sábado, dezembro 12, 2009

Louis Lavelle - Sobre a natureza e a solidão

Só no campo posso conhecer a solidão. Não existe um homem sequer que venha ao campo e não se sinta logo rodeado pela solidão. Ele sempre termina por buscá-la e amá-la.

Não é o suficiente afirmar que ele está diante da natureza ,ou que faz parte dela ou é seu devoto. Ele habita onde Deus fez a morada, onde o céu é o teto e a terra o piso. Em todo canto escuta-se a linguagem com que Deus lhe fala, cujas sílabas são recitadas pela árvore, pela flor ou pelo inseto. Ele está sozinho, ele e Deus, sem conseguir desfitar os olhos do imenso depoimento da criação, que é uma como revelação contínua, sempre idêntica e sempre renovada.

Afinal, fugiu ou se encontrou? Quando o homem está só, a alma está mais povoada. O encontro com alguém não é capaz de acabar com sua solidão – ele como que faz o outro entrar na própria solidão. Quem sabe se, por estar chantado no mundo, o mundo se chantou nele. Para conter em si o mundo, é preciso estar só; e que nenhum ser fechado em si mesmo e miserável como ele venha interpor-se entre ele e o mundo.

Mas na cidade cada homem só se relaciona com outro homem. Diante de si, só uma paisagem de pedras acumuladas pelo esforço humano. O ar e o céu são apenas distâncias que os separam. A lembrança derrisória do campo subsiste nalgumas poucas árvores, plantas aprisionadas, flores fanadas. Já não há horizonte, o milagre do horizonte onde o céu e a terra, o finito e o infinito chegam a coincidir. Os outros seres com quem me encontro acorrem para suas tarefas banais, as quais executam dentro de células donde não há céu para contemplar sobre suas cabeças, nem terra para fecundar sob seus pés.

A natureza sufoca o homem primitivo como a cultura o homem hodierno. Mas um é o remédio do outro. A cultura libera o espírito até então subjugado às forças da natureza; e a natureza é o remédio do excesso de cultura, devolvendo-lhe a solidão, solidão perdida que, encontrada, devolve-o a si mesmo. O homem do campo nos ensina a solidão, porque está só com a natureza, como o filósofo com Deus.

Um comentário:

Tia Cê, a Luz emana de mim disse...

Obrigada Luiz, vc como sempre um excelente divulgador do naior filósofo cristão do sec XX, suas traduçoes a mim são muito caras.