quinta-feira, junho 18, 2009

Herberto Sales e o Concílio



"MISSA pela alma de Carraro. Muito concorrida. Igreja cheia. Padre francês, rezando em francês, os brasileiros respondendo em francês. Algumas lágrimas: saudades de Carraro, saudades do Brasil, saudades talvez da língua. A língua - o idioma - pátria da gente. A mesma igreja onde se celebrou havia pouco mais de um ano a missa por Magdalena Tagliaferro, que comentei no Subsidiário. Ocorrem-me as mesmas reflexões sobre as concessões demagógicas do Vaticano II, que a troco de nada - na busca de tudo - substituiu o ministério ritualizado da missa pela lanchonete da comunhão. Vi, de novo, o padre distribuindo hóstias com uma desenvoltura vulgar de balconista. E os fiéis modelo prafrentex tomando a hóstia de pé, como a bordo dum balcão de hambugers. Com a alternativa freguesal de receber a hóstia na mão e com ela voltar para o lugar onde estava sentado, e sentado tomá-la ou comê-la, numa boa. Porque o novo rito - ou desrito - católico achou que ajoelhar aos pés do padre para tomar a comunhão era uma velharia repressiva. Afinal o padre é um homem como qualquer outro. Sim, ninguém contesta isso, o padre era um homem como outro qualquer, desde que desinvestido de sua função sacerdotal. Mas, no exercício dela, ele é - ou devia ser - um padre, embora sendo homem. É como - mal comparando - um guarda que fadardo - no exercício de sua função - aborda na rua um sujeito para adverti-lo por uma ainda que involuntária transgressão cometida. Aí o sujeito, achando que o guarda, embora fardado, é um homem como outro qualquer, sente-se ofendido com a advertência, que lhe há de parecer uma intolerável forma de 'repressão' - e vira bicho. Que é que acontece? Acaba sendo preso. Logo, um guarda é um guarda, embora sendo fora de sua função um homem como outro qualquer. Como o padre, quando oficia a missa. A única diferença é que hoje em dia o padre - mesmo quando em sua função sacerdotal - faz questão de mostrar a todo mundo que esse negócio de função sacerdotal já era. Porque o que ele é, no duro, é um homem como outro qualquer. E parte para a missa, celebrada na camaradagem, com os fiéis substituindo na enturmação do pagode a figura solitária do acólito. O novo padre não precisa de ajudante. Como de ajudante não precisa mais o motorista de caminhão. Que é também - no caminhão - um homem como outro qualquer."

"Saí da missa de Carraro decidido a deixar neste livro - com a minha rebeldia católica - uma recomendação à minha família. Quando eu morrer - por favor! - não mande, celebrar missa de sétimo dia por minha alma, segundo o trêfego figurino da nova missa, sb pena de fazerem sofrer muito a minha alma indefesa, onde quer que seja o lugar que em vez de mim esteja ela."

"Quero uma missa como as graves e belas missas do meu tempo de colégio, quando como o latim desentranhado da memória do tempo, o incenso ardendo nas brasas votivas do turíbulo, que com seu pendular de prata purificava o ar, e quando por sua vez no ar se disseminavam os sons da sineta ritualística - a gente se sentia mais perto de Deus. Essa é a missa que eu quero. Ou a missa que a minha alma certamente há de querer."

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"PARA mim a religião é como a resposta indecifrada ao meu dever para com Deus. A força da religião está no seu mistério."

SALES, Herberto. Andanças por umas Lembranças (Subsidiário 2).

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