domingo, julho 26, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Simplicidade"

O auge da vida é a perfeita simplidade, em que não penetra o amor-próprio, nem a ação deixa sobre a língua o travor do desgosto. No movimento recém-executado, o desgosto é o ressaibo do amor-próprio. Entretanto o ato executado com simplicidade é imediatamente recebido por Deus, e arranja para si um lugar em meio à luz da eternidade, não obscurendo aquela claridade qual nuvem escura.

Força é não buscar a novidade, que nos bloqueia o contato com as realidades familiares, nem a totalidade, que nos bloqueia o contato com a situação atual; antes é preciso uma pureza interior que ilumine umas tantas verdades bem simples, nas quais todos os deveres que temos de cumprir se encontram, sem nosso concurso, naturalmente harmonizados.

Sob a condição de se desapegar da aparência daquilo que é, constitui a simplicidade num despojamento interior pelo qual se obtém sem querer a coincidência exata entre o que se mostra e o que é.

Só há verdadeira aquisição quando se suprime o que, até então, nos seviciava. Por isso, assemelha-se o progresso interior mais à obra do escultor, que desbasta e arroja do mármore sempre uma lasca a mais, que à obra do pintor, que a cada passo acrescenta uma nova pincelada à tela.

Quem está em busca de novas riquezas, até as do conhecimento, dispersa e aliena nessa busca as potências interiores de que dispõe. A simplicidade diz-nos para nos concentrar nelas, e tornar sua atividade pura, ágil e inocente.

Difícil é conservar a perfeita simplicidade, quando se está aberto a tudo o que nos pode ser dado. Há quem só tenha olhos para alguns movimentos sublimes, que produzem n’alma um instante de exaltação. Mas a alma não os deve desejar, pois ela pensa que, quando os não possui, está despojada de tudo. O sublime verdadeiro é quotidiano; ele não nos causa comoção: nós não o sentimos.

A perfeita simplicidade, que também é a perfeita inocência, é incapaz de enganar; e contra a opinião comum, é impossivel de ser enganada. Ela sobrepuja os mais hábeis, cujas manobras são logo postas à luz, caindo no vazio.

A simplicidade não exclui o instinto, com o qual se confunde à miúdo; o instinto todavia só se transforma em pecado a partir do nascimento da reflexão, i. é, no momento em que o amor-próprio o põe a seu serviço.

A simplicidade d’alma dá-lhe uma transparência tão perfeita, que já não se faz mais notar; é nesse espelho translúcido que as coisas revelam sua verdade. Só o despojamento alcança a simplicidade, que é uma só com a sublimidade interior, que quase sempre é representada sob outra forma.

A simplicidade é ser o que somos, sem querer ser outro, neste grande tudo de que fazemos parte. É a reconciliação do individual com o universal. É o ato mais puro que o indivíduo é capaz de cumprir, no qual entretanto parece desaparecer para revelar a ordem que reina no universo onde participa, cuidando para não toldá-lo. É o olhar direto e despreocupado que lançamos sobre o real, olhar liberto de preconceitos, e que sozinho é capaz de dar acesso à ordem com a qual está desde sempre em harmonia. À falta da simplicidade, desconhece-se essa ordem. No entanto, esse mero olhar, que não embacia os desejos, abarca o mundo inteiro sob sua luz, porque desceu do céu para vir tocar a terra. É uma unidade perfeita considerada em sua riqueza infinita, sem saber que é rica. Contém em si os contrários, mas está em paz, diferente da tensão que força os contrários a permanecer juntos, numa unidade sempre prestes a se romper.

A simplicidade não apresenta problemas para si, uma vez que ela é a luz natural que antecipa a solução. É uma inocência que não se pode romper, uma liberdade certa de si mesma, que jamais conhecerá a excitação ou a escolha.

A simplicidade nos livra da complicação dos conhecimentos, necessidades e buscas; consiste ela no acordo da existência que ultrapassa a engenhosidade da inteligência com os artifícios da vontade (eis a inteligência mais penetrante e a vontade mais perfeita e pura dentre todas).

segunda-feira, julho 13, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Estilo, pintura e literatura"

Na pintura, o que há de mais admirável é o conflito que se observa entre o desenho e a cor. É impossível separá-los: desenhar é repartir a luz, é produzir manchas de cor. E as pinceladas coloridas forçosamente hão de formar um desenho. São ambos como dois adversários sempre enlaçados. Conhecem-se a expressão de desprezo de Ingres: “o que está bem desenhado, está sempre bem pintado”, e a fórmula bárbara e deleitosa de Cézanne: “quando a cor encontra a riqueza, a forma encontra a plenitude”. O desenho nos torna senhores do objeto mediante o movimento e o contorno. Ele é o ato da vontade, o ato que cria a forma, sobrevive nela e nela é contemplado. Entretanto, a cor não vem de nós, mas do mundo e da luz que o ilumina. Ela é o encontro da sensibilidade e do real. O desenho exprime a potência da mão que o delineia, e toma posse do objeto aprisionando-o no traço, pouco se importando com o conteúdo dele. Já a cor testemunha o conteudo, o interior, o segredo e a essência desse algo; ela torna o pintor mais humilde; demanda sua feitura uma pasta intensa, múltipla e pré-ordenada que resplende na paleta, uma espessura de que necessita o pintor para representar o contato puro da luz com as coisas. Ao desenho é suficiente um ponto quase imaterial que abandona sobre o papel um traço fácil de apagar. Por sua vez, o pintor abandona a forma do contorno abstrato: o efeito da cor não está no traço que a circunscreve, mas no espaço que preenche de intensidade e riqueza e que é, por assim dizer, o limite da sua potência de expansão.

Depara-se a mesma oposição no estilo, que domina a matéria por meio da composição - i. é, do pensamento e da vontade -, que busca captar, na multiplicidade de pinceladas incessantemente arriscadas ou riscadas, e emendadas ou retomadas, a vibração das coisas mesmas, sua ressonância secreta, a abundância infinita dentro delas. Para tanto, é preciso que o entendimento se apodere dessas coisas, na intenção específica de preencher e como que cumular a sensibilidade com a presença pura [dos objetos].

sábado, julho 11, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Consciência"

Considere-se que a verdade interior está sempre presente em mim...

Essa verdade não é a verdade de uma coisa, mas é viva e pessoal. A cada circunstância, é ela a visão que compara o que eu faço com o que posso e devo fazer. Ela é a verdade do que sou. Segundo Malebranche, Deus é o perscrutador dos corações, a luz da qual não posso fugir. Consigo dissimular o que sou diante dos outros, ou de mim mesmo, mas nunca de Deus, i. é, não posso impedir que as coisas sejam o que são.

O “conhece-te” é a ciência da verdade espiritual e, se é lícito dizê-lo, da ciência de Deus em mim.

“O olho por que vejo a Deus é aquele por que ele me vê”, diz Ângelo Silésio, citado por Amiel, que acrescenta: “Cada um está em Deus à medida que Deus está em cada um”.

Jamais somos nós a nos observar, senão o olhar de Deus em nós. Ele é o olho e a luz. Não podemos sequer nos ver sem que Deus esteja presente, mas isso não é prova de que vejamos a ele, assim como não vemos a luz que, não obstante, ilumina todos os objetos do mundo. Mas se é Deus que nos vê, não pode um homem ver a si sem saber quem é, i. é, sem se julgar.

Nasce a consciência da participação da diversidade no uno. Contudo, o uno está acima da consciência, como a luz do esclarecimento. Na participação, o que se origina do Uno ou do Ato é iluminação, e o que provém da matéria, da passividade ou da diversidade é iluminado.

Não é inútil a crença de que não há coisa alguma em nossa vida interior que fique escondida muito tempo, ou ainda, que Deus vê tudo que está em nós, pois que deste modo o vemos mais claramente.

A consciência sempre pressupõe algo diferente de si: quando não há diferença, a consciência retira-se. A teoria da consciência é a teoria do intervalo. A consciência busca de contínuo anular-se na posse do objeto. Há, contudo, uma anulação da consciência que a suprime, e outra anulação que a enriquece; uma anulação da consciência que não deixa subsistir o ato que a produziu e uma anulação que é a perfeição do próprio ato. A consciência unifica, mas ainda não é o Uno; transformar algo em objeto de conhecimento é absorvê-lo no ato que, ao ser produzido, anulou o objeto enquanto tal.


Consciência de si.
Para tornar-se capaz de conhecer a si e se curar, convém desapergar-se do amor-próprio e do orgulho, à semelhança do doente perante o médico. O temor do doente é que o médico nunca descubra a extensão total do mal que o acomete. Algumas vezes, isso acontece com o penitente, mas quase sempre é através de um amor-próprio mais sutil.

A dualidade constitutiva da consciência não é o eu e seus estados, senão o eu e o universo. Nós atuamos sobre o universo, e não sobre nossos próprios estados; pressupõem os estados uma reação do universo sobre nós – o que explica muito bem porque certos homens querem transformar o mundo para obter os estados aos quais pretendem se reduzir. Por isso, pode-se dizer: o que se deve à consciência é sempre recompensa (ou punição). Ela ceifa e colhe os resultados da atividade.

O universo é essencial para a constituição da consciência, já que é espetáculo, e também é o objeto da ação, produzindo o reflexo dessa ação dentro da consciência

Para o eu, existe identidade entre tomar consciência de si e adquirir o conhecimento do universo.