sexta-feira, outubro 16, 2009

Sentenças de Paul Valéry (1871-1945)



A arte é a imagem do pensamento.

O amor consiste em ser bobo juntos.

Não existem detalhes de execução.

A verdadeira tradição não é refazer o que outros fizeram, mas encontrar o espírito que as fez e as faria em distintas épocas.

Os livros e os homens têm os mesmos inimigos: o fogo, a umidade, os animais, o tempo e o próprio conteúdo.

Quem deseja realizar grandes feitos deve pensar profundamente nos detalhes.

A sabedoria não tem nada que fazer com a alma: a alma não tem espírito.

A história justifica qualquer coisa que se queira. Ela ensina absolutamente nada, pois contém tudo e dá exemplo de tudo. É o produto mais perigoso que a química do intelecto já elaborou.

Deus criou o homem e, como não o achasse bastante solitário, deu-lhe uma companheira para que sentisse melhor a solidão.

Em caso de movimentos de humor, verificar a hora e anotar. Atentar ao ponteirinho dos segundos. O humor é o único a trabalhar contra o bem e o mal.

As guerras são pessoas que não se conhecem e se matam entre si porque outras pessoas que se conhecem muito bem não chegaram a um acordo.

O talento sem gênio é pouca coisa. O gênio sem talento é nada.

Não me ensinas nada se não me ensinas a fazer algo.

Recordai-vos de que, entre homens, só existem dois tipos de relação: a lógica ou a guerra.

O que mais ocupa é o de que menos se fala. O que está sempre no espírito, quase nunca está entre os lábios.

O poema, essa hesitação prolongada entre o som e o sentido.

A inteligência – a faculdade de reconhecer a própria tolice.

Quantas coisas se devem ignorar para agir!

Críticas: o petardo mais sujo pode abrir uma ferida mortal. Basta que contenha raiva.

As contradições constituem a substância da nossa atividade espiritual.

Um homem passa por teimoso; mas, no fundo, ele só tem o hábito do querer. Para ele, querer é facílimo.

Provérbios para os poderosos: “Se alguém te lambe as botas, dá-lhe um pontapé antes que ele comece a te morder”.

Tudo o que dizes fala de ti, sobretudo quando falas de outrem.

A política consiste na conquista e na conservação do poder; por conseguinte, ela exige uma ação de repressão ou ilusão sobre os espíritos, que são a matéria de qualquer poder.

Para que um sistema de homens marche bem e com harmonia, é preciso que cada um não esteja nem acima nem abaixo do seu dever.

A verdade precisa da mentira, pois como defini-la sem contraste?

Todos dissimulam algo para alguém, e todos algo para si mesmos. Logo, a sinceridade é um vale com duas vertentes.

Como fazer para nada fazer? Não conheço nada mais difícil. É um trabalho de Hércules, um trabalho para cada instante.

Se todos os homens fossem igualmente esclarecidos, igualmente críticos, e sobretudo igualmente corajosos, qualquer sociedade seria impossível!

O pensamento é uma rasura infindável.

Qualquer crítica, qualquer censura quer dizer: eu não sou você.

Os pequenos fatos inexplicáveis sempre contêm algo que viraria de pernas para o ar as explicações dos grandes fatos.

A ação é uma loucura breve.

A ambição exterior tem como condição uma sorte de desespero ou abandono da ambição interior.

Nada torna um homem mais temível, mais implacável, mais... que a faculdade de ver as coisas... tais como são.

Minha reputação – não seria o triste esforço a que sou obrigado para imitar a imagem falsa que vós fizestes de mim?

Uma viagem é uma operação em que as cidades correspondem às horas.

Onde quer que eu vá/Eu sempre encontro/Fora e dentro de mim/O Vazio Inocupável/O Nada Inconquistável.

Palavra triste: turistas. Os estrangeiros, separados da vida do país pela redoma de ar que levam consigo: os hábitos, os interesses, os falatórios da sua cidade, os jargões da sua seita.

Antes de tudo, a política foi a arte de impedir as pessoas de se meterem no que lhes respeitava.

O tempo do mundo terminado começa.

A ordem é um peso ao indivíduo. A desordem fá-lo desejar a polícia ou a morte.

...E vemos que o abismo da história tem espaço para todo mundo.

Os espíritos valem segundo o que exigem. Eu quero o que quero.

O simples é sempre falso. O que não é simples, é inútil.

No homem, existe um traidor chamado vaidade, que entrega os segredos em troca de incensos.

O episódio catastrófico pisa e desconjunta menos o homem descuidoso e imprevidente que o previdente. Para o imprevidente, o mínimo de imprevisto. – Qual o imprevisto para quem não se preveniu?

Raramente alguém desata a rir sozinho, porque é difícil surpreender a si mesmo.

Maldade de quem tem razão sozinho... O ser que “tem razão”, que “tem direito”, que sustenta “o justo” ou “a verdade” – está sempre tentado a tirar vantagem dessa posição, e a se inclinar a uma maldade natural... no interesse da Verdade ou da Justiça.

A política se funda sobre a indiferença da maioria dos interessados, sem a qual não existe política possível.

Não hesites em fazer o que te afasta de metade dos teus partidários e triplica o amor dos demais.

A perfeição, atingi-la é conhecer a excelência da impotência.

Após algumas investidas infrutuosas, não renuncia, muito menos insiste. Antes guarda o problema nas cavernas da alma, onde ele se apura. Modifica os dois.

Agradar a si é orgulho; aos outros, vaidade.

A mentira e a credulidade se acasalam e engendram a Opinião.

A mentira será o pecado habitual do discutidor, o qual torna a verdade perigosa.

Com freqüência, o sentimento da impossibilidade da inteira compreensão de nossa ação pelo próximo nos força a mentir. Ele nunca chegará a conceber essa necessidade de compreensão (que se impõe a nós, sem se revelar).

A memória é o futuro do passado.

Aprender a falar é aprender a retirar o sentido das palavras e das épocas das quais as apreendemos – é esquecer a maioria das antigas relações. Sem esquecimento, não passamos duns papagaios.

Os mestres são os que nos mostram o possível numa ordem do impossível.

O homem sente-se livre. Mas muito a miúdo meu braço não sente peso algum. Nem por isso pesa menos.

A leitura de histórias e romances serve para matar o tempo de segunda ou terceira qualidade. O tempo de primeira qualidade não precisa de quem o mate. Ele é que mata todos os livros. E engendra alguns poucos.

Bem disposto algum dia, é preciso pegar o livro que achamos entediante, ordenar-lhe ser, e tentar reconstituir o interesse que atraiu seu autor.

A linguagem escurece quase tudo, pois obriga à fixação e generaliza sem que se queira.

Entre duas palavras, deve-se escolher a menor.

A clareza é um acordo. Uma idéia é clara quando alguém combina consigo mesmo em não aprofundá-la.

Há de se trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo. É a melhor forma de rendimento – um aproveita ao outro, e cada um é mais si mesmo, mais puro. As idéias que nos vêm, enviamo-las cada qual para onde melhor se encaixa, já que existem muitos lugares a preencher.

As objeções nascem amiúde do prosaico motivo de quem as objeta não haver descoberto a idéia que ataca.

As idéias precisas geralmente levam a não fazer nada.

O homem tende a virar máquina. Hábito, método, controle, enfim – quer dizer máquina.

Poucos espíritos se prestam a examinar a questão antes de dar a resposta.

“Espírito de fineza”, “espírito de geometria” – quantas tolices que nos puseram à boca essas palavras. Aqui jaz o vício das expressões, às quais é preciso dar um sentido antes de se considerar a aplicação. No entanto, é tarde demais...

A esperança faz viver, mas como numa corda esticada.

O “determinista” jura que se as pessoas soubessem tudo, saberiam também deduzir e predizer a conduta de todos em cada circunstância – o que é bem evidente. Infelizmente, “saber tudo” não faz o menor sentido.

Quando se diz que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, nada se diz. Nunca se produzem novamente as mesmas coisas – e, ademais, não podemos conhecer todas as causas.

O que me torna tão lento e dilatado no construir, é a estranha mania de sempre querer começar pelo começo.

Os obstáculos são sinais ambíguos ante os quais uns desesperam e outros compreendem que existe algo a compreender. Mas há os que sequer os vêem...

Um chefe é um homem que precisa dos outros.

A vida é a conservação do possível.

Não hesito em declarar: o diploma é inimigo mortal da cultura.

A vaidade, grande inimiga do egoísmo, pode engendrar todos os efeitos do amor ao próximo.

Os homens se distinguem pelo que mostram e se assemelham pelo que escondem.

É mister se desculpar de bem fazer, pois nada machuca mais.

O homem é absurdo pelo que procura, grande pelo que encontra.

Um homem digno recusa o que lhe recusam mais que lho recusam os que o recusam.

Quem não nos repugna nos repugna.

Um homem sério tem poucas idéias. Um homem de idéias jamais é sério.

Política da vida. O real é sempre da oposição.

Nosso espírito é feito de desordem mais a necessidade de pôr em ordem.

A esperança enxerga um defeito na couraça das coisas.

Quem vê as coisas muito exatamente, não as vê muito exatamente.

O melhor do novo é o que responde a um antigo desejo.

Um homem que nunca tentou se tornar semelhante a um deus, é menos que um homem.

Estado muito perigoso: achar que compreende.

A sintaxe é uma faculdade da alma.

Os “motivos” que escondem o crime são mais vergonhosos, mais secretos que os crimes.

A inspiração é uma hipótese que reduz o autor ao papel do observador.

O gosto se constrói de mil desgostos.

O poder sem abuso perde o encanto.

Homem competente é o homem que se engana segundo as regras.

A História é a ciência das coisas que não se repetem.

O difícil sempre se renova para mim.

O homem é um animal encerrado no exterior da jaula. Ele se debate fora de si.

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