sexta-feira, outubro 23, 2009

Marcel de Corte - A Informação Deformante

A inteligentsia e suas utopias, a exaltação da ciência como critério universal dos conhecimentos, panacéia para todos os males e substância da sociedade futura, são fenômenos que caracterizam nosso século e testemunham o divórcio entre a inteligência e seu objeto próprio – o real extramental – , e o correlativo triunfo da imaginação poética, construtora de um universo que é tão-somente obra de homens. Não obstante o poder da faculdade imaginativa e da capacidade de ilusão, nem por isso elas conseguem criar com todos os detalhes, a partir do nada, seu próprio conteúdo, o qual por artifícios projetar-se-á na realidade. Elas renunciam de boamente, com uma espécie de segurança olímpica, os dados da experiência e da tradição, apesar de não poderem se nutrir do nada. Forçoso é que exista algo de que possam tirar partido para justificar a objetividade com que desejam revestir seus sonhos e prosseguir sob essa máscara o trabalho de destruição do real. Ante seu domínio, esse algo deve ter o mínimo de independência. Deve ser maleável ao extremo. Deve tomar com docilidade a bebida que a vontade de potência do homem pretende lhe dar. Esse algo, que a vontade de potência esteia na imaginação e utiliza para conseguir quase tudo o que quer, recebeu o nome de “a informação”.
Que é a informação? Atualmente seu sentido não se limita ao domínio técnico estrito, nem à mera coleta de dados, como a definia Littré. Cada vez mais a informação tende a significar o conhecimento e a difusão pública do que acontece em uma área qualquer da atividade humana, desde a crônica do quotidiano até a religião, a arte, a ciência, a tecnologia, a política etc.. Diz respeito à informação tudo aquilo que acontece, advém, ocorre e surge na imensidão do universo. Ela se desdobra à frente de um cenário em constante mudança. Sem mudanças, não há informação. As aquisições permanentes, incorporadas ao conhecimento, as verdades eternas não são propriamente informação. Não existe informação sobre a rotação da terra, nem sobre a tábua de multiplicação. Essencialmente refere-se à informação o que aparece ou se produz no presente e – como o presente se desloca incessantemente - o que é novo. Esse sentido inédito de “informação” corresponde à observação de Valéry, de que na civilização contemporânea a novidade toma o lugar até então reservado à experiência e à tradição. Logo, a informação refere-se ao que denominam “acontecimento”.
Entretanto o termo “informação” não é um simples sinônimo de “novidade” ou “atualidade”. A “novidade” ou a “atualidade” não possuem a nota de “conhecimento exato” com que a informação se impõe aos olhos do homem moderno. O homem “informado” é aquele que sabe e “informa” os que não sabem, os quais por sua vez serão “informados”. Desse modo a palavra “informação” tem um imenso escopo que engloba e ultrapassa o sentido da palavra “ciência” ou “conhecimento da realidade”, e agrega o aspecto de “verdade” e de “conformidade à natureza das coisas”, que ela normalmente possui. A informação tende a abranger todos os campos do conhecimento, inclusive do conhecimento cientifico. Hoje em dia a qualidade essencial do cientista é a de ser “informado”. Ele deve saber tudo o que se passa no domínio de sua competência, a fim de sempre acrescentar “um fato novo” a esse saber que se transforma incessantemente. Revistas exaustivas e especializadas em “informação” estão a minha disposição; nelas estão recenseadas as publicações recentes em tal ou qual setor do conhecimento humano. Para o cientista trata-se de estar sempre “em dia” com a pesquisa e a produção científicas da área de interesse, para que assim realize as próprias investigações e, por seu turno, produza o “novo”. Para acentuar esse movimento, os congressos, os colóquios, as palestras e os encontros científicos, enfim, as oportunidades em que os cientistas trocam e discutem informações, multiplicam-se. Mais e mais os cientistas se tornam um tecido de informações relativo a um determinado objeto, cujo desenho se modifica e cuja trama se expande dia após dia. Antigamente informação e coleta de dados eram, para Littré, quase sinônimos, mas agora, na linguagem do séc. XX, a informação e o conhecimento estão cada vez mais identificados com o conhecimento científico da novidade, qualquer que seja sua forma.
Assim a informação em sentido moderno é considerada, por um lado, como “o conhecimento do novo”, e por outro, devido ao intermédio de seu uso científico, como o conhecimento exato das transformações que se operam no curso do conhecimento. As duas significações estão a se aglutinar na mentalidade e na linguagem do homem contemporâneo, para quem a verdade não é mais aquilo que é, mas aquilo que vem a ser. O que acontece e se difunde através do canal da informação toma assim, perante seus olhos, um valor de realidade, chegando mesmo a se tornar o único valor real. Não é por acaso que os resultados dos cálculos científicos, obtidos através de máquinas cibernéticas, denominam-se “informações”. Na resolução de cálculos a máquina não é apenas superior a qualquer cérebro humano, mas desenvolve soluções a que praticamente ninguém chegaria e que, por conseguinte, são inéditas; mais ainda, a máquina pode, por meio da programação adequada e da introdução de variáveis, perscrutar o porvir de um projeto e determinar o seu melhor estado futuro; existe alguma coisa mais atual que o conhecimento matemático dos “amanhãs que cantam”? O célebre vaticínio do positivismo para a ciência, “saber para prever, prever para poder”, não se lhes afigura utópico. Graças à informação, o homem é agora senhor de seu destino coletivo: ao bel-prazer ele pode se realizar parcialmente nos extratos social e econômico, enquanto espera para se realizar como indivíduo, de acordo com sua vontade própria, que a informação exaustiva libertou.
Através do conhecimento e da informação dos acontecimentos que constituem e compõem seu futuro, o homem é capaz de se transformar em demiurgo, fabricante e homo faber de si mesmo.
Eis armado o pano de fundo onde se projeta o novo significado de “informação”. Ele concorda com o sentimento, largamente difundido pelas informações, de que o homem contemporâneo é um “mutante”, que tem o poder de controlar e orientar a própria “mutação”.
Qual é a causa do aparecimento e da expansão universal do novo sentido da palavra “informação? Nos capítulos precedentes, temos preparado a resposta para essa questão. No moderno sentido da palavra, a informação é causada, antes do mais, pela nova concepção que o homem moderno tem de si mesmo, como emancipado das relações de dependência perante o universo e seu Princípio. Desde a Renascença, o homem se concebe segundo a fórmula de Pico de la Mirândola, como modelador e fabricante de si mesmo (plastes et fictor), e se imagina capaz de “vislumbrar-se de acordo com as formas preferidas pelo livre-arbítrio”. Essa concepção, que no séc. XVIII alcançou o cume da realização teórica, e no séc. XX o da realização prática – em que se pese as suas conseqüências –, essa concepção se traduz social e politicamente em um sistema de vida comum que foi batizado de “democracia”. Como pressentira o gênio de Augustin Cochin, a SOCIOLOGIA DO FENÔMENO DEMOCRÁTICO explica totalmente o fenômeno da informação e – como anotamos em outro passo – a ação deformante dessa informação universal, a qual, se levada até ao limite, destrói a inteligência humana.
Requer-se aqui uma explicação preliminar. A democracia, como nós a conhecemos hoje, não tem nada em comum com as democracias do passado, por exemplo, com a democracia ateniense ou as democracias comunais da Idade Média, e muito menos com a democracia legítima que Pio XII descreveu em conformidade com o ensinamento dos grandes filósofos políticos do passado, ou ainda com a atual democracia helvética. Separa-as não apenas uma diferença de extensão – esta recobrindo um espaço geográfica e demograficamente restrito, e aquela, ao contrário, desdobrando-se sobre grandes extensões e em diversos lugares até se tornar, segundo a promessa de Roosevelt, “the world save for democracy”, transformando a máquina do mundo em uma democracia universal, em vistas a um governo mundial. [...]
Trecho do livro A Inteligência em Perigo de Morte.

Um comentário:

Tia Cê, a Luz emana de mim disse...

de joelhos agradeço.