segunda-feira, junho 29, 2009

Louis Lavelle - Tradução inédita de "Solidão, o destino de todos os seres".

O ser só existe onde ele se manifesta, i. é, onde realiza a seu modo a essência corriqueira da vida. Aceitar a vida é aceitar uma aventura e um destino solitários: desta feita a solidão diz respeito à separação entre o ser particular e o ser total [a presença total], que é o apelo à existência ou ao nascimento. Eis aqui a verdadeira solidão, que começa antes que os seres particulares sofram por se sentirem presos uns aos outros e incapazes de se comunicarem entre si.

Caso se denomine solidão a pura relação da alma com Deus, é a solidão a mesma vida do espírito. As preocupações do amor-próprio, as relações com os demais seres distraem-me incessantemente. Se ao agir determino-me perante mim ou outrem, e não perante Deus, tudo está perdido. Mas se em minha ronda solitária conservo-me unido a Deus, tenho em mim o universo e o destino de todos os seres. Convém parecer que os abandonamos, para que perto deles não permaneça apenas o companheiro de obscuridade e miséria. Na solidão há-de se encontrar a claridade que nos permitirá, quando retornemos para junto dos seres, reconhecê-los e chamá-los pelos nomes. Ditoso de mim se entre eles não me assemelho a um estrangeiro odioso e ameaçador em busca dalgum divertimento inquietante - alguém cujos dons se deve evitar.

O silêncio é irmão da solidão. A exemplo desta, ele testemunha a presença do espírito. Isso fica evidente na história de Psiquê: “se tu guardares o silêncio, darás ao mundo uma criança que há-de ser Deus; mas se traires o segredo, há-de ser homem”.

O silêncio acompanha o nascimento e o crescimento do desejo; torna-nos sensível ao apelo que toca a alma e insinua-se a pouco e pouco nela. O silêncio é ativo, vivo, atencioso. É um respeito religioso, uma abertura de si, uma docilidade perfeita, uma espécie de anulação do amor-próprio, cujas vozes são sufocadas. O silêncio revela-nos a presença de Deus.

Ao contrário a palavra (à exceção do Verbo, o qual não quebra o silêncio) limita-se a manifestar o que está em nós. Ela pertence ao mundo da expressão ou da aparência, ao mundo tornado público. Do indivíduo patenteia e testemunha tão-somente a potência de recepção ou de tradução perante o puro pensamento, e engana amiúde a outrem e a si acerca da própria realidade, a qual é sempre maior e menor do que parece. A palavra amesquinha-se em coisa manipulável, como se fosse o próprio pensamento a que se substituiu e que às vezes não está mais presente nela.

O homem não anda em busca de ser todo o universo, nem de possuí-lo de todo, o que elevaria a solidão ao absoluto, em lugar de rompê-la. Ele busca se inserir na sociedade juntamente com todo o universo, não tendo necessidade de tomar nada para si, mas tudo obtendo por meio dum desinteresse perfeito. O homem que parece recusa a sociedade contínua ou interrupta, pessoal ou anônima, com outros homens, que se aparta da humanidade ou da amizade, está na busca duma sociedade mais perfeita e plena com a natureza, consigo ou com Deus.

Há uma grandeza extraordinária nesta palavra - solidão - que implica não a minha separação do mundo, senão que - separado dos objetos ou dos seres particulares que me cegam e retardam - no descortinamento do universo inteiro diante de mim. A solidão engrandece a alma até à dimensão do tudo e dá nascimento uma incomparável emoção religiosa.

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