sábado, junho 27, 2009

Herberto Sales e a Vandéia

QUANDO CHEGUEI A PARIS (27.4.86), um dos livros de que mais se ocupava a imprensa era Le génocide franco-français (La Bendée-vengée), de Reynold Secher (Presses Universitaires de France). Dos prelos da grande usina editorial de Paris saíra pela mesma época outro livro sobre o mesmo assunto: La Vendée en armes, de Jean-François Chiappe, em nada menos de três volumes. Havia pelas livrarias como um abelhudo movimento de revisão histórica da França, ou de revisão de importantes fatos da história da França, antiga e contemporânea.

Da Vandéia sob a Revolução dizia Eric Roussel, comentando no Figaro o livro de Reynold Secher - que ela fora teatro de "un massacre d'inocents froidement organisé selon les schémas qu'Hitler ou Staline n'auraint pas désavoués". Incroyable. Genocídio na França, genocídio ideológico na França, a terra de la liberté? La liberté pagou bem caro o seu preço. Se hoje, na hora do aperto nada literário em outros países, as pessoas se mandam para Paris, porque sabem que aqui estarão protegidas sob o manto de la liberté, talvez não saibam (ou nem desconfiem) que la liberté foi aqui implantada com violência - uma violência que em verdade não se limitou à guilhotina da Praça da Concórdia. E se a Liberdade, no verso imortal de Castro Alves, é "a noiva do sol, esposa do porvir", aqui na França ela foi namorada do terror, segundo se sabe e se vai sabendo cada vez mais.

Lembra Reyonold Secher que a "Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen" tinha uma brecha da qual não haviam suspeitado os constituintes que a aprovaram, neste trecho: "Tout régime restreignant les droits de l'homme est abusif, il faut lui résister". Ora, se cumpria resistir ao abuso do regime, no sentido de restringir os direitos do homem, e o regime os restringia, a revolta da Vandéia, feita contra o abuso do regime, era portanto uma revolt legal e legítima.

Mas com isso não concordou o regime. E o demonstrou de forma cabal, reprimindo por todos os meios a revolta. A história da resistência da Vandéia é apaixonante, com a mobilização das paróquias, os padres pelo meio dando força ao povo, e o povo se armando e brigando até mesmo com os utelsílios de cozinha, já que não havia armas para todos. Mal comparando, a gente pensa mesmo no arraial do Conselheiro, como aconteceu com Euclides, que evidentemente morreu sem conhecer toda a história dos horrores da guerra da Vandéia: não leu Sacher.

Os insurrectos tinham propósitos bem simples. Queriam ter liberdade de trabalhar em suas próprias terras. O regime não dividira as terras como prometera. Em vez de dividi-las, taxou-as de mais impostos, e os insurretos resolveram lutar pelo que queriam, com um ideário muito simples: "ne vouloir ni nobles, ni bourgeois et qu'il partageront leurs terres" - depois da "victoire complète".

Trava-se a luta. Uma verdadeira guerra: a guerra da Vandéia. Ou as guerras da Vandéia. o território da Vandéia militar cobre uma área de dez mil quilômetros quadrados. Limita-se ao Norte élo Loire, de Saint-Nazaire a Ponts-de-Cé; a Leste, por uma linha direta de Ponts-de-Cé a Parthenay; ao Sul, por uma linha irregular, ligando Parthenay a Saint-Gilles-Croix-de-Vie, até a costa do Atlântico.

As 700 paróquias sublevadas não tinham aparentemente nenhuma característica especial. Não pertenciam às mesmas províncias da região - Anjou, Bretagne, Poitou; nem aos mesmos departamentos: Loire-Inférieure, Maine-et-Loire, Vendée, Deux-Sèvres; não tinham uma história comum, nem as mesmas fontes de riqueza, e até certo ponto se opunham entre si.

Explica Secher: “De surcroît, la réference à une identité comune n’est pas de leur fait mais de celui de Paris à la suite de la défaite du Général de Marcé, à Pont-Charron, le 11 mars 1793. Les politiques, par ce choix du mot Vendée, espèrent imposer au mouvement une forme plutôt réductrice. Par extrapolation, ils en viennent tout naturallement à qualificer ainsi toute région de France hostile au régime et tous foyers de prêtres réfractaires”.

Em 10 de outubro de 1792 a Convenção decreta que o governo provisório da França será revolucionário – até a paz. E Robespierre dá o serviço: “Le gouvernement révolutionnaire doit aux bons citoyens toute la protection nationale, in ne doit aux ennemis du peuple que la mort”.

Quer dizer: quem for inimigo do povo que se cuide.

Então, em nome “de la justice, de l’égalité et de l’efficacité” – impõe-se o terror. Saint-Just proclama: “Il faut gouverner par le fer ceux qui ne peuvent pas l’être par la justice”. Tudo muito claro: se não se pode governar pela justiça – governe-se pelo ferro.

E a revolta aparentemente legal e legítima da Vandéia, contra o abuso do regime, inscreve-se então no contexto insurrecional. Portanto, morte aos insurretos!

Diga-se que os “vendéens” realmente queriam mudanças. E por isso acolheram com entusiamo os princípios fundamentais da Revolução de 1789, que ia mudar tudo. As esperanças eram grandes, mas na prática a situação econômica estava longe de corresponder às esperanças depositadas numa mudança. Sobrevem a impopularidade das administrações.

Um habitante de Louroux-Bottereau, testemunha da maior parte dos combates, presta um importante depoimento, citado por Reynold Secher: “Notre armée est composée de paysans comme moi, vêtus de blouses ou d’habits grossiers, armés de fusils de chasse, de pistolets, de mousquetons, souvent d’instruments de travail, de faux, de bâtons, de hachesm de couteax de pressoir ou de broches à rôtir. Elle s’organise par paroisses ou districts, sous les ordres d’um chef particulier. Nous marchons droit à l’ennemi et, après nous être agenouillés pour recevoir la bénéditction de nos prêtres, nous commençons jusqu’à bout portant par une fusillade, irregulière sans doute, mais bien nourrie et bien dirigée”.

As citações que estou fazendo em francês não têm outra intenção senão ligar o meu eventual leitor diretamente às fontes. E bom para mim que ele veja que não estou pondo ou tirando nenhuma azeitona dessa empada histórica da França.

Outro depoimento importante, também citado por Secher, é o do General Turreau, que fala da “férocité inouïe” dos vandeenses, mencionando ainda a sua “confiance sans bornes dans leurs chefs; une telle fidélité dans leurs promesses qu’elle peut supléer à la discipline; um courage indomptable et à l’épreuve de toutes sortes d’ennemis redoutable et qui doit les placer dans l’histoire au premier rang des peuples guerriers”.

Eles diziam:

“On a tué notre roi, on a chassé nos prêtres, et vendu les biens de notre église, où est l’argent? Ils ont tout mangé; ils veulent à présent nos corps, ils ne les auront pas”

O General Salomon reconheceu que, diante daquela guerra de bandidos (“brigands”), o exército tinha de esquecer as regras militares e cair em massa sobre aqueles celerados (“scélérats”), persegui-los sem trégua, sem lhes dar tempo de se reunirem (“il ne faut pas, en un mot, leur donner le temps de se rallier”).

Foi, então, um “delírio de sangue e sadismo”, como escreveu Gabory. Os soldados do regime retinham como presas de guerra as mulheres de mais destaque e as religiosas. Depois de matá-las, despojavam de suas vestes os cadáveres e alinhavam os corpos de costas. A esta operação chamavam “mettre em batterie”. E, como conta Béjarry, introduziam então nos corpos das vítimas cartuchos, que em seguida acendiam. Velhos, mulheres, crianças, padres eram arrastados (“traînes”) até Ponthière, para aí serem fuzilados. Um padre velho e enfermo, que não podia seguir com os outros, “un soldat le transperce avec as baionette”. (É claro que a gente ia ver depois esse filme, vendo os filmes sobre os massacres nazistas de judeus.) O representante Benabeu declarou ter visto à beira do caminho uma centena de cadáveres nus, amontoados uns sobre os outros, “comme des porcs qu’on aurait voulu saler”.

O General Westermann, o grande vencedpr, iria declarar depois, perante o “Comité de Salut Publique”: - “Não há mais Vandéia, cidadãos republicanos. Ela morreu sob o nosso sabre livre, com todas as suas mulheres e crianças. Eu acabo de enterrá-las no pântano e na floresta de Savenay. Em obediência às ordens que recebi, esmaguei (“écrasé”) as crianças sob as patas dos cavalos, massacrei as mulheres, que, ao menos por elas, não serão paridos (“n’enfanterons plus”) bandidos. Não tenho um prisioneiro sequer para me censurar. Exterminei-os a todos”.

A guilhotina, cognominada “moulin à silence”, e também chamada “rasoir national” (“navalha nacional”), funcionou sem trégua. Os “vendéens”, desarmados, eram conduzidos para as prisões que Carrier chamou de “antecâmaras da morte”. E por toda parte eram executados sumariamente, sem julgamento. Acontece, porém, que a “santa mãe guilhotina” (“la sainte mère guillotine”), na expressão digamos carinhosa de Francastel, era muito lenta em sua ação degoladora, conquanto irrecusavelmente eficaz. O seu uso restringiu-se então às personagens importantes – os nobres, os chefes vandeenses, os padres e os grandes burgueses. E, para suplementá-la, recorreu-se a meios mais rápiros e tão eficazes quanto ela.

O representante do povo, Minier, ouviu de um “citoyen” que os bandidos (quer dizer, os vandeenses) estavam sendo completamente destruídos (“détruits”). O número de prisioneiros feito em oito dias era incalculável (“incalculable”). E eles continuavam a chegar a todo momento. Entretanto, como se estava gastando muito tempo com os fuzilamentos, além de gastar pólvora e balas, optou-se por meter de cada vez um certo número deles num barco velho, que os levava até o meio do rio, a meia légua da cidade, onde a golpes de machado se afundava então o barco com a sua carga humana (“cargaison humaine”) dentro. Se alguém tentava escapar do afogamento, acabava-se com ele a sabre. Essa operação era feita diariamente (“journalièrement”). Aliás, os que tentavam escapar do afogamento eram em verdade “sabrados” (“sabrés”), de onde a palavra “sabrados”, inventada por Grandmaison para os carrascos (“bourreaux”) que, em barcos leves e rápidos, acompanhavam atentos o sinistro espetáculo, para os devidos fins.

Guillaume-François Lahennec, em depoimento esclarecedor, como testemunha no processo Carrier, revela que a princípio os afogamentos se faziam à noite; mas, como “le comité révolutionnaire ne tarde pas à se familiariser avec le crime”, isto mesmo: “como o comitê revolucionário não tarda a se familiarizar com o crime”, a coisa se tornou ainda mais cruel, desde o momento em que os afogamentos passaram a ser feitos em pleno dia. E ainda mais: também à princípio os prisioneiros eram afogados vestidos, isto é, com as roupas que usavam; depois, o comitê decidiu afogá-los nus, num refinamento de crueldade e também por cupidez. E havia ainda a graça macabra: juntar, sempre nus, amarrados pelos sovacos, um homem e uma mulher, e assim, sempre aos pares, “casados”, atirá-los à água. A isto chamavam “casamento republicano” (“mariage républicain”).

Veio Robespierre e deu a norma republicana à Convenção:

“Il faut étouffer les ennemis intérieurs de la République ou périr avec elle; or, dans cette situation la première maxime de votre politique doit être qu’on conduise le peuple par la raison et les ennemis du peuple par la terreur.”
E explicou o que era – “la terreur”.

O terror não era outra coisa senão “la justice prompte, sévère, inflexible”.

E o genocídio contra a Vandéia inscreveu-se “dans cette logique incontestée”.
No 1º de outuro de 1793, proclamou solenemente a Convenção:

“Soldats de la liberté, il faut que les brigands de la Vendée soient exterminés; le soldat de la patrie l’exige, l’impatience du peuple français le commande, son courage doit l’accomplir”.

E assim foi o povo da Vandéia exterminado.

As mulheres e as crianças foram condenadas “avec circonstances aggravantes”. As mulheres, por parirem monstros, eram também monstros; e as crianças, por serem naturalmente perigosas, visto que se tornariam bandidos quando crescessem. Era assim como cortar uma árvore para impedir que ela desse frutos, porque os frutos que dava eram maus, e ao mesmo tempo destruir por imprestáveis os frutos verdes que nela houvesse, antes que amadurecendo eles se tornassem inevitalmente maus.

E havia coisa mais terrível, nessa terrível ordem de coisas: mulheres grávidas tiveram o ventre rasgado a baioneta, em cuja ponta vinha espetado o futuro neném que não ia ser.

Os “soldats de la liberté”, em nome de la liberté, cumpriram inflexivelmente as ordens emanadas da Convenção.

Terrível!

Sangue, sadismo. Extermínio de vidas humanas.

Enfim, “vive la liberté”! Sem la liberté não se teria em verdade publicado na França esse livro que deixa tão mal a França. Sem la liberté Reynold Secher não teria escrito o seu grande livro. Esse grande livro que se chama Le Génocide franco-français (La Vendée-vengée). A Vandéia vingada! Sacher, nascido em La Chapelle-Basse-Mer, é um filho da Vendée e o seu grande vingador

SALES, Herberto. Subsidiário (Confissões, memórias e histórias), 1988.

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