não pôde tomar alimento durante dias. Seu discípulo lhe pediu a permissão de lhe preparar algo para fortificá-lo: ele fez um pirão de farinha. Lá havia um pote pendurado com um pouco de mel e outro cheio do fétido azeite de linho – que só servia para a lâmpada. O irmão se enganou e em lugar do mel pôs o azeite de linho no pirão. Ao provar o ancião nada disse e comeu em silêncio. O ancião se fez violência para comer outra colher. O irmão lhe deu uma terceira vez, mas o ancião recusou: “Pai, está bom, disse o irmão, vou comer contigo”. Ao provar compreendeu o que fazia e caiu de cara na terra. “Infeliz de mim, Pai, eu te assassinei e tu me deixaste em pecado ao não dizer nada!” – “Não te amofines, meu filho, respondeu o ancião; se Deus quisesse que eu comesse mel, tu irias cobrir o pirão com mel.” (N. 151)

60. Conta-se que certo dia um ancião desejou comer um pepino. Quando ele conseguiu um, antes de tudo levantou seus olhos e, ainda que não cedesse ao desejo, fez penitência só por tê-lo desejado demais. (N. 152)

61. Um monge foi visitar sua irmã, que estava doente num monastério. Essa monja era bem observante: não consentia em ver homem nem queria dar a seu irmão ocasião de se chegar em meio a mulheres por causa dela; lhe disse ela: “Afasta-te, meu irmão, e ora por mim; com a graça do Cristo, ver-te-ei no reino dos céus”. (N. 153)

62. Um monge topara com monjas a meio de um caminho. Ao vê-las ele se afastou da rota, mas a superiora lhe disse: “Se tu fosses um monge perfeito, não nos teria olhado nem visto que éramos mulheres”. (N. 154)

63. Certo dia os irmãos foram para Alexandria: o arcebispo Teófilo os convocara para orar e destruir os templos pagãos; enquanto comiam com ele, trouxeram um veado, o qual os irmãos comeram sem perceber o que era. O arcebispo pegou um pedaço e o ofereceu a um ancião que estava a seu lado, dizendo: “Come, Pai, é um bom bocado”. Mas os outros responderam: “Achávamos até agora que era legume; mas se é vianda, não comeremos mais”. E nenhum deles quis comer dela novamente. (Teófilo, 3; N. 162)

64. Um irmão carregou para a cela pães frescos e invitou os anciãos à sua mesa. Quando eles comeram cada um dois pãezitos, pararam. O irmão, que lhes conhecia a agra ascese, fez ume metania e lhes disse: “Pelo amor do Senhor, comei hoje conforme a vossa fome”; cada um então comeu dez outros pães. Vê-se assim o quanto esses verdadeiros ascetas comiam abaixo de suas necessidades. (N. 155) [metania: mudança de idéia, conversão, penitência; ato exterior que evidencia esses estados - geralmente uma prostração em terra].

65. Certo dia um ancião ficou tão doente que suas entranhas expulsavam câmaras de sangue. Um irmão tinha umas ameixas secas; fez um pirão, pô-las dentro e o ofereceu ao ancião: “Come, propos ele, talvez isto te faça bem”. O velho fitou-o longamente e disse: “A bem dizer quisera que Deus me deixasse mais trinta anos doente desta enfermidade!” Mesmo gravemente enfermo o ancião não aceitou tomar sequer um pirãozito. Então o irmão pegou o que trouxera e retornou a sua cela. (N. 156)

66. Outro ancião morava no mais longe do deserto; um irmão foi até onde ele e o encontrou doente. O irmão lhe lavou o rosto e preparou uma refeição com o que levava. Ao vê-lo prepará-la o velho disse: “É verdade, irmão, esqueci que os homens encontram conforto no comer!” O irmão lhe ofereceu também um copo de vinho. Quando o ancião o viu, desatou a chorar dizendo: “Estava certo de não mais beber vinho até minha morte”. (N. 157)

67. Um ancião decidiu que não beberia durante quarenta dias; e quando fazia calor, ele lavava o jarro, o reenchia d’água e o suspendia ante si. Os irmãos lhe perguntaram por que fazia isso. “Para sofrer mais ainda à vista do que desejo, sem prová-lo; daí merecerei receber do Senhor uma recompensa mais grande”. (N. 158)

68. Um irmão viajava com sua mãe, que era de muita idade. Eles chegaram diante de um rio que a velha não podia baldear. O filho pegou o manto dela, embrulhou as mãos para não tocar o corpo da mãe e atravessou o rio carregando-a. Disse então sua mãe: “Meu filho, por que embrulhaste as mãos?” – “Porque o corpo duma mulher é feito de fogo, respondeu tocando-a, ele me atearia com a lembrança de outras mulheres”. (N. 159)

69. Dizia um Padre: “Conheço um irmão que jejuava toda a semana da Páscoa na cela. No sábado à noite ele ia até a sinaxe e fugia logo após a comunhão, para que os irmãos não o forçassem a comer com eles. Na sua cela só comia umas ervas cozidas em salmoura e sem pão”. (N. 160)

70. Certo dia na Cítia os irmãos foram convocados para limpar cordas (de palmas). Um deles, doente por causa de austeridades muito extremas, começou a tossir e a escarrar sem querer sobre um irmão. Este último se obsedava no pensamento de lhe dizer: “Pára, não escarra mais em mim!” Mas para se dominar, ele pegou o escarro, levou-o à boca e o engoliu. Disse ele então a si mesmo: “De duas uma: ou bem não digas a teu irmão o que irá atristá-lo, ou bem come o que te desagrada”. (N. 357)

Nenhum comentário: