sexta-feira, setembro 17, 2010

Marcel de Corte - Prefácio de "A Inteligência em Perigo de Morte"

Quando comecei a traduzir este livro, cujo prefácio dou a público, imaginava em  publicá-lo em letra redonda, mas a tradução nunca me caiu no goto. Contudo, pode-se ler sem grande prejuízo, pois que nela há pouca traição ao original - até prova em contrário.
Luiz de Carvalho.



A obra que apresentamos ao público com o título A inteligência em perigo de morte faz parte da série de trabalhos que consagramos à crise da civilização contemporânea: Encarnação do homem, Filosofia dos costumes contemporâneos, Ensaio sobre o fim da civilização e O homem contra si mesmo. No decorrer de nossas longas meditações, o diagnóstico foi-se pouco a pouco acurando. Aqui o encontramos em seu último estágio.

Aproximamo-nos assim o máximo possível da origem dessa estranha doença que afeta o homem da segunda metade do séc. XX e infecta a articulação entre a alma e o corpo, naquele ponto em que se é especialmente homem. Cremos ter encontrado a causa na própria alma do homem, no cume de seu ser, em sua diferença específica: a inteligência.

O homem contemporâneo – que se precipita pelas quebradas sob o impulso do homem do séc. XVIII e da Revolução – sacrificou a inteligência especulativa (que se esforça em relacionar a realidade dos seres e das coisas) e a inteligência prática (que tenta conciliar os meios utilizados com o fim último da vida humana que o atrai) à inteligência operante, que fabrica um mundo, uma sociedade e um homem artificiais. O homo sapiens não evoluiu, como soia acontecer nas velhas mitologias evolucionistas que se ensinavam nos bancos das escolas, durante minha juventude: substituíram-no pelo homo faber.

Estamos no último estágio dessa mudança, dessa “mutação”, mortal como todas as mutações biológicas – como bem ilustra o carneiro de cinco patas –, em que as noções de verdade e bem, apreendidas pela inteligência especulativa e prática, são imoladas em benefício da vontade de poder do homem, doravante um cego intelectual e moral a difundir a eficácia em todo o universo e o gênero humano.

Não nos enganemos: o poder de transformar as coisas, com que se alimenta o homem, só se restringe a justos limites ou só funciona normalmente quando se regula pelas luzes da inteligência especulativa e prática. Uma vez que o homem a ignora, mergulha ele nas trevas da idolatria de si mesmo, que decerto lhe destrói o ser e a diferença específica e é mais danoso que a pior das ignorâncias ou perversões morais. Revelam-se a ignorância perfeita e a imoralidade absoluta com a rejeição da condição humana. Armado das técnicas que possibilitam a recusa e a construção de um “novo mundo” que justificará tal “mutação”, o homem mata em si a inteligência que lhe censura o rompimento dos limites do real.

Ultrapassar os limites do real equivale a entrar no imaginário. Vivemos cada vez mais em um mundo de artifícios, em uma sociedade utópica, assombrados por fantasmas que se fazem e desfazem a nosso talante, segundo o implacável “movimento da história”. Esse é o último estado da doença. Morta a inteligência, nada mais resta ao homem senão a animalidade, “o formigueiro perfeito e definitivo”, como falava Valéry, ou o espectro monstruoso do “Leviatã”, evocado por Pio XII.

Dois grafites e uma das “teses” que os estudantes revoltados há pouco deixaram após si na Sorbone mostram-nos as três etapas do colapso.

1° “Rêve + Évolution = Révolution”; 2 º “Imaginem novas perversões sexuais”; 3 º “A partir de hoje já não se nomeará nenhum professor. Está sanada a crise do recrutamento de professores, já que todo homem educado induzirá a semelhante esforço – na forma de adaptação e ensinamento – àquele a quem ele teria ensinado”. Todos improvisam e ensinam a todos, todos improvisam e ensinam a cada um – em uma nova prisão batizada de “Novo Éden”.

Vão nos censurar – sobretudo nos meios católicos, onde este câncer se espalhou – porque empregamos uma classificação aristotélica, “obviamente ultrapassada”, das atividades do espírito. Apenas pedimos aos contraditores que nos apresentem uma censura que seja objetiva e repouse sobre a natureza mesma dos seres e das coisas com as quais o espírito humano pode travar relação. Estamos seguros de que o “diálogo” não iria muito longe.

No que nos cabe, iremos mais longe. Afirmamos, sem medo de engano, que a substituição de uma atividade do espírito por outra provoca num átimo a desordem e a perturbação orgânica na alma do homem. Foi devido ao abandono dessa classificação e à substituição das atividades especulativas e práticas do espírito pela atividade poética (aquela que faz, fábrica, constrói etc.) que o homem perdeu o equilíbrio natural e se desencaminhou: não apreendemos o verdadeiro ou o bem pelas mesmas vias por que construímos uma obra, executamos um trabalho, introduzimos a forma na matéria. Nossa análise, apoiada na experiência dos desastres engendrados por tal confusão, prová-lo-á.

Essa classificação corresponde à realidade e à “metafísica natural da inteligência humana”, que Bergson desenovelava, encantado, na filosofia grega.

A filosofia grega é a filosofia do senso comum, do realismo e da inteligência humana e fiel à sua essência – enfim, a filosofia da integridade superior do homem. Cada vez que a repudiamos, sofremos as conseqüências.

Só precisamos de um exemplo – e de um exemplo formidável.

A religião cristã – em particular a religião católica – não se ligou à filosofia grega por causa do mero acaso histórico, mas do ímpeto da fé em busca da inteligência, da fides quarens intellectum, e portanto em busca de uma concepção espiritual que fosse universal como a mensagem do Evangelho. A concepção dos gregos acerca da inteligência – faculdade do real em que todos os homens se encontram e concordam entre si – lhes garantia essa universalidade.

A solidariedade entre o realismo sobrenatural da fé e o realismo natural da inteligência humana durou cerca de dois milênios e, em meio a diversas peripécias, constituiu o eixo do cristianismo e sustentáculo da Igreja como depositária e guardiã vigilante da fé, da inteligência e dos costumes. Essa solidariedade se rompeu durante o Vaticano II.

Nunca se saberá a magnitude, para a Igreja e para a humanidade, da catástrofe que uma gangue de padres conciliares provocou na inteligência sem rumo. Sabe-se que, por ordem de João XXIII, a preparação do Concílio deu-se segundo as normas tradicionais e conforme o vocabulário escolástico – forma evoluída de linguagem, própria à “metafísica natural do espírito humano”. Arrastada pela minoria “estruturada”, a maioria do Concílio recusou o método de apresentação e declarou-se a favor de uma formulação pretensamente mais acessível ao espírito moderno e ao aggiornamento solicitado pelo Papa. Parecia que se tratava tão-somente de uma simples mudança na apresentação da mensagem evangélica e do dogma. Até os padres mais apegados à tradição pareciam requisitar o preconizado retorno à linguagem bíblica – pelo menos em alguns setores, sobretudo na prédica. Desse modo, os girondinos do Concílio entregaram-se à tarefa sem peso na consciência, e as propostas foram passando como cartas debaixo da porta. Mas as cartas estavam recheadas de explosivos. Começamos a sentir os primeiros abalos causados pela deflagração do artefato.

Com efeito, não se troca de linguagem como de roupa. Decerto a língua é uma convenção. Na origem a linguagem é um sistema de expressão verbal do pensamento, composto de sinais artificiais inventados pelo homem. Mas no esforço de criar sinais, a inteligência humana teve a poderosa ajuda de sua natureza, que ordena a inteligência à realidade a que deve o ato corresponder para ser verdadeiro. Aqui como em tudo, a arte humana se une à natureza, sob pena de degenerar em puro arbítrio, cujo único significado vem da vontade subjetiva, cuja única satisfação é devida a si mesmo. A língua participa do dinamismo da natureza intelectual, que busca a verdade. Quanto mais se desenvolva essa natureza, mais a linguagem se abastecerá de significados objetivos. É o caso do grego – língua do povo mais inteligente do mundo –, veículo que conduziu através das turbulências da história “a metafísica natural do espírito humano”. É o caso do latim escolástico, seu herdeiro direto.

No momento em que o Concílio se recusou a utilizar a linguagem escolástica – pela qual o esforço natural do espírito humano, dedicado à busca da verdade, alcançou uma perfeição incomparável –, ele se desincumbiu do realismo de que a Igreja se encarregara até então. Não emborcou a garrafa para servir o vinho novo, senão o vento tempestuoso da subjetividade humana, cujas devastações presenciamos, horrorizados, na Igreja e na civilização cristã. Quando ele repudiou a língua – de cujos sinais se valem os conceitos – repudiou as coisas, e quando repudiou as coisas, mergulhou na subversão e na Revolução permanentes – para grande espanto dos padres, ou da maioria deles.

Bem que tentaram impedir essa ruína – com pudicícia denominada de “mentalidade pós-concilar” – que até os espíritos menos avisados poderiam prever. Como não encontrassem unidade na verdade, que é o objeto da inteligência contemplativa, os padres levaram o Concílio para o caminho da “ação”: apagam-se os desacordos quando se persegue um mesmo anseio. Por isso o Concilio se declarou estritamente pastoral, em contraste com todos os Concílios anteriores. Não proclamou dogmas – e nem poderia fazê-lo sem articular suas definições com os dogmas tradicionais e demonstrar sua impotência para definir, para se ajustar às essências, para utilizar como instrumento, sicut ancilla, a única filosofia que se harmoniza com a fé e cuja fecundidade a história da Igreja demonstrou.

Mas, como constatamos, a tentativa de circunscrever o Concílio como “pastoral” devia abortar. O “pastoral” é apenas um conjunto de regras de conduta destinadas a guiar o homem em direção ao fim sobrenatural; sua aplicação está a cargo dos pastores do rebanho. Contudo como levar o homem até ao fim sobrenatural se ele não conhece o fim sobrenatural? A estratégia pressupõe o conhecimento do terreno: no caso, o homem inserido no mundo. A graça não abole a natureza, muito menos a substitui. Como o homem conheceria o fim sobrenatural se ignorava o lugar que ocupa no universo e a relação fundamental de sua inteligência com o real e o Princípio da realidade? O “pastoral” não pode abstrair a filosofia prática e a filosofia especulativa. Como recorrer às filosofias, já que a marca do nosso tempo – do qual o cristianismo deseja a todo custo sair – é ignorá-las e substituí-las somente pela atividade poética do espírito?

O “pastoral” não tinha escolha. Era e ainda é preciso que se torne uma atividade poética do espírito, fabricante do novo mundo, edificadora da nova sociedade, construtora do novo homem. O “pastoral” se tornou ou tende a se tornar revolucionário, subversivo e, à medida que projeta formas imaginárias na realidade, mistificador. Igualmente se tornou o álibi e a máscara da vontade de potência progressista e do teocratismo que não ousa dizer seu nome, dissimulando a pior das tiranias, da qual dizia Chesterton que toca n’alma com a clave do “amor”.

Esse fenômeno extraordinário de destruição interna da Igreja e da civilização, perpetrado pelos que outrora as salvaram do desastre, acontece ante nossos olhos. As páginas que se seguem hão de lançar sobre eles uma luz que não quisemos atenuar.

A Igreja (pelo menos a que está no controle, monopolisa a informação e espoja-se na barafunda do aggiornamento), ao manifestar sem escrúpulos sua indiferença e desprezo pelo valor da verdade dos conceitos intelectuais e das fórmulas que os exprimem; ao romper o cordão umbilical bimilenar que a unia à filosofia aristotélica do senso comum – adentrou a velas enfunadas na ficção. Manifesta-o, por exemplo, o Novo Catecismo, aprovado pela unanimidade do espiscopado holandês. A Comissão encarregada de examiná-lo assinala não menos que dezoito pontos principais, cujas concepção e formulação não correspondem às realidades de fé. As entorses menores ao dogma e ao sobrenatural são mais numerosas. Ora, os autores do dito catecismo não escondem que quiseram deliberadamente se defazer do aristotelismo e do tomismo “superados”.

A primazia da atividade poética do espírito e, por conseguinte, da vontade de potência, parece universal na Igreja contemporânea – salvo as exceções numerosas quanto possível, contudo espalhadas, isoladas, desprovidas de meios de difusão abrangentes, às vezes reduzidas ao silêncio. Por onde se vá, quer-se “fazer alguma coisa”, transformar tudo. Nada escapa ao zelo dos novos reformadores, que impõem a todos sua jactância. Tal Igreja está assim impelida a competir com os sistemas políticos e sociais – já que vítimas da mesma doença –, quiçá a tomar o lugar deles. Como eles, assinala-se a Igreja com um selo artificial, pré-fabricado nos cenáculos e nos clubes. A nova forma segundo a qual a “pastoral” modela as almas, como o escultor a argila, é “o Reino de Deus” aqui embaixo – o inverso da ascenção, a exaltação da queda, o sim ao Tentador que oferece os poderes da terra a quem se prostre em adoração ante ele. Agora se compreende o significado profundo da palavra do bispo Schmitt: “A socialização é uma graça”, e das declarações numerosas e paralelas de tantos prelados que introduzem, conforme a admirável fórmula de Dietrich Von Hildebrand, “o Cavalo de Tróia na Cidade de Deus”, ao falarem da identidade entre comunismo e cristianismo.

Evidentemente, essa “mutação” da Igreja não se operaria sem a “mutação” do homem moderno – fenômeno que analisamos neste livro.


Fizemos três incisões, se é lícito afirmá-lo, no tecido orgânico da humanidade sofredora.

Alguém pode se espantar por falarmos apenas de passagem sobre a arte e a sua decomposição atual: eis um caso evidente. A arte contemporânea (e a literatura) quer eximir-se da ordem do universo. Ela está em revolta permanente contra a condição humana. Ao termo da “liberação”, só lhe resta a atividade poética esvaziada de substância espiritual, intelectual e moral. Reduziu-se ela a um poder bruto que introduz uma forma informe, se é lícito afirmá-lo, numa matéria amorfa qualquer. O artista contemporâneo executa sobre o papel, a tela, o barro, o bronze etc., o que os “intelectuais”, os “cientistas”, os “informadores” – de quem falamos nos capítulos que lhes consagramos – querem fazer do mundo e do homem: um mundo que é só obra de homens, de homens que são obra apenas de si.

Estudamos com denodo três setores dentre os mais infectados da sociedade contemporânea. Os três grandes ídolos de nossa época são a intelligentzia e suas utopias; os “milagres” da Ciência, em maiúscula; e os Mass Media of Communication. Eles veiculam as forças que mais trabalham em prol da desintegração do mundo e do homem da civilização tradicional, assim como da petrificação e da modelagem do “novo mundo” e do “novo homem”. Demais tendem eles a se articular em um único mecanismo gigantesco, análogo às enormes linhas de montagem de carros – é a informação deformante generalizada e logo substituída pela “informática” psicossocial; o Admirável Mundo Novo, de Huxley, e o 1984, de George Orwell, nos descrevem seu extraordinário poder de transformação.

A inteligência está em perigo de morte.


Tilff-sur-Ourthe,

na véspera da Assunção de 1968.

terça-feira, agosto 31, 2010

Os Apotégmas dos Padres do Deserto (Parte VIII)

Capítulo VIII: Da fuga da notoriedade


1. Escutara o abade Antão a história dum jovem monge que operara um milagre enquanto caminhava: ao avistar uns anciãos que também faziam estrada e estavam fatigados, ordenara a uns onagros que aparecessem e lhes servissem de montaria até Antão. Apeados, os anciãos contaram o fato a Antão, que ripostou: “A mim esse monge parece um navio sobrecarregado de riquezas, mas ignoro se chega a surgir ao porto”. Pouco depois, começou a chorar o abade Antão e a se lamentar, arrancando os cabelos. A tal cena perguntaram os discípulos: “Pai, ¿por que choras?” – “Acabou de ruir uma grã coluna da Igreja”, respondeu ele. Referia-se ao jovem monge. Acrescentou ele: “Ide até onde ele e vede o que aconteceu”. Partiram os discípulos e depararam o monge sentado sobre uma esteira e deplorando seu pecado; quando notou os discípulos do ancião, lhes disse ele: “Dizei ao ancião para suplicar que Deus se digne ceder-me apenas dez dias, pois tenho esperanças de reparar o mal”. Mas cinco dias depois, estava ele morto. (Antão, 14).


2. Monges elogiaram um irmão na presença do abade Antão. Quando o irmão veio lhe ver, quis experimentá-lo o ancião a fim de saber se suportava a injúria; ao reconhecer que não, lhe disse ele: “És semelhante a uma casa de admirável fachada, mas em cujo interior roubam os ladrões.” (Antão, 15).


3. Contavam que o abade Arsênio e o abade Teodoro de Farméia detestavam os homens acima de tudo. Com pouca freqüência ia Arsênio à presença dum visitante. Já Teodoro ia, mas como quem trespassado por espada (Arsênio, 31).


4. O padre Eulógio foi discípulo do arcebispo João. Era o padre um asceta que só quebrava o jejum a cada dois dias, chegando em certas épocas a conservá-lo a semana inteira. Louvavam-no os homens, pois só comia pão e sal. Um dia foi até Panefo onde habitava o abade José, pois pensava encontrar lá nele supina austeridade. O ancião o acolheu com imenso gozo e lhe mandou preparar o que de comida havia, como testemunho de afeição. Disseram-lhe contudo os discípulos de Eulógio: “O padre só come pão e sal”. José continuava a comer sem falar palavra. Permaneceram Eulógio e os discípulos três dias nesse lugar sem que escutassem os discípulos de José orar ou salmodiar, pois que a obra espiritual deles se cumpria no secreto; sairam dali desedificados. Ora, por disposição divina cerrou a nebrina e os viajores erraram o caminho e retornaram até onde o ancião. Antes que batessem à porta, escutaram os irmãos a salmodiar; ficaram ali longo tempo a escutar e só então bateram, ao que lhes recebeu o ancião com alegria. Os discípulos de Eulógio pegaram uma quartinha [que acharam] e lhe deram a ele de beber, pois fazia calor: como era uma mistura de água do mar com água do rio, Eulógio não a conseguiu engolir. Caindo em si, prosternou-se Eulógio ante o ancião, no desejo de lhe obter o segredo de seu modo de vida: “¿Que quer dizer isso, Pai?”, lhe disse ele, “não salmodiáveis enquanto estávamos aqui, só começastes após nossa partida; em seguida, quando quis beber água, só a encontrei salobra.” Ripostou-lhe o ancião: “O irmão anda meio turbado; deve ter-se enganado e misturado por engano [a água doce] com água do mar.” Mas insistia Eulógio, pois queria conhecer a verdade. Acabou que lhe disse o ancião: “Aquela copita de vinho era obra da caridade; já essa água é a beberagem ordinária dos irmãos.” E assim lhe ensinou o ancião o discernimento dos pensamentos e desviou seus pensamentos das considerações humanas. Eulógio passou a agir como o ordinário das gentes e comia o que se lhe apresentava. Tambem aprendera Eulógio a como agir no secreto. Ao final disse ele ao ancião: “Decerto as obras vossas são isentas de hipocrisia.” (Eulógio).


5. Dizia o abade Zenão, o discípulo do abade Silvano: “Não habites jamais em lugares afamados, não residas com homem de grã reputação, nem faças fundações a tua cela”. (Zenão, 1).


6. Chegou-se um irmão até onde o abade Teodoro de Farméia e durante três dias lhe suplicou uma palavra, mas o abade não lhe respondia e o irmão se foi dali triste. Disse a Teodoro um discípulo: “Pai, ¿por que nada disseste? Ele se foi triste daqui.” – “Crê em mim, lhe respondeu o ancião, nada lhe disse porque é um traficante que quer gloriar-se com a palavra alheia.” (Teodoro de Farméia, 3).


7. Interrogou um irmão ao abade Teodoro: “¿Quereis permitir-me, Pai, não comer pão durante alguns dias?” Respondeu-lhe o ancião: “Bem farás; eu de mim farei o mesmo.” Acrescentou o irmão: “Vou levar ervilhas ao moinho e fazer farinha.” Replicou o abade Teodoro: “Se vais ao moinho, faze pão. ¿Mas há mister de ir até lá?” (Teodoro de Farméia, 7).


8. Um irmão foi encontrar-se com o abade Teodoro e disparou a falar e versar sobre assuntos de que não tinha experiência. Disse-lhe o ancião: “Ainda não achaste o navio, nem guardaste a bagagem e, mesmo antes de zarpar, eis tu já chegado à cidade aonde queres ir. Quando praticares tudo quanto me noticiaste, poderás falar comigo”. (Teodoro de Farméia, 9).


9. Contou o abade Cassiano que um irmão foi ao encontro do abade Serapião, que o convidou a recitar a prece cotidiana, mas o irmão recusou: confessava-se pecador, indigno de usar o hábito monacal. Quis o ancião lhe lavar os pés, mas com os mesmos protestos recusou-se de todo. Daí o ancião lhe deu de comer e com caridade lhe interpelou: “Meu filho, se queres progredir, fica na cela, vela sobre ti e aplica-te ao trabalho manual, pois para ti é melhor ficar que sair.” Com tais palavras irritou-se o irmão e deformou a cara, de modo que não pode disfarçar ao ancião. Disse-lhe o ancião: “Atequi dizias: ‘Sou pecador’, e te declaravas indigno de viver, mas porque te admoestei com caridade, ¿ficas assim irritado? Se queres deveras te tornar humilde, aprende a suportar com ganas o que vem dos outros, e não fales para que nada digas.” Ao escutar isso, o irmão fez uma metania defronte o ancião e se foi dali aproveitado. (Serapião, 4).


10. Certo dia o govenador da província teve notícias acerca do abade Moisés e foi até a Cítia vê-lo. Anunciaram ao ancião a visita, mas ele se refugiou no pântano. O governador com o séquito o encontrou: “Velho, disse ele, indica-nos onde é a cela do abade Moisés.” Ao que este respondeu: “¿Por que quereis vê-lo? ¡É um sandio e um herético!” Retornou o governador à igreja e disse aos religiosos: “Ouvir falar do abade Moisés e vim aqui a vê-lo. Mas deparamos um velho que ia ao Egito e lhe perguntamos onde era a cela do abade Moisés, ao que nos respondeu: ‘¿Por que o buscais? ¡É um sandio e um herético!’” Com tais palavras se afligiram os religiosos e perguntaram: “¿Como era o ancião que vo-lo disse?” – “Era um velho, espadaúdo, negro de pele e com roupas bem ruçadas”, ripostaram os recém-chegados. “¡Mas que era o abade Moisés em pessoa!, declararam os religiosos. Ele vos não queria receber, por isso falou nesse estilo.” O governador se foi dali edificado em extremo. (Moisés, 8).


11. Interrogou um irmão ao abade Matóis: “Se fosse eu morar nalgum lugar, ¿como deveria me comportar?” Respondeu-lhe o ancião: “Onde habitares, em nada busques nomeada, seja ao dizer: ‘Recuso-me a ir à assembléia dos irmãos’, ou ainda: ‘Não como tal ou qual coisa’. Tais práticas te darão um bafo de celebridade e bem logo sofrerás aborrecimentos, pois os homens acorrem ao sítio em que ouvem dizer que há coisas deste jaez”. (Motios, 1).


12. Cruzava o deserto o abade Nisteros o Grande junto a um irmão. Avistaram ambos uma serpe e deram às de vila-diogo. “¿Até tu tens medo, Pai?”, lhe disse o irmão. “Medo não tenho, meu filho, lhe respondeu o ancião, mas é salutar fugir à vista da serpente pois, como ela, não tenho como afugentar o demônio da vanglória”. (Nisteros, 1).


13. Certo dia quis o governador da província visitar o abade Pastor, mas este não lho consentira. Para lograr seu intento, mandou prender – juiz que era – o filho da irmã do abade, qual fosse ele um malfeitor, e jogou-o na prisão; depois fez saber de que relaxaria a pena se o ancião lhe viesse pedir a liberdade. Foi a mãe da criança até a morada do irmão, o abade Pastor, e derramou muitas lágrimas ante a porta da cela, mas ele não disse palavra. Golpeada de dor, pôs-se ela a lhe repreender: “Se teu coração é bronze, dizia ela, e não te demove a compaixão, ao menos tem piedade do teu sangue”. Contudo, mandou Pastor lhe ripostar que não tinha filho. Partiu dali sua irmã. Ciente do ocorrido, fez saber o governador: “Só uma palavra, e eu o soltarei”. Mas o ancião lhe mandou este recado: “Examina a causa segundo a lei; se é caso de morte, morra; se não é, faz como bem te saíres”. (Poemão, 5).


14. Disse o abade Pastor: “Que aprenda teu coração a observar o que tua língua ensina aos outros”. Disse ainda ele: “Quando falam, querem os homens parecer perfeitos; mas na prática dos dizeres, já não querem tanto.” (Poemão, 63 e 56).


15. Certo dia foi o abade Adelfo, outrora bispo de Nilópolis, render visita ao abade Sisóis à montanha. Quando estava prestes a retornar, Sisóis lhe ofereceu comida e aos discípulos ao despontar o dia; ora, aquele era dia de jejum. Já estavam aprestando a mesa, quando alguns irmãos bateram à porta de Sisóis. Disse ele a um seu discípulo: “Dá-lhes um pouco de caldo, pois estão fatigados.” Interveio o abade Adelfo: “Deixai-os esperar um tanto, para que não saiam por aí contando que Sisóis comia desde a manhã.” Cravou-lhe os olhos Sisóis, surpreso, e disse ao discípulo: “Vai logo e dá-lhes o que comer”. Quando viram o caldo, perguntaram os irmãos: “¿Tendes hóspedes? ¿Come convosco o ancião?” – “Decerto”, respondeu o outro. Atristaram-se os irmãos e começaram a dizer: “¡Que Deus vos perdoe por permitir que o ancião comesse a tais horas! ¿Não sabeis que ele o há de expiar dias a fio?” A tais palavras o bispo fez uma metania e disse ao ancião: “Pai, perdoa-me, pois cogitei ao estilo dos homens, mas agiste segundo Deus”. Ripostou-lhe o abade Sisóis: “Se vem do homem a glória do homem, e não de Deus, é sem consistência”. (Sisóis, 15)


16. O abade Amão de Raitu interrogou o abade Sisóis: “Quando leio as Escrituras, preocupo-me em aparelhar um discurso cuidado, com fito de responder às questões”. Respondeu-lhe o ancião: “Não é necessário: antes trata de adquirir o dom da palavra com a pureza do coração, e ficarás livre de tal preocupação”. (Sisóis, 17).


17. Certo dia foi-se o governador da província visitar o abade Simão, mas este, assim que o soube, pegou da correia que lhe servia de cinta e a usou para trepar numa palmeira, que começou a podar. Apropinquaram-se os visitantes e lhe perguntaram: “¿Onde está o ancião que habita neste ermo?” – “Aqui não há anacoretas”, respondeu ele. Ante tal resposta afastou-se o governador. (Simão, 1).


18. Certa outra vez, outro governador foi visitá-lo. Adiantaram-se os religiosos e disseram ao ancião: “Pai, prepara-te, pois o governador ouviu notícias sobre ti e vem te pedir a benção”. Respondeu ele: “Bem, vou-me preparar”. Vestiu-se de saco e, tomando pão e queijo, sentou-se à porta da cela e começou a comer. Com um séquito chegou o governador; quando viram o ancião, puseram-se a zombar dele dizendo: “¿É este o anacoreta de quem ouvimos dizer tantas virtudes?” E logo deram meia-volta para retornar a casa. (Simão, 2).


19. Disse Santa Sinclética: “Pilha-se o tesouro tão logo o descobrem; assim, arruina-se a virtude tão logo ganhe notoriedade pública. De fato, como o fogo derrete a cera, o louvor enfraquece o vigor e a energia da alma.” (Sinclética, 3).


20. Disse ela também: “É impossível ser ao mesmo tempo forragem e grão; assim, é impossível a quem possui a glória do mundo produzir fruto para o céu.” (Sinclética, 4).


21. Certo dia de festa nas Celas, comiam juntos os irmãos na igreja. Disse um deles a quem o servia: “Não como alimento cozido, somente sal com pão.” O servo chamou outro e lhe disse ante todos: “Este irmão cá não come alimento cozido; oferece-lhe sal.” Então se ergueu um ancião e disse: “Para ti melhor seria comer vianda na cela que te ouvir dizer isso na presença de tantos irmãos.” (N. 256).


22. Certo irmão, grande asceta e abstêmio de pão, rendeu visita a um ancião. Por obra da Providência, outros pelegrinos chegaram também. Preparou-lhe o ancião um caldo. Quando iam começar a comer, o asceta pegou um só grão embebido de grão de bico e o comeu. Após a refeição, o ancião chamou o irmão a parte e lhe disse: “Irmão, quando fores até onde alguém, não faças pregão de tua prática: se tens de observá-la, fica na tua cela e jamais saias.” Convenceu-se o irmão às palavras do ancião e, quando se via entre os irmãos, conformava-se aos usos comuns. (N. 257).


23. Disse um ancião: “A inquietação de agradar aos homens acaba com a corpulência espiritual e vos deixa descarnado.”


24. Disse um ancião: “Ou bem te apartas dos homens, ou bem escarneces do mundo e dos homens mundanos e faças-te de louco o mais que possas.” (N. 320).

segunda-feira, junho 28, 2010

Mário Ferreira dos Santos - As três humanidades

A civilização é a metrópole. Cada vez cresce mais a separação entre os metropolitanos e os provincianos. Enquanto estes continuam a ser os guardiões das culturas, aqueles aniquilam-se na morte das ideias, que substituem por brilhos de moeda falsa. Estamos numa época de decadência, porque se instaura definitivamente no mundo, mais uma vez, o predomínio inconteste das metrópoles.

São elas que falam em nome dos povos. Paris é a França; Berlim é a Alemanha; Londres, a Inglaterra, e Nova Iorque, os Estados Unidos.

São essas cidades os oráculos dos povos e apontam os destinos das nações. No entanto, nelas existe a depressão de todos os valores do homem. E é por isso que elas são o primeiro capítulo da decadência.

A separação entre o metropolitano e o provinciano é crescente, repito. Podemos distingui-los pelos seguintes caracteres que ressalto, no metropolitano: cinismo, desinteresse pelos grandes problemas interrogativos do homem; ausência da dúvida; espírito folgazão; jargão cheio de molequismo como meio de linguagem; falta constante do espírito de conservadorismo, sob qualquer aspecto; necessidade imprescindível de encher o vazio interior com divertimentos mais violentos, excitantes mais rápidos; pouca elegância nas maneiras; tendência para o chiste, para o humor, o trocadilho; tendência às exterioridades, manifesta mais intensamente na busca do vestiário; pretensão de superioridade sobre o provinciano que lhe serve de motivo de ridículo, sobretudo quanto às virtudes que este possui e que são olhadas pelo metropolitano como reminiscências de épocas anteriores que ele julga já ultrapassadas; aumento do esquerdismo nas massas; na arte é atraído pelo temporal, pelo passageiro, pelo epidérmico; não compreende mais arte pela arte; dissociação dos sentimentos nobres que eles os eiva de interesses e de lucros próximos; ausência do heroísmo desinteressado; gosto pela literatura leve, pelo romance em vez do ensaio, pela novela em vez do estudo, ausência de ideais excelsos, substituídos pelas ânsias de vitórias materiais; volubilidade crescente; radicalização às ruas: "Tenho asfalto na alma ... " ; nova concepção utilitária do amor; transformação do casamento em companheirismo; transformação do sentido provinciano da mulher; tendência para maior liberdade sexual ; aumento da neurastenia e doenças nervosas; modificação degenerativa de todos os sentimentos; diminuição do sentido do destino, do signo, para incremento do sentido de causalidade; redução dos instintos por uma padronização consciente normativa de um "modus-vivendi"; maior tensão e vigília na vida; mais vazio nas almas; artificialização crescente da vida e da criação consciente; predomínio da moda, que segue num ritmo cada vez mais rápido; instalação do provisório em suas construções e obras de arquitetura e consequente espírito de "moda", na arte, com o envelhecimento precoce dos seus ídolos; instalação de crenças variadas, com codificações de cunho típico metropolitano; maior ingenuidade na aceitação dos fatos e nos divertimentos; maior atração pela luz e pelo movimento; mais crescente o sentido de morte nas obras humanas metropolitanas, que trazem sempre o gérmem da destruição; completa ausência do sentido de reversibilidade do tempo, consciência mais forte da hora que passa, do segundo que passa; gosto pelas coisas "exquises", instauração da música de sons vitais e do ritmo mais sexual; predominância no consciente dos problemas de ordem sexual; aumento do "taedium vitae"; maior fixação íntima da cidade que nunca abandona o metropolitano, mesmo quando ausente dela; instalação do herói citadino, de brilho rápido, que se salienta por qualquer realização provisória como esportistas, políticos, locutores de rádio, aviadores, etc; maior desagregação dos elementos raciais, para dar nascimento a um tipo comum; ausência de espiritualismo, com crescente desenvolvimento de doutrinas de fundo causal, científico, divinização do dinheiro em contraposição ao sentido econômico rural dos bens; infecundidade física e espiritual; ausência de angústia quando se vê o último de sua família, sem possibilidade de perpetuação; redução da natalidade, ao princípio como consequência de ordem económica, finalmente formando o espírito do homem citadino; redução do instinto maternal das mulheres, que passam bruscamente da meninice para a maturidade; ausência do brinquedo ingénuo, infantil; espírito emancipativo das mulheres; uniformização da urbanística metropolitana, entre si, entre as grandes cidades; a música, a literatura, e a pintura e a escultura, assumem um caráter profissional; ausência do estilo e instalação do gosto; desaparecimento dos costumes para dar lugar às maneiras de comportamento; desaparecimento do traje popular pela influência de uma moda variável; ânsia de imposição do estilo metropolitano sobre as partes ainda não conquistadas; ânsia de imposição de formas genéricas para o domínio no mundo inteiro; aumento crescente do agnosticismo como atitude filosófica, como posição mais fácil para enfrentar as grandes e eternas perguntas; a originalidade como signo de decadência; nas metrópoles, na ânsia de originalidade, "Os homens excelsos não são originais".

Justifico por final o título: três humanidades.

A primeira é a da província, a segunda, a das metrópoles, e a terceira a que há de vir, após a grande transmutação do mundo, após a grande carnificina.

terça-feira, junho 08, 2010

Louis Veuillot - A morte de Baudelaire

Morreu ontem, por conta duma doença de vários anos, o Sr. Charles Baudelaire, autor de inúmeras poesias que fizeram lamentável estridor. Ele pediu os sacramentos e os recebeu.

Ele era talentoso, e a substância de suas idéias era melhor do que aquelas que dava a público. Como tantos outros, foi o poeta na vida e na obra joguete das desordens de su'alma. Franqueou-lhe o desejo frívolo de escandalizar o abismo em que perdeu a saúde e a doença de que pereceu. Ele representou, se não com seriedade, ao menos com coragem heróica, uma personagem de sua imaginação, indo amiúde de encontro à natureza. Porque era excêntrico, valeu-se duma força que lhe permitira se tornar original.

Que Deus tenha piedade de su’alma, a qual oprimia o mesmo Baudelaire. Concedeu-lhe o Senhor tempo de meditar; o fim de Baudelaire consola aqueles que, conhecendo-o melhor que ele a si mesmo, censuravam-no, condenavam-no e não cessavam de amá-lo.

Setembro de 1867.

segunda-feira, maio 03, 2010

Os Apotegmas dos Padres do Deserto (Parte VII)

Capítulo VII: Da paciência e da força

1. O abade Antão, quando residia no deserto, caiu em acédia e em grande obscuridade de pensamentos; disse ele a Deus: “Senhor, quero ser salvo, mas meus pensamentos não me permitem; que farei nesta minha aflição? Como serei salvo?”. Um pouco mais tarde levantou-se e saiu da cela. Percebeu então que alguém parecido consigo estava sentado e trabalhava, depois afastava-se da obra e rezava; sentando-se novamente trançava uma corda e se erguia ainda para rezar. Era um anjo do Senhor que se enviara a Antão para sua correção e salvaguarda. Escutou o anjo lhe dizer: “Faze o mesmo e serás salvo!” A tais palavras foi tomado de grande gozo e confiança. Agindo deste modo operava sua salvação. (Antão, 1).

2. Um irmão interrogou o abade Agatão: “Tenho uma ordem a executar, mas num sítio onde terei de pelejar bastante. Quero ir para obedecer, mas temo a guerra”. Respondeu-lhe o ancião: “Em teu lugar Agatão cumpriria a ordem e ganharia a guerra”. (Agatão, 13)

3. O abade Amonas dizia: “Passei quatorze anos na Cítia, e orava a Deus dia e noite para me dar a força de vencer a cólera”. (Amonas, 3)

4. O abade Bessarião dizia: “Fiquei de pé quarenta dias sem dormir e quarenta noites sobre espinhos”. (Bessarião, 6)

5. Um irmão, que vivia como anacoreta, estava turbado. Ele foi até a morada do abade Teodoro de Farméia e lhe declarou sua inquietação. Disse-lhe o ancião: “Vai, conserva a alma na humildade, sê submisso aos outros e vive com eles”. Ele partiu para a montanha e foi viver com outros. Depois retornou ao ancião e lhe disse: “Não encontrei o repouso vivendo entre os homens”. Disse-lhe o ancião: “Se não encontras repouso nem na soledade nem na companhia dos irmãos, por que vieste a ser monge? Não fora para suportar penas? Mas dize-me: há quanto tempo vestes o hábito?” – “Oito anos”, respondeu ele. Replicou o ancião: “Crê em mim, eis que o visto há sessenta anos e não houve um dia de repouso para mim, enquanto que tu o queres após oito anos?” Ao escutar isso partiu reconfortado. (Teodoro de Farméia, 2)

6. Um irmão pediu ao abade Teodoro: “Se sobreviesse de chofre uma catástofre, ficarias amedrontado, Pai?” Respondeu-lhe o ancião: “Ainda que o céu tocasse a terra. Teodoro não teria medo”. Com efeito ele pedira a Deus para lhe tirar o medo, daí a pergunta do irmão. (Teodoro de Farméia, 24)

7. Dizia-se do abade Teodoro e do abade Lúcio, ambos do Enatão de Alexandria, que durante cinqüenta anos eles troçaram de seus pensamentos (contra a perseverança) dizendo: “Findo o inverno vamo-nos embora”. E chegado o inverno: “Findo o verão partiremos daqui”. E assim fizeram por toda a vida, como Padres dignos de eterna memória. (Teodoro do Enatão, 2)

8. O abade Pastor contava que, quando o abade João o Nanico orava, o Senhor lhe arredava todas as paixões; ele ficou isento de preocupações e foi confiá-lo a um ancião: “Vê aqui, disse ele, um homem em repouso que já não combate mais”. Mas lhe respondeu o ancião: “Pois bem! pede ao Senhor para te macerar, pois o progresso da alma está aí”. Assim quando a luta recomeçou o abade João o Nanico não pediu mais que ela se afastasse, antes suplicava: “Senhor, dai-me a paciência para sustentar essas lutas”. (João Kolobos, 13)

9. O abade Macário o Grande foi se encontrar com Antão na montanha. Ele bateu à porta. Antão saiu e perguntou: “Quem és tu?” – “Eu sou Macário”, disse ele. E fechando novamente a porta Antão entrou, deixando-o fora. Mas quando confirmou sua paciência, reabriu-a e o tratou afavelmente. Disse-lhe ele: “Eis que há muito te desejava ver; conheço-te de nomeada”. Caindo a noite o abade Antão ferveu umas palmas só para si. Disse-lhe Macário: “Queres que eu ferva algumas para mim?” – “Prepara-as”, respondeu Antão. Macário preparou um montão e se pôs a trançar. Já acomodados, durante a noite eles falaram do que era útil à alma – e trançavam; os trançados descaiam através duma janela numa gruta. Quando amanheceu o abade Antão foi à gruta e viu o monte dos trançados do abade Macário; cheio de admiração ele beijou suas mãos e disse: “Uma grande virtude saiu destas mãos”. (Macário, 4)

10. Certo dia Macário desceu da Cítia a Terenute. Ele entrou para dormir num templo onde estavam sepultados cadáveres de pagãos. Ele pegou um dos corpos e meteu-o sob a cabeça como se fosse um travesseiro de juncos. Mas os demônios ficaram ofendidos com sua audácia. Para terrificá-lo eles fingiram que chamavam uma mulher: “Ó mulher, diziam eles, vem banhar-te conosco”. Outro demônio, fingindo ser um dos mortos, respondeu de sob a orelha de Macário: “Não posso, tenho um viajante sobre mim!” Mas o ancião não se amedrontou. Seguro de si apostrofou o cadáver dizendo: “Pois bem, se tu conseguires, vai-te!” Escutando isso os demônios gritaram a plenos pulmões: “Tu nos venceste”, e envergonhados desacamparam. (Macário, 13)

11. Dizia o abade Matóis: “Prefiro o trabalho leve mas contínuo ao trabalho penoso mas breve”. (Matóis, 1)

12. Conta-se que outrora o abade Milésios habitava na Pérsia com dois discípulos, quando dois filhos do imperador sairam para caçar segundo seu costume. Eles espalharam armadilhas num espaço de quarenta milhas para matar tudo quanto fosse nelas apanhado. Ora ali se achava o ancião e os dois discípulos. A vista dum homem peludo e como que selvático os dois filhos, intrigados, perguntaram: “És tu um homem ou um espírito?”. Respondeu ele: “Sou um homem, um pecador; vivo retirado para chorar meus pecados. Eu adoro o Filho do Deus vivo”. – “Os únicos deuses que há, disseram eles, são o Sol, o Fogo e a Água. Adora-os e vêm lhes oferecer sacrifícios”. – “Não, isso são criaturas, vós estais enganados. Convertei-vos, imploro-vos; reconhecei o Deus verdadeiro, o Criador destas e doutras cousas”. Mas eles mangaram do ancião: “Um condenado! Um crucificado! Como tu chamas a isto de Deus verdadeiro?” – “Sim, ele crucificou o pecado e matou a morte; afirmo que ele é o Deus verdadeiro”. Então ele e seus companheiros foram torturados; os filhos do rei tentaram fazê-los sacrificar. Após inúmeras torturas eles decapitaram os dois irmãos. Mas continuaram a torturar o ancião dias a fio. Enfim, segundo o estilo da caça, eles o puseram entre si e lhe atiravam flechas – um por trás, outro pela frente do velho. Disse-lhes o ancião: “Eis que estais unidos para matar um inocente; pois bem, amanhã nesta mesma hora e de chofre vossa mãe não terá mais filhos e será privada de vossa afeição: vós vos matareis com vossas próprias flechas”. Mas eles escarneceram de suas palavras. No dia seguinte saíram para caçar. Um cervo se alteou entre eles; montados em seus cavalos foram empós ele para pegá-lo. E como lançassem suas flechas, atingiu um o coração do outro e morreram ambos como predissera o ancião. (Milésios, 2)

13. Disse o abade Pastor: “Na tentação é que se reconhece o monge”. (Poemão, 13)

14. O abade Pastor contara que o abade Isidoro, padre da Cítia, disse certo dia aos irmãos em assembléia: “Meus irmãos, não viemos aqui em busca de labor? Mas percebo que não há labor aqui. Tudo bem! Vou pegar meu bornal e ir aonde há labor, e então encontrarei repouso”. (Poemão, 44)

15. Disse Santa Sinclética: “Se vives no cenóbio, não mudes de morada, pois te seria prejudicial. Com efeito uma galinha que abandonasse os ovos que choca esperaria em vão os pintainhos; assim o monge ou a virgem que deixam resfriar e morrer a fé indo daqui para acolá”. (Sinclética, 6)

16. Igualmente ela disse: “Inúmeros são os embustes do inimigo. Não pôde ele turbar a alma pela pobreza? usa a riqueza como isca; não pôde prevalecer pelos ultrajes e pelas afrontas? envia os louvores e a glória; vence-o a santidade, adoenta o corpo; não consegue seduzir pelos prazeres, esforça-se para desviar do bom caminho com penas inesperadas; ele acomente com doenças gravíssimas – com a permissão divina – para levar os homens ao desânimo e à negligência e entibiar o amor a Deus. Abate o corpo com maleitas e o atormenta com a sede intolerável. Se és culpado de pecado, tens de suportar tudo isso; lembra-te das penas que hão de vir, do fogo eterno, dos suplícios do julgamento – e considerarás em pouco os males presentes; regozija-te pois Deus te visitou; tem à boca esta palavra piedosa: “O Senhor me puniu com crueza, mas me não entregou à morte (Sl. 117, 18)”. Se eras de ferro, o fogo te retira a ferrugem. Se és justo e ficas doente, serás alçado de menor a maior virtude; se eras ouro, o fogo far-te-á mais puro. Um anjo de satã te aguilhoa a carne? (2Co. 12, 7), exulta e considera a quem te tornaste semelhante: és julgado digno da sorte de Paulo. És provado com a febre, regelado de calafrios? mas diz a Escritura: “Fomos provados com o fogo e com a água; vós nos resgatastes para nos conduzir a um lugar de refrigério (Sl. 65, 12)”. Se te aconteceu a primeira coisa, espera pela segunda. Ao praticar a virtude exulta com o santo salmista: “Sou pobre e sofredor” (Sl. 68, 30). Tornar-te-ás perfeito nesta dupla tristeza, pois ele disse: “Na minha tristeza tu me preservaste” (Sl. 10, 42). Nestes exercícios nos fortalecemos, pois temos o adversário ante os olhos”. (Sinclética, 7; Vida, 98)

17. Igualmente ela disse: “Quando as enfermidades nos vêm importunar, não nos atristemos de que a doença do corpo nos empeça de permanecer de pé para orar e cantar os salmos em voz alta. Essas provações são úteis para destruir as inclinações más; do mesmo modo o jejum e o leito de pedra nos foram impostos contra os prazeres desregrados. Se a doença empolga o aguilhão, esses labores se tornam supérfluos. Que digo eu – supérfluos? De fato os sintomas mortais (do pecado) são limitados pela doença, que age como um remédio poderosíssimo e eficaz. Enfrentar as doenças dirigindo ao Senhor os hinos de ação de graça – eis a grande ascese. Se perdermos a vista, não nos atristemos demais: perdemos o órgão duma avidez insaciável, mas com os olhos d’alma contemplemos a glória do Senhor. Se ensurdecermos, rendamos graças: não escutamos mais os barulhos vãos. Enfraquecem-se nossas mãos? Conservamos ainda as da alma, que são prestas a lutar contra o inimigo. O corpo todo foi atingido? A saúde do homem interior se avulta”. (Sinclética, 8; Vida, 99)

18. Disse ela igualmente: “No mundo os criminosos são lançados na prisão contra a vontade; nós também nos devemos reduzir – por causa dos pecados – ao cativeiro, para que essa punição voluntária nos poupe das maldições futuras. Quando jejuares, não finjas doença (para o não fazeres), pois quem não jejua tem doenças semelhantes. Começas a fazer algum bem? Não deixes o inimigo desviar-te com obstáculos: a tua paciência há de destruir o inimigo. Assim acontece com os que se fazem ao mar e que, desdobrando a vela, deparam logo um vento favorável, mas em seguida um vento ponteiro lhes vem de encontro. Os marujos não lançam de chofre a carga ao mar: eles esperam um tanto ou lutam contra a tempestade – até em seguida retomarem o curso. Assim somos nós ao encontrarmos o espírito adverso: desdobrando a vela da cruz seguiremos a travessia sem riscos”. (Sinclética, 9; Vida, 101-102)

19. Conta-se que a bem-aventurada abadessa e virgem Sara habitara sessenta anos próximo a um rio sem jamais se curvar para fitá-lo. (Sara, 3)

20. Disse o abade Hiperéquios: “Que teus lábios entoem hinos espirituais: a recitação continuada consolar-te-á do peso das tentações que te acometam. O viajor sobrecarregado é ótima comparação: ao cantar esquece a fadiga do caminho”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 137)

21. Disse o abade Hiéréquios: “Devemos nos armar contra as tentações, pois elas chegam de maneiras diversas: a sua vinda certificará de que somos pessoas a toda prova”. (Hiperéquios, Exhort. ad monachos, 105)

22. Disse um ancião: “Quando vem a tentação, por todo lado multiplicam-se os incômodos para nos desmoralizar e fazer murmurar. Assim um irmão tentado que vivia nas Celas: ninguém o cumprimentava ou recebia em casa quando percebiam-no tentado. Se precisava de pão, ninguém lho emprestava. Quando voltava da colheita, não o convidavam para se reconfortar na igreja, como era o uso. Certo dia ele voltava da colheita na calma do dia, e não havia mais pão na cela. Mas a tudo isso ele rendia graças. Assim Deus, vendo sua paciência, livrou-o da guerra das tentações. E eis que alguém lhe bateu à porta conduzindo do Egito um camelo carregado de pães. Ao ver isso o irmão se derramou em lágrimas e exclamou: “Senhor, não sou digno sequer de sofrer em vosso nome!” Finalmente a tentação passou e os irmãos começaram a recebê-lo em suas celas ou na igreja – e eles o reconfortaram. (N. 192)

23. Dizia um ancião: “Não avançamos porque não conhecemos nossos limites e não conservamos a paciência nas empresas: queremos ter a virtude sem trabalhos”. (N. 297)

24. “Que devo fazer”, perguntou um irmão a um ancião, “pois meus pensamentos não me deixam descansar na cela sequer uma hora?” Respondeu o ancião: “Retorna a tua cela, meu filho, fica lá, trabalha com tuas mãos, ora a Deus incessantemente, deposita nele tuas preocupações – e que ninguém te induza a sair dali”. Acrescentou: “Um moço que ainda tinha pai desejou se fazer monge. Ele suplicava ardentemente ao pai para deixá-lo entrar no monastério, mas este não o queria. Mais tarde, instado por fiéis amigos, consentiu a contragosto. O adolescente partiu e entrou no monastério; tornou-se monge, cumprindo à risca as tarefas do monastério e jejuando diariamente. Chegava a não tomar nada durante dois dias ou a só comer uma vez por semana. Seu abade, que o observava, maravilhava-se disso e bendizia a Deus por conta dos jejuns e das asceses. Pouco tempo depois o irmão começou a suplicar ao abade: “Meu pai, suplico-te, deixa-me ir ao deserto”. – “Meu filho, lhe respondeu ele, abandona tal pensamento, pois tu não resistirias a tal provação, sem contar as tentações e negaças do demônio. À primeira tentação não acharás ninguém para te consolar da turvação em que inimigo te lançara”. Mas insistiu o irmão em obter a permissão. Vendo que não podia detê-lo o abade começou a orar e deixou-o ir. Pediu o irmão: “Pai, concede-me – eu te suplico – que me indiquem o caminho”. O abade lhe fez acompanhar de dois monges do monastério – e foram-se juntos. Caminharam um dia, e depois outro. Esgotados com o calor estiraram-se em terra. Enquanto tiravam uma pestana uma águia lhes esfregou as asas na cara e, despertando-os, pousou além. Os monges se levantaram, viram a águia e disseram ao irmão: “É o teu anjo: levanta-te e segue-o”. O irmão despediu-se deles e ganhou a estrada onde se encontrava a águia, que logo retomou o vôo para pousar a um estádio dali. O irmão seguia-a. Novamente a águia alçou vôo, pousou a um estádio mais a frente – e assim foi durante três horas. O irmão seguia a águia até ao momento em que ela virou à direita e desapareceu. Entretanto o irmão continuou a caminhar e percebeu três palmeiras, uma fonte e uma lapa: “Ei-la, exclamou ele, o ligar que o Senhor me preparou”. Ele entrou e descansou; lá comia tâmaras e bebia água da fonte. Ficou na solidão seis anos, durante os quais não viu niguém. Mas certo dia o diabo apresentou-se a ele sob a aparência dum velho monge de aspecto horrível. A sua vista o irmão temeu e prosternou-se em oração. Ao se levantar lhe disse o diabo: “Rezemos mais, irmão”. Assim feito retomou o diabo: “Há quanto tempo estás aqui?” – “Estou aqui há seis anos” – “Ah! Eu sou teu vizinho e só soube que habitavas aqui há quatro dias! Minha cela não é longe daqui. Há onze anos não saía de lá, até que soube que tu eras meu vizinho; pensei: ‘Vamos visitar esse homem de Deus e palestremos juntos sobre a salvação da alma’. Sim, irmão, nada ganharemos se ficarmos na cela, pois não recebemos o Corpo e o Sangue do Cristo e por isso temo que sejamos arrojados para longe dele se permanecermos distantes desse mistério! Mas sei, meu irmão, que a três milhas daqui existe um monastério onde há um padre. Vamos a cada domingo ou a cada duas semanas receber lá o Corpo e o Sangue do Cristo, e depois retornemos às celas”. Essa negaça do diabo foi bem acolhida pelo irmão. No domingo o diabo se apresentou e lhe disse: “Vamos, acompanha-me, está na hora!” Eles se foram ao dito monastério onde estava o padre. Após entrarem na igreja puseram-se a rezar; mas assim que o irmão se ergueu não viu mais aquele que o conduzira: “Ora essa, pensou ele, aonde ele foi? Talvez tenha ido fazer alguma necessidade?” Esperou durante muito tempo, mas nada aconteceu. Então como saísse para buscá-lo e não o encontrasse, pediu aos irmãos do monastério: “Onde está o abade com quem entrei na igreja?” Mas eles responderam: “Só vimos a ti”. Daí compreendeu o irmão que era o diabo: “Vejam, disse ele, com que negaças o diabo se serviu para me tirar da cela! Mas pouco importa, pois vim por um bom motivo: vou receber o Corpo e o Sangue do Cristo e retornar a minha cela”. Findas as cerimônias na igreja o irmão quis retornar à cela, mas o abade do monastério lhe deteve dizendo: “Não te deixaremos sair antes que tu comas conosco”. Ele só voltou à cela depois de haver comido. O diabo se reapresentou a ele sob a forma dum moço secular, que se pôs a fitá-lo dos pés à cabeça dizendo: “Será ele? Não, é outro”. Como ele a olhasse ainda, perguntou-lhe o irmão: “Por que me fitas assim?” – “Vejo que não me reconheces, respondeu o outro: ademais, após tanto tempo, como poderias me reconhecer? Sou o filho do vizinho do teu pai. Teu pai não é fulano? Tua mãe não se chama sicrana, e tua irmã assim, e tu mesmo assim; e os escravos não são tais e quais? Mas tua irmã e tua mãe são mortas há três anos. Teu pai acaba de morrer e te fez herdeiro, pois ele disse: ‘Não deveria deixar meus bens a meu filho, o santo homem que abandonou o mundo para seguir a Deus? Eis a minha última vontade: que aquele que teme o Senhor e saiba onde está meu filho lhe diga para voltar e distribuir todos meus bens e dá-los aos pobres para a salvação de minh’alma e da sua’. Muitos foram os que saindo a tua busca não o encontraram. Ora vindo aqui a negócios te reconheci. Pois bem, não te demores, vêm vender o montante segundo a vontade de teu pai”. Respondeu o irmão: “Não é necessário que eu retorne ao mundo” – “Se tu não retornas, replicou o diabo, tua fortura há de se perder e disso prestarás conta. Que mal há vir como bom adminstrador em dar esse dinheiro aos pobres e desgraçados? Assim o que se dê aos necessitados não dilapidar-se-á por cortesãos e parasitas. Que te impede de retornar e fazer esmola como queria teu pai para salvar-te a alma? Depois tu retornas a esta cela! Por que deter-se?” Finalmente o diabo persuadiu o irmão e o conduziu ao mundo. Ele o acompanhou até a cidade, e após o deixou. O irmão quis entrar na casa do pai, que acreditava morto: mas naquele momento o pai saía dela, e muito vivo – mas o pai não reconheceu o filho. Perguntou: “Quem és tu?”. Perturbado o filho não sabia o que responder, mas como insistisse o pai para saber donde vinha, confuso respondeu: “Sou teu filho” – “E a que vieste?” Envergonhado de falar a verdade, disse: “Vim por amor a ti: queria ver-te”. E ficou com ele. Pouco tempo depois caiu na fornicação. O pai amaldiçoou-o deveras, mas o infeliz não se arrependeu e ficou no mundo. Irmãos, digo-vos: o monge não deve jamais sair da cela por instigação de outrem, por que quer que seja”.

25. Alguns irmãos perguntaram a um dos grandes anciãos do deserto: “Pai, como podes te sentir bem aqui suportando tal labor?” Respondeu o ancião: “Todo labor que suportei desde que estou aqui não se compara a um só dia da punição futura reservada aos pecadores”. (N. 193).

26. Disse um ancião: “Os monges d’outrora pouco mudavam de habitação, salvo em três casos: se não conseguiam pacificar alguém que não os visse com bons olhos, ainda que fizesse de tudo para agradá-lo; se eram objetos de muitos louvores; finalmente se sucumbiam à tentação de impureza”. (N. 194).

27. Um irmão pediu ao abade Arsênio: “Que devo fazer, Pai, pois sou fustigado por este pensamento: já que não podes jejuar nem trabalhar, visita ao menos os doentes! Essa ação merece recompensa!” O ancião reconheceu aí as sementes do diabo: “Então, respondeu ele, come, bebe, dorme; só não saias da tua cela”. Com efeito ele sabia que a fidelidade à cela torna o monge tal como deve ser. Três dias depois o irmão caiu na acédia. Mas se deparando com algumas palminhas desfiou-as e no dia seguinte começou a trançar com elas cordas. Quando sentiu fome disse para si: “Eis outras palminhas; trancemo-las, e após comerei”. E enquanto fazia a leitura: “Recitemos algumas linhas dos salmos, após o quê comeremos sem escrúpulos”. E com a ajuda de Deus, a pouco e pouco progrediu até se tornar tal como deveria ser; e tomando as rédeas dos maus pensamentos, triunfou. (N. 195; Arsênio, 11).

28. Um irmão perguntou a um ancião: “Por que caio na acédia quando estou na cela?” – “Porque, lhe respondeu ele, ainda não vislumbras a esperança da ressurreição, nem as torturas do inferno: se as vislumbrasses, tua cela seria estrelada de horizontes e tu bem na suportarias e não na provarias”. (N.196).

29. Os irmãos suplicavam a um ancião que repousasse de seus grandes trabalhos; mas lhes respondeu ele: “Crede-me, meus filhos, ante os imensos e magníficos dons de Deus Abrãao lamentara o que não labutara”. (N. 197).

30. Um irmão interrogou um ancião: “Meus pensamentos vagamundam e me perturbam”. Respondeu o ancião: “Fica na tua cela e teus pensamentos voltarão: quando a jumenta está amarrada, o burrico vagamunda dum lado ao outro, mas sempre retorna para junto da mãe, onde quer que vá. Assim os pensamentos do que pacienta na cela por amor a Deus podem vagamundear um tanto, mas logo voltam para perto”. (N. 198).

31. Um velho morava no deserto e só encontrava água bem distante, a doze milhas da cela. Certo dia, em que queria um púcaro, descoroçoou e disse entre si: “Por que me obrigar a tal fadiga? Vou habitar perto d’água”. Mal terminara aquelas palavras quando, olhando para trás, viu alguém que o seguia contando seus passos. “Quem és tu?”, lhe perguntou ele. “Sou um anjo do Senhor, lhe responderam, e fui enviado para contar-te os passos e dar-te a recompensa”. A tais palavras o ancião ficou reconfortado e, animado de renovado zelo, estabeleceu sua cela ainda mais longe d’água. (N. 199)

32. Os padres diziam: “Se onde habitas te acomete a tentação, não abandones esse lugar durante a tentação: se tu o abandonas, encontrarás por onde fores o de que fugias. Pacienta até que a tentação passe, para que tua partida se faça sem escândalo e não cause perturbação aos que habitam nas vizinhanças”. (N. 200)

33. Um irmão cenobita era inquieto de temperamento e fácil se metia em cólera. Certo dia disse de si para si: “Vou-me daqui para habitar só num aljube; como não hei de ver nem ouvir ninguém, estarei em hesequia e a paixão em mim se apacentará”. Ele partiu e foi habitar só numa grota. Mas certo dia, após encher e assentar em terra uma bilha d’água, o recipiente de súbito emborcou. De novo a encheu, e de novo emborcou. Fê-lo terceira vez e assentou-a – e ela emborcou. Refervo de cólera, pegou a bilha e a quebrou. Já de volta a si, percebeu que fora joguete do demônio da cólera e disse: “Estou só e, mesmo assim, ele me venceu; retornemos ao cenóbio, pois o combate, a paciência e sobretudo o socorro de Deus são necessários em toda parte.” Daí retornou donde viera. (N. 201).

34. Perguntou um irmão a um Padre ancião: “Que devo fazer? pois nada faço do que é do fazer do monge: acomodado no relasso, como, bebo e durmo. Ademais estou cheio de inquietação e mergulhado em pensamentos vergonhosos; passo dum trabalho a outro e dum pensamento ao que se lhe segue.” Respondeu-lhe o ancião: “Fica na tua cela, faz o possível sem te turbar. O pouco que fazes vale os grandes trabalhos do abade Antão no deserto; tenho confiaça de que quem fica tranqüilo na cela por amor de Deus e vela sobre a consciência, ver-se-á no mesmo lugar onde está o abade Antão.” (N. 202).

35. Perguntaram a um ancião como o monge zeloso poderia se não escandalizar com o retorno dalguns irmãos ao mundo; respondeu ele: “O monge deve observar como os cães caçam as lebres: um deles lobriga a lebre e corre ao seu encalço; os demais cães que só ao companheiro percebiam seguem-no um tanto, mas a fadiga fá-los dar atrás. O cão que viu a lebre continua só até que a tenha abocado; a direção da corrida não se lhe mudou porque os demais deram passo atrás; ele não cura dos precipícios, dos carrascais ou dos bosquedos; lanha-se todo e de tempos em tempos se fere nos espinhos, mas não encontrará repouso enquanto a não pegar. Tal deve ser o monge e quem segue ao Cristo Senhor: ficar sempre de olhos fitos na cruz e passar por cima dos escândalos com que topa, até ir ao Crucificado.” (N. 203).

36. Disse um ancião: “Assim como uma árvore é infrutífera se a transplantam amiúde, assim o monge que se desloca de lugar em lugar não pode dar fruto.” (N. 204).

37. Um irmão agoniado com o pensamento de abandonar o monastério abriu a alma a seu abade, que lhe respondeu: “Fica na tua cela, oferece teu corpo como penhor às paredes dela e não saias. Não te preocupes com tal pensamento. Que tu’alma pense o que quiser, mas não ponhas teu corpo da cela em fora.” (N. 205).

38. Disse um ancião: “A cela do monge é a fornalha da Babilônia onde os três mancebos encontraram o Filho de Deus; é ainda a coluna de nuvem donde Deus falou a Moisés.” (N. 206).

39. Durante nove anos um irmão foi atormentado pelo desejo de abandonar o cenóbio. A cada dia preparava a matalotagem como para partir, mas quando caia a noite, dizia de si para si: “Amanhã parto daqui!” Mas à manhã dizia: “Façamo-nos violência e hoje fiquemos em honra ao Senhor.” E assim fez dia após dia durante nove anos, até que o Senhor lhe arredasse a tentação e ele ficasse em paz. (N. 207).

40. Um irmão sucumbiu à tentação e, no abatimento, abandonou a regra monástica. Quando quis voltar às bases da observância regular, impediu-o o abatimento: “Quando serei como era?”, dizia entre si. Quebrantado, fazia nada para recomeçar a viver como monge. Foi então até a morada dum ancião e lhe contou sua história. O velho, sabendo seu estado, lhe deu este exemplo: “Um homem tinha uma propriedade que por negligência se tornou inculta e se encheu de cardos e espinhos. Querendo-a cultivar, disse ao filho: ‘Vai amanhar a terra.’ E lá foi o filho. Mas à vista da espessura dos cardos e dos espinhos que ali brotaram, descoroçoou. ‘Quando chegarei a desenramar e amanhar esse chão?’, dizia de si para si. Então se estirou em terra e adormeceu. E assim fez durante vários dias. Mas o pai lhe veio ver o trabalho. Constatando a negligência do filho, lhe perguntou: ‘Por que nada fizeste até agora?’ ‘Pai, respondeu o mancebo, quando vim trabalhar, a visão do pulular de cardos e espinhos me enojou da tarefa. Abatido, deitei em terra e dormi.’ ‘Meu filho, retrucou o pai, a cada dia faz só o estiro de terra que ocupas ao deitares. Teu trabalho se avolumará assim a pouco e pouco, sem que percas a coragem.’ O mancebo fez como se lhe dissera e, em pouco tempo, a propriedade se amanhou”. “Tu assim, meu irmão, faz um pouco a cada vez, que não perderás a coragem: a graça de Deus te devolverá ao primeiro estado.” A essa palavra o irmão partiu e, com paciência, perseverou em fazer como lhe ensinara o ancião. Assim encontrou a paz na graça do Cristo (N. 208).

41. Um ancião estava sempre doente. Mas certo ano, como não tivesse nada, ficou atristado e se pôs a chorar: “Deus me abandonou, dizia ele, Ele não me visitou.” (N. 209).

42. Contava o seguinte um ancião: “Certa feita um irmão foi tentado com pensamentos durante nove anos, a tal ponto que na ansiedade desesperou da salvação e condenou a si: ‘Minh’alma está perdida, e já que sou morto retorno ao mundo.’ Quando se ia indo, escutou uma voz ao caminho: ‘As tentações que suportates durante nove anos eram as tuas coroas. Retorna aonde estavas, que livrar-te-ei dos maus pensamentos.’ O irmão entendeu que não devia desesperar por conta dos pensamentos que lhe sobrevinham: eles nos ofertam coroas, desde que os suportemos como sói a monges.” (N. 210).

43. Um macróbio que vivia numa gruta na Tebaida tinha um discípulo de provada virtude. À noite o ancião costumava instruir o discípulo do que era útil para a alma. Após lhe dar conselhos recitava a oração e lhe mandava dormir. Certo dia pios segrais, conhecedores da grande ascese do ancião, vieram lhe encontrar e se foram após ouvirem estímulos. À noite, depois do ofício e da partida dos segrais, o macróbio começou a exortar e instruir o irmão como soía, mas enquanto falava adormeceu. O irmão esperou paciente o sono do ancião, de molde a fazer a oração habitual. Mas o ancião não acordava; após pacientar muito tempo, acometeu contra o discípulo o pensamento de ir dormir sem permissão, mas ele se fez violência, resistiu ao pensamento e não se foi. Outra vez a vontade de dormir o assediou, mas o irmão fincou pé. E isso foi indo até a sétima vez que resistiu ao pensmento. Escoara-se meia noite quando despertou o macróbio e encontrou ao pé de si o discípulo. “Permaneceste até agora sem partir?”, lhe disse ele. “Sim, meu Pai, tu não me despediste.” “Por que não me acordaste?” “Não ousei te sacudir de medo de te enfadar.” Eles se ergueram e começaram a dizer matinas. Terminada primas, o ancião despediu o discípulo. Quando estava só, ficou extático e viu um trono instalado em lugar de honra e neste trono sete coroas. O ancião interrogou a quem isso lhe mostrava: “Para quem são?”, perguntou ele; responderam-lhe: “É o lugar e o trono que Deus concedeu ao discípulo por conta de sua conduta: nesta noite ele mereceu sete coroas.” A tais palavras o ancião ficou surpreso. Tremendo chamou o discípulo e lhe perguntou: “Dize-me o que fizeste esta noite.” Respondeu o outro: “Pai, perdoa-me, mas nada fiz.” Pensando que não confessava por humildade, insistiu o ancião: “Assegura-te disto: não repousarei antes que mo tenhas dito o que fizeste ou pensaste esta noite.” Mas o irmão não se apercebia do que fizeta à noite e, como não encontrasse com que responder, disse ao macróbio: “Pai, perdoa-me, mas nada fiz exceto isto: sete vezes tive vontade de ir, mas fiquei, pois não me despediste como sói.” O macróbio logo entendeu que Deus lhe dera uma coroa a cada vez que resistira aos pensamentos. Nada disse ao irmão, pois convinha ao bem de su’alma, mas o contou a padres espirituais para nos dar a conhecer que Deus nos coroa mesmo por pensamentos sem muita importância, como está escrito: “O reino de Deus é dos violentos, e são os violentos que o arrebatam”. (Mt. 11,12) (N. 211).

44. Um ancião das Celas caíra doente. Vivia como anacoreta e, como não houvesse quem lhe servisse, levantava-se para comer o que estava na cela. Assim fez durante certo tempo e não houve quem o visitasse. Ao fim de trinta dias, como ninguém viesse, Deus enviou um anjo para servi-lo. Estava assim há sete dias quando os padres se lembraram do ancião: “Vamos a ver, diziam entre si, se o ancião não caiu doente.” Ao chegarem bateram à porta e o anjo se foi. Desta arte, ancião desatou a chorar lá dentro: “Irmãos, i-vos daqui!” Mas eles empurraram a porta, adentraram e perguntaram ao ancião por que chorava. Respondeu o macróbio: “Havia trinta dias era atormentado de minhas enfermidades e ninguém me visitou. Eis que uma semana há que o Senhor me enviou um anjo para cuidar de mim, anjo que partiu a vossa chegada.” A essas palavras dormiu em paz. Cheios de admiração, os irmãos glorificaram a Deus e disseram: “O Senhor não abandona os que Nele esperam.” (N. 212)

45. Disse um ancião: “Se te sobrevierem enfermidades corporais, não te descoroçoes. Pois se o Senhor quer enfraquecer teu corpo, quem és tu para tomá-lo por mal? Não se ocupa Ele de ti em todas as ocasiões? Podes tu viver sem Ele? Sê paciente e ora para te Ele dar o útil e para saberes fazer Sua vontade e restares paciente, enquanto come o que te dão por caridade.” (N. 213)

46. Um irmão contou isto: “Quando estava em Oxirinco, vieram pobres um sábado à noite para receber o ágape. Eles dormiram num canto; um deles só tinha uma esteira, com que por partes cobria o chão e a si, pois era grande o frio. Como saísse para fazer suas necessidades, escutei-o suspirar e se queixar do frio, mas consolava-se dizendo: “Senhor, rendo-Vos graças! Quantos ricos há em prisão, em ferros ou de pés no cepo que não podem fazer suas necessidades com vagar. Eu de mim sou como um imperador! Estico as pernas e vou aonde me praz!” Enquanto falava essas palavras, levantei-me escutando-o. Entrei para contar aos irmãos, que ficaram edificados.” (N. 214)

47. Um irmão interrogou um ancião: “Se me sobrevêm dificuldades num lugar e não há ninguém probo para confiar meu problema, que devo fazer?” Respondeu-lhe o ancião: “Confia em Deus, pois Ele enviará Seu anjo e Sua graça. Se com amor orares, Ele há de ser tua consolação.” E acrescentou: “Ouvi dizer que aconteceu na Cítia uma história deste estilo: havia lá um monge sofrendo tentações. Como ninguém havia que lhe inspirasse confiança, nem a quem pudesse se desvendar, preparara sua matalotagem para ir-se dali. Mas ainda àquela noite a graça divina lhe apareceu sob o aspecto de virgem, que o acoroçoava dizendo: ‘Não te vais, mas fica aqui comigo. Não havia maldade naquilo que escutaste.” Dando fé a tais palavras, permanceu o monge e logo ficou curado o coração.” (N. 215).

sexta-feira, abril 16, 2010

S. Tomás (ao irmão Silvestre) - Os Princípios da Natureza

NB: Tradução provisória.

CAPÍTULO I
- OS TRÊS PRINCÍPIOS DE TODA GERAÇÃO: MATÉRIA, FORMA E PRIVAÇÃO

1. — Aquilo que pode ser e não é, ou aquilo que algo pode vir a ser e ainda não é, se chama ser em potência. Aquilo que é se chama ser em ato. Mas há dois tipos de seres. Em primeiro lugar, o ser essencial ou ser substancial de algo, por ex., ser um homem: esse é o ser simpliciter. Em segundo lugar, o ser acidental, por ex., a pele branca do homem: esse é o ser secundum quid. Esses dois tipos de seres podem ser em potência. Para que o homem seja, é necessário que ele seja em potência no sêmen e no óvulo; para que o homem seja branco, é necessário que ele seja susceptível de ter a pele branca, i. e., que seja susceptível de ser branco em potência. Aquilo que está em potência em relação a um ser substancial ou a um ser acidental é a matéria: por ex., o sêmen é matéria em relação ao homem, e o homem é matéria em relação à brancura. Mas essas duas potências se distinguem uma da outra: aquilo que está em potência para um ser substancial é a matéria da qual; aquilo que está em potência para um ser acidental é a matéria na qual.
2. — Aquilo que está em potência em relação ao ser substancial é a matéria-prima; aquilo que está em potência em relação ao ser acidental é o sujeito: o sujeito dá o ser ao acidente, i. e., dá ao acidente o ser com o qual este é, pois um acidente não tem existência fora de um sujeito. Por isso se diz que os acidentes são no sujeito, mas não se diz que a forma substancial é no sujeito. Assim, a matéria se distingue do sujeito: o ser do sujeito não provém de algo que advém a ele: o sujeito é per se e possui ser completo: o homem não deve o ser à cor da pele. A matéria, por sua vez, recebe o ser de algo que advém a ela, pois em si mesma é um ser incompleto, ou melhor, ela não tem existência em si mesma, conforme aquilo do Comentador. A forma dá o ser à matéria; contudo, o acidente não dá o ser ao sujeito, mas é o sujeito que dá o ser ao acidente; não obstante, algumas vezes se toma uma coisa pela outra, a matéria pelo sujeito, e assim conversivamente.
3. — Assim como tudo aquilo que está em potência pode ser chamado “matéria”, assim tudo aquilo de que a matéria recebe a existência – existência como substância ou como acidente – pode ser chamado “forma”. Por ex., o homem, que é branco em potência, torna-se branco em ato por meio da cor branca; e o sêmen, que é homem em potência, torna-se um homem em ato quando recebe uma alma. Ademais já que a forma causa a existência em ato, diz-se que a forma é a existência em ato. A forma substancial é a forma que causa a existência em ato de um ser substancial; a forma acidental é a forma que causa a existência em ato de um ser acidental.
4. — A geração de um ser é um movimento em direção à forma. Há dois tipos de geração que correspondem aos dois tipos de formas: a geração simpliciter corresponde à forma substancial; a geração secundum quid corresponde à forma acidental. Quando se introduz uma forma substancial, diz-se que houve uma geração simpliciter: o nascimento de um homem. Quando se introduz uma forma acidental, não há geração simpliciter, mas a transformação de um ser, que se torna algo que ainda não era: quando um homem se torna branco, não se torna branco pelo nascimento ou geração simpliciter, mas tão-somente pela geração secundum quid, i. e., aquilo que se torna branco é um homem já existente. Esses dois tipos de geração têm como contrários dois tipos de corrupção: a corrupção simpliciter e a corrupção secundum quid. A geração e a corrupção secundum quid estão presentes nas nove outras categorias, que são os acidentes [quantidade, qualidade, relação, tempo, lugar, hábito, estado, ação e paixão]. A geração é de algum modo uma passagem do não-ser ao ser; a corrupção, ao contrário, é um tipo de passagem do ser quer a outro modo de ser, quer ao não-ser: eis porque a geração não se dá a partir de um não-ser qualquer, mas a partir de um não-ser que é ser em potência: por ex., uma estátua se gera a partir de um bloco que é estátua em potência, mas não em ato.
5. — Para que se dê a geração, requerem-se três coisas:
o ser em potência, que é a matéria;
o não-ser em ato, que é a privação;
e aquilo que dá a existência em ato, que é a forma. Quando de um bloco se faz uma estátua, o bloco, que está em potência em relação à forma da estátua, constitui a matéria; o aspecto informe do bloco é a privação; e a configuração pela qual se chama algo de estátua é a forma.
Mas isso não é uma forma substancial, pois o bloco, antes de receber a configuração de estátua, possui a existência em ato; essa existência não depende da configuração que vai receber: a forma da estátua é uma forma acidental. Ademais todas as formas fabricadas pelo homem são formas acidentais. A arte [ou a técnica humana] só opera naquilo que a natureza já constituiu em ato na existência.


CAPÍTULO II - O ESTUDO DA MATÉRIA

6. — Eis os três princípios da natureza: a matéria, a forma e a privação: a forma é a razão pela qual se dá a geração; a matéria e a privação são aquilo de que se dá a geração. A matéria e a privação são uma só e mesma coisa no sujeito, mas são diferentes na definição: antes de receber a forma, o bloco de mármore e a sua ausência de configuração são uma só e mesma coisa. Mas é por uma razão que se chama ‘mármore’, e é por outra razão que se chama ‘bloco informe’. A privação é um princípio; ela não é um princípio em si, mas um princípio per accidens, porque coincide com a matéria. Assim, dizemos que é “per accidens” que um médico constrói uma casa: ele não constrói a casa enquanto médico, mas enquanto construtor, o qual coincide acidentalmente, no mesmo sujeito, com o médico. Todavia, há dois tipos de acidentes: os acidentes necessários, que são inseparáveis de seu sujeito, como a faculdade de rir no homem; e os acidentes não-necessários, que são separáveis de seu sujeito, como a cor e a pele. Desse modo, embora a privação seja um princípio per accidens, isso não quer dizer que ela não seja necessária para a geração, pois a matéria nunca está livre de alguma privação. Na medida em que a matéria é sob alguma forma, ela está privada de alguma outra forma, e assim conversivamente: por ex., assim como há privação de fogo no ar, assim há privação de ar no fogo.
7. — A geração a partir do “não-ser” não significa que a negação seja um princípio. É antes a privação, e não a negação, que é o princípio, pois a negação não pode determinar um sujeito. “Não ver” pode se dizer até de coisas que não são; pode se dizer: “uma quimera não vê”; o mesmo pode se dizer dos seres que não são aptos para a visão, como as pedras. Mas uma privação só se afirma de um sujeito determinado que é capaz do hábito do qual está privado: por ex., a cegueira só pode se afirmar daqueles que são aptos para a visão. A geração não se opera a partir do não-ser simpliciter, mas a partir do não-ser que está em algum sujeito, e não em qualquer sujeito, mas em um sujeito determinado (não se inflama uma matéria qualquer não-inflamável; inflamam-se somente as matérias não inflamadas capazes de se inflamarem); segue-se daí que a privação é princípio e a negação não é. Mas a privação se distingue dos outros princípios, porque os outros são princípios tanto da ordem do ser acabado quanto da ordem do vir a ser. Assim, no caso da estátua, para fabricá-la, requerem-se a pedra e a configuração de estátua; feita a estátua, a pedra e a configuração de estátua permanecem. A privação é um princípio do vir a ser, mas não do ser acabado: quando a estátua ainda está no vir a ser, ela ainda não é estátua; se ela já era estátua, não poderia vir a ser uma, pois tudo o que está no vir a ser ainda não é, exceto nas coisas sucessivas, como são por ex. o tempo e o movimento. Quando a pedra se torna estátua, a pedra já não está mais privada da forma de estátua – a privação desaparece: a afirmação e a negação não podem ser ao mesmo tempo; não se pode estar, ao mesmo tempo, privado de algo e na posse do mesmo algo. Assim, a privação é princípio per accidens, como já dissemos; os outros princípios são princípios per se.
8. — De tudo isso, fica evidente que a matéria se distingue da forma e da privação. A matéria é o sujeito em que a privação e a forma são: por ex., é a pedra que é o bloco sem configuração, e é a pedra que recebe a forma de estátua. Acontece, porém, que “matéria” algumas vezes designa privação, algumas vezes designa algo sem privação, por ex., a pedra, embora seja matéria da estátua, não evoca necessariamente a idéia de privação: eu posso nomear a pedra sem estar indicando necessariamente uma coisa sem forma e sem configuração; mas a farinha – matéria do pão – implica necessariamente a privação da forma do pão, pois o simples fato de nomeá-la “farinha” indica uma falta de disposição ou uma desordenação oposta à forma do pão. Na geração, a matéria – o sujeito material – permanece, mas a privação desaparece, bem como desaparece o composto de matéria e privação; portanto, a matéria que não implica necessariamente privação permanece após a geração [a pedra ainda permanece como pedra na estátua; neste caso, sujeito e matéria podem ser conversíveis]; a matéria que implica necessariamente privação é transitória [a farinha não permanece como farinha no pão, mas se corrompe inteiramente ao liberar o princípio que vai entrar na composição da massa; neste caso, sujeito e matéria não podem ser conversíveis].
9. — Note que uma matéria qualquer tem composição de forma, por ex., a pedra; embora ela seja matéria em relação à estátua, é um composto de matéria e forma: a pedra não é matéria-prima, porque já tem uma forma. A matéria que se concebe como sem forma e sem privação, mas que é sujeito da forma e da privação, se chama matéria-prima; nesse sentido, não há nenhuma outra matéria antes dela. Ela também se chama hyle, i. e., caos ou confusão. Só se pode definir e conhecer uma coisa pela forma: a matéria-prima não pode ser definida ou conhecida em si mesma, senão por meio do composto de matéria-prima e forma. O que se pode afirmar é que a matéria-prima é aquela que está em relação a todas as formas e a todas as privações, assim como a pedra está em relação à forma de estátua e à privação de configuração. A matéria-prima se diz prima [ou primeira] simpliciter. Pode se dizer que algo é matéria-prima com respeito a certo gênero, por ex., a água em relação às diversas soluções aquosas. A água não é matéria-prima simpliciter, pois se trata de um composto de matéria e forma. Portanto, supõe-se uma matéria anterior ao composto.
10. — Nem a matéria-prima nem a forma são susceptíveis de geração e de corrupção. Toda geração é a passagem de um ponto de partida a um ponto de chegada. O ponto de partida é a matéria, o ponto de chegada é a forma. Se a matéria e a forma tivessem geração, seria necessário que a matéria fosse matéria da matéria, e que a forma fosse forma da forma, e assim ad infinitum. Propriamente falando, a geração só é geração de um composto de matéria e forma.
11. — A matéria-prima é numericamente a mesma em todas as coisas. Mas o ser numericamente “o mesmo” pode se entender de duas maneiras:
a) o ser que possui uma forma determinada e numericamente a mesma, por ex., Sócrates; nesse sentido, a matéria-prima não é numericamente a mesma, porque ela não comporta em si nenhuma forma;
b) o ser que não possui nenhuma das disposições que podem criar uma multiplicidade numérica; nesse sentido, a matéria-prima é numericamente a mesma, porque efetivamente ela se concebe sem as disposições que criam ou permitem criar uma multiplicidade numérica.
12. — Embora a noção de matéria-prima não comporte em sua definição nenhuma forma ou privação (por ex., a noção de pedra não indica por si mesma se ela está informe ou não), todavia é necessário notar que não há matéria existente inteiramente despojada de forma e de privação. A matéria é, sempre, quer sob uma forma, quer sob outra. Ela não pode ser por si mesma: a noção de matéria não comporta a forma em sua definição, mas a matéria não pode ser em ato, porque é a forma que dá a ela a existência em ato. A matéria só é em potência. Portanto, o que quer que seja em ato não pode se chamar matéria-prima.


CAPÍTULO III - AS QUATRO CAUSAS: MATERIAL, FORMAL, EFICIENTE E FINAL

13. — Fica evidente que há três princípios na natureza: a matéria, a forma e a privação. Mas eles não são suficientes para que se dê a geração. Aquilo que está em potência não pode se atualizar por si mesmo: a pedra, que está em potência em relação à estátua, não pode se talhar a si mesma como estátua. Antes é necessário um agente que faça a forma da estátua passar da potência ao ato. A forma, por sua vez, não pode impulsionar a si mesma da potência ao ato (aqui falo da forma da coisa gerada, da forma que é o ponto de chegada da geração), pois a forma só é no ser da coisa gerada: enquanto a geração da coisa não está terminada, a coisa gerada ainda está no vir a ser. Além da matéria e da forma, é necessário ainda outro princípio, um princípio ativo, que é a causa eficiente, ou dito de outro modo, o motor ou a causa agente ou qualquer que seja o princípio do movimento.
14. — Como diz Aristóteles no Livro II da Metafísica, tudo o que está em ato atua em vista de uma finalidade; por isso é necessário ainda outro princípio, qual seja, a finalidade para a qual se inclina o agente: ela se chama o fim. Note que, embora todo agente – quer natural, quer voluntário – aja em função de um fim, não se segue daí que todo agente conheça esse fim ou que delibere sobre ele. O conhecimento do fim é necessário para os seres cujas ações não são determinadas, mas que talvez tenham de escolher entre fins opostos, como é o caso dos agentes voluntários. Para tais agentes é indispensável conhecer o fim, pois é em função do fim que esses agentes determinam suas ações.
Nos agentes naturais, por sua vez, as ações são determinadas; portanto, eles não precisam de escolher o que convém a seu fim. Avicena dá o exemplo do tangedor de cítara, que não tem necessidade de deliberar para saber qual corda deve tanger, porque [tal ação] já está determinada em si mesmo; se assim não fosse, haveria uma interrupção entre uma nota e outra, o que causaria discórdia. Todavia, a existência ou a ausência de deliberação nos é mais perceptível no caso do agente voluntário que no caso do agente natural. Como sabemos que o agente voluntário, para o qual a deliberação é mais apropriada, pode algumas vezes atuar sem deliberação, então devemos admitir com maior razão, [por um argumento a maiori], que um agente natural tenha a possibilidade de atuar sem deliberar. Daí é possível [afirmar] que um agente natural se incline em direção ao fim sem deliberação nenhuma: “inclinar-se em direção ao fim” nada mais é que ter inclinação natural para certa direção [ou para algo]. Assim, diz-se que há quatro causas: a causa material, a causa eficiente, a causa formal e a causa final.
15. — Embora “princípio” e “causa” sejam conversíveis, segundo aquilo de Aristóteles no Livro V da Metafísica, o Filósofo, no da Física, estabelece quatro causas e três princípios. Ele entende como “causa” as causas extrínsecas e as causas intrínsecas. A matéria e a forma são as causas intrínsecas da coisa gerada, pois são partes constitutivas dessa coisa; a causa eficiente e a causa final são as causas extrínsecas, pois são exteriores à coisa gerada. Ora Aristóteles considera como princípios tão-somente as causas intrínsecas. Quanto à privação, não está listada como uma causa, pois é um princípio per accidens, como já dissemos. Quando afirmamos que há quatro causas, queremos dizer que elas são causas per se, às quais se vinculam as causas per accidens, pois tudo aquilo que é per accidens se vincula àquilo que é per se.
16. — No Livro I da Física, Aristóteles considera como princípios apenas as causas intrínsecas; mas no Livro XI da Metafísica, ele chama princípios às causas extrínsecas, e elementos às causas que são partes constitutivas da coisa, i. e., as causas intrínsecas; tanto princípios quanto elementos igualmente se denominam causas. Entretanto, pode-se usar um pelo outro: toda causa pode se chamar princípio, e todo princípio pode se chamar causa. Todavia, a palavra causa parece dizer algo a mais que a palavra princípio tomada na acepção comum. Aquilo que é primário pode se chamar princípio, siga-se a ele ou não a existência de algo posterior: por ex., o cuteleiro se chama princípio da faca, pois a existência da faca é conseqüência da operação do cuteleiro. Mas quando uma coisa se move da brancura para a negrura, diz-se que a brancura está “no princípio” desse movimento; de modo geral, o ponto de partida do movimento se chama princípio desse movimento. Ora a brancura não é aquilo de que resulta a existência da negrura. O princípio que se chama causa é aquele de que procede a existência de um posterior: a causa é aquilo cuja conseqüência é a geração de outra coisa. Aquilo que é primário e é tão-somente o ponto de partida do qual se opera um movimento não pode se chamar causa, não obstante possa se chamar princípio. Por isso, a privação é um princípio, mas não uma causa: a privação é apenas o ponto de partida da geração. Mas é possível nomeá-la causa per accidens, na medida em que coincide com a matéria, como dissemos acima.
17. — Elemento, em sentido próprio, só se diz das causas que entram na composição da coisa gerada, i. e., das causas materiais. Ademais não se diz isso de quaisquer causas materiais, mas só daquelas que entram na composição primária da coisa: por ex., os membros não são elementos do corpo humano, pois os membros também se compõem de outras coisas. Chamamos elementos à terra e à água, pois ambos não se compõem de outros corpos, mas antes são os corpos naturais que se compõem de ambos. Por isso, Aristóteles, no Livro V da Metafísica, enuncia: “elemento se diz do composto primário e imanente a uma coisa, especificamente indivisível em outras espécies”. Expliquemos esses termos. O primeiro termo,“composto primário”, fica claro de acordo com o que dissemos. O segundo termo, “imanente a uma coisa”, faz a distinção entre o elemento e a matéria que se corrompe inteiramente na geração da coisa. Por ex., o pão é a matéria em relação ao sangue, mas o sangue se alimenta pela corrupção do pão; o pão não permanece no sangue, portanto não se pode dizer que o pão é um elemento do sangue. Para que uma matéria seja um elemento, é necessário que ela permaneça de algum modo no composto e não se corrompa inteiramente, como diz Aristóteles no livro Da Geração e da Corrupção. O terceiro termo, “especificamente indivisível em outras espécies”, faz distinção entre o elemento e as coisas compostas de partes que são diversas segundo a forma, i. e., segundo a espécie: por ex., a mão se compõe de carne e de osso, que são distintos entre si segundo a espécie. Um elemento não é divisível em partes segundo as espécies; por ex., a água, cujas partes todas são água. Não importa que um elemento seja ou não divisível segundo a quantidade: é suficiente que seja indivisível quanto à forma. Aquilo que não pode se dividir de nenhuma maneira [quanto à forma] se chama elemento, como as letras do alfabeto são os elementos das palavras. Disso resulta que o princípio de algum modo aplica-se a uma extensão maior [de coisas] que a causa, e a causa a uma extensão maior [de coisas] que o elemento. É o que diz o Comentador ao comentar o Livro V da Metafísica de Aristóteles.


CAPÍTULO IV - A INTERDEPENDÊNCIA DAS QUATRO CAUSAS

18. — Há quatro tipos de causas. É possível que uma mesma coisa tenha várias causas. As causas da estátua são a pedra e o artista: o artista é a causa eficiente, a pedra a causa material. É possível também que a mesma causa gere efeitos contrários; o piloto é a causa quer da salvação, quer da soversão do navio: é causa da soversão por ausência, e da salvação por presensa, como diz Aristóteles no Livro II da Física.
19. — Ademais é possível que a mesma coisa seja causa e efeito, não sob o mesmo aspecto, mas sob aspectos diferentes. A caminhada é causa eficiente da saúde, e a saúde é causa final da caminhada; a caminhada é em alguma medida causa da saúde e se faz em vista da saúde. Do mesmo modo, o corpo é matéria da alma, e a alma forma do corpo. A causa eficiente é causa em relação ao fim, pois o fim não seria em ato sem a operação do agente. A causa final é causa da causa eficiente, pois a causa eficiente só opera com inclinação a um fim. Por isso, a causa eficiente é causa daquilo que constitui o fim: por ex., a caminhada é causa da saúde. Todavia, a causa eficiente não faz com que o fim seja o fim: ela não é a causa da causalidade final, nem faz com que o fim seja causa final; por ex., o médico faz com que a saúde seja em ato, mas não faz com que a saúde seja uma causa final. O fim, por sua vez, não é causa da causa eficiente, mas é causa da eficiência da causa eficiente: a saúde não faz com que o médico seja médico (falo da saúde recuperada pela ação do médico), mas a saúde é a razão pela qual o médico atua. Portanto, o fim é causa da causalidade eficiente, porque ele é a razão pela qual a causa eficiente atua; do mesmo modo, o fim é aquilo que faz com que a matéria seja matéria e a forma seja forma, pois é em vista do fim que a matéria recebe uma forma e a forma informa uma matéria. Por isso, o fim é a causa das causas, porque ela é a causa da causalidade em todas as causas. Assim como matéria é causa da forma, na medida em que a forma só é em uma matéria, assim a forma é causa da matéria, na medida em que a matéria só tem existência em ato pela forma. A matéria e a forma são relativas uma à outra, como aquilo de Aristóteles no Livro II da Física. A matéria e a forma estão em relação ao composto na mesma medida em que as partes em relação ao todo, ou o simples em relação ao composto, e assim conversivamente.
20. — Toda causa, enquanto causa, é naturalmente anterior ao efeito. Mas a anterioridade, diz Aristóteles no Livro XVI de História dos Animais, se entende em dois sentidos. Essa dupla acepção faz com que uma coisa seja, ao mesmo tempo, anterior e posterior à outra, e que também seja, ao mesmo tempo, causa e efeito. A anterioridade se entende quer na ordem da geração e do tempo, quer na ordem da substância e da completude. A ação da natureza procede do imperfeito ao perfeito, do incompleto ao completo: o imperfeito é anterior ao perfeito na ordem da geração e do tempo; mas o perfeito é anterior ao imperfeito na ordem da substância: o homem é anterior à criança na ordem da substâcia e da completude, e a criança é anterior ao homem na ordem da geração e do tempo. Nas coisas geradas o imperfeito é anterior ao perfeito e a potência anterior ao ato; considerando que, em um só e mesmo ser, o imperfeito precede o perfeito e a potência precede o ato, conclui-se que – segundo a ordem da natureza – é necessário que o ato e o perfeito sejam anteriores, pois aquilo que leva algo da potência ao ato é um ser em ato, e aquilo que aperfeiçoa o imperfeito é um ser perfeito. A matéria é anterior à forma na ordem da geração e do tempo, pois aquilo que se torna algo é anterior àquilo que algo se torna. Mas a forma é anterior à matéria na ordem da substância e da completude, pois apenas pela forma é que a matéria tem existência completa. Do mesmo modo, a causa eficiente, que é o motor em direção ao fim, é anterior ao fim na ordem da geração e do tempo, mas o fim é anterior à causa eficiente enquanto eficiente na ordem da substância e da completude, pois a ação da causa eficiente se completa apenas pelo fim. Assim, a causa material e a causa eficiente são anteriores segundo as fases de geração; a causa formal e a causa final são anteriores segundo os graus de perfeição.
21. — Note que há dois tipos de necessidade: a necessidade absoluta e a necessidadecondicional. A necessidade absoluta é aquela que procede das causas anteriores segundo a ordem de geração: a causa material e a causa eficiente: por ex., a necessidade da morte provém da matéria e do fato de que somos compostos de contrários. Chama-se necessidade absoluta porque não se pode impedi-la. Chama-se também necessidade material. A necessidade condicional, por outro lado. provém das causas posteriores na ordem da geração: a causa formal e a causa final. Por ex., para que se gere um homem é necessário que haja a concepção. Chama-se necessidade condicional porque não é necessário, em si mesmo, que uma mulher conceba: a concepção da mulher só é necessária para que haja o nascimento de um homem. Chama-se também necessidade para um fim.
22. — Note também que três das quatro causas podem coincidir em uma coisa só: a causa formal, a causa final e a causa eficiente, como fica claro na geração do fogo. Na medida em que o fogo gera o fogo, ele é causa eficiente; na medida em que faz ser em ato o que era em potência, ele é causa formal; na medida em que é o termo e a finalidade da ação, ele é causa final. Deve-se, porém, distinguir dois tipos de fim: a finalidade da geração e a finalidade da coisa gerada, como fica claro na geração da faca. A forma da faca é o fim que se quer gerar quando se fabrica uma faca; mas o fim da coisa gerada, que é a faca, é o cortar, que é a operação da faca. Desses dois fins, apenas a finalidade da geração pode às vezes coincidir com a causa eficiente e a causa formal, quando a geração se dá por um ser da mesma espécie que o ser produzido, por ex., quando um ser humano gera um ser humano, ou uma oliveira gera uma oliveira. Note que o fim do ser gerado, por sua vez, não pode coincidir nem com a causa eficiente nem com a causa final. Entretanto, quando dizemos que três das quatro causas são numericamente a mesma, é preciso entender que o fim e a forma são uma coisa só, na medida em que a forma da coisa gerada e o fim da geração são uma só e mesma coisa. Já a causa eficiente não é numericamente a mesma com a forma e o fim, mas é especificamente a mesma. Não é possível que o gerador e a coisa gerada sejam numericamente o mesmo, mas ambos podem ser especificamente o mesmo. Quando um homem gera um homem, o pai e o filho são numericamente diversos, mas são especificamente o mesmo. Todavia, a matéria não coincide com as outras três causas: já que ela é ser em potência, possui a natureza de algo imperfeito. As outras causas são em ato e possuem a natureza de algo perfeito. O perfeito e o imperfeito não podem coincidir na mesma coisa.


CAPÍTULO V - OS DIVERSOS MODOS DE SER DAS QUATRO CAUSAS.

23. — Agora que se entendeu que há quatro causas – eficiente, material, formal e final –, note que essas causas podem se dizer de diversos modos. Uma causa pode ser anterior ou posterior. A arte médica e o médico são causas da saúde: a arte médica é causa anterior, o médico é causa posterior; o mesmo se diga da causa formal e das demais causas. Mas devemos sempre remeter a questão à primeira causa. Por ex., se alguém perguntasse: “Por que este homem ficou curado?”, a resposta seria: “Porque o médico o curou.” Mas se ainda perguntassem: “Por que o médico o curou?” – “Porque ele possui a arte da cura.”
24. — A causa posterior se chama causa próxima; a causa anterior se chama causa remota. O mais universal é sempre causa remota, o mais particular é causa próxima. Assim, a forma próxima do homem é sua definição – animal racional. Mas a forma do animal é mais remota, e mais remota ainda a forma geral de substancia. O superior é sempre a forma do inferior: a matéria próxima da estátua é a pedra, a matéria remota é o mineral, e a matéria ainda mais remota é o corpo sólido.
25. — Algumas causas são per se, outras per accidens. A causa per se é a causa do efeito enquanto tal; por ex., o construtor é causa eficiente da casa, a madeira é causa materal do escabelo. A causa per accidens é um acidente da causa per se: se um gramático constrói uma casa, ele é causa eficiente da casa, mas causa per accidens, pois a constrói não enquanto gramático, mas enquanto construtor, e gramático per accidens – e assim para todas as causas. As causas são ou simples ou compostas. A causa simples é a causa que sozinha é causa per se, ou sozinha é causa per accidens: o construtor é causa da casa, o médico é causa da casa.
26. – A causa composta é aquela que reúne a causa per se e a causa per accidens, como se disséssemos que, por ex., o médico construtor é causa da casa. Segundo Avicena, a causa simples é aquela que é causa sem o concurso de outra: o bloco de pedra é causa material da estátua, sem adição de outro bloco ou de outro mineral; o médico cura os doentes; o fogo esquenta. A causa é causa composta quando necessita do concurso de muitos para ser causa: um só homem não é causa do movimento do navio, são necessários muitos; uma só pedra não é causa material da casa, são necessárias muitas.
27. — Algumas causas são em ato, outras são em potência. A causa em ato é aquela que causa uma coisa em ato, como o construtor enquanto constrói e a pedra enquanto se faz a estátua. A causa em potência é aquela que, embora não cause uma coisa em ato, pode entretanto causá-la, como o construtor que não está construindo, mas pode construir; ou a pedra que ainda não é estátua. Note que a causa e o efeito devem necessariamente ser em ato ao mesmo tempo. Para que o construtor seja construtor em ato, ele precisa estar construindo; para que a construção seja em ato, precisa-se de um construtor em ato. Mas isso não é necessário para as causas em potência. Ademais uma causa universal corresponde a um efeito universal; uma causa particular corresponde a um efeito particular: o construtor é causa da casa, e este construtor é causa desta casa.


CAPÍTULO VI - O SENTIDO UNÍVOCO, O SENTIDO EQUÍVOCO E O SENTIDO ANÁLOGO

28. — Note também que, quando se fala de princípios intrínsecos – matéria e forma –, conforme sua identidade e distinção e conforme seus efeitos, vê-se que alguns dentre eles são numericamente o mesmo: Sócrates e este homem que se aponta como Sócrates; que alguns outros são numericamente diversos e especificamente idênticos: Sócrates e Platão são dois indivíduos, mas ambos pertemcem à espécie humana; que alguns são especificamente diferentes mas genericamente idênticos: o homem e o asno remontam ao mesmo gênero, o gênero animal; que alguns enfim são genericamente diferentes e apenas analogamente o mesmo, como a substância e a quantidade, que não possuem gênero em comum e são o mesmo apenas analogamente, pois são o mesmo apenas na medida em que são seres. “Ser”, todavia, não é gênero, pois não se predica univocamente, mas só analogamente.
29. — Para entender o que se acabou de dizer, deve-se saber que há três modos distintos de se empregar uma mesma denominação a uma pluralidade de seres: univocamente, equivocamente e analogamente.
Univocamente se diz daquilo que emprega uma só e mesma palavra segundo uma só e mesma significação, i. e., uma só e mesma definição: por ex., “animal” se diz univocamente do homem e do asno; um e outro se chamam “animal”, um e outro são “substância sensível e animada”, que é a definição de animal. Equivocamente se diz daquilo que confere a seres diversos um mesmo nome empregado em sentidos diferentes: “o cão” designa um animal que late e uma constelação no céu. O animal e a constelação possuem o mesmo nome, mas não a mesma definição: nos dois casos, a palavra “cão” não possui a mesma significação, pois a significação de uma palavra é a sua definição, como diz Aristóteles no Livro IV da Metafísica. Analogamente se aplica uma mesma palavra a realidades que se distinguem por natureza e por definição, mas que se atribuem a uma mesma coisa; por ex., a palavra “são” se diz de um ser vivo, se diz da urina e se diz de uma bebida, mas o sentido não é inteiramente o mesmo nesses três casos. Diz-se que a urina é sã na medida em que é um sinal de saúde; o ser vivo é são na medida em que é sujeito da saúde; uma bebida é sã na medida em que não prejudica a saúde. Esses três sentidos distintos remetem a um só e mesmo fim, a saúde.
30. — Algumas vezes as coisas que possuem uma relação de analogia, i. e., de proporção ou de comparação, se atribuem a um só e mesmo fim, como se acabou de ver no exemplo da saúde. Outras vezes elas se atribuem a uma só e mesma causa eficiente: chama-se “médico” àquele que age segundo a arte da medicina; ou à parteira, que não conhece essa arte; ou aos instrumentos “médicos”, em referência ao ato médico. Em outros casos, atribui-se a um só e mesmo sujeito: o ser se diz da substância, mas também da quantidade, da qualidade e demais predicamentos. Não é exatamente no mesmo sentido que a substância é um ser, e que a qualidade e demais predicamentos são seres; mas o ser se diz também dos acidentes, na medida em que os acidentes são atributos da substância, que é o sujeito deles. O ser se diz , primeiro, da substância, e depois, dos acidentes; mas o gênero não se predica antes de algumas de suas espécies e depois de outras, predica-se analogamente de todas suas espécies. Logo, o ser não é gênero da substância e da quantidade.
31. — A forma e a matéria das coisas que são numericamente a mesma são ambas de fato numericamente a mesma, como são a forma e a matéria de Marco, de Túlio e de Cícero. A matéria e a forma das coisas que são especificamente a mesma e numericamente diversas não são a mesma numericamente, mas o são especificamente, como a matéria e a forma de Sócrates e Platão. Do mesmo modo, a matéria e a forma das coisas que são genericamente a mesma, como a alma e o corpo de um asno e de um cavalo, distinguem-se especificamente, mas são o mesmo genericamente. Ainda, os princípios das coisas que concordam apenas analogamente ou proporcionalmente são os mesmos apenas analogamente ou proporcionalmente. A matéria, a forma e a privação – ou dito de outra forma, a potência e o ato – são os princípios da substância e demais predicamentos. Contudo, a matéria, a forma e a privação da substância e do acidente, por ex. a quantidade, se distinguem genericamente, conforme se trate de uma substância ou de um acidente; mas as noções de matéria, de forma e de privação se aplicam proporcionalmente tanto aos acidentes quanto às substâncias: assim como a matéria da substância está para a substância, assim a matéria do acidente, por ex. a quantidade, está para o acidente. Como a substância é a causa de todos os acidentes, os princípios da substância são os princípios de todos os acidentes.

FIM