terça-feira, janeiro 19, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte IV)

Capítulo Quatro: Do Domínio de Si.

1. Quiseram alguns irmãos da Cítia visitar o abade Antão. Entraram num barco onde encontraram um ancião, que queria também ele ir até onde Antão, mas não abiam os irmãos desse propósito. Sentados no barco, discorriam-se sobre as sentenças dos Padres ou das Escrituras ou ainda sobre os trabalhos manuais. O ancião, no entanto, guardava silêncio. Ao aportarem souberam que o ancião ia ele também até onde o abade Antão. Quando chegaram à morada de Santo Antão, este disse: aos irmãos “- Encontrastes bom companheiro de viagem na pessoa deste ancião”. E ao ancião: “- Estáveis entre bons irmãos, Pai!” Respondeu-lhe o ancião: “- Bons eles são, mas sua morada não tem porta: qualquer um entra no estábulo e desamarra o burro!” Ele falava assim porque os irmãos diziam tudo o que lhes passava na cabeça. (Antão, 18)

2. O abade Daniel contava que o abade Arsênio passava a noite a velar. Quando velava a noite inteira e na entremanhã queria dormir, para satisfazer à natureza, dizia ao sono: “- Vem, escravo miserável!” e sentado dormitava à furto para logo se levantar. (Arsênio, 14)

3. Dizia o abade Arsênio: “Ao monge, se é fragueiro, basta dormir uma hora”. (Arsênio, 15)

4. Dizia o abade Daniel: “O abade Arsênio morou anos entre nós; dávamos-lhe a cada ano uma só medida de trigo e mesmo assim, todas as vezes que íamos vê-lo, comíamos dela!”. (Arsênio, 17)

5. Dizia ainda o abade Daniel que o abade Arsênio só trocava uma vez por ano a água com que limpava as palmas [com que trançava]; o mais do tempo contentava-se de completá-la. Com as palmas fazia esteiras que cosia até a hora sexta. Os anciãos lhe perguntaram porque não trocava a água das palmas, que cheirava mal. “Eu preciso, respondeu ele, usar agora desse fedor em troca dos perfumes e óleos cheirosos de que me servia no mundo”. (Arsênio, 18)

6. Conta ele ainda: “Quando o abade Arsênio percebia que os frutos de cada espécie estavam maduros, mandava trazê-los e provava uma só vez um pouco de cada um, dando graças a Deus”. (Arsênio, 19)

7. Conta-se que o abade Agatão ficou com um calhau na boca durante três anos, até que conseguisse guardar silêncio. (Agatão, 15)

8. Certo dia o abade Agatão viajava com seus discípulos. Um deles encontrou no caminho um saquinho com pêras verdes e disse ao ancião: “Pai, se quiseres, eu o levo.” Espantado, Agatão se voltou e disse: “Foste tu que o puseste lá?” – “Não”, respondeu o irmão. – “Como, retrucou o ancião, queres levar o que não depositaste!”. (Agatão, 11)

9. Certo dia um ancião que fora à morada do abade Aquilies percebeu que este cuspia sangue: “Que é isto, Pai?”, lhe perguntou ele. – “Isto aí, respondeu, é a palavra dum irmão, a qual me contristou e que me vi forçado a guardar em mim sem retrucá-lo. Rezei a Deus para tirar de mim essa palavra, que se tornou em sangue em minha boca. E eis que a cuspi: reencontrei a paz e esqueci a tristeza”. (Aquiles, 4)

10. Certo dia na Cítia o abade Aquiles adentrou na cela do abade Isaías e o encontrou a comer. Ele pusera sal e água num prato. Mas vendo que ele a cuspia atrás dumas cordas de palma, perguntou-lhe o abade Aquiles: “Dize-me o que comias?” – “Perdoa-me, Pai, respondeu o outro, eu cortei umas palmas e voltei na calma da tarde. Então temperei com sal somente um pequeno bocado e o pus na boca. Mas a garganta me estava tão ressequida que ele não descia. Fui logo forçado a emborcar uma pouca d’água sobre o sal para engoli-lo. Perdoa-me!” – “Hei!, replicou o abade Aquiles, vinde ver Isaias, o comedor de sopa da Cítia! Se queres sopa, retorna ao Egito!”. (Aquiles, 3)

11. O abade Amoés era doente e tivera de ficar deitado durante anos. Mas jamais permitira que bisbilhotassem o interior de sua cela e examinassem o que tinha à sua disposição, pois lhe traziam muitas coisas como sói a um doente. Quando seu discípulo João entrava ou saia, ele fechava os olhos para não ver o que aquele fazia. Ademais sabia que João era monge confiável. (Amoés, 3)

12. O abade Benjamim, padre das Celas, fora até onde um ancião da Cítia e quisera lhe dar um tanto de azeite. Este lhe disse: “Vê onde está a quartinha que me trouxeste há três anos – ela está tal como ma trouxeste.” Ao escutar isso, ficamos admirados da prática desse velho. (Benjamim, 2)

13. Contava-se isto sobre o abade Dióscoro de Náquias: “Ele comia pão de cevada e farinha de lentilha. Todo ano se propunha ele a prática duma particular observância, por exemplo, não ir para a morada de ninguém durante aquele ano, ou não falar, ou não comer alimento cozido, ou ainda não comer nem frutas nem legumes – e assim fazia com todas as práticas possíveis: mal terminava uma, já começava outra, e por um ano”. (Dióscoro, 1)

14. Disse-nos o abade Evagro as palavras que conservava dum ancião: “Eu arredo os deleites carnais para suprimir as ocasiões de cólera, pois bem sei que a cólera sempre me atormenta por ocasião desses deleites: ela turba meu espírito e afasta o conhecimento de Deus”.

15. Certo dia Epifânio, o bispo do Chipre, mandou um mensageiro dizer ao abade Hilarião: “Vem, para que nos vejamos antes de morrer”. Com efeito se encontraram e, enquanto comiam, levaram-lhes uma galinha. O bispo a ofereceu ao abade Hilarião, mas disse o ancião: “Pai, excusa-me, pois desde que vesti este hábito, não como vianda”. Respondeu-lhe Epifânio: “E eu, desde que vesti este hábito, jamais permiti alguém se deitar tendo algo contra mim, e jamais dormi com ressentimento contra alguém”. Disse-lhe então Hilarião: “Perdoa-me, tua prática é melhor que a minha”. (Epifânio, 4)

16. Dizia-se que o abade Eládio morou vinte anos nas Celas sem nunca alevantar os olhos para olhar o domo da igreja. (Eládio, 1)

17. Certo dia a abade Zenão viajava pela Palestina, quando fatigado se sentou para comer perto dum cultivo de pepinos. Soprava-lhe o pensamento: “Pega um pepino para ti e come-o. Que é um mero pepino?” Mas ao pensamento respondeu ele: “Os ladrões são postos a tormento: experimenta-o para ver se podes suportá-lo”. Ele se levantou e durante cinco dias expôs-se ao sol a pino e, enquanto grelhava, dizia-se a si: “Não, não posso suportar as torturas!” – “Pois bem, continuava ele, se não as pode suportar, não roubes para comer”. (Zenão, 6)

18. Disse o abade Teodoro que a privação extenua o corpo do monge. Mas conforme outro ancião as vigílias extenuam-no mais (Teodoro, 2).

19. Disse o abade João o Nanico: “Quando um rei quer conquistar uma cidade dos inimigos, primeiro corta a água e os víveres; então, esgotados pela fome, capitulam. Assim é com as paixões da carne. Quem vive no jejum e na fome há de ver os inimigos que lhe despedaçam a alma derrocarem”. (João Kolobos, 3)

20. Disse ainda o abade João o Nanico: “Certo dia eu percorria o caminho da Cítia levando cordas de palmas. Vi um caravaneiro cujas intenções me encolerizaram. Então, abandonei meu fardo e fugi”. (João Kolobos, 5)

21. O abade Isaque, o padre das Celas, disse: “Conheço um irmão que, ao fazer a colheita dum campo, quis comer uma espiga de trigo. Ele pediu ao proprietário do campo: ‘Permite-me comer uma espiga somente’. Respondeu-lhe o homem, cheio de admiração: ‘Pai, este campo está a tua disposição e tu me perguntas isso?’A fineza desse irmão chegava a tal ponto”. (Isaque, 4)

22. Um irmão interrogou o abade Isidoro, o padre da Cítia: “Por que o temem tanto os demônios?” Respondeu o ancião: “Desde que me fiz monge, esforço-me em impedir a cólera de me subir à garganta”. (Isidoro, 2)

23. Durante os quarenta anos em que o abade Isidoro da Cítia se sentia interiormente inclinado ao pecado, jamais – dizia ele – consentira nem à concupiscência nem à cólera. (Isidoro, 3)

24. Contava o abade Cassiano que o abade João, higúmeno do Grande Monastério, fizera uma visita ao abade Paésius, que habitara quarenta anos o mais afastado do deserto. Ele amava profundamente Paésius e o interrogou com a liberdade que essa afeição lhe dava: “Vives na anacorese há muito tempo, e à custo um homem consegue te turbar; dize-me, a que resultado chegaste?” – “Desde que me fiz solitário, respondeu Paésius, nunca o sol me viu comer” – “E a mim, disse o abade João, nunca ele me viu colérico”. (Cassiano, 4 Inst; Coen. 5, 27)

25. Disse ainda o abade Cassiano: “O abade Moisés nos contou esta história que ouviu do abade Serapião: ‘Durante a mocidade, dizia este, eu morava com o meu ancião, o abade Teonas. Comíamos juntos, mas ao término duma refeição, por instigação do diabo, furtei um pãozito e comi-o às escondidas, sem o conhecimento do ancião. Como continuasse a fazê-lo depois de certo tempo, o vício começava a me dominar, já não tinha forças para me conter: minha consciência era a única a me condenar, e tinha vergonha de falar disso ao ancião. Mas, por disposição da misericórdia divina, alguns irmãos vieram se encontrar com o ancião por bem de suas almas e interrogaram-no sobre seus pensamentos. Respondeu-lhes o ancião: ‘Nada é mais daninho aos monges e regozija mais aos demônios que dissimular os pensamentos aos pais espirituais.’ Após lhes doutrinou sobre a continência. Durante a conversação, considerei que Deus revelara ao ancião o meu furto. Tomado de arrependimento, comecei a chorar e tirei do bolso o pãozito que tinha por mal hábito roubar, depois me prostrando ao solo implorei o perdão para o passado e a oração para me guardar no futuro. Então me disse o ancião: ‘Meu filho, tua confisão te libertou da escravidão, sem que eu dissesse palavra; ao te acusares a ti venceste de pronto o demônio que entenebrecia teu coração por causa de teu silêncio. Ademais, jamais ele terá espaço em ti, pois ele há de sair do teu coração no grande dia’. Mal acabara de falar o ancião, a sua palavra se tornou visível: uma espécie de chama saiu do meu peito e empestou a casa, de modo que os presentes pensaram que se havia queimado um montão de enxofre. Disse pois o ancião: ‘Meu filho! O Senhor nos vem dar neste sinal a prova da realidade das minhas palavas e da tua libertação’”. (Cassiano, Coll, 2, 11)

26. Quando se recreava com os irmãos, Macário se impunha esta lei: se houvesse vinho, bebê-lo por causa dos irmãos; mas depois, para cada copa de vinho, passaria um dia inteiro sem beber água. Os irmãos lhe davam vinho, acreditando que isso lhe aprazia, e o ancião o aceitava com alegria para depois se mortificar. Mas seu discípulo, que conhecia essa sua resolução, disse aos irmãos: “Pelo amor de Deus, imploro-vos, não lho deis mais, pois ele se tortura em sua cela”. Quando os irmãos o souberam, não lhe deram mais vinho. (Macário, 10)

27. Na Cítia o abade Macário o Ancião dizia aos irmãos após reuni-los em assembléia: “Fugi, irmãos!”. Um deles lhe perguntou: “Pai, para onde fugir mais senão neste deserto?” O abade pôs o dedo sobre a boca dizendo: “Eis donde eu digo para fugir”. E ele mesmo entrou na cela, fechou a porta e ficou só. (Macário, 16)

28. Disse o abade Macário: “Se tu te irritas ao repreender alguém, satisfazes tua própria paixão. Não te deves perder para salvar o próximo”. (Macário, 17)

29. Disse o abade Pastor: “Se Nabuzardão, o mestre-cuca, não viera, o Templo do Senhor não se incendiara (cf. 4 Re., 25, 8 sq. segundo os LXX). Assim se a satisfação do ventre cheio não entra na alma, nunca o espírito sucumbirá ao combater o inimigo”. (Poemão, 16)

30. Quando convidavam o abade Pastor para almoçar, ele ia para não constristar o irmão com a desobediência, mas ia pesaroso e contrariado”. (Poemão, 17)

31. Citaram ao abade Pastor o caso dum monge que não bebia vinho. Respondeu o abade Pastor: “O vinho não convém a todos os monges”. (Poemão, 19)

32. Disse o abade Pastor: “O fumo espanta as abelhas e permite tirar o seu produto saboroso; assim o bem-estar corporal espanta da alma o temor do Senhor e lhe retira toda boa obra”. (Poemão, 57)

33. Eis o que contou um ancião sobre o abade Pastor e seus irmãos: “Eles moravam no Egito. Sua mãe desejava vê-los, mas não o lograva. Certo dia ela ficou de atalaia e se lhes apareceu quando iam à igreja. A sua vista eles retornaram para a cela e lhe fecharam a porta na cara. Então de pé ante a porta, ela se pôs a gritar e a chorar amargamente. O abade Anub, que a tudo escutava, foi até onde o abade Pastor e lhe disse: “Que poderíamos fazer por essa pobre mulher que chora à porta?” O abade Pastor se dirigiu até à porta e, de dentro, escutou os gemidos realmente dignos de pena. Ele lhe disse: “Por que choras assim, boa mulher?” Mas ela ao escutar a voz redobrou os gritos e gemidos. “Quero-vos ver, meus filhos, disse ela. Que há de acontecer se vos vejo? Não sou vossa mãe? Não vos aleitei, e não são meus cabelos agora todos brancos? Com que emoção não escutei a tua voz!” Disse-lhe Pastor: “Preferes nos ver a nós cá embaixo ou no outro mundo?” – “Se não vos vejo cá embaixo, ver-vos-ei lá no alto, meus filhos?”, replicou ela. – “Se tens coragem para nos não ver cá embaixo, ver-nos-ás lá no alto’. Daí se foi a mulher, alegre a dizer: “Se estou certa de vos ver lá no alto, já não vos posso ver cá embaixo”. (Poemão, 76)

34. O abade Pior comia andando. Alguém lhe pediu a razão disso. Ele respondeu que não comia como quem faz uma obra (ergôn), mas como quem faz algo de acessório (parergôn). A outro que lhe viera com a mesma questão respondeu: “Para a alma não sentir deleite corporal enquanto como”. (Pior, 2)

35. O abade Pedro Pionita, que habitava nas Celas, não bebia vinho. Quando ficou de idade, os irmãos instavam-no a beber um pouco. Como ele não aceitasse, misturaram-no com água e assim lhe ofereceram. Disse-lhes ele: “Acrediteis em mim, meus filhos, considero isso um luxo”. E condenava-se a si por causa dessa água tinta de vinho. (Pedro Pionita, 1)

36. Certo dia se celebrava a Oblação sobre a montanha do abade Antão, e lá havia um pouco de vinho. Um dos anciãos pegou um copinho e levou-o ao abade Sisóis, que o bebeu, e bebeu também outro copo que se lhe ofereceu. Mas o terceiro copo recusou: “Pára, irmão, não sabes que Satã existe?”.

37. Um irmão interrogou o abade Sisóis: “Que devo fazer? Quando vou à igreja, à miúdo os irmãos me detêm amicalmente para a refeição” – “É mui perigoso”, respondeu o ancião. Seu discípulo Abraão então disse: “Se o irmão vai à igreja o sábado e o domingo, é muito beber três copos?” – “Não seria muito se Satã não existisse”. (Sisóis, 2).

38. Freqüentemente dizia o discípulo ao abade Sisóis: “Vamos, Pai, come!” – “Nós já não comemos, meu filho?”, respondia ele. “Não, Pai”. – “Pois bem, se não comemos ainda, traz o necessário e comamos”. (Sisóis, 4).

39. Certo dia o abade Sisóis dizia com parresia: “Crede-me: há trinta anos que já não rezo a Deus por meus pecados, mas Lhe digo em oração: ‘Senhor Jesus Cristo, guardai-me de minha língua!’. Mas até agora eu caio por causa dela e cometo o pecado!” (Sisóis, 5)

40. Certo dia o abade Silvano e seu discípulo Zacarias chegaram a um monastério; lá fizeram-nos comer um pouco antes de partir. Durante o caminho, o discípulo encontrou água à beira do caminho e quis beber, mas o abade Silvano lhe disse: “Zacarias, hoje é dia de jejum!” – “Pai, respondeu Zacarias, já não comemos hoje?” – “Aquela comida, lhe disse o ancião, era uma caridade; mas agora, meu filho, observemos o jejum”. (Silvano, 1).

41. Disse Santa Sinclética: “O estado que escolhemos nos obriga a conservar a castidade mais perfeita; a castidade fingida dos mundanos está de mistura com seu contrário, pois se inclinam para todos os sentidos: seus olhares são imoderados, seus risos desordenados”. (Sinclética, 2)

42. Ela disse ainda: “As drogas amargas espantam os animaias venenosos; assim o jejum acompanhado da oração espanta da alma os maus pensamentos”. (Sinclética, 3)

43. Ela disse ainda: “Não te deixes seduzir pelos prazeres que os ricos buscam neste mundo, como se esses gozos tivessem alguma utilidade. Por isso essas gentes têm em consideração, por conta do prazer, a arte culinária. Mas tu consideres mais delicioso que suas refeições o jejum e o alimento abrutalhado. Não te satisfaças nem de pão e não desejes vinho”. (Sinclética, 4)

44. Disse o abade Sisóis: “Dominar a língua é a verdadeira xenitéia”. (Titóis, 2) [xenitéia: é o estado de quem é estrangeiro onde habita; em sentido espiritual, é abandonar tudo que obstaculiza o caminho até Cristo].

45. Disse o abade Hiperéquios: “O leão é terrível para os onagros (cf. Sl. 13, 23); assim o monge experimentado para os pensamentos concupiscentes”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 66).

46. Ele disse ainda: “O jejum é o freio do monge. Quem o abandone vem a ser como um cavalo abrasado”. (Hiperéquios, 2; Exhort. ad monachos, 80).

47. Disse o abade Hiperéquios: “Graças a um galho seco, Eliseu fez a lâmina do machado escalar do fundo do abismo (2 Re. 6, 5); por causa de um corpo seco, o monge tira sua alma da fossa. O jejum do monge seca as fontes dos prazeres”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 89-90)

48. Ele disse ainda: “O monge casto será honrado na terra e coroado no céu pelo Altíssimo”.

49. Ele mesmo disse: “O monge que não retém a língua na hora da cólera não reterá as paixões da carne no momento azado”. (Hiperéquios, 3; Exhort. ad monachos, 97)

50. Ele disse ainda: “Mais vale comer carne e beber vinho que comer a carne dos irmãos, denegrindo-os”. (Hiperéquios, 4; Exhort. ad monachos, 144)

51. Ele disse ainda: “O monge não dirá palavras más, pois a vinha não traz espinhos”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 112)

52. Ele disse ainda: “A serpente, com diz-que-diz-ques, tirou Eva do Paraíso. O monge que murmura contra o próximo parece com ela: perde a alma de quem o escuta e não salva a sua!”. (Hiperéquios, 5; Exhort ad monachos, 153)

53. Num certo dia de festa na Cítia levaram uma copa de vinho a um ancião. Ele a recusou dizendo: “Afasta de mim esse veneno! (literalmente: essa morte)”. A vista disso os outros que comiam com ele não beberam mais. (N. 144).

54. Outra vez na Cítia levaram uma bilha de vinho novo para dele distribuir um copo para cada um. Um dos irmãos chegara e, vendo que aceitavam vinho, fugiu para sob a cúpula dum cômodo; mas a cúpula desabou. Ao barulho os irmãos acorreram e encontram o irmão estendido e meio morto. Eles começaram a escarnecê-lo: “Bem feito para ti, diziam eles, pois foste acometido de vanglória!” Mas o abade o reconfortou dizendo: “Fica tranqüilo, meu irmão, fizeste uma boa ação; e, pelo Senhor!, enquanto eu viver essa cúpula não será reconstruída, para que o mundo saiba que uma cúpula desabou na Cítia por causa de uma copa de vinho”. (N. 148)

55. Certo dia o padre de Cítia fora visitar o bispo de Alexandria. Ao retornar os irmãos lhe perguntaram as novidades da cidade, e lhes respondeu ele: “Crede-me, irmãos, não vi ninguém lá embaixo, apenas o bispo”. Com tal resposta eles se inquietaram e lhe disseram: “A população foi aniquilada, abade?”. Mas o padre repisou: “Não é isso; mas não fui vencido pela tentação de olhar os homens”. Essa narrativa levou os irmãos à admiração e os fortificou na observância de não elevar os olhos. (N. 161)

56. Certo dia um ancião foi até onde outro ancião que disse a seu discípulo: “Faz-nos um pouco de lentilhas”, e ele lhes fez. Depois: “Parte-nos o pão”, e ele o partiu. Mas os anciãos ficaram a conversar de coisas espirituais até à sexta hora do dia seguinte. Então o ancião disse pela segunda vez a seu discípulo: “Filho, faz-nos um pouco de lentilhas”. – “Preparei-as ontem”, respondeu ele; e puseram-se a comer. (N. 149)

57. Outro ancião visitou um dos Padres. Este mandou cozer um pouco de lentilhas. “Recitemos um pequeno Offício, propusera ele, depois comeremos”. Um disse o psaltério inteiro, e o outro recitou de cor e na ordem as leituras dos grandes profetas. De manhã, o visitante se foi: eles haviam esquecido de comer. (N. 150)

58. Um irmão estava com fome desde a manhã. Ele lutou contra a sugestão, para só comer depois de terças; em terças, ele se fez violência para esperar sextas. Ele partiu o pão e se sentou para comer, mas logo se levantou dizendo: “Resistirei bem até noas”. Em noas rezou e viu a tentação diabólica sair de si como fumaça; e ele parou de ter fome. (N. 145)

59. Um ancião caiu doente e não pôde tomar alimento durante dias. Seu discípulo lhe pediu a permissão de lhe preparar algo para fortificá-lo: ele fez um pirão de farinha. Lá havia um pote pendurado com um pouco de mel e outro cheio do fétido azeite de linho – que só servia para a lâmpada. O irmão se enganou e em lugar do mel pôs o azeite de linho no pirão. Ao provar o ancião nada disse e comeu em silêncio. O ancião se fez violência para comer outra colher. O irmão lhe deu uma terceira vez, mas o ancião recusou: “Pai, está bom, disse o irmão, vou comer contigo”. Ao provar compreendeu o que fazia e caiu de cara na terra. “Infeliz de mim, Pai, eu te assassinei e tu me deixaste em pecado ao não dizer nada!” – “Não te amofines, meu filho, respondeu o ancião; se Deus quisesse que eu comesse mel, tu irias cobrir o pirão com mel.” (N. 151)

60. Conta-se que certo dia um ancião desejou comer um pepino. Quando ele conseguiu um, antes de tudo levantou seus olhos e, ainda que não cedesse ao desejo, fez penitência só por tê-lo desejado demais. (N. 152)

61. Um monge foi visitar sua irmã, que estava doente num monastério. Essa monja era bem observante: não consentia em ver homem nem queria dar a seu irmão ocasião de se chegar em meio a mulheres por causa dela; lhe disse ela: “Afasta-te, meu irmão, e ora por mim; com a graça do Cristo, ver-te-ei no reino dos céus”. (N. 153)

62. Um monge topara com monjas a meio de um caminho. Ao vê-las ele se afastou da rota, mas a superiora lhe disse: “Se tu fosses um monge perfeito, não nos teria olhado nem visto que éramos mulheres”. (N. 154)

63. Certo dia os irmãos foram para Alexandria: o arcebispo Teófilo os convocara para orar e destruir os templos pagãos; enquanto comiam com ele, trouxeram um veado, o qual os irmãos comeram sem perceber o que era. O arcebispo pegou um pedaço e o ofereceu a um ancião que estava a seu lado, dizendo: “Come, Pai, é um bom bocado”. Mas os outros responderam: “Achávamos até agora que era legume; mas se é vianda, não comeremos mais”. E nenhum deles quis comer dela novamente. (Teófilo, 3; N. 162)

64. Um irmão carregou para a cela pães frescos e invitou os anciãos à sua mesa. Quando eles comeram cada um dois pãezitos, pararam. O irmão, que lhes conhecia a agra ascese, fez ume metania e lhes disse: “Pelo amor do Senhor, comei hoje conforme a vossa fome”; cada um então comeu dez outros pães. Vê-se assim o quanto esses verdadeiros ascetas comiam abaixo de suas necessidades. (N. 155) [metania: mudança de idéia, conversão, penitência; ato exterior que evidencia esses estados - geralmente uma prostração em terra].

65. Certo dia um ancião ficou tão doente que suas entranhas expulsavam câmaras de sangue. Um irmão tinha umas ameixas secas; fez um pirão, pô-las dentro e o ofereceu ao ancião: “Come, propos ele, talvez isto te faça bem”. O velho fitou-o longamente e disse: “A bem dizer quisera que Deus me deixasse mais trinta anos doente desta enfermidade!” Mesmo gravemente enfermo o ancião não aceitou tomar sequer um pirãozito. Então o irmão pegou o que trouxera e retornou a sua cela. (N. 156)

66. Outro ancião morava no mais longe do deserto; um irmão foi até onde ele e o encontrou doente. O irmão lhe lavou o rosto e preparou uma refeição com o que levava. Ao vê-lo prepará-la o velho disse: “É verdade, irmão, esqueci que os homens encontram conforto no comer!” O irmão lhe ofereceu também um copo de vinho. Quando o ancião o viu, desatou a chorar dizendo: “Estava certo de não mais beber vinho até minha morte”. (N. 157)

67. Um ancião decidiu que não beberia durante quarenta dias; e quando fazia calor, ele lavava o jarro, o reenchia d’água e o suspendia ante si. Os irmãos lhe perguntaram por que fazia isso. “Para sofrer mais ainda à vista do que desejo, sem prová-lo; daí merecerei receber do Senhor uma recompensa mais grande”. (N. 158)

68. Um irmão viajava com sua mãe, que era de muita idade. Eles chegaram diante de um rio que a velha não podia baldear. O filho pegou o manto dela, embrulhou as mãos para não tocar o corpo da mãe e atravessou o rio carregando-a. Disse então sua mãe: “Meu filho, por que embrulhaste as mãos?” – “Porque o corpo duma mulher é feito de fogo, respondeu tocando-a, ele me atearia com a lembrança de outras mulheres”. (N. 159)

69. Dizia um Padre: “Conheço um irmão que jejuava toda a semana da Páscoa na cela. No sábado à noite ele ia até a sinaxe e fugia logo após a comunhão, para que os irmãos não o forçassem a comer com eles. Na sua cela só comia umas ervas cozidas em salmoura e sem pão”. (N. 160)

70. Certo dia na Cítia os irmãos foram convocados para limpar cordas (de palmas). Um deles, doente por causa de austeridades muito extremas, começou a tossir e a escarrar sem querer sobre um irmão. Este último se obsedava no pensamento de lhe dizer: “Pára, não escarra mais em mim!” Mas para se dominar, ele pegou o escarro, levou-o à boca e o engoliu. Disse ele então a si mesmo: “De duas uma: ou bem não digas a teu irmão o que irá atristá-lo, ou bem come o que te desagrada”. (N. 357)

sábado, janeiro 09, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte III)

Capítulo Terceiro: Da Compunção

1. Conta-se que o abade Arsênio, durante toda a vida, quando se sentava para os trabalhos manuais, metia um pano de linho sobre o peito por causa das lágrimas que jorravam de seus olhos. (Arsênio, 41 a).

2. Um irmão pedira ao abade Amonas: “- Dize-me uma palavra”. Respondeu-lhe o ancião: “- Vede a mentalidade dos malfeitores aprisionados. Exigem eles: ‘- Onde está o juiz? Quando virá ele?’ E se lamentam enquanto esperam sua punição. Também o monge deve estar sempre alerta e se interrogar assim: ‘- Infeliz de mim! Como poderei eu me apresentar ante o tribunal de Cristo? Como hei de dar conto dos meus atos?’ Se meditas assim incessantemente, poderás ser salvo”. (Amonas, 1).

3. Disse o abade Evagro: “- Quando estiveres na cela, recolhe-te; pensa no dia da morte. Representa-te teu corpo de cuja vida se esvai; pensa nessa calamidade, ressente-te da dor e te horroriza da vaidade deste mundo. Modera-te e vela a fim de poder perseverar sempre na resolução de viver na hesequia e não te abalares. Evoca em teu espírito os condenados do inferno; pensa no estado em que estão suas almas atualmente, mergulhados no silêncio terrível ou nos gemidos cruéis, no temor e na agonia moral, na apreensão e na dor, vertendo lágrimas espirituais inumeráveis e desesperadamente inconsoláveis. Lembra-te também do dia da ressurreição e imagina-te o terror e o temor que o julgamento divino provoca, e em meio a tudo isso, a confusão dos pecadores ante a face de Deus e do Cristo, na presença dos anjos, dos arcanjos, das potestades e de todos os homens. Pensa em todos os suplícios, no fogo eterno, no verme que não morre, nas trevas infernais e sobretudo no ranger de dentes, nos terrores e sofrimentos. Não te esqueças dos bens reservados aos justos, a parrésia com Deus Pai e com o Cristo seu Filho, na presença dos anjos, dos arcanjos, das potestades e de todo o povo. Conserva a lembrança desse destino duplo, geme e chora ante o julgamento dos pecadores, guarda o pentos, temendo incorrer tu mesmo nessas penas; mas regozija-te, exulta, sê pleno de alegria ao pensar nos bens reservados aos justos; diligencia para os gozar e te afastar das maldições. Quer estejas na tua cela ou alhures, vela para nunca te esquecer de tudo isso, nem para o espantar da memória como sói fazer com os pensamentos maus e criminosos”. (Evagro, 1).

4. Disse o abade Elias: “- Temo três coisas: primeiro o momento em que minh’alma sairá do corpo; em seguida o em que surgirei ante Deus; e finalmente o da comunicação da sentença”. (Elias, 1).

5. O arcebispo Teófilo, de santa memória, às portas da morte disse: “- Abade Arsênio, tu és ditoso de sempre trazer esta hora ante os olhos”. (Teófilo, 5).

6. Os irmãos diziam que certo dia, durante uma ágape, um irmão desatou a rir à mesa. À vista disso o abade João se pôs a chorar e disse: “- Que há no coração desse irmão que desata a rir? Antes devia chorar, porque come a ágape!” (Kolobos, 9).

7. Dizia o abade Tiago: “- Como o candeeiro alumia o quarto escuro, assim o temor de Deus, quando pousa no coração do homem, alumia e lhe ensina todas as virtudes e todos os mandamentos divinos”. (Tiago, 3).

8. Alguns Padres interrogaram o abade Macário o Egípcio: “- Por que teu corpo é sempre mirrado, quer comas quer jejues?”. Respondera o ancião: “- O pau com que se atiça e reatiça os cardos no fogo está sempre consumido; assim o homem que o temor de Deus purificou e consumiu até mesmo os ossos”. (Macário, 12).

9. Os anciãos do monte de Nítria enviaram um irmão a Cítia, à morada do abade Macário para lhe rogar que fosse até eles; se não, acrescentavam eles, soubesse que se não fosse, uma mole de gente iria até ele, pois desejavam vê-lo antes que partisse para o Senhor. Quando chegou à montanha, a multidão dos irmãos se juntou perto dele e os anciãos lhe pediram uma palavra para os irmãos. Disse-lhes pois Macário com muitas lágrimas: “- Choremos, irmãos, deixemos as lágrimas fugirem dos olhos antes de ir onde elas nos queimarão os corpos”. Todos se puseram a chorar e se prostraram com o rosto em terra dizendo: “- Pai, ora por nós!”. (Macário, 34).

10. Certo dia, de viagem no Egito, o abade Pastor viu sentada sobre um sepulcro uma mulher, que chorava amargamente: “- Nem todos os prazeres do mundo que se lhe oferecessem, disse ele, tirariam sua alma do pentos. Assim deve o monge sempre conservar o pentos”. (Poemão, 26).

11. Outra vez caminhava o abade Pastor com o abade Anub pela região de Diolcos. Aproximando-se dum túmulo, viram uma mulher que com crueza se batia e amargamente chorava. Eles pararam para observá-la; após retomar o caminho um tanto, encontraram-se com outrem. Interrogou-o o abade Pastor: “- Que se dá nessa mulher para chorar assim?”. “-Ela perdeu o marido, o filho e o irmão”, respondeu ele. O abade Pastor disse ao abade Anub: “- Afirmo-te que quem não mortifica todos os desejos da carne e não possui pentos semelho, não pode ser monge. Naquela mulher, a alma e a vida inteira estão no pentos”. (Poemão, 72).

12. Disse ainda o abade Pastor: “- O pentos tem dupla função: cultivar e guarnecer (Gn. 2, 15)”. (Poemão, 39).

13. Desta maneira um irmão interrogou o abade Pastor: “- Que devo fazer?”. Respondeu ele: “- Abraão, ao chegar na terra prometida, comprou para si um sepulcro e, graças ao sepulcro, recebeu a terra em herança (cf. Gn. 23)”. “Que é esse sepulcro?”, retorquiu-lhe o irmão. “É o lugar das lágrimas, respondeu o ancião, e do pentos”. (Poemão, 50).

14. O arcebispo Atanásio, de santa memória, pedira ao abade Pambo para sair do deserto e ir a Alexandria. Quando o ancião chegou à cidade, viu uma mulher de comédias e desatou a chorar. Os presentes lhe perguntaram a razão. “Duas coisas me turbaram, respondeu ele: em primeiro lugar, a perdição desta mulher; em seguida, o pouco zelo que tenho de agradar a Deus perto do muito que ela tem para agradar a homens depravados”. (Pambo, 4).

15. Certo dia estava o abade Silvano sentado com os irmãos, quando entrou em êxtase e caiu de cara na terra. Muito tempo depois, levantou-se banhado de lágrimas. Perguntaram-lhe os irmãos: “- Que tens, Pai?”. Mas ele chorava em silêncio. Como insistissem, lhes disse: “- Conduziram-me ao lugar do julgamento; vi muitos dos que usam nosso hábito ir ao suplício, e muitas gentes do mundo entrar no reino”. Deste então o ancião entregou-se ao pentos e não queria mais sair da cela. Se o forçavam, cobria o rosto com o capucho e dizia: “- Que necessidade há de ver esta luz efêmera que nos não serve de nada”. (Silvano, 2).

16. Sinclética, de santa memória, disse: “- Labor (kopos) e peleja (agôn) esperam os pecadores convertidos a Deus, e após o gozo inefável. Eles são como os que querem acender um fogo: de início enfumaçados e a ponto de chorar, eles obtêm a este preço o desejado. Com efeito está escrito: “Nosso Deus é fogo devorador” (Dt. 4, 24); é-nos mister, nós também, entre lágrimas e penas acender em nós esse fogo divino”. (Sinclética, 1).

17. Disse o abade Hiperéquios: “- O monge que vela transforma a noite em dia, pela assiduidade à oração. O monge que espreme o coração expulsa as lágrimas e atrai a misericórdia do céu”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 84-85).

18. Alguns irmãos foram onde o abade Felix na companhia de segrais e lhe pediram para dizer uma palavra. O ancião se calou. Solicitado com insistência, disse-lhes enfim: “- Quereis escutar uma palavra?” – “- Sim, Pai”, responderam eles. Disse-lhes pois o ancião: “- Agora, não há mais palavras. Quando os irmãos interrogavam os Anciãos e cumpriam o dito, Deus inspirava nos Anciãos a maneira de falar. Atualmente, como interrogam e não põem em prática o que escutam, Deus retirou dos anciãos a graça da palavra, que não sabem mais dizer, pois não há quem as execute”. Escutando essas palavras, os irmãos gemeram e disseram: “- Pai, ora por nós”. (Felix, 1).

19. Certo dia o abade Teodoro e o abade Ouro embarravam o teto da cela. “- Que faríamos, se perguntavam eles entre si, se Deus nos viesse visitar agora?”. Então se puseram a chorar e, abandonando o trabalho, retirou-se cada um na sua cela. (Ouro, 1).

20. Conta um ancião que um irmão, querendo abandonar o mundo, era impedido pela mãe. Mas como se obstinasse nessa idéia, dizia à mãe: “- Quero salvar minh’alma”. Em suma, após muita resistência, vendo que se não podia opor ao desejo do filho, sua mãe deixou-o ir. Depois de monge, contudo, passava o tempo na indolência. Sua mãe morreu. Ele mesmo, pouco tempo depois, ficou gravemente enfermo. Ele teve um êxtase e foi transportado até o lugar do julgamento onde sua mãe se encontrava entre os condenados. Ela se espantou de vê-lo e lhe disse: “- Que foi, meu filho? Condenaram-te também a vir para cá? Mas que fizestes do que me dizias sobre salvar a tua alma?”. Ao escutar isso, ele enrubesceu; mudo de dor, não podia responder à mãe. Fez a misericórdia do Senhor que, após essa visão, o irmão ficasse curado e remido da doença. Refletindo pois o caráter miraculoso da visão, encerrou-se e se dedicou à meditar na sua salvação. Fez penitência e chorou as faltas cometidas no tempo da sua negligência. Era tão grande a sua compunção (katanuxis) que, quando o invitavam para algum refresco, de medo que tinham de o excesso de lágrimas lhe causar algum dano, ele recusava o consolo e dizia: “- Se não pude suportar a admoestação da minha mãe, como no dia do julgamento suportarei eu minha vergonha na presença do Cristo e dos santos anjos?”. (N. 135).

21. Disse um ancião? “- Se fosse possível às almas dos homens morrer de medo, quando o Cristo vier após a Ressurreição todo o mundo morreria de terror e de pavor. Com efeito, que espetáculo não será ver os céus rasgados, Deus impando de cólera e indignação, as armadas inumeráveis de anjos e toda a humanidade reunida! Devemos por conseguinte viver, porque Deus nos pedirá a conta de cada um de nossos movimentos”. (N. 136).

22. Um irmão perguntou a um ancião: “- Pai, donde vem que meu coração é duro e não temo o Senhor?” – “No meu parecer, respondeu ele, quem se acusa do fundo do coração obterá o temor de Deus”. – “Que acusações?”. Respondeu-lhe o ancião: “- Em toda circunstância, deve-se acusar-se dizendo: ‘- Lembra-te que deves comparecer ante Deus’, ou bem, ‘- Que tenho eu de comércio com homens? ’. Acredito que o temor de Deus virá se uma pessoa permanece nessas disposições”. (N. 138).

23. Um ancião viu alguém a rir e lhe disse: “- Devemos dar conta de toda nossa vida ante o Senhor do céu e da terra, e tu ris!”. (N. 139).

24. Disse um ancião: “- Em todo lugar levamos a sombra do corpo; assim devemos ter conosco em todo lugar as lágrimas e a compunção (katanuxis)”. (N. 140).

25. Um irmão pediu a um ancião dos Padres: “- Dize-me uma palavra”. Disse-lhe o ancião: “- Quando Deus abateu o Egito, não havia uma só casa que não estivesse no pentos”.

26. Um irmão pediu a outro ancião: “- Que devo fazer?” – “Devemos sempre chorar, lhe respondeu ele, pois aconteceu outrora que um ancião morreu e retornou após várias horas. Perguntáramos a ele: ‘- Pai, que viste lá embaixo?'. E ele nos contou entre lágrimas: '- Escutei uma voz lúgubre que dizia incessantemente: - Infeliz de mim, infeliz de mim!' . Devemo-nos também sempre dizer o mesmo”. (N. 141).

27. Um irmão interrogou um ancião: “- Minh’alma deseja lágrimas como as que vertiam os anciãos, como ouvi falar; elas não me vêm e isso me turba. Como posso tê-las?” Respondeu o macróbio: “- Os filhos d’Israel levaram 40 anos para entrar na terra prometida. As lágrimas são como a terra prometida: se as conseguires, não temerás mais a guerra. Com efeito, Deus quer que a alma seja afligida para que, sem trégua, deseje entrar nessa terra”. (N. 143).

sábado, janeiro 02, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte II)

Capítulo Segundo: Da Hesequia

1. Disse o abade Antão: “- Os peixes que se deixam ficar em terra firme expiram. Assim os monges que vadiam fora da cela ou gastam tempo com gentes mundanas perdem o tônus da hesequia. É mister que os peixes retornem o mais rápido ao mar e nós à cela. Se não, arrastando-nos fora, esquecemos de nos guardar dentro”. (Antão, 10).

2. Disse o abade Antão: “O que pratica a hesequia no deserto está liberto de três castas de luta: a do ouvido, a da palavra e a da vista. Só lhe resta um só combate a travar: o do coração”. (Antão, 11).

3. Quando ainda era áulico, o abade Arsênio orou ao Senhor nestes termos: “- Senhor, conduzi-me à salvação”. Sobreveio-lhe uma voz, que disse: “- Arsênio, foge dos homens e serás salvo”. Já dentro da vida monástica, orou novamente nos mesmos termos, e escutou a voz a lhe dizer: “- Arsênio, foge, cala-te e pratica a hesequia!” Eis as raízes da impecabilidade. (Arsênio, 1-2).

4. O arcebispo Teófilo, de bem-aventurada memória, certo dia visitou na companhia dum magistrado o abade Arsênio. O arcebispo o interrogou, querendo lhe escutar uma palavra. Por um momento o ancião guardou o silêncio e depois respondeu: “- Se ta digo, observá-la-ás?” Ambos eles lho prometeram. Então o ancião lhes disse: “- Se escutardes dizer que Arsênio está num certo lugar, não ides!” Outra vez o arcebispo desejou vê-lo; antes porém mandou perguntar se o receberia. O ancião lhe enviou esta resposta: “- Se vieres, receber-te-ei. Mas se te não receberes a ti, receberei todo o mundo. Daí não permanecerei mais neste lugar”. A essas palavras disse o arcebispo: “- Ainda que o devesse perseguir, não iria à morada desse santo homem”. (Arsênio, 7-8).

4. Certo dia o abade Arsênio chegou a um lugar cheio de canas que se agitavam ao vento. Disse o ancião aos irmãos: “- Que é que se agita?” “- As canas”, responderam eles. “Verdadeiramente se alguém que se conserva na hesequia escuta o grito dum pássaro, seu coração já não tem mais essa hesequia. Quanto mais vós que vos agitais como essas canas”. (Arsênio, 25)

6. Conta-se do abade Arsênio que sua cela distava trinta e duas milhas e dela quase não saía; outros lhe representavam nas comissões (diakonema). Porém, quando devastaram a Cítia, ele foi embora chorando e disse: “- O mundo perdeu Roma, e os monges a Cítia”. (Arsênio, 21).

7. Quando o abade Arsênio morava em Canópia, uma virgem – duma família senatorial – riquíssima e temente a Deus veio de Roma para visitá-lo. Recebeu-a o arcebispo Teófilo; ela lhe instou a insistir com o ancião para que pudesse vê-lo. O arcebispo foi até a morada deste e lhe disse: “- Uma dama de família senatorial vem de Roma e deseja ver-te”. Mas o ancião não consentiu em recebê-la. Quando lhe deram a resposta, a dama mandou selar a montaria e disse: “- Acredito que Deus conceder-me-á vê-lo, pois não vim ver um homem; homens há muitos em nossa cidade. Vim ver um profeta”. Quando por disposição divina ela chegou à cela do ancião, estava ele bem a propósito fora dela. A sua vista a mulher se arrojou a seus pés. Mas ele indignado levantou-a e lhe disse com olhos fitos nela: “- Pois bem! Se queres ver-me a cabeça, ei-la!” Mas ela confundida não a olhou. Acrescentou o velho: “- Não ouvistes sobre as minhas obras? A elas que se devem olhar. Como ousaste empreender essa travessia? Desconheces que tu és mulher e não deves ir para lugar algum? Irás depois a Roma contar às outras mulheres que viste Arsênio e me fazer do mar uma estrada que me trará mais mulheres?” “- Se praz a Deus que volte eu a Roma, respondeu ela, não permitirei à mulher alguma vir aqui. Mas reza por mim e lembra-te sempre de mim”. “- Peço a Deus que te apague do meu coração”, replicou ele, ao que ela se retirou perturbada. De volta a Alexandria, caiu doente de tristeza. Alertaram o arcebispo, que a veio consolar e se informar do que a acometia. “- Ah, lhe disse ela, se não houvera estado lá! Disse ao velho: ‘- Lembra-te de mim’, e me respondeu ele: ‘- Peço a Deus que te apague do meu coração!’ Morro de tristeza”. “- Mas não sabes que tu és mulher, lhe respondeu o arcebispo, e que o inimigo combate os santos com elas? Por isso que o velho te disse isso. Ele porém rezará incessantemente por tua alma”. Assim curado o coração, voltou para casa alegremente. (Arsênio, 28).

8. Disse o abade Evagro: “Arranca do teu coração as muitas afeições, para que teu espírito não se agite e não perturbe tua vida de hesequia”. (Evagro, 2).

9. Na Cítia um irmão foi ao encontro do abade Moisés para lhe pedir uma palavra. “- Fica sentado na tua cela, lhe respondeu ele, ela te ensinará tudo”. (Moisés, 6).

10. Disse o abade Moisés: “- O homem que foge do homem é semelhante ao cacho de uva madura; quem vive entre os homens é como a uva verde”. (Moisés, 7).

11. Disse o abade Nilo: “- Quem ama a hesequia permanece invulnerável às escaramuças do inimigo; mas quem se mistura à turba será ferido continuamente”. (Nilo, 9).

12. Disse o abade Pastor: “- O princípio dos males é a distração”. (Poemão, 43). Disse ainda o abade Pastor: “- É mister fugir das coisas corporais. Enquanto estivermos sob seu ataque, pareceremos um homem que se mantém inclinado sobre um poço profundíssimo: assim que bem lhe agrade, o inimigo precipitá-lo-á facilmente. Mas quando estamos longe das coisas corporais, somos semelhantes a um homem longe do poço: se o inimigo o agarra para jogá-lo dentro, enquanto o arrasta a força Deus envia o socorro”. (Poemão, 59).

14. Disse uma monja: “- Muitos dos que estavam sobre a montanha pereceram, pois agiam como mundanos. Mais vale viver com muito e em espírito levar vida solitária que estar só e viver com o coração junto à turba”. (Sinclética S., Guy p. 34).

15. Disse um ancião: “- O monge deve sempre buscar a hesequia, para ficar em estado de desprezar os possíveis danos corporais das disciplinas”. (N. 133).

16. Alguém contou: “- Três amigos, cheios de zelo (filoponói), fizeram-se monges. Um deles se propôs ser um conciliador de lides, segundo o que está escrito: ‘- Bem-aventurados os pacíficos’; o segundo escolhera visitar os doentes; o terceiro meteu-se na prática da hesequia na solidão. O primeiro se esgotava nos processos dos homens e não conseguia pôr todo o mundo a termo: desencorajado se dirigiu ao que cuidava dos doentes e o encontrou desiludido, com ser incapaz de cumprir o mandamento (divino). De comum acordo ambos foram ver o hesicasta. Eles lhe contaram os percalços e lhe rogaram dizer que estado ele alcançara. Este ficou um momento em silêncio, encheu d’água um copo e lhes disse: ‘- Vede esta água’; ela estava túrbida. Após certo tempo, retomou: “- Vede agora como ficou limpa”. Eles se inclinaram e viram suas caras como num espelho. “- Assim é, continuou ele, quem se conserva entre os homens: a agitação os impede de enxergar seus pecados, mas se guarda a hesequia, sobretudo no deserto, perceberá seus pecados”. (N. 134).

sexta-feira, janeiro 01, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte I)

Capítulo Primeiro: Do Progresso Espiritual segundo os Padres

1. Perguntou alguém ao abade Antão: “- Que observância devo guardar para agradar a Deus?” Respondeu-lhe o ancião: “- Observa o que te prescreverei: onde quer que vás, tem sempre a Deus por diante dos olhos; e nos teus atos consegue a aprovação das Escrituras Santas; onde quer que permaneças, não te saias de lá facilmente. Observa esses três pontos e serás salvo”. (Antão, 3).

2. O abade Pambo perguntou ao abade Antão: “- Que devo fazer?” “- Não te fies na tua justiça, respondeu o ancião, não deplores sobre o passado e detém a língua e os desejos do ventre”. (Antão, 6).

3. Disse São Gregório: “Deus exige três coisas de todo homem que recebeu o batismo: a fé direita para a alma, a franqueza para a língua, a castidade para o corpo”. (Gregório, 1).

4. O abade Evagro conta esta palavra dos Padres: “Tomar regularmente alimento não-cozido junto com a castidade conduz o monge num átimo ao porto da apatéia". [apatéia, impassibilidade, total domínio das paixões] (Evagro, 6).

5. Disse também ele: “- Respondeu um monge ao mensageiro que lhe anunciava a morte do pai: ‘- Pára de blasfemar, meu Pai é imortal’”.

6. O abade Macário disse ao abade Zacarias: “- Dize-me qual é a obra do monge?” “- Como, Pai, tu a me perguntares?”, respondeu ele. “- Experimento uma plena confiança plerofórica em ti, meu filho Zacarias, pois há alguém que me obriga a interrogar-te”. “- Pai, em minha opinião, é em tudo se fazer violência – eis o monge”. [pleroforia, confiança sentida na embalagem do espírito da verdade] (Zacarias, 1).

7. Conta-se que o abade Teodoro de Farméia observava acima de muitos outros estes três princípios: a pobreza, a ascese, a fuga dos homens (Teodoro de Farméia, 5).

8. Disse o abade João o Nanico: “- No meu parecer o homem deve ter algo de todas as virtudes. Assim ao te levantares a cada manhã, recomeça a perseguir as virtudes e os mandamentos de Deus com grande perseverança, com temor e paciência, no amor de Deus, com transporte de corpo e alma e muita humildade; sê constante na aflição do coração e guarda-a para ti mesmo com numerosas orações, invocações e gemidos, sempre conservando a pureza e o bom siso das palavras, bem como a modéstia do olhar. Suporta a injúria sem te pores em cólera, sê pacífico e não pagues o mal com o mal, não atentes aos defeitos alheios. Não te meças a ti mas humildemente te submete a toda criatura. Renuncia a tudo quanto é material e conforme a carne pelo sofrimento, pela luta, pela pobreza de espírito, por uma vontade determinada e pela mortificação espiritual. Pelo jejum conquista a paciência e as lágrimas; pela aspereza do combate o discernimento, a pureza d’alma. Recolhe o bem, trabalha com tuas mãos guardando a hesequia (2 Th., 3, 12) . Vela, jejua, suporta a fome e a sede, o frio e a nudez e os trabalhos. Encerra-te no sepulcro como se já fosses morto, de modo que penses a cada instante que é próxima tua morte”. [hesequia, tranqüilidade d’alma, quietação, seja a do cenobita ou a do anacoreta] (João o Nanico, 34).

9. Disse o abade José de Tebas: “- Aos olhos de Deus, três castas de gentes são honradas: em primeiro os doentes que padecem as tentações e aceitam os males rendendo ações de graças; em segundo os de ação pura diante de Deus, sem que haja mescla do humano; enfim os que permanecem na submissão (hipótage) do pai espiritual e renunciam a todas as vontades próprias (José de Tebas).

10. O abade Cassiano conta este passo do abade João, outrora higúmeno do Grande Monastério: estava ele às portas da morte e ia-se alegremente e de bom coração para o Senhor; os irmãos o cercavam e lhe imploravam para lhes deixar por herança uma palavra curta e útil que lhes permitisse elevarem-se até à perfeição em Cristo. Ele gemeu e disse: “- Jamais fiz minha própria vontade e nada ensinei que antes não houvesse eu mesmo praticado”. (Cassiano, 5).

11. Um irmão perguntou a um ancião: “- Que é o bem, para que eu o faça e tenha a vida?” “- Deus só sabe o que o bem, respondeu o ancião, todavia escutei dizer que um padre perguntara ao abade Nisteros o Grande, o amigo do abade Antão: ‘- Que boa obra devo fazer?’, ao que lhe respondeu: ‘-Não são iguais todas as obras? Diz a Escritura: Abraão foi hospitaleiro e Deus estava com ele; Elias amava a hesequia e Deus estava com ele; Davi era humilde e Deus estava com ele'. Logo, ao que quer que aspires tua alma segundo Deus, fá-lo e guarda teu coração”. (Nisteros, 2).

12. Disse o abade Pastor: “A guarda (do coração), a atenção e o discernimento são as três virtudes guias da alma. (Poemão, 35).

13. Um irmão perguntou ao abade Pastor: “- Como deve viver o homem?” “- Temos o exemplo de Daniel, respondeu ele, contra quem a única acusação era o culto que rendia a seu Deus”. (cf. Dn. 6, 5-6) (Poemão, 53).

14. Disse ele ainda: “- A pobreza, as provações e a discrição são as três obras da vida solitária. Com efeito, diz a Escritura: ‘- Se estes três homens – Noé, Jó e Daniel – estivessem lá...’ (Ex., 14, 14-20). Noé representa os despossuídos, Jó os macerados, Daniel enfim os discretos. Se essas três obras se encontram num homem, Deus habita nele”. (Poemão, 60).

15. Disse o abade Pastor: “Se o monge odeia duas coisas, liberta-se deste mundo.” “- Quais são?” “- O bem-estar e a vã glória”. (Pormão, 66).

16. Conta-se que o abade Pambo, no instante que abandonava esta vida, disse aos irmãos que o assistiam: “- Desde que estou neste deserto e me erigi uma cela e nela habitei, não me lembra ter comido pão sem havê-lo ganho com minhas mãos nem até agora ter lamentado uma palavra dita. E eis contudo que me vou ao Senhor como se não houvera começado a servir a Deus”. (Pambo, 8).

17. Disse o abade Sisóes: “- Reputa-te por nada, lança tua vontade atrás de ti, permanece sem preocupações – e repousarás”. (Sisóes, 43).

18. O abade Chamé, perto de morrer, disse aos discípulos: “- Não habiteis com os heréticos, não tenhais relações com os grandes, não estendais as mãos para receber mas antes para dar”. (Chamé).

19. Um irmão interrogou um ancião: “- Pai, como o temor de Deus vem ao homem?” “- Se alguém, respondeu ele, possui a humildade e a pobreza e não julga os outros, o temor de Deus virá sobre ele”. (N. 137).

20. Disse um ancião: “- Que o temor, a humildade, a privação de alimento e o pentos façam morada em ti”. [pentos, luto pela morte dum próximo. Em linguagem espiritual, tristeza pela morte d’alma após o pecado cometido por si ou por outrem] (Euprépios, 6).

21. Disse um ancião: “Não faças a outrem o que detestas. Se tu detestas quem diz mal de ti, não digas mais mal dos outros; se tu detestas quem te calunia, não calunies os outros; se tu detestas quem te despreza, quem te injuria, quem te rouba os bens ou comete outra torpeza, não o faças igualmente a outrem. Basta observar esta palavra para ser salvo”. (N. 253).

22. Disse um ancião: “- A vida do monge é o trabalho, a obediência e a meditação (meletê); é não julgar, nem reclamar, nem murmurar. De fato está escrito: ‘Vós que amais o Senhor, odiai o mal.’ (Ps. 96, 10). Consiste a vida do monge em não seguir o exemplo do pecador. Os olhos do monge são cegos para o mal. Não age nem olha com curiosidade, não escuta o que lhe não respeita. Suas mãos não roubam, antes distribuem. Seu coração é sem orgulho, seu pensamento sem malícia, seu ventre não fica saciado: tudo faz com discrição. Sim, em tudo isso está o monge”. (N. 225).

23. Disse um ancião: “- Ora a Deus para que te meta no coração o pentos e a humildade. Observa incessantemente teus pecados. Não julgues a outrem, mas a todos te submete. Não tenhas familiaridade com mulheres, nem com crianças, nem com heréticos. Arreda de ti toda parrésia. Detém a língua e o apetite; priva-te do vinho. Se te falam dum trato qualquer, não discutas. Se for bom, diz: ‘- Bom’. Se for mal, diz: ‘- Isto lá é contigo!’ Mas não discutas sobre o que te falam. Assim tua alma será em paz”. [parrésia, pode ter sentido bom ou mau; em sentido bom é o espírito de quem fala a palavra de verdade; no sentido mau - que é o caso presente -, vaniloquacidade] (N.330).

Do site JesuMarie.com