quinta-feira, setembro 03, 2009

Xavier Zubiri - Que é Investigar?

Estamos reunidos por ocasião do prêmio de investigação Santiago Ramón y Cajal, cuja significação aqui já se glosou. É um prêmio que, através de vós, a sociedade espanhola concede-me. A melhor maneira de expressar minha gratidão a tal concessão é comentar em duas palavras o que é essa “investigação”, que tão generosamente premiais.

Que é que se investiga? Evidentemente investigamos a verdade, mas não a verdade das afirmações, antes a verdade da própria realidade. É a verdade pela qual afirmamos o real, a realidade verdadeira. Ela é uma verdade com muitas ordens: física, matemática, biológica, astronômica, mental, social, histórica, filosófica etc..

Mas como se investiga a realidade verdadeira? A investigação da realidade verdadeira não consiste meramente em ocupar-se dela. Com certeza é uma ocupação, mas não mera ocupação. É muito mais – é dedicação. Investigar é dedicar-se à realidade verdadeira. Dedicar significa mostrar algo, deik, com especial força- de. No que respeita à dedicação intelectual, consiste essa força em configurar ou conformar a mente segundo o mostruário da realidade e oferecer o que assim se mostra à consideração dos demais. Dedicação é permitir à realidade verdadeira configurar a mente. Viver intelectivamente, segundo essa configuração, consiste no que se denomina profissão. O investigador professa a realidade verdadeira.

Essa profissão é peculiar. Quem só se ocupa dessas realidades não investiga: possui a realidade verdadeira ou partes distintas dela. Contudo, quem se dedica à realidade verdadeira tem uma qualidade de certo modo oposta: não possui verdades, mas, ao contrário, está possuído delas. Na investigação estamos de mãos dadas com a realidade verdadeira, vamos arrastados por ela, e esse arrasto é justamente o movimento da investigação.

Esse arrasto impõe à investigação certos caracteres próprios: são caracteres da realidade que arrasta [o investigador].

Antes do mais, todo o real só é o que é em face de outras realidades. Nada é real se não o for perante outras realidades. Essa contraposição significa que toda coisa real é, em si mesma, constitutivamente aberta. Só entendemos a coisa que queremos compreender se entendida a partir de outras coisas, que se devem buscar mais além. E esse entendimento é o que a coisa é na realidade. O arrasto com que a realidade arrasta faz de sua intelecção um movimento de busca. Como acontece o mesmo com as outras coisas, a partir das quais entendemos o que queremos entender, resulta que, ao sermos arrastados pela realidade, encontramo-nos envolvidos num movimento inesgotável, não apenas porque o homem não pode esgotar a riqueza da realidade, mas também porque ela é radicalmente inesgotável, i. é, porque a realidade enquanto tal é, em si mesma, constitutivamente aberta. No meu modo de ver, esse é o fundamento da célebre frase de Santo Agostinho: “Busquemos como buscam os que ainda não encontraram, e encontremos como encontram os que ainda buscarão”. Investigar o que qualquer coisa é na realidade é faina interminável, pois o mesmo real nunca está rematado. A realidade é aberta e múltipla.

Além de aberta, a realidade é múltipla. E assim é, ao menos, em dois aspectos.

Em primeiro lugar, porque existem muitas coisas reais, cada uma com suas próprias características. Investigar as notas ou os caracteres próprios de cada ordem de coisas reais é justamente o que constitui a investigação científica e as distintas ciências. Ciência é a investigação do que as coisas em realidade são.

No entanto, em segundo lugar, o real é múltiplo, não apenas porque as coisas têm muitas propriedades distintas, mas também por uma razão a meu ver mais profunda: nelas a abertura é o mesmo caráter de sua realidade.

Essa conclusão não arrasta para a investigação das propriedades do real, mas para a do caráter da realidade. Tal investigação é um saber de tipo distinto –penso que é isso que é a filosofia. É a investigação do em que consiste ser real.

Enquanto as ciências investigam como são e acontecem as coisas reais, a filosofia investiga o que é ser real. Ciência e filosofia, mesmo distintas, não são independentes, não esqueçam. Toda filosofia necessita das ciências; toda ciência necessita de uma filosofia. São dois momentos unitários da investigação. Mas como momentos não são idênticos.

A questão do que é ser real é, antes do mais, por si mesma uma autêntica questão. Porque as coisas não são apenas o riquíssimo elenco das propriedades e leis, mas cada coisa real e cada propriedade sua é um modo de ser real, um modo de realidade. As coisas não diferem só pelas propriedades, podem diferir no próprio modo de serem reais. Por exemplo, a diferença entre uma coisa e uma pessoa é em essência uma diferença de modo de realidade. Pessoa é um modo próprio de ser real. Deve-se conceitualizar o que é ser pessoa, i. é, deve-se investigar o que é ser real, porque entre coisa e pessoa existem modos de realidade distintos.

Ademais, esse conceito e essa diferença de modos de realidade é uma questão grave. Assim as pessoas estamos com certeza vivendo “com” coisas. Mas qual seja a variedade e riqueza dessas coisas, aquilo “em” que estamos situados com elas está n“a” realidade. Cada coisa com que estamos impõe-nos uma maneira de estar na realidade – eis aí o decisivo. Do conceito que temos do que é a realidade e seus modos depende nossa maneira de ser pessoa, de estar entre as coisas e as demais pessoas, depende nossa organização social e sua história. Daí a gravidade da investigação do que é real. É uma investigação imposta pelas coisas mesmas. À medida que as coisas reais se impõem, é justa sua realidade. Essa força de imposição é o poder do real: é a realidade como tal - e não apenas suas propriedades - o que nos arrasta e domina. Por isso, constitui o poder do real a unidade intrinseca da realidade e da inteligência – o caminho natural da filosofia.

Com propriedade escreveu Hegel: “Tão assombroso quanto um povo para o qual se tornaram imprestáveis o direito político, as convicções, os hábitos morais e as virtudes, seria o espetáculo dum povo que perdera a metafísica”.

Finalmente, investigar o que é o real é uma tafefa muito difícil. Por isso, dizia Platão a um jovem amigo, principiante em filosofia: “É formoso e divino o ímpeto ardente que te lança às razões das coisas; contudo, enquanto és jovem, exercita-te e adestra-te nos esforços filosóficos, que aparentemente não servem de nada e que o vulgo chama de palavrório inútil; do contrário, a verdade escapar-te-á por entre as mãos”. Durante toda sua longa vida, Platão se dedicou a esse esforço. Algumas vezes sentia-se desanimado. Certa vez escreveu: apeireka ta onta skopon, “caí desfalecido ao escrutinar a realidade”. Uma das pessoas que melhor compreende a distinção e a unidade da ciência e da filosofia é o meu admirado e querido amigo Severo Ochoa. Por isso, e por nossa velha amizade, sua companhia nesta ocasião é para mim um momento capital deste prêmio.

Ao nos referirmos à investigação, vós pensastes também na filosofia. É a primeira vez que isso acontece. Eu, e comigo todos os dedicados cultivadores da filosofia, sentimo-nos legitimamente honrados e satisfeitos. Agradeço em nosso nome.

4 comentários:

Alef disse...

Um bem-haja pela tradução de um texto de um autor tão importante como é Xavier Zubiri. Creio que a tradução não oferece problemas, excepto em dois pequenos pormenores:

a) «Caracteres» foi traduzido por «características» e isso não me parece totalmente acertado;

b) A frase «Cada coisa impõe-nos uma maneira de estar», com que termina um dos parágrafos, não aparece no texto original publicado na bibliografia «oficial» de Zubiri (em Escritos menores, Alianza Editorial/Fundación Xavier Zubiri), sendo que aparece uma frase parecida um pouco mais abaixo. Talvez tenha havido distracção neste «acrescento».

Alef

Márcio Diemer disse...

Fala Cicero, valeu pela visita no Charge do Diemer, parabens pelo trabalho! Abraços

Luiz de Carvalho disse...

Caro Alef, agradeço-te o reparo que puseste em minha tradução. Corriji-a segundo teu parecer. No entanto, a frase que falta à edição da Alianza, encontrei-a eu aqui: http://www.zubiri.org/works/spanishworks/investigar.htm. Porém, como confiasse mais naquela publicação do que num site de internet, retirei a frase.

Tia Cê, a Luz emana de mim disse...

Luiz, assim o farei, obrigada por me avisar e por não se opor que divulgue seu suado trabalho no meu blog, sua presença lá pra mim é uma honra saiba desde de já.