sábado, outubro 10, 2009

Apotegmas de Henry-Fréderic Amiel

Henri-Frédéric Amiel

(A França) sempre acreditou que dizer era fazer;

À força da arte, retornar à natureza;

Apareceu, desapareceu – eis toda a história do homem, e do mundo, e dum infusório;

Não é o que tem, nem sequer o que faz, que revela o valor dum homem, mas o que ele é;

O homem mais teme o que mais lhe convém;

Quem teme demasiado ser tolo já não pode ser magnânimo;

Cada vida faz para si o destino;

Dize-me o que te incomoda, e eu te direi quem não és;

Do ponto de vista da felicidade, a questão da vida é insolúvel, pois são nossas maiores aspirações que nos impedem de ser felizes;

Ser destro naquilo que os outros acham difícil de fazer – eis o talento; fazer o que é impossível ao talento – eis o gênio;

É arriscado deixar-se levar pela voluptuosidade das lágrimas: ela tira a coragem e até a vontade de se curar;

Há dois graus no orgulho: um em que nos aprovamos a nós mesmos, outro em que não podemos nos aceitar. Esse provavelmente o mais requintado;

Existe uma dialética do espírito, e uma higiene da alma;

Escuto cada gota da minha vida cair no abismo devorante da eternidade;

Quando escrevo, sinto-me como numa gravidez interminável, num trabalho puerperal que obstinadamente se contrariaria a si mesmo, e que só conservasse o sofrimento do parto, sem a concessão dum alívio final;

O constante estudo de si mesmo, a auto-crítica das impressões fugidias aumenta essa sensibilidade;

O heroísmo é um luxo que está fora do alcance dos fracos e dos homens de pouca fé;

O homem honesto não se acha melhor que ninguém;

O inacabado é nada;

A inconstância a tudo perde, não deixa madurar a semente;

A indiferença moral é a doença das pessoas cultíssimas;

A mulher nua é bela uma vez a cada vinte, e três anos a cada setenta. Isso quer dizer que existem quatrocentos e setenta chances contra uma de que, ao fotografar uma mulher sem véus, cometa-se uma indecência, sem conseguir um efeito estético;

A fé é amiúde o contrário da boa-fé; se as confundem, o homem de fé parece com o homem sem fé;

A miséria me apavora mais que a solidão, porque essa é apenas tédio e tristeza, enquanto aquela é humilhação e abatimento;

Qualquer parcimônia no bom humor tem seu preço;

O devaneio é o domingo do pensamento;

O belo é superior ao sublime, porque é permanente e não sacia; já o sublime é relativo, passageiro e violento;

O coração prefere reconcentrar-se no próprio sentimento, que o esquenta e protege – sua felicidade é meditativa, silenciosa –, ele se escuta palpitar, degusta-se a si mesmo religiosamente;

Coisa curiosa é o desgosto. Ele gera uma implicância até contra a razão e o bom senso, por antipatia à vulgaridade;

O dever é a necessidade voluntária;

Duvidar do amor é o primeiro passo para se duvidar de tudo [Tradução literal: A dúvida sobre o amor termina por fazer duvidar de tudo];

O fato é corruptor; nós é que o corrigimos, ao persistir no ideal [Lênin que o diga!];

O casamento deve ser educação mútua e infinita;

O casamento é estranho tal como é, mas não se achou nada melhor;

O mundo pertence mais à vontade que à sabedoria;

O número faz a lei, mas o bem não tem planos para a cifra;

Os poetas celibatários são uma peste pública; sem saber ou querer, eles perturbam os corações femininos ociosos;

O mau-caráter adora deprimir o próximo, e disso faz um dever, quase uma vocação;

Mil coisas avançam, novecentos e noventa e nove recuam – eis o progresso;

Nunca ficamos tão descontentes com os outros como conosco mesmos. A consciência dum erro nos torna impacientes, e o astucioso coração querela por fora para se entorpecer por dentro;

Torna-se charlatão sem saber, e comediante sem querer;

Estimamos deveras as mulheres boazinhas e sem sal... mas sua companhia nos causa bocejos [Tradução literal: Estimamos muito as boas mulheres, mas sem espírito... mas acabamos por bocejar em sua companhia];

Quem se permite ficar quarenta anos na própria companhia, termina por sofrer-se como a um estorvo e arrastar-se como a uma bola de ferro;

Mais ama, mais sofre. A soma das dores possíveis à cada alma é proporcional ao seu grau de perfeição;

Que é um espírito cultivado? É o espírito que olha desde inúmeros pontos de vista;

Como viver é difícil, ó coração fatigado!

Em cada homem respeitar o homem que é, ou ao menos aquele que poderá ser, ou que deveria ser;

Duas vezes para ver justo, uma só para ver belo;

Nada há de mais escondido que a ilusão onde vivemos dia-a-dia;

Se nacionalidade é contentamento, Estado é constrangimento;

Sejamos verdadeiros... é a máxima mais elevada da arte e da vida;

Qualquer paisagem é um estado da alma;

Um erro é tanto mais perigoso quanto mais verdades ele contém .

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