sábado, julho 11, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Consciência"

Considere-se que a verdade interior está sempre presente em mim...

Essa verdade não é a verdade de uma coisa, mas é viva e pessoal. A cada circunstância, é ela a visão que compara o que eu faço com o que posso e devo fazer. Ela é a verdade do que sou. Segundo Malebranche, Deus é o perscrutador dos corações, a luz da qual não posso fugir. Consigo dissimular o que sou diante dos outros, ou de mim mesmo, mas nunca de Deus, i. é, não posso impedir que as coisas sejam o que são.

O “conhece-te” é a ciência da verdade espiritual e, se é lícito dizê-lo, da ciência de Deus em mim.

“O olho por que vejo a Deus é aquele por que ele me vê”, diz Ângelo Silésio, citado por Amiel, que acrescenta: “Cada um está em Deus à medida que Deus está em cada um”.

Jamais somos nós a nos observar, senão o olhar de Deus em nós. Ele é o olho e a luz. Não podemos sequer nos ver sem que Deus esteja presente, mas isso não é prova de que vejamos a ele, assim como não vemos a luz que, não obstante, ilumina todos os objetos do mundo. Mas se é Deus que nos vê, não pode um homem ver a si sem saber quem é, i. é, sem se julgar.

Nasce a consciência da participação da diversidade no uno. Contudo, o uno está acima da consciência, como a luz do esclarecimento. Na participação, o que se origina do Uno ou do Ato é iluminação, e o que provém da matéria, da passividade ou da diversidade é iluminado.

Não é inútil a crença de que não há coisa alguma em nossa vida interior que fique escondida muito tempo, ou ainda, que Deus vê tudo que está em nós, pois que deste modo o vemos mais claramente.

A consciência sempre pressupõe algo diferente de si: quando não há diferença, a consciência retira-se. A teoria da consciência é a teoria do intervalo. A consciência busca de contínuo anular-se na posse do objeto. Há, contudo, uma anulação da consciência que a suprime, e outra anulação que a enriquece; uma anulação da consciência que não deixa subsistir o ato que a produziu e uma anulação que é a perfeição do próprio ato. A consciência unifica, mas ainda não é o Uno; transformar algo em objeto de conhecimento é absorvê-lo no ato que, ao ser produzido, anulou o objeto enquanto tal.


Consciência de si.
Para tornar-se capaz de conhecer a si e se curar, convém desapergar-se do amor-próprio e do orgulho, à semelhança do doente perante o médico. O temor do doente é que o médico nunca descubra a extensão total do mal que o acomete. Algumas vezes, isso acontece com o penitente, mas quase sempre é através de um amor-próprio mais sutil.

A dualidade constitutiva da consciência não é o eu e seus estados, senão o eu e o universo. Nós atuamos sobre o universo, e não sobre nossos próprios estados; pressupõem os estados uma reação do universo sobre nós – o que explica muito bem porque certos homens querem transformar o mundo para obter os estados aos quais pretendem se reduzir. Por isso, pode-se dizer: o que se deve à consciência é sempre recompensa (ou punição). Ela ceifa e colhe os resultados da atividade.

O universo é essencial para a constituição da consciência, já que é espetáculo, e também é o objeto da ação, produzindo o reflexo dessa ação dentro da consciência

Para o eu, existe identidade entre tomar consciência de si e adquirir o conhecimento do universo.

Nenhum comentário: