quarta-feira, setembro 09, 2009

Ramalho Ortigão - O Celibato e o Casamento dos Sacerdotes



Ramalho Ortigão e Eça de Queirós


Não, senhores, o casamento não é, como denotam supor os que combatem o celibato eclesiástico, um freio para a incontinência.

Pedimos às pessoas que têm tido a bondade de receitar ultimamente ao clero o casamento, considerando este como a triaga soberana contra o terceiro pecado mortal, a fineza de serem um pouco menos injustas com a sua sociedade, e um pouco menos torpes com a sua família.

Seria muito para desejar, como coisa demasiadamente delicada para andar entre os dedos dos compositores de periódicos, o abstermo-nos de cotejar as vantagens que nossas mães poderiam ter tirado de suas núpcias, com os inconvenientes que os senhores eclesiásticos poderiam ter achado nos seus votos.

Porque a veneranda verdade, superior a toda a grossaria da polémica, é esta:

O casamento não pode ser nem deve ser – por enquanto ao menos – considerado como uma dádiva de bordel feita pela hipocrisia das instituições à fatalidade dos temperamentos.

Não nos importa saber e desprezamo-nos de indagar a questão baixa e sórdida que a carta do padre Jacinto levantou na imprensa: se o padre precisa ou não precisa de mulher. Senhores jornalistas, o único problema que neste ponto a nossa dignidade nos consente resolver ou estudar, é: se o padre precisa ou não precisa – da família.

A família não é a alcova, é o lar doméstico.

Perante o preceito canônico do celibato eclesiástico, o que a nós mesmos perguntamos é o seguinte:

Se o padre, na sua residência paroquial, nos campos, ao pé da sua igreja, junto dos cemitérios, só com a sua consciência elevada e com a plenitude perfeita do seu dever, pode conservar-se indiferentemente ao amor – ao amor na mais alta, na mais filosófica, na mais pura acepção desta palavra –, ao facto íntimo, profundo, transcendente, de amar e de ser amado.

Se se pode humanamente dar com a pureza do caráter, com a nobre sensibilidade das grandes almas a indiferença egoísta, celibatária, católica, pelas vivas e poderosas fecundações da natureza que rodeiam o padre no eremitério.

Se a necessidade de se sacrificar por alguém, de se transmitir, de se perpetuar, no lar, na família, nos filhos, não poderá um dia converter-se em uma paixão profunda e fatal.

Se finalmente a inveja, a inveja terrível, mordente, devoradora, implacável, não rebentará um dia ou outro na alma solitária do pároco, cingindo-a e envolvendo-a como a hera envolve os troncos secos e estéreis, perante as dedicações, as responsabilidades, os sacrifícios, as alegrias que lhe são vedadas a ele, condenado a contemplá-las, a bendizê-las, a abençoá-las, quando elas passam constantemente aos seus olhos tristes e ardentes, personalizadas nas mães que levam seus filhos pela mão, nos noivos que se beijam nas espessuras dos arvoredos, nos trabalhadores que jantam à sombra dos campos com as suas mulheres, nos velhos que fazem saltar nos joelhos os seus pequenos netos às réstias do sol de inverno, à porta das cabanas.

E perguntamos por último se esta inveja, procedente da chaga aberta na mais nobre fibra do nosso coração, não pode levar o padre, principalmente o padre meridional, ardente e solitário, imaginoso e místico, às profundidades trágicas da perversão, às alucinações tenebrosas em que se geram os monstros? e se as medonhas flagelações bestiais que ensanguentam as páginas do catolicismo e a história das relações da Igreja com a sociedade, em Portugal e na Espanha, não serão apenas os resultados naturais destas causas remotas, no íntimo tão humanas e tão simpáticas – o delírio da solidão, a raiva do amor?

Há porém a considerar: que a família também é uma religião; no lar doméstico o marido e o pai cumprem um sacerdócio da mais alta responsabilidade, árduo e austero. O lar doméstico é o templo em que se sacrifica ao culto da honra e à religião da solidariedade. O padre que ingere nos deveres com Deus os deveres com a família, não simplifica o rigor dos seus encargos, complica-os com os encargos novos e com novos rigores; e, para aligeirar o peso de uma responsabilidade, contrai outra. Deseja-se saber agora, se quem não tem força para um pode ter força para dois, e se poderá inculcar-se capaz do mais quem não foi capaz do menos.

Não dá garantias de ser marido bom quem foi padre mau.

Na família, como na religião, temos o direito de indagar se o neófito traz pura a consciência do dever, e provada a força precisa para o cumprir.

Parece que os senhores padres solicitam o casamento. Não basta. É preciso que, quando por um lado o sacerdote queira a família, por outro lado a família queira o sacerdote.

Ora sem divagarmos em conjecturas, citaremos um facto estatístico: durante um ano doze eclesiásticos foram degredados para a costa de África por traição ao voto e ofensa à moral.

Individualmente, sabemos bem e folgamos de o dizer com respeito, há sacerdotes exemplares e dignos, que seriam exemplares maridos e dignos pais: estes estão incluídos em o número dos que nem solicitam nem discutem o casamento. Como classe, porém, a eclesiástica deverá fixar a nossa consideração pelas suas convicções e pelos seus princípios indo para a África um pouco mais em missão – e um pouco menos em degredo.

ORTIGÃO, Ramalho. Farpas Escolhidas, (seleção e introdução por Ernesto Rodrigues),
Ed. Ulisseia, 1991, págs. 170-172.

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