sábado, janeiro 02, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte II)

Capítulo Segundo: Da Hesequia

1. Disse o abade Antão: “- Os peixes que se deixam ficar em terra firme expiram. Assim os monges que vadiam fora da cela ou gastam tempo com gentes mundanas perdem o tônus da hesequia. É mister que os peixes retornem o mais rápido ao mar e nós à cela. Se não, arrastando-nos fora, esquecemos de nos guardar dentro”. (Antão, 10).

2. Disse o abade Antão: “O que pratica a hesequia no deserto está liberto de três castas de luta: a do ouvido, a da palavra e a da vista. Só lhe resta um só combate a travar: o do coração”. (Antão, 11).

3. Quando ainda era áulico, o abade Arsênio orou ao Senhor nestes termos: “- Senhor, conduzi-me à salvação”. Sobreveio-lhe uma voz, que disse: “- Arsênio, foge dos homens e serás salvo”. Já dentro da vida monástica, orou novamente nos mesmos termos, e escutou a voz a lhe dizer: “- Arsênio, foge, cala-te e pratica a hesequia!” Eis as raízes da impecabilidade. (Arsênio, 1-2).

4. O arcebispo Teófilo, de bem-aventurada memória, certo dia visitou na companhia dum magistrado o abade Arsênio. O arcebispo o interrogou, querendo lhe escutar uma palavra. Por um momento o ancião guardou o silêncio e depois respondeu: “- Se ta digo, observá-la-ás?” Ambos eles lho prometeram. Então o ancião lhes disse: “- Se escutardes dizer que Arsênio está num certo lugar, não ides!” Outra vez o arcebispo desejou vê-lo; antes porém mandou perguntar se o receberia. O ancião lhe enviou esta resposta: “- Se vieres, receber-te-ei. Mas se te não receberes a ti, receberei todo o mundo. Daí não permanecerei mais neste lugar”. A essas palavras disse o arcebispo: “- Ainda que o devesse perseguir, não iria à morada desse santo homem”. (Arsênio, 7-8).

4. Certo dia o abade Arsênio chegou a um lugar cheio de canas que se agitavam ao vento. Disse o ancião aos irmãos: “- Que é que se agita?” “- As canas”, responderam eles. “Verdadeiramente se alguém que se conserva na hesequia escuta o grito dum pássaro, seu coração já não tem mais essa hesequia. Quanto mais vós que vos agitais como essas canas”. (Arsênio, 25)

6. Conta-se do abade Arsênio que sua cela distava trinta e duas milhas e dela quase não saía; outros lhe representavam nas comissões (diakonema). Porém, quando devastaram a Cítia, ele foi embora chorando e disse: “- O mundo perdeu Roma, e os monges a Cítia”. (Arsênio, 21).

7. Quando o abade Arsênio morava em Canópia, uma virgem – duma família senatorial – riquíssima e temente a Deus veio de Roma para visitá-lo. Recebeu-a o arcebispo Teófilo; ela lhe instou a insistir com o ancião para que pudesse vê-lo. O arcebispo foi até a morada deste e lhe disse: “- Uma dama de família senatorial vem de Roma e deseja ver-te”. Mas o ancião não consentiu em recebê-la. Quando lhe deram a resposta, a dama mandou selar a montaria e disse: “- Acredito que Deus conceder-me-á vê-lo, pois não vim ver um homem; homens há muitos em nossa cidade. Vim ver um profeta”. Quando por disposição divina ela chegou à cela do ancião, estava ele bem a propósito fora dela. A sua vista a mulher se arrojou a seus pés. Mas ele indignado levantou-a e lhe disse com olhos fitos nela: “- Pois bem! Se queres ver-me a cabeça, ei-la!” Mas ela confundida não a olhou. Acrescentou o velho: “- Não ouvistes sobre as minhas obras? A elas que se devem olhar. Como ousaste empreender essa travessia? Desconheces que tu és mulher e não deves ir para lugar algum? Irás depois a Roma contar às outras mulheres que viste Arsênio e me fazer do mar uma estrada que me trará mais mulheres?” “- Se praz a Deus que volte eu a Roma, respondeu ela, não permitirei à mulher alguma vir aqui. Mas reza por mim e lembra-te sempre de mim”. “- Peço a Deus que te apague do meu coração”, replicou ele, ao que ela se retirou perturbada. De volta a Alexandria, caiu doente de tristeza. Alertaram o arcebispo, que a veio consolar e se informar do que a acometia. “- Ah, lhe disse ela, se não houvera estado lá! Disse ao velho: ‘- Lembra-te de mim’, e me respondeu ele: ‘- Peço a Deus que te apague do meu coração!’ Morro de tristeza”. “- Mas não sabes que tu és mulher, lhe respondeu o arcebispo, e que o inimigo combate os santos com elas? Por isso que o velho te disse isso. Ele porém rezará incessantemente por tua alma”. Assim curado o coração, voltou para casa alegremente. (Arsênio, 28).

8. Disse o abade Evagro: “Arranca do teu coração as muitas afeições, para que teu espírito não se agite e não perturbe tua vida de hesequia”. (Evagro, 2).

9. Na Cítia um irmão foi ao encontro do abade Moisés para lhe pedir uma palavra. “- Fica sentado na tua cela, lhe respondeu ele, ela te ensinará tudo”. (Moisés, 6).

10. Disse o abade Moisés: “- O homem que foge do homem é semelhante ao cacho de uva madura; quem vive entre os homens é como a uva verde”. (Moisés, 7).

11. Disse o abade Nilo: “- Quem ama a hesequia permanece invulnerável às escaramuças do inimigo; mas quem se mistura à turba será ferido continuamente”. (Nilo, 9).

12. Disse o abade Pastor: “- O princípio dos males é a distração”. (Poemão, 43). Disse ainda o abade Pastor: “- É mister fugir das coisas corporais. Enquanto estivermos sob seu ataque, pareceremos um homem que se mantém inclinado sobre um poço profundíssimo: assim que bem lhe agrade, o inimigo precipitá-lo-á facilmente. Mas quando estamos longe das coisas corporais, somos semelhantes a um homem longe do poço: se o inimigo o agarra para jogá-lo dentro, enquanto o arrasta a força Deus envia o socorro”. (Poemão, 59).

14. Disse uma monja: “- Muitos dos que estavam sobre a montanha pereceram, pois agiam como mundanos. Mais vale viver com muito e em espírito levar vida solitária que estar só e viver com o coração junto à turba”. (Sinclética S., Guy p. 34).

15. Disse um ancião: “- O monge deve sempre buscar a hesequia, para ficar em estado de desprezar os possíveis danos corporais das disciplinas”. (N. 133).

16. Alguém contou: “- Três amigos, cheios de zelo (filoponói), fizeram-se monges. Um deles se propôs ser um conciliador de lides, segundo o que está escrito: ‘- Bem-aventurados os pacíficos’; o segundo escolhera visitar os doentes; o terceiro meteu-se na prática da hesequia na solidão. O primeiro se esgotava nos processos dos homens e não conseguia pôr todo o mundo a termo: desencorajado se dirigiu ao que cuidava dos doentes e o encontrou desiludido, com ser incapaz de cumprir o mandamento (divino). De comum acordo ambos foram ver o hesicasta. Eles lhe contaram os percalços e lhe rogaram dizer que estado ele alcançara. Este ficou um momento em silêncio, encheu d’água um copo e lhes disse: ‘- Vede esta água’; ela estava túrbida. Após certo tempo, retomou: “- Vede agora como ficou limpa”. Eles se inclinaram e viram suas caras como num espelho. “- Assim é, continuou ele, quem se conserva entre os homens: a agitação os impede de enxergar seus pecados, mas se guarda a hesequia, sobretudo no deserto, perceberá seus pecados”. (N. 134).

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