sexta-feira, outubro 23, 2009

Marcel de Corte - A Informação Deformante

A inteligentsia e suas utopias, a exaltação da ciência como critério universal dos conhecimentos, panacéia para todos os males e substância da sociedade futura, são fenômenos que caracterizam nosso século e testemunham o divórcio entre a inteligência e seu objeto próprio – o real extramental – , e o correlativo triunfo da imaginação poética, construtora de um universo que é tão-somente obra de homens. Não obstante o poder da faculdade imaginativa e da capacidade de ilusão, nem por isso elas conseguem criar com todos os detalhes, a partir do nada, seu próprio conteúdo, o qual por artifícios projetar-se-á na realidade. Elas renunciam de boamente, com uma espécie de segurança olímpica, os dados da experiência e da tradição, apesar de não poderem se nutrir do nada. Forçoso é que exista algo de que possam tirar partido para justificar a objetividade com que desejam revestir seus sonhos e prosseguir sob essa máscara o trabalho de destruição do real. Ante seu domínio, esse algo deve ter o mínimo de independência. Deve ser maleável ao extremo. Deve tomar com docilidade a bebida que a vontade de potência do homem pretende lhe dar. Esse algo, que a vontade de potência esteia na imaginação e utiliza para conseguir quase tudo o que quer, recebeu o nome de “a informação”.
Que é a informação? Atualmente seu sentido não se limita ao domínio técnico estrito, nem à mera coleta de dados, como a definia Littré. Cada vez mais a informação tende a significar o conhecimento e a difusão pública do que acontece em uma área qualquer da atividade humana, desde a crônica do quotidiano até a religião, a arte, a ciência, a tecnologia, a política etc.. Diz respeito à informação tudo aquilo que acontece, advém, ocorre e surge na imensidão do universo. Ela se desdobra à frente de um cenário em constante mudança. Sem mudanças, não há informação. As aquisições permanentes, incorporadas ao conhecimento, as verdades eternas não são propriamente informação. Não existe informação sobre a rotação da terra, nem sobre a tábua de multiplicação. Essencialmente refere-se à informação o que aparece ou se produz no presente e – como o presente se desloca incessantemente - o que é novo. Esse sentido inédito de “informação” corresponde à observação de Valéry, de que na civilização contemporânea a novidade toma o lugar até então reservado à experiência e à tradição. Logo, a informação refere-se ao que denominam “acontecimento”.
Entretanto o termo “informação” não é um simples sinônimo de “novidade” ou “atualidade”. A “novidade” ou a “atualidade” não possuem a nota de “conhecimento exato” com que a informação se impõe aos olhos do homem moderno. O homem “informado” é aquele que sabe e “informa” os que não sabem, os quais por sua vez serão “informados”. Desse modo a palavra “informação” tem um imenso escopo que engloba e ultrapassa o sentido da palavra “ciência” ou “conhecimento da realidade”, e agrega o aspecto de “verdade” e de “conformidade à natureza das coisas”, que ela normalmente possui. A informação tende a abranger todos os campos do conhecimento, inclusive do conhecimento cientifico. Hoje em dia a qualidade essencial do cientista é a de ser “informado”. Ele deve saber tudo o que se passa no domínio de sua competência, a fim de sempre acrescentar “um fato novo” a esse saber que se transforma incessantemente. Revistas exaustivas e especializadas em “informação” estão a minha disposição; nelas estão recenseadas as publicações recentes em tal ou qual setor do conhecimento humano. Para o cientista trata-se de estar sempre “em dia” com a pesquisa e a produção científicas da área de interesse, para que assim realize as próprias investigações e, por seu turno, produza o “novo”. Para acentuar esse movimento, os congressos, os colóquios, as palestras e os encontros científicos, enfim, as oportunidades em que os cientistas trocam e discutem informações, multiplicam-se. Mais e mais os cientistas se tornam um tecido de informações relativo a um determinado objeto, cujo desenho se modifica e cuja trama se expande dia após dia. Antigamente informação e coleta de dados eram, para Littré, quase sinônimos, mas agora, na linguagem do séc. XX, a informação e o conhecimento estão cada vez mais identificados com o conhecimento científico da novidade, qualquer que seja sua forma.
Assim a informação em sentido moderno é considerada, por um lado, como “o conhecimento do novo”, e por outro, devido ao intermédio de seu uso científico, como o conhecimento exato das transformações que se operam no curso do conhecimento. As duas significações estão a se aglutinar na mentalidade e na linguagem do homem contemporâneo, para quem a verdade não é mais aquilo que é, mas aquilo que vem a ser. O que acontece e se difunde através do canal da informação toma assim, perante seus olhos, um valor de realidade, chegando mesmo a se tornar o único valor real. Não é por acaso que os resultados dos cálculos científicos, obtidos através de máquinas cibernéticas, denominam-se “informações”. Na resolução de cálculos a máquina não é apenas superior a qualquer cérebro humano, mas desenvolve soluções a que praticamente ninguém chegaria e que, por conseguinte, são inéditas; mais ainda, a máquina pode, por meio da programação adequada e da introdução de variáveis, perscrutar o porvir de um projeto e determinar o seu melhor estado futuro; existe alguma coisa mais atual que o conhecimento matemático dos “amanhãs que cantam”? O célebre vaticínio do positivismo para a ciência, “saber para prever, prever para poder”, não se lhes afigura utópico. Graças à informação, o homem é agora senhor de seu destino coletivo: ao bel-prazer ele pode se realizar parcialmente nos extratos social e econômico, enquanto espera para se realizar como indivíduo, de acordo com sua vontade própria, que a informação exaustiva libertou.
Através do conhecimento e da informação dos acontecimentos que constituem e compõem seu futuro, o homem é capaz de se transformar em demiurgo, fabricante e homo faber de si mesmo.
Eis armado o pano de fundo onde se projeta o novo significado de “informação”. Ele concorda com o sentimento, largamente difundido pelas informações, de que o homem contemporâneo é um “mutante”, que tem o poder de controlar e orientar a própria “mutação”.
Qual é a causa do aparecimento e da expansão universal do novo sentido da palavra “informação? Nos capítulos precedentes, temos preparado a resposta para essa questão. No moderno sentido da palavra, a informação é causada, antes do mais, pela nova concepção que o homem moderno tem de si mesmo, como emancipado das relações de dependência perante o universo e seu Princípio. Desde a Renascença, o homem se concebe segundo a fórmula de Pico de la Mirândola, como modelador e fabricante de si mesmo (plastes et fictor), e se imagina capaz de “vislumbrar-se de acordo com as formas preferidas pelo livre-arbítrio”. Essa concepção, que no séc. XVIII alcançou o cume da realização teórica, e no séc. XX o da realização prática – em que se pese as suas conseqüências –, essa concepção se traduz social e politicamente em um sistema de vida comum que foi batizado de “democracia”. Como pressentira o gênio de Augustin Cochin, a SOCIOLOGIA DO FENÔMENO DEMOCRÁTICO explica totalmente o fenômeno da informação e – como anotamos em outro passo – a ação deformante dessa informação universal, a qual, se levada até ao limite, destrói a inteligência humana.
Requer-se aqui uma explicação preliminar. A democracia, como nós a conhecemos hoje, não tem nada em comum com as democracias do passado, por exemplo, com a democracia ateniense ou as democracias comunais da Idade Média, e muito menos com a democracia legítima que Pio XII descreveu em conformidade com o ensinamento dos grandes filósofos políticos do passado, ou ainda com a atual democracia helvética. Separa-as não apenas uma diferença de extensão – esta recobrindo um espaço geográfica e demograficamente restrito, e aquela, ao contrário, desdobrando-se sobre grandes extensões e em diversos lugares até se tornar, segundo a promessa de Roosevelt, “the world save for democracy”, transformando a máquina do mundo em uma democracia universal, em vistas a um governo mundial. [...]
Trecho do livro A Inteligência em Perigo de Morte.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Sentenças de Paul Valéry (1871-1945)



A arte é a imagem do pensamento.

O amor consiste em ser bobo juntos.

Não existem detalhes de execução.

A verdadeira tradição não é refazer o que outros fizeram, mas encontrar o espírito que as fez e as faria em distintas épocas.

Os livros e os homens têm os mesmos inimigos: o fogo, a umidade, os animais, o tempo e o próprio conteúdo.

Quem deseja realizar grandes feitos deve pensar profundamente nos detalhes.

A sabedoria não tem nada que fazer com a alma: a alma não tem espírito.

A história justifica qualquer coisa que se queira. Ela ensina absolutamente nada, pois contém tudo e dá exemplo de tudo. É o produto mais perigoso que a química do intelecto já elaborou.

Deus criou o homem e, como não o achasse bastante solitário, deu-lhe uma companheira para que sentisse melhor a solidão.

Em caso de movimentos de humor, verificar a hora e anotar. Atentar ao ponteirinho dos segundos. O humor é o único a trabalhar contra o bem e o mal.

As guerras são pessoas que não se conhecem e se matam entre si porque outras pessoas que se conhecem muito bem não chegaram a um acordo.

O talento sem gênio é pouca coisa. O gênio sem talento é nada.

Não me ensinas nada se não me ensinas a fazer algo.

Recordai-vos de que, entre homens, só existem dois tipos de relação: a lógica ou a guerra.

O que mais ocupa é o de que menos se fala. O que está sempre no espírito, quase nunca está entre os lábios.

O poema, essa hesitação prolongada entre o som e o sentido.

A inteligência – a faculdade de reconhecer a própria tolice.

Quantas coisas se devem ignorar para agir!

Críticas: o petardo mais sujo pode abrir uma ferida mortal. Basta que contenha raiva.

As contradições constituem a substância da nossa atividade espiritual.

Um homem passa por teimoso; mas, no fundo, ele só tem o hábito do querer. Para ele, querer é facílimo.

Provérbios para os poderosos: “Se alguém te lambe as botas, dá-lhe um pontapé antes que ele comece a te morder”.

Tudo o que dizes fala de ti, sobretudo quando falas de outrem.

A política consiste na conquista e na conservação do poder; por conseguinte, ela exige uma ação de repressão ou ilusão sobre os espíritos, que são a matéria de qualquer poder.

Para que um sistema de homens marche bem e com harmonia, é preciso que cada um não esteja nem acima nem abaixo do seu dever.

A verdade precisa da mentira, pois como defini-la sem contraste?

Todos dissimulam algo para alguém, e todos algo para si mesmos. Logo, a sinceridade é um vale com duas vertentes.

Como fazer para nada fazer? Não conheço nada mais difícil. É um trabalho de Hércules, um trabalho para cada instante.

Se todos os homens fossem igualmente esclarecidos, igualmente críticos, e sobretudo igualmente corajosos, qualquer sociedade seria impossível!

O pensamento é uma rasura infindável.

Qualquer crítica, qualquer censura quer dizer: eu não sou você.

Os pequenos fatos inexplicáveis sempre contêm algo que viraria de pernas para o ar as explicações dos grandes fatos.

A ação é uma loucura breve.

A ambição exterior tem como condição uma sorte de desespero ou abandono da ambição interior.

Nada torna um homem mais temível, mais implacável, mais... que a faculdade de ver as coisas... tais como são.

Minha reputação – não seria o triste esforço a que sou obrigado para imitar a imagem falsa que vós fizestes de mim?

Uma viagem é uma operação em que as cidades correspondem às horas.

Onde quer que eu vá/Eu sempre encontro/Fora e dentro de mim/O Vazio Inocupável/O Nada Inconquistável.

Palavra triste: turistas. Os estrangeiros, separados da vida do país pela redoma de ar que levam consigo: os hábitos, os interesses, os falatórios da sua cidade, os jargões da sua seita.

Antes de tudo, a política foi a arte de impedir as pessoas de se meterem no que lhes respeitava.

O tempo do mundo terminado começa.

A ordem é um peso ao indivíduo. A desordem fá-lo desejar a polícia ou a morte.

...E vemos que o abismo da história tem espaço para todo mundo.

Os espíritos valem segundo o que exigem. Eu quero o que quero.

O simples é sempre falso. O que não é simples, é inútil.

No homem, existe um traidor chamado vaidade, que entrega os segredos em troca de incensos.

O episódio catastrófico pisa e desconjunta menos o homem descuidoso e imprevidente que o previdente. Para o imprevidente, o mínimo de imprevisto. – Qual o imprevisto para quem não se preveniu?

Raramente alguém desata a rir sozinho, porque é difícil surpreender a si mesmo.

Maldade de quem tem razão sozinho... O ser que “tem razão”, que “tem direito”, que sustenta “o justo” ou “a verdade” – está sempre tentado a tirar vantagem dessa posição, e a se inclinar a uma maldade natural... no interesse da Verdade ou da Justiça.

A política se funda sobre a indiferença da maioria dos interessados, sem a qual não existe política possível.

Não hesites em fazer o que te afasta de metade dos teus partidários e triplica o amor dos demais.

A perfeição, atingi-la é conhecer a excelência da impotência.

Após algumas investidas infrutuosas, não renuncia, muito menos insiste. Antes guarda o problema nas cavernas da alma, onde ele se apura. Modifica os dois.

Agradar a si é orgulho; aos outros, vaidade.

A mentira e a credulidade se acasalam e engendram a Opinião.

A mentira será o pecado habitual do discutidor, o qual torna a verdade perigosa.

Com freqüência, o sentimento da impossibilidade da inteira compreensão de nossa ação pelo próximo nos força a mentir. Ele nunca chegará a conceber essa necessidade de compreensão (que se impõe a nós, sem se revelar).

A memória é o futuro do passado.

Aprender a falar é aprender a retirar o sentido das palavras e das épocas das quais as apreendemos – é esquecer a maioria das antigas relações. Sem esquecimento, não passamos duns papagaios.

Os mestres são os que nos mostram o possível numa ordem do impossível.

O homem sente-se livre. Mas muito a miúdo meu braço não sente peso algum. Nem por isso pesa menos.

A leitura de histórias e romances serve para matar o tempo de segunda ou terceira qualidade. O tempo de primeira qualidade não precisa de quem o mate. Ele é que mata todos os livros. E engendra alguns poucos.

Bem disposto algum dia, é preciso pegar o livro que achamos entediante, ordenar-lhe ser, e tentar reconstituir o interesse que atraiu seu autor.

A linguagem escurece quase tudo, pois obriga à fixação e generaliza sem que se queira.

Entre duas palavras, deve-se escolher a menor.

A clareza é um acordo. Uma idéia é clara quando alguém combina consigo mesmo em não aprofundá-la.

Há de se trabalhar em várias coisas ao mesmo tempo. É a melhor forma de rendimento – um aproveita ao outro, e cada um é mais si mesmo, mais puro. As idéias que nos vêm, enviamo-las cada qual para onde melhor se encaixa, já que existem muitos lugares a preencher.

As objeções nascem amiúde do prosaico motivo de quem as objeta não haver descoberto a idéia que ataca.

As idéias precisas geralmente levam a não fazer nada.

O homem tende a virar máquina. Hábito, método, controle, enfim – quer dizer máquina.

Poucos espíritos se prestam a examinar a questão antes de dar a resposta.

“Espírito de fineza”, “espírito de geometria” – quantas tolices que nos puseram à boca essas palavras. Aqui jaz o vício das expressões, às quais é preciso dar um sentido antes de se considerar a aplicação. No entanto, é tarde demais...

A esperança faz viver, mas como numa corda esticada.

O “determinista” jura que se as pessoas soubessem tudo, saberiam também deduzir e predizer a conduta de todos em cada circunstância – o que é bem evidente. Infelizmente, “saber tudo” não faz o menor sentido.

Quando se diz que as mesmas causas produzem os mesmos efeitos, nada se diz. Nunca se produzem novamente as mesmas coisas – e, ademais, não podemos conhecer todas as causas.

O que me torna tão lento e dilatado no construir, é a estranha mania de sempre querer começar pelo começo.

Os obstáculos são sinais ambíguos ante os quais uns desesperam e outros compreendem que existe algo a compreender. Mas há os que sequer os vêem...

Um chefe é um homem que precisa dos outros.

A vida é a conservação do possível.

Não hesito em declarar: o diploma é inimigo mortal da cultura.

A vaidade, grande inimiga do egoísmo, pode engendrar todos os efeitos do amor ao próximo.

Os homens se distinguem pelo que mostram e se assemelham pelo que escondem.

É mister se desculpar de bem fazer, pois nada machuca mais.

O homem é absurdo pelo que procura, grande pelo que encontra.

Um homem digno recusa o que lhe recusam mais que lho recusam os que o recusam.

Quem não nos repugna nos repugna.

Um homem sério tem poucas idéias. Um homem de idéias jamais é sério.

Política da vida. O real é sempre da oposição.

Nosso espírito é feito de desordem mais a necessidade de pôr em ordem.

A esperança enxerga um defeito na couraça das coisas.

Quem vê as coisas muito exatamente, não as vê muito exatamente.

O melhor do novo é o que responde a um antigo desejo.

Um homem que nunca tentou se tornar semelhante a um deus, é menos que um homem.

Estado muito perigoso: achar que compreende.

A sintaxe é uma faculdade da alma.

Os “motivos” que escondem o crime são mais vergonhosos, mais secretos que os crimes.

A inspiração é uma hipótese que reduz o autor ao papel do observador.

O gosto se constrói de mil desgostos.

O poder sem abuso perde o encanto.

Homem competente é o homem que se engana segundo as regras.

A História é a ciência das coisas que não se repetem.

O difícil sempre se renova para mim.

O homem é um animal encerrado no exterior da jaula. Ele se debate fora de si.

sábado, outubro 10, 2009

Apotegmas de Henry-Fréderic Amiel

Henri-Frédéric Amiel

(A França) sempre acreditou que dizer era fazer;

À força da arte, retornar à natureza;

Apareceu, desapareceu – eis toda a história do homem, e do mundo, e dum infusório;

Não é o que tem, nem sequer o que faz, que revela o valor dum homem, mas o que ele é;

O homem mais teme o que mais lhe convém;

Quem teme demasiado ser tolo já não pode ser magnânimo;

Cada vida faz para si o destino;

Dize-me o que te incomoda, e eu te direi quem não és;

Do ponto de vista da felicidade, a questão da vida é insolúvel, pois são nossas maiores aspirações que nos impedem de ser felizes;

Ser destro naquilo que os outros acham difícil de fazer – eis o talento; fazer o que é impossível ao talento – eis o gênio;

É arriscado deixar-se levar pela voluptuosidade das lágrimas: ela tira a coragem e até a vontade de se curar;

Há dois graus no orgulho: um em que nos aprovamos a nós mesmos, outro em que não podemos nos aceitar. Esse provavelmente o mais requintado;

Existe uma dialética do espírito, e uma higiene da alma;

Escuto cada gota da minha vida cair no abismo devorante da eternidade;

Quando escrevo, sinto-me como numa gravidez interminável, num trabalho puerperal que obstinadamente se contrariaria a si mesmo, e que só conservasse o sofrimento do parto, sem a concessão dum alívio final;

O constante estudo de si mesmo, a auto-crítica das impressões fugidias aumenta essa sensibilidade;

O heroísmo é um luxo que está fora do alcance dos fracos e dos homens de pouca fé;

O homem honesto não se acha melhor que ninguém;

O inacabado é nada;

A inconstância a tudo perde, não deixa madurar a semente;

A indiferença moral é a doença das pessoas cultíssimas;

A mulher nua é bela uma vez a cada vinte, e três anos a cada setenta. Isso quer dizer que existem quatrocentos e setenta chances contra uma de que, ao fotografar uma mulher sem véus, cometa-se uma indecência, sem conseguir um efeito estético;

A fé é amiúde o contrário da boa-fé; se as confundem, o homem de fé parece com o homem sem fé;

A miséria me apavora mais que a solidão, porque essa é apenas tédio e tristeza, enquanto aquela é humilhação e abatimento;

Qualquer parcimônia no bom humor tem seu preço;

O devaneio é o domingo do pensamento;

O belo é superior ao sublime, porque é permanente e não sacia; já o sublime é relativo, passageiro e violento;

O coração prefere reconcentrar-se no próprio sentimento, que o esquenta e protege – sua felicidade é meditativa, silenciosa –, ele se escuta palpitar, degusta-se a si mesmo religiosamente;

Coisa curiosa é o desgosto. Ele gera uma implicância até contra a razão e o bom senso, por antipatia à vulgaridade;

O dever é a necessidade voluntária;

Duvidar do amor é o primeiro passo para se duvidar de tudo [Tradução literal: A dúvida sobre o amor termina por fazer duvidar de tudo];

O fato é corruptor; nós é que o corrigimos, ao persistir no ideal [Lênin que o diga!];

O casamento deve ser educação mútua e infinita;

O casamento é estranho tal como é, mas não se achou nada melhor;

O mundo pertence mais à vontade que à sabedoria;

O número faz a lei, mas o bem não tem planos para a cifra;

Os poetas celibatários são uma peste pública; sem saber ou querer, eles perturbam os corações femininos ociosos;

O mau-caráter adora deprimir o próximo, e disso faz um dever, quase uma vocação;

Mil coisas avançam, novecentos e noventa e nove recuam – eis o progresso;

Nunca ficamos tão descontentes com os outros como conosco mesmos. A consciência dum erro nos torna impacientes, e o astucioso coração querela por fora para se entorpecer por dentro;

Torna-se charlatão sem saber, e comediante sem querer;

Estimamos deveras as mulheres boazinhas e sem sal... mas sua companhia nos causa bocejos [Tradução literal: Estimamos muito as boas mulheres, mas sem espírito... mas acabamos por bocejar em sua companhia];

Quem se permite ficar quarenta anos na própria companhia, termina por sofrer-se como a um estorvo e arrastar-se como a uma bola de ferro;

Mais ama, mais sofre. A soma das dores possíveis à cada alma é proporcional ao seu grau de perfeição;

Que é um espírito cultivado? É o espírito que olha desde inúmeros pontos de vista;

Como viver é difícil, ó coração fatigado!

Em cada homem respeitar o homem que é, ou ao menos aquele que poderá ser, ou que deveria ser;

Duas vezes para ver justo, uma só para ver belo;

Nada há de mais escondido que a ilusão onde vivemos dia-a-dia;

Se nacionalidade é contentamento, Estado é constrangimento;

Sejamos verdadeiros... é a máxima mais elevada da arte e da vida;

Qualquer paisagem é um estado da alma;

Um erro é tanto mais perigoso quanto mais verdades ele contém .

segunda-feira, outubro 05, 2009

Frases de Georges Bernanos

A voz esconde, o rosto revela;

O segredo da felicidade é ser capaz de encontrar a própria alegria na alegria de outrem;

Dentre os incômodos da idade, a experiência é um dos maiores;

A esperança é um risco a se correr;

Desmontar para reconstruir, sem se saber lá muita coisa do futuro monumento, senão que ele será belíssimo – chama-se fazer uma Revolução;

O fervor da juventude mantém o resto do mundo na temperatura normal; quando a juventude resfria, o resto do mundo bate os dentes;

O otimismo sempre me pareceu o álibi hipócrita dos egoístas, preocupados em dissimular a crônica satisfação consigo mesmos. Eles são otimistas para se dispensarem de ter piedade dos homens e da infelicidade dos homens;

As estultícias mais irreparáveis são aquelas cometidas em nome dos princípios. Os erros mais perigosos são aqueles em que a proporção de verdade se conserva assaz forte para descobrir um caminho até o coração do homem;

Um mundo conquistado pela Técnica está perdido para a Liberdade;

Quem nunca viu a estrada ao alvorecer, entre dois renques de árvores – tão fresca, tão vivaz – não sabe o que é a esperança;

O futuro é algo que se supera. Ninguém sofre o futuro, mas o faz;

A vida não traz desilusões, ela só tem uma palavra – que mantém;

O acaso parece conosco;

A caridade, como a razão, é um dos elementos da consciência;

Os verdadeiros inimigos da sociedade não são os que ela explora ou tiraniza, mas os que humilha;

A força e a fraqueza dos ditadores funda-se no pacto com o desespero dos povos; [No original o verbo está no singular]

Não existem meias verdades;

Ninguém atinge as profundezas da própria solidão;

É belo estar acima do orgulho. Por isso, é preciso alcançá-lo;

A reforma das instituições vem tarde demais, quando a alma dos povos está despedaçada;

O imbecil é, antes de tudo, hábito e preconceito;

É preciso expiar pelos mortos;

A cólera dos imbecis inunda o mundo;

É tolice das grandes escrever que o homem mediano só é suscetível a paixões medianas;

Uma coletividade não tem consciência. Se parece que tem uma, é que nela subsiste o número indispensável de consciências refratárias;

O intelectual é tão amiúde um imbecil, que deveríamos sempre tê-lo por tal, até que nos prove o contrário;

Quando os sábios estão no auge da sabedoria, convém escutarem as crianças;

Não somos responsáveis por como nos compreendem, mas por como nos amam;

Mas, o que chamamos de acaso, não seria a lógica de Deus?

Os cálculos mais perigosos são os que chamamos de ilusões;

Os outros, infelizmente, somos nós!

A idéia de grandeza jamais assegurou a consciência dos imbecis;

A esperança... é a maior e a mais difícil vitória que um homem conquiste sobre a alma;

O inferno é a cessação do amor;

É preciso saber arriscar-se ao medo como uma pessoa se arrisca à morte; a verdadeira coragem está nesse risco;

A verdadeira humildade é, antes de tudo, decência e equilíbrio.