sábado, junho 06, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Vocação, Destino"

É sinal de força reconhecer em tudo o que nos acontece, não as marcas do destino, senão os sinais da vocação. Contudo, é sinal de sabedoria aprender a admirar a vocação de outrem, e não sofrer por causa disso, quando consideramos que ela nos mensura a impotência e os limites.

Não se pode comparar vocações, pois que elas exprimem, em cada ser, sua própria razão de ser, i. é, sua relação perante o absoluto. Isso é o bastante para acabar com a concorrência e o ciume entre [os seres], os quais são obrigados a desempenhar até ao fim a atividade de que foram encarregados e que ninguém poderia cumprir em seu lugar.


O indivíduo e sua diferença essencial.
A perfeição das relações com o próximo supõe que já discernimos a diferença que lhe é própria, i. é, que reconhecemos a vocação que lhe cabe, e que, dentro do limite de nossas forças, o ajudaremos a realizá-la.

Não é errado dizer que cada homem é uma ideia, mas é preciso acrescentar que nem sempre é capaz de reconhecê-la nem realizá-la. Quando ele a vislumbra, brota-lhe uma luz e começa a animá-lo um impulso; isso são traços da própria vocação.

Ninguém conhece a si mesmo, até que em si descubra um segredo profundíssimo e personalíssimo, o qual todos os seres, contudo, já de antemão conheciam como se lhes pertencesse. Assim, por uma espécie de paradoxo, os seres só se comunicam entre si por meio daquele ponto solitário e íntimo que parece nunca poderá se manifestar ao ser a que pertence, nem ser violado. Caso haja mister de testemunhas, interrompe-se a comunhão em proveito da comunicação, que só se dá sob o mundo dos signos, i. é, das aparências. É justamente nesse lugar, onde apresento-me para mim mesmo, que posso apresentar-me para ti; mas é também onde se desfaz a aparência e fraqueja a expressão.


O eu como ser possível.
Consiste o destino tão-somente em descobrir, pôr à prova e atualizar as próprias possibilidades.


O eu-interrogação a respeito de si mesmo e de sua essência.
Que loucura discutir se a essência vem antes ou depois. Ela é eterna e, conforme a mudança de perspectiva, parece que vem antes ou depois.


A existência e a sua faina de transformar em ato.
Por que a existência? Porque sem ela a essência nos não pertenceria, i. é, não seria feita por nós. A existência é o laço entre a ideia (possível) e a ideia (possuida).

É inerente à palavra, ao pensamento e à ação levar-nos sempre para além de onde estamos, a fim de obrigar-nos a realizar o que podemos ser. E é por causa disso que a palavra, o pensamento e a ação nos causa insegurança: o homem só conhece de forma cabal as próprias potências e as realiza em si, quando as põe em atividade e, nesse movimento, as dispõe para si mesmo.

A vocação, ou o que é o mesmo, a essência individual é a conexão com o todo, de tal modo que o todo nos revela como, sem nós, ele seria incapaz de subsistir.

Em cada consciência, existe um ponto permanente de comoção raramente excitado, onde se produz o encontro entre a vocação e o acontecimento. Consiste essa dificuldade em fazer que cada um dos pensamentos, cada uma das ações entre em contato com ele.

Força é que cada ser desça até ao derradeiro reduto da intimidade, onde descobre o prazer e o desejo de participar do ser e da vida, para ali realizar uma vocação que é certamente a sua.


O destino espiritual e não-fenoménico (os fenómenos são apenas os meios).
O fenómeno, que a tudo absorve ou limita, desaparece.

[Vocação]: Verdade eterna que a vida tornou minha. Realização espiritual sob o olhar de Deus. Destino semelhante a um facho de luz no Céu da eternidade.

A vocação e a sinceridade interior são uma só coisa. Em todos os casos, ir até aos limites da sinceridade é ir até à absoluta grandeza (e simplicidade); é descobrir a vontade mais profunda, que nada mais é que a expressão da vontade de Deus em nós.

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