sábado, janeiro 09, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte III)

Capítulo Terceiro: Da Compunção

1. Conta-se que o abade Arsênio, durante toda a vida, quando se sentava para os trabalhos manuais, metia um pano de linho sobre o peito por causa das lágrimas que jorravam de seus olhos. (Arsênio, 41 a).

2. Um irmão pedira ao abade Amonas: “- Dize-me uma palavra”. Respondeu-lhe o ancião: “- Vede a mentalidade dos malfeitores aprisionados. Exigem eles: ‘- Onde está o juiz? Quando virá ele?’ E se lamentam enquanto esperam sua punição. Também o monge deve estar sempre alerta e se interrogar assim: ‘- Infeliz de mim! Como poderei eu me apresentar ante o tribunal de Cristo? Como hei de dar conto dos meus atos?’ Se meditas assim incessantemente, poderás ser salvo”. (Amonas, 1).

3. Disse o abade Evagro: “- Quando estiveres na cela, recolhe-te; pensa no dia da morte. Representa-te teu corpo de cuja vida se esvai; pensa nessa calamidade, ressente-te da dor e te horroriza da vaidade deste mundo. Modera-te e vela a fim de poder perseverar sempre na resolução de viver na hesequia e não te abalares. Evoca em teu espírito os condenados do inferno; pensa no estado em que estão suas almas atualmente, mergulhados no silêncio terrível ou nos gemidos cruéis, no temor e na agonia moral, na apreensão e na dor, vertendo lágrimas espirituais inumeráveis e desesperadamente inconsoláveis. Lembra-te também do dia da ressurreição e imagina-te o terror e o temor que o julgamento divino provoca, e em meio a tudo isso, a confusão dos pecadores ante a face de Deus e do Cristo, na presença dos anjos, dos arcanjos, das potestades e de todos os homens. Pensa em todos os suplícios, no fogo eterno, no verme que não morre, nas trevas infernais e sobretudo no ranger de dentes, nos terrores e sofrimentos. Não te esqueças dos bens reservados aos justos, a parrésia com Deus Pai e com o Cristo seu Filho, na presença dos anjos, dos arcanjos, das potestades e de todo o povo. Conserva a lembrança desse destino duplo, geme e chora ante o julgamento dos pecadores, guarda o pentos, temendo incorrer tu mesmo nessas penas; mas regozija-te, exulta, sê pleno de alegria ao pensar nos bens reservados aos justos; diligencia para os gozar e te afastar das maldições. Quer estejas na tua cela ou alhures, vela para nunca te esquecer de tudo isso, nem para o espantar da memória como sói fazer com os pensamentos maus e criminosos”. (Evagro, 1).

4. Disse o abade Elias: “- Temo três coisas: primeiro o momento em que minh’alma sairá do corpo; em seguida o em que surgirei ante Deus; e finalmente o da comunicação da sentença”. (Elias, 1).

5. O arcebispo Teófilo, de santa memória, às portas da morte disse: “- Abade Arsênio, tu és ditoso de sempre trazer esta hora ante os olhos”. (Teófilo, 5).

6. Os irmãos diziam que certo dia, durante uma ágape, um irmão desatou a rir à mesa. À vista disso o abade João se pôs a chorar e disse: “- Que há no coração desse irmão que desata a rir? Antes devia chorar, porque come a ágape!” (Kolobos, 9).

7. Dizia o abade Tiago: “- Como o candeeiro alumia o quarto escuro, assim o temor de Deus, quando pousa no coração do homem, alumia e lhe ensina todas as virtudes e todos os mandamentos divinos”. (Tiago, 3).

8. Alguns Padres interrogaram o abade Macário o Egípcio: “- Por que teu corpo é sempre mirrado, quer comas quer jejues?”. Respondera o ancião: “- O pau com que se atiça e reatiça os cardos no fogo está sempre consumido; assim o homem que o temor de Deus purificou e consumiu até mesmo os ossos”. (Macário, 12).

9. Os anciãos do monte de Nítria enviaram um irmão a Cítia, à morada do abade Macário para lhe rogar que fosse até eles; se não, acrescentavam eles, soubesse que se não fosse, uma mole de gente iria até ele, pois desejavam vê-lo antes que partisse para o Senhor. Quando chegou à montanha, a multidão dos irmãos se juntou perto dele e os anciãos lhe pediram uma palavra para os irmãos. Disse-lhes pois Macário com muitas lágrimas: “- Choremos, irmãos, deixemos as lágrimas fugirem dos olhos antes de ir onde elas nos queimarão os corpos”. Todos se puseram a chorar e se prostraram com o rosto em terra dizendo: “- Pai, ora por nós!”. (Macário, 34).

10. Certo dia, de viagem no Egito, o abade Pastor viu sentada sobre um sepulcro uma mulher, que chorava amargamente: “- Nem todos os prazeres do mundo que se lhe oferecessem, disse ele, tirariam sua alma do pentos. Assim deve o monge sempre conservar o pentos”. (Poemão, 26).

11. Outra vez caminhava o abade Pastor com o abade Anub pela região de Diolcos. Aproximando-se dum túmulo, viram uma mulher que com crueza se batia e amargamente chorava. Eles pararam para observá-la; após retomar o caminho um tanto, encontraram-se com outrem. Interrogou-o o abade Pastor: “- Que se dá nessa mulher para chorar assim?”. “-Ela perdeu o marido, o filho e o irmão”, respondeu ele. O abade Pastor disse ao abade Anub: “- Afirmo-te que quem não mortifica todos os desejos da carne e não possui pentos semelho, não pode ser monge. Naquela mulher, a alma e a vida inteira estão no pentos”. (Poemão, 72).

12. Disse ainda o abade Pastor: “- O pentos tem dupla função: cultivar e guarnecer (Gn. 2, 15)”. (Poemão, 39).

13. Desta maneira um irmão interrogou o abade Pastor: “- Que devo fazer?”. Respondeu ele: “- Abraão, ao chegar na terra prometida, comprou para si um sepulcro e, graças ao sepulcro, recebeu a terra em herança (cf. Gn. 23)”. “Que é esse sepulcro?”, retorquiu-lhe o irmão. “É o lugar das lágrimas, respondeu o ancião, e do pentos”. (Poemão, 50).

14. O arcebispo Atanásio, de santa memória, pedira ao abade Pambo para sair do deserto e ir a Alexandria. Quando o ancião chegou à cidade, viu uma mulher de comédias e desatou a chorar. Os presentes lhe perguntaram a razão. “Duas coisas me turbaram, respondeu ele: em primeiro lugar, a perdição desta mulher; em seguida, o pouco zelo que tenho de agradar a Deus perto do muito que ela tem para agradar a homens depravados”. (Pambo, 4).

15. Certo dia estava o abade Silvano sentado com os irmãos, quando entrou em êxtase e caiu de cara na terra. Muito tempo depois, levantou-se banhado de lágrimas. Perguntaram-lhe os irmãos: “- Que tens, Pai?”. Mas ele chorava em silêncio. Como insistissem, lhes disse: “- Conduziram-me ao lugar do julgamento; vi muitos dos que usam nosso hábito ir ao suplício, e muitas gentes do mundo entrar no reino”. Deste então o ancião entregou-se ao pentos e não queria mais sair da cela. Se o forçavam, cobria o rosto com o capucho e dizia: “- Que necessidade há de ver esta luz efêmera que nos não serve de nada”. (Silvano, 2).

16. Sinclética, de santa memória, disse: “- Labor (kopos) e peleja (agôn) esperam os pecadores convertidos a Deus, e após o gozo inefável. Eles são como os que querem acender um fogo: de início enfumaçados e a ponto de chorar, eles obtêm a este preço o desejado. Com efeito está escrito: “Nosso Deus é fogo devorador” (Dt. 4, 24); é-nos mister, nós também, entre lágrimas e penas acender em nós esse fogo divino”. (Sinclética, 1).

17. Disse o abade Hiperéquios: “- O monge que vela transforma a noite em dia, pela assiduidade à oração. O monge que espreme o coração expulsa as lágrimas e atrai a misericórdia do céu”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 84-85).

18. Alguns irmãos foram onde o abade Felix na companhia de segrais e lhe pediram para dizer uma palavra. O ancião se calou. Solicitado com insistência, disse-lhes enfim: “- Quereis escutar uma palavra?” – “- Sim, Pai”, responderam eles. Disse-lhes pois o ancião: “- Agora, não há mais palavras. Quando os irmãos interrogavam os Anciãos e cumpriam o dito, Deus inspirava nos Anciãos a maneira de falar. Atualmente, como interrogam e não põem em prática o que escutam, Deus retirou dos anciãos a graça da palavra, que não sabem mais dizer, pois não há quem as execute”. Escutando essas palavras, os irmãos gemeram e disseram: “- Pai, ora por nós”. (Felix, 1).

19. Certo dia o abade Teodoro e o abade Ouro embarravam o teto da cela. “- Que faríamos, se perguntavam eles entre si, se Deus nos viesse visitar agora?”. Então se puseram a chorar e, abandonando o trabalho, retirou-se cada um na sua cela. (Ouro, 1).

20. Conta um ancião que um irmão, querendo abandonar o mundo, era impedido pela mãe. Mas como se obstinasse nessa idéia, dizia à mãe: “- Quero salvar minh’alma”. Em suma, após muita resistência, vendo que se não podia opor ao desejo do filho, sua mãe deixou-o ir. Depois de monge, contudo, passava o tempo na indolência. Sua mãe morreu. Ele mesmo, pouco tempo depois, ficou gravemente enfermo. Ele teve um êxtase e foi transportado até o lugar do julgamento onde sua mãe se encontrava entre os condenados. Ela se espantou de vê-lo e lhe disse: “- Que foi, meu filho? Condenaram-te também a vir para cá? Mas que fizestes do que me dizias sobre salvar a tua alma?”. Ao escutar isso, ele enrubesceu; mudo de dor, não podia responder à mãe. Fez a misericórdia do Senhor que, após essa visão, o irmão ficasse curado e remido da doença. Refletindo pois o caráter miraculoso da visão, encerrou-se e se dedicou à meditar na sua salvação. Fez penitência e chorou as faltas cometidas no tempo da sua negligência. Era tão grande a sua compunção (katanuxis) que, quando o invitavam para algum refresco, de medo que tinham de o excesso de lágrimas lhe causar algum dano, ele recusava o consolo e dizia: “- Se não pude suportar a admoestação da minha mãe, como no dia do julgamento suportarei eu minha vergonha na presença do Cristo e dos santos anjos?”. (N. 135).

21. Disse um ancião? “- Se fosse possível às almas dos homens morrer de medo, quando o Cristo vier após a Ressurreição todo o mundo morreria de terror e de pavor. Com efeito, que espetáculo não será ver os céus rasgados, Deus impando de cólera e indignação, as armadas inumeráveis de anjos e toda a humanidade reunida! Devemos por conseguinte viver, porque Deus nos pedirá a conta de cada um de nossos movimentos”. (N. 136).

22. Um irmão perguntou a um ancião: “- Pai, donde vem que meu coração é duro e não temo o Senhor?” – “No meu parecer, respondeu ele, quem se acusa do fundo do coração obterá o temor de Deus”. – “Que acusações?”. Respondeu-lhe o ancião: “- Em toda circunstância, deve-se acusar-se dizendo: ‘- Lembra-te que deves comparecer ante Deus’, ou bem, ‘- Que tenho eu de comércio com homens? ’. Acredito que o temor de Deus virá se uma pessoa permanece nessas disposições”. (N. 138).

23. Um ancião viu alguém a rir e lhe disse: “- Devemos dar conta de toda nossa vida ante o Senhor do céu e da terra, e tu ris!”. (N. 139).

24. Disse um ancião: “- Em todo lugar levamos a sombra do corpo; assim devemos ter conosco em todo lugar as lágrimas e a compunção (katanuxis)”. (N. 140).

25. Um irmão pediu a um ancião dos Padres: “- Dize-me uma palavra”. Disse-lhe o ancião: “- Quando Deus abateu o Egito, não havia uma só casa que não estivesse no pentos”.

26. Um irmão pediu a outro ancião: “- Que devo fazer?” – “Devemos sempre chorar, lhe respondeu ele, pois aconteceu outrora que um ancião morreu e retornou após várias horas. Perguntáramos a ele: ‘- Pai, que viste lá embaixo?'. E ele nos contou entre lágrimas: '- Escutei uma voz lúgubre que dizia incessantemente: - Infeliz de mim, infeliz de mim!' . Devemo-nos também sempre dizer o mesmo”. (N. 141).

27. Um irmão interrogou um ancião: “- Minh’alma deseja lágrimas como as que vertiam os anciãos, como ouvi falar; elas não me vêm e isso me turba. Como posso tê-las?” Respondeu o macróbio: “- Os filhos d’Israel levaram 40 anos para entrar na terra prometida. As lágrimas são como a terra prometida: se as conseguires, não temerás mais a guerra. Com efeito, Deus quer que a alma seja afligida para que, sem trégua, deseje entrar nessa terra”. (N. 143).

Um comentário:

O Enxadrista disse...

continue fazendo estes trabalhos de tradução! são muito valiosos!!!
obrigado
Fica com Deus.