segunda-feira, julho 13, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Estilo, pintura e literatura"

Na pintura, o que há de mais admirável é o conflito que se observa entre o desenho e a cor. É impossível separá-los: desenhar é repartir a luz, é produzir manchas de cor. E as pinceladas coloridas forçosamente hão de formar um desenho. São ambos como dois adversários sempre enlaçados. Conhecem-se a expressão de desprezo de Ingres: “o que está bem desenhado, está sempre bem pintado”, e a fórmula bárbara e deleitosa de Cézanne: “quando a cor encontra a riqueza, a forma encontra a plenitude”. O desenho nos torna senhores do objeto mediante o movimento e o contorno. Ele é o ato da vontade, o ato que cria a forma, sobrevive nela e nela é contemplado. Entretanto, a cor não vem de nós, mas do mundo e da luz que o ilumina. Ela é o encontro da sensibilidade e do real. O desenho exprime a potência da mão que o delineia, e toma posse do objeto aprisionando-o no traço, pouco se importando com o conteúdo dele. Já a cor testemunha o conteudo, o interior, o segredo e a essência desse algo; ela torna o pintor mais humilde; demanda sua feitura uma pasta intensa, múltipla e pré-ordenada que resplende na paleta, uma espessura de que necessita o pintor para representar o contato puro da luz com as coisas. Ao desenho é suficiente um ponto quase imaterial que abandona sobre o papel um traço fácil de apagar. Por sua vez, o pintor abandona a forma do contorno abstrato: o efeito da cor não está no traço que a circunscreve, mas no espaço que preenche de intensidade e riqueza e que é, por assim dizer, o limite da sua potência de expansão.

Depara-se a mesma oposição no estilo, que domina a matéria por meio da composição - i. é, do pensamento e da vontade -, que busca captar, na multiplicidade de pinceladas incessantemente arriscadas ou riscadas, e emendadas ou retomadas, a vibração das coisas mesmas, sua ressonância secreta, a abundância infinita dentro delas. Para tanto, é preciso que o entendimento se apodere dessas coisas, na intenção específica de preencher e como que cumular a sensibilidade com a presença pura [dos objetos].

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