segunda-feira, junho 29, 2009

Louis Lavelle - Tradução inédita de "Solidão, o destino de todos os seres".

O ser só existe onde ele se manifesta, i. é, onde realiza a seu modo a essência corriqueira da vida. Aceitar a vida é aceitar uma aventura e um destino solitários: desta feita a solidão diz respeito à separação entre o ser particular e o ser total [a presença total], que é o apelo à existência ou ao nascimento. Eis aqui a verdadeira solidão, que começa antes que os seres particulares sofram por se sentirem presos uns aos outros e incapazes de se comunicarem entre si.

Caso se denomine solidão a pura relação da alma com Deus, é a solidão a mesma vida do espírito. As preocupações do amor-próprio, as relações com os demais seres distraem-me incessantemente. Se ao agir determino-me perante mim ou outrem, e não perante Deus, tudo está perdido. Mas se em minha ronda solitária conservo-me unido a Deus, tenho em mim o universo e o destino de todos os seres. Convém parecer que os abandonamos, para que perto deles não permaneça apenas o companheiro de obscuridade e miséria. Na solidão há-de se encontrar a claridade que nos permitirá, quando retornemos para junto dos seres, reconhecê-los e chamá-los pelos nomes. Ditoso de mim se entre eles não me assemelho a um estrangeiro odioso e ameaçador em busca dalgum divertimento inquietante - alguém cujos dons se deve evitar.

O silêncio é irmão da solidão. A exemplo desta, ele testemunha a presença do espírito. Isso fica evidente na história de Psiquê: “se tu guardares o silêncio, darás ao mundo uma criança que há-de ser Deus; mas se traires o segredo, há-de ser homem”.

O silêncio acompanha o nascimento e o crescimento do desejo; torna-nos sensível ao apelo que toca a alma e insinua-se a pouco e pouco nela. O silêncio é ativo, vivo, atencioso. É um respeito religioso, uma abertura de si, uma docilidade perfeita, uma espécie de anulação do amor-próprio, cujas vozes são sufocadas. O silêncio revela-nos a presença de Deus.

Ao contrário a palavra (à exceção do Verbo, o qual não quebra o silêncio) limita-se a manifestar o que está em nós. Ela pertence ao mundo da expressão ou da aparência, ao mundo tornado público. Do indivíduo patenteia e testemunha tão-somente a potência de recepção ou de tradução perante o puro pensamento, e engana amiúde a outrem e a si acerca da própria realidade, a qual é sempre maior e menor do que parece. A palavra amesquinha-se em coisa manipulável, como se fosse o próprio pensamento a que se substituiu e que às vezes não está mais presente nela.

O homem não anda em busca de ser todo o universo, nem de possuí-lo de todo, o que elevaria a solidão ao absoluto, em lugar de rompê-la. Ele busca se inserir na sociedade juntamente com todo o universo, não tendo necessidade de tomar nada para si, mas tudo obtendo por meio dum desinteresse perfeito. O homem que parece recusa a sociedade contínua ou interrupta, pessoal ou anônima, com outros homens, que se aparta da humanidade ou da amizade, está na busca duma sociedade mais perfeita e plena com a natureza, consigo ou com Deus.

Há uma grandeza extraordinária nesta palavra - solidão - que implica não a minha separação do mundo, senão que - separado dos objetos ou dos seres particulares que me cegam e retardam - no descortinamento do universo inteiro diante de mim. A solidão engrandece a alma até à dimensão do tudo e dá nascimento uma incomparável emoção religiosa.

sábado, junho 27, 2009

Herberto Sales e a Vandéia

QUANDO CHEGUEI A PARIS (27.4.86), um dos livros de que mais se ocupava a imprensa era Le génocide franco-français (La Bendée-vengée), de Reynold Secher (Presses Universitaires de France). Dos prelos da grande usina editorial de Paris saíra pela mesma época outro livro sobre o mesmo assunto: La Vendée en armes, de Jean-François Chiappe, em nada menos de três volumes. Havia pelas livrarias como um abelhudo movimento de revisão histórica da França, ou de revisão de importantes fatos da história da França, antiga e contemporânea.

Da Vandéia sob a Revolução dizia Eric Roussel, comentando no Figaro o livro de Reynold Secher - que ela fora teatro de "un massacre d'inocents froidement organisé selon les schémas qu'Hitler ou Staline n'auraint pas désavoués". Incroyable. Genocídio na França, genocídio ideológico na França, a terra de la liberté? La liberté pagou bem caro o seu preço. Se hoje, na hora do aperto nada literário em outros países, as pessoas se mandam para Paris, porque sabem que aqui estarão protegidas sob o manto de la liberté, talvez não saibam (ou nem desconfiem) que la liberté foi aqui implantada com violência - uma violência que em verdade não se limitou à guilhotina da Praça da Concórdia. E se a Liberdade, no verso imortal de Castro Alves, é "a noiva do sol, esposa do porvir", aqui na França ela foi namorada do terror, segundo se sabe e se vai sabendo cada vez mais.

Lembra Reyonold Secher que a "Déclaration des Droits de l'Homme et du Citoyen" tinha uma brecha da qual não haviam suspeitado os constituintes que a aprovaram, neste trecho: "Tout régime restreignant les droits de l'homme est abusif, il faut lui résister". Ora, se cumpria resistir ao abuso do regime, no sentido de restringir os direitos do homem, e o regime os restringia, a revolta da Vandéia, feita contra o abuso do regime, era portanto uma revolt legal e legítima.

Mas com isso não concordou o regime. E o demonstrou de forma cabal, reprimindo por todos os meios a revolta. A história da resistência da Vandéia é apaixonante, com a mobilização das paróquias, os padres pelo meio dando força ao povo, e o povo se armando e brigando até mesmo com os utelsílios de cozinha, já que não havia armas para todos. Mal comparando, a gente pensa mesmo no arraial do Conselheiro, como aconteceu com Euclides, que evidentemente morreu sem conhecer toda a história dos horrores da guerra da Vandéia: não leu Sacher.

Os insurrectos tinham propósitos bem simples. Queriam ter liberdade de trabalhar em suas próprias terras. O regime não dividira as terras como prometera. Em vez de dividi-las, taxou-as de mais impostos, e os insurretos resolveram lutar pelo que queriam, com um ideário muito simples: "ne vouloir ni nobles, ni bourgeois et qu'il partageront leurs terres" - depois da "victoire complète".

Trava-se a luta. Uma verdadeira guerra: a guerra da Vandéia. Ou as guerras da Vandéia. o território da Vandéia militar cobre uma área de dez mil quilômetros quadrados. Limita-se ao Norte élo Loire, de Saint-Nazaire a Ponts-de-Cé; a Leste, por uma linha direta de Ponts-de-Cé a Parthenay; ao Sul, por uma linha irregular, ligando Parthenay a Saint-Gilles-Croix-de-Vie, até a costa do Atlântico.

As 700 paróquias sublevadas não tinham aparentemente nenhuma característica especial. Não pertenciam às mesmas províncias da região - Anjou, Bretagne, Poitou; nem aos mesmos departamentos: Loire-Inférieure, Maine-et-Loire, Vendée, Deux-Sèvres; não tinham uma história comum, nem as mesmas fontes de riqueza, e até certo ponto se opunham entre si.

Explica Secher: “De surcroît, la réference à une identité comune n’est pas de leur fait mais de celui de Paris à la suite de la défaite du Général de Marcé, à Pont-Charron, le 11 mars 1793. Les politiques, par ce choix du mot Vendée, espèrent imposer au mouvement une forme plutôt réductrice. Par extrapolation, ils en viennent tout naturallement à qualificer ainsi toute région de France hostile au régime et tous foyers de prêtres réfractaires”.

Em 10 de outubro de 1792 a Convenção decreta que o governo provisório da França será revolucionário – até a paz. E Robespierre dá o serviço: “Le gouvernement révolutionnaire doit aux bons citoyens toute la protection nationale, in ne doit aux ennemis du peuple que la mort”.

Quer dizer: quem for inimigo do povo que se cuide.

Então, em nome “de la justice, de l’égalité et de l’efficacité” – impõe-se o terror. Saint-Just proclama: “Il faut gouverner par le fer ceux qui ne peuvent pas l’être par la justice”. Tudo muito claro: se não se pode governar pela justiça – governe-se pelo ferro.

E a revolta aparentemente legal e legítima da Vandéia, contra o abuso do regime, inscreve-se então no contexto insurrecional. Portanto, morte aos insurretos!

Diga-se que os “vendéens” realmente queriam mudanças. E por isso acolheram com entusiamo os princípios fundamentais da Revolução de 1789, que ia mudar tudo. As esperanças eram grandes, mas na prática a situação econômica estava longe de corresponder às esperanças depositadas numa mudança. Sobrevem a impopularidade das administrações.

Um habitante de Louroux-Bottereau, testemunha da maior parte dos combates, presta um importante depoimento, citado por Reynold Secher: “Notre armée est composée de paysans comme moi, vêtus de blouses ou d’habits grossiers, armés de fusils de chasse, de pistolets, de mousquetons, souvent d’instruments de travail, de faux, de bâtons, de hachesm de couteax de pressoir ou de broches à rôtir. Elle s’organise par paroisses ou districts, sous les ordres d’um chef particulier. Nous marchons droit à l’ennemi et, après nous être agenouillés pour recevoir la bénéditction de nos prêtres, nous commençons jusqu’à bout portant par une fusillade, irregulière sans doute, mais bien nourrie et bien dirigée”.

As citações que estou fazendo em francês não têm outra intenção senão ligar o meu eventual leitor diretamente às fontes. E bom para mim que ele veja que não estou pondo ou tirando nenhuma azeitona dessa empada histórica da França.

Outro depoimento importante, também citado por Secher, é o do General Turreau, que fala da “férocité inouïe” dos vandeenses, mencionando ainda a sua “confiance sans bornes dans leurs chefs; une telle fidélité dans leurs promesses qu’elle peut supléer à la discipline; um courage indomptable et à l’épreuve de toutes sortes d’ennemis redoutable et qui doit les placer dans l’histoire au premier rang des peuples guerriers”.

Eles diziam:

“On a tué notre roi, on a chassé nos prêtres, et vendu les biens de notre église, où est l’argent? Ils ont tout mangé; ils veulent à présent nos corps, ils ne les auront pas”

O General Salomon reconheceu que, diante daquela guerra de bandidos (“brigands”), o exército tinha de esquecer as regras militares e cair em massa sobre aqueles celerados (“scélérats”), persegui-los sem trégua, sem lhes dar tempo de se reunirem (“il ne faut pas, en un mot, leur donner le temps de se rallier”).

Foi, então, um “delírio de sangue e sadismo”, como escreveu Gabory. Os soldados do regime retinham como presas de guerra as mulheres de mais destaque e as religiosas. Depois de matá-las, despojavam de suas vestes os cadáveres e alinhavam os corpos de costas. A esta operação chamavam “mettre em batterie”. E, como conta Béjarry, introduziam então nos corpos das vítimas cartuchos, que em seguida acendiam. Velhos, mulheres, crianças, padres eram arrastados (“traînes”) até Ponthière, para aí serem fuzilados. Um padre velho e enfermo, que não podia seguir com os outros, “un soldat le transperce avec as baionette”. (É claro que a gente ia ver depois esse filme, vendo os filmes sobre os massacres nazistas de judeus.) O representante Benabeu declarou ter visto à beira do caminho uma centena de cadáveres nus, amontoados uns sobre os outros, “comme des porcs qu’on aurait voulu saler”.

O General Westermann, o grande vencedpr, iria declarar depois, perante o “Comité de Salut Publique”: - “Não há mais Vandéia, cidadãos republicanos. Ela morreu sob o nosso sabre livre, com todas as suas mulheres e crianças. Eu acabo de enterrá-las no pântano e na floresta de Savenay. Em obediência às ordens que recebi, esmaguei (“écrasé”) as crianças sob as patas dos cavalos, massacrei as mulheres, que, ao menos por elas, não serão paridos (“n’enfanterons plus”) bandidos. Não tenho um prisioneiro sequer para me censurar. Exterminei-os a todos”.

A guilhotina, cognominada “moulin à silence”, e também chamada “rasoir national” (“navalha nacional”), funcionou sem trégua. Os “vendéens”, desarmados, eram conduzidos para as prisões que Carrier chamou de “antecâmaras da morte”. E por toda parte eram executados sumariamente, sem julgamento. Acontece, porém, que a “santa mãe guilhotina” (“la sainte mère guillotine”), na expressão digamos carinhosa de Francastel, era muito lenta em sua ação degoladora, conquanto irrecusavelmente eficaz. O seu uso restringiu-se então às personagens importantes – os nobres, os chefes vandeenses, os padres e os grandes burgueses. E, para suplementá-la, recorreu-se a meios mais rápiros e tão eficazes quanto ela.

O representante do povo, Minier, ouviu de um “citoyen” que os bandidos (quer dizer, os vandeenses) estavam sendo completamente destruídos (“détruits”). O número de prisioneiros feito em oito dias era incalculável (“incalculable”). E eles continuavam a chegar a todo momento. Entretanto, como se estava gastando muito tempo com os fuzilamentos, além de gastar pólvora e balas, optou-se por meter de cada vez um certo número deles num barco velho, que os levava até o meio do rio, a meia légua da cidade, onde a golpes de machado se afundava então o barco com a sua carga humana (“cargaison humaine”) dentro. Se alguém tentava escapar do afogamento, acabava-se com ele a sabre. Essa operação era feita diariamente (“journalièrement”). Aliás, os que tentavam escapar do afogamento eram em verdade “sabrados” (“sabrés”), de onde a palavra “sabrados”, inventada por Grandmaison para os carrascos (“bourreaux”) que, em barcos leves e rápidos, acompanhavam atentos o sinistro espetáculo, para os devidos fins.

Guillaume-François Lahennec, em depoimento esclarecedor, como testemunha no processo Carrier, revela que a princípio os afogamentos se faziam à noite; mas, como “le comité révolutionnaire ne tarde pas à se familiariser avec le crime”, isto mesmo: “como o comitê revolucionário não tarda a se familiarizar com o crime”, a coisa se tornou ainda mais cruel, desde o momento em que os afogamentos passaram a ser feitos em pleno dia. E ainda mais: também à princípio os prisioneiros eram afogados vestidos, isto é, com as roupas que usavam; depois, o comitê decidiu afogá-los nus, num refinamento de crueldade e também por cupidez. E havia ainda a graça macabra: juntar, sempre nus, amarrados pelos sovacos, um homem e uma mulher, e assim, sempre aos pares, “casados”, atirá-los à água. A isto chamavam “casamento republicano” (“mariage républicain”).

Veio Robespierre e deu a norma republicana à Convenção:

“Il faut étouffer les ennemis intérieurs de la République ou périr avec elle; or, dans cette situation la première maxime de votre politique doit être qu’on conduise le peuple par la raison et les ennemis du peuple par la terreur.”
E explicou o que era – “la terreur”.

O terror não era outra coisa senão “la justice prompte, sévère, inflexible”.

E o genocídio contra a Vandéia inscreveu-se “dans cette logique incontestée”.
No 1º de outuro de 1793, proclamou solenemente a Convenção:

“Soldats de la liberté, il faut que les brigands de la Vendée soient exterminés; le soldat de la patrie l’exige, l’impatience du peuple français le commande, son courage doit l’accomplir”.

E assim foi o povo da Vandéia exterminado.

As mulheres e as crianças foram condenadas “avec circonstances aggravantes”. As mulheres, por parirem monstros, eram também monstros; e as crianças, por serem naturalmente perigosas, visto que se tornariam bandidos quando crescessem. Era assim como cortar uma árvore para impedir que ela desse frutos, porque os frutos que dava eram maus, e ao mesmo tempo destruir por imprestáveis os frutos verdes que nela houvesse, antes que amadurecendo eles se tornassem inevitalmente maus.

E havia coisa mais terrível, nessa terrível ordem de coisas: mulheres grávidas tiveram o ventre rasgado a baioneta, em cuja ponta vinha espetado o futuro neném que não ia ser.

Os “soldats de la liberté”, em nome de la liberté, cumpriram inflexivelmente as ordens emanadas da Convenção.

Terrível!

Sangue, sadismo. Extermínio de vidas humanas.

Enfim, “vive la liberté”! Sem la liberté não se teria em verdade publicado na França esse livro que deixa tão mal a França. Sem la liberté Reynold Secher não teria escrito o seu grande livro. Esse grande livro que se chama Le Génocide franco-français (La Vendée-vengée). A Vandéia vingada! Sacher, nascido em La Chapelle-Basse-Mer, é um filho da Vendée e o seu grande vingador

SALES, Herberto. Subsidiário (Confissões, memórias e histórias), 1988.

quinta-feira, junho 18, 2009

Herberto Sales e o Concílio



"MISSA pela alma de Carraro. Muito concorrida. Igreja cheia. Padre francês, rezando em francês, os brasileiros respondendo em francês. Algumas lágrimas: saudades de Carraro, saudades do Brasil, saudades talvez da língua. A língua - o idioma - pátria da gente. A mesma igreja onde se celebrou havia pouco mais de um ano a missa por Magdalena Tagliaferro, que comentei no Subsidiário. Ocorrem-me as mesmas reflexões sobre as concessões demagógicas do Vaticano II, que a troco de nada - na busca de tudo - substituiu o ministério ritualizado da missa pela lanchonete da comunhão. Vi, de novo, o padre distribuindo hóstias com uma desenvoltura vulgar de balconista. E os fiéis modelo prafrentex tomando a hóstia de pé, como a bordo dum balcão de hambugers. Com a alternativa freguesal de receber a hóstia na mão e com ela voltar para o lugar onde estava sentado, e sentado tomá-la ou comê-la, numa boa. Porque o novo rito - ou desrito - católico achou que ajoelhar aos pés do padre para tomar a comunhão era uma velharia repressiva. Afinal o padre é um homem como qualquer outro. Sim, ninguém contesta isso, o padre era um homem como outro qualquer, desde que desinvestido de sua função sacerdotal. Mas, no exercício dela, ele é - ou devia ser - um padre, embora sendo homem. É como - mal comparando - um guarda que fadardo - no exercício de sua função - aborda na rua um sujeito para adverti-lo por uma ainda que involuntária transgressão cometida. Aí o sujeito, achando que o guarda, embora fardado, é um homem como outro qualquer, sente-se ofendido com a advertência, que lhe há de parecer uma intolerável forma de 'repressão' - e vira bicho. Que é que acontece? Acaba sendo preso. Logo, um guarda é um guarda, embora sendo fora de sua função um homem como outro qualquer. Como o padre, quando oficia a missa. A única diferença é que hoje em dia o padre - mesmo quando em sua função sacerdotal - faz questão de mostrar a todo mundo que esse negócio de função sacerdotal já era. Porque o que ele é, no duro, é um homem como outro qualquer. E parte para a missa, celebrada na camaradagem, com os fiéis substituindo na enturmação do pagode a figura solitária do acólito. O novo padre não precisa de ajudante. Como de ajudante não precisa mais o motorista de caminhão. Que é também - no caminhão - um homem como outro qualquer."

"Saí da missa de Carraro decidido a deixar neste livro - com a minha rebeldia católica - uma recomendação à minha família. Quando eu morrer - por favor! - não mande, celebrar missa de sétimo dia por minha alma, segundo o trêfego figurino da nova missa, sb pena de fazerem sofrer muito a minha alma indefesa, onde quer que seja o lugar que em vez de mim esteja ela."

"Quero uma missa como as graves e belas missas do meu tempo de colégio, quando como o latim desentranhado da memória do tempo, o incenso ardendo nas brasas votivas do turíbulo, que com seu pendular de prata purificava o ar, e quando por sua vez no ar se disseminavam os sons da sineta ritualística - a gente se sentia mais perto de Deus. Essa é a missa que eu quero. Ou a missa que a minha alma certamente há de querer."

***
"PARA mim a religião é como a resposta indecifrada ao meu dever para com Deus. A força da religião está no seu mistério."

SALES, Herberto. Andanças por umas Lembranças (Subsidiário 2).

sábado, junho 06, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Vocação, Destino"

É sinal de força reconhecer em tudo o que nos acontece, não as marcas do destino, senão os sinais da vocação. Contudo, é sinal de sabedoria aprender a admirar a vocação de outrem, e não sofrer por causa disso, quando consideramos que ela nos mensura a impotência e os limites.

Não se pode comparar vocações, pois que elas exprimem, em cada ser, sua própria razão de ser, i. é, sua relação perante o absoluto. Isso é o bastante para acabar com a concorrência e o ciume entre [os seres], os quais são obrigados a desempenhar até ao fim a atividade de que foram encarregados e que ninguém poderia cumprir em seu lugar.


O indivíduo e sua diferença essencial.
A perfeição das relações com o próximo supõe que já discernimos a diferença que lhe é própria, i. é, que reconhecemos a vocação que lhe cabe, e que, dentro do limite de nossas forças, o ajudaremos a realizá-la.

Não é errado dizer que cada homem é uma ideia, mas é preciso acrescentar que nem sempre é capaz de reconhecê-la nem realizá-la. Quando ele a vislumbra, brota-lhe uma luz e começa a animá-lo um impulso; isso são traços da própria vocação.

Ninguém conhece a si mesmo, até que em si descubra um segredo profundíssimo e personalíssimo, o qual todos os seres, contudo, já de antemão conheciam como se lhes pertencesse. Assim, por uma espécie de paradoxo, os seres só se comunicam entre si por meio daquele ponto solitário e íntimo que parece nunca poderá se manifestar ao ser a que pertence, nem ser violado. Caso haja mister de testemunhas, interrompe-se a comunhão em proveito da comunicação, que só se dá sob o mundo dos signos, i. é, das aparências. É justamente nesse lugar, onde apresento-me para mim mesmo, que posso apresentar-me para ti; mas é também onde se desfaz a aparência e fraqueja a expressão.


O eu como ser possível.
Consiste o destino tão-somente em descobrir, pôr à prova e atualizar as próprias possibilidades.


O eu-interrogação a respeito de si mesmo e de sua essência.
Que loucura discutir se a essência vem antes ou depois. Ela é eterna e, conforme a mudança de perspectiva, parece que vem antes ou depois.


A existência e a sua faina de transformar em ato.
Por que a existência? Porque sem ela a essência nos não pertenceria, i. é, não seria feita por nós. A existência é o laço entre a ideia (possível) e a ideia (possuida).

É inerente à palavra, ao pensamento e à ação levar-nos sempre para além de onde estamos, a fim de obrigar-nos a realizar o que podemos ser. E é por causa disso que a palavra, o pensamento e a ação nos causa insegurança: o homem só conhece de forma cabal as próprias potências e as realiza em si, quando as põe em atividade e, nesse movimento, as dispõe para si mesmo.

A vocação, ou o que é o mesmo, a essência individual é a conexão com o todo, de tal modo que o todo nos revela como, sem nós, ele seria incapaz de subsistir.

Em cada consciência, existe um ponto permanente de comoção raramente excitado, onde se produz o encontro entre a vocação e o acontecimento. Consiste essa dificuldade em fazer que cada um dos pensamentos, cada uma das ações entre em contato com ele.

Força é que cada ser desça até ao derradeiro reduto da intimidade, onde descobre o prazer e o desejo de participar do ser e da vida, para ali realizar uma vocação que é certamente a sua.


O destino espiritual e não-fenoménico (os fenómenos são apenas os meios).
O fenómeno, que a tudo absorve ou limita, desaparece.

[Vocação]: Verdade eterna que a vida tornou minha. Realização espiritual sob o olhar de Deus. Destino semelhante a um facho de luz no Céu da eternidade.

A vocação e a sinceridade interior são uma só coisa. Em todos os casos, ir até aos limites da sinceridade é ir até à absoluta grandeza (e simplicidade); é descobrir a vontade mais profunda, que nada mais é que a expressão da vontade de Deus em nós.

quinta-feira, junho 04, 2009

Napoleão Mendes de Almeida a Veja

Há os que apodam-no de "radical", "reacionário", "de direita" e demais epítetos que fazem pregão da parvoíce de quem fala, mas vejo aí senão bom senso chão, escudado por anos de estudos velhos e observação. Não obstante a famigerada caturrice de Napoleão Mendes de Almeida, suas gramáticas vendem-se em muitos tomos e edições - prova de que a popularidade pode ser antípoda à ignorância.
Luiz de Carvalho.


VEJA - Fala-se hoje um bom português no Brasil?
ALMEIDA - O país fala um português muito ruim. Chegamos a ter vergonha de construções corretas, ter receio de regências, de concordâncias.

VEJA - Onde se ouve ou lê o pior português?
ALMEIDA - A televisão é o maior veículo de erros e enganos de português que existe. Ela tem um efeito nocivo muito grande sobre o português que o povo fala. É mais difícil falar bem do que escrever - nesse caso a pessoa tem mais tempo para pensar. Só as pessoas acostumadas a falar bem deveriam lançar mão desse meio de divulgação tremendo que é a TV.

VEJA - Em que programas de TV estão os erros mais lapidares?
ALMEIDA - Até nos títulos dos programas se cometem invencionices. Há um humorístico chamado Os Trapalhões. Essa palavra não existe em português. O verbo é atrapalhar. Quem atrapalha, portanto, é atrapalhão. Por que tirar o a da palavra? Também se cometem equívocos nos noticiários, principalmente, e nas novelas. Há certos erros que me obrigam a mudar de canal. Repugna-me, por exemplo, ver um locutor de TV dizendo que se bateu um 'récorde', colocando a sílaba tônica no primeiro e. Esse locutor não é amigo do povo. Nunca tivemos essa palavra em português. É uma tontice. O certo é se pronunciar 'recórde'.

VEJA - Em que outros veículos o português é sacrificado?
ALMEIDA - Chegamos a uma situação em que nem os jornalistas sabem conjugar verbos. Tenho no meu arquivo um conjunto de erros graves de português que saíram nos jornais nos últimos tempos. Veja esta manchete do noticiário internacional, publicada em novembro de 1990: "Iraque deixará parentes visitarem reféns". Que português é esse? O certo é "visitar". Para o jornalista que intitulou a notícia, o padre Manuel Bernardes não sabe português porque traduziu o texto latino do Pai-Nosso por "Não nos deixeis cair em tentação", assim como está errada a passagem do Evangelho de São Marcos que diz "Deixai vir a mim os pequeninos".

VEJA - Na literatura brasileira de hoje a situação é melhor?
ALMEIDA - Bem, eu atualmente não sou de muita leitura. Leio revistas inglesas e francesas - sei que nelas vou encontrar os respectivos idiomas escritos de maneira perfeita. É uma prova de civismo estudar a própria língua.

VEJA - Como se reconhece o escritor que trata bem o idioma?
ALMEIDA - Autores como Alexandre Herculano e Eça de Queiroz, além de possuir uma prosa atraente, obrigam o leitor a ir ao dicionário pelo menos duas vezes por página. Isso é um ótimo sinal. No outro extremo está o escritor que se lê por 100 ou 200 páginas sem deparar com uma palavra que não se conheça, e que escreve com períodos de gago, aquele que tem dois pontos finais em cada linha. Períodos curtos não têm graça. Neles não há concatenação, não há subordinação das orações. Escritores desse tipo não conhecem as conjunções ou têm medo de usá-las porque não sabem usar o verbo de acordo com elas.

VEJA - Como falam os políticos brasileiros?
ALMEIDA - Os que falam bem são exceções, e há muito poucas. Dizia-se que Collor falava bem, mas ele escorregava, não sei se nesse meio tempo resolveu estudar gramática. Já o Lula usou uma frase muito interessante quando era candidato à Presidência. Ele dizia "Vote ni mim".

VEJA - Lula deveria estudar gramática?
ALMEIDA - Ele tentou. Lula chegou a se matricular no meu curso, mas não chegou a responder à primeira lição escrita nem pagou a segunda mensalidade. Simplesmente desapareceu. Depois de um certo tempo acabamos rasgando a ficha dele, na limpeza do arquivo. Rasguei com prazer, depois de uma greve dos metalúrgicos que deu o maior prejuízo ao país.

VEJA - O senhor também rejeita o português falado pelos sertanejos, carregado de regionalismos?
ALMEIDA - Eu respeito. Não vou interromper uma conversa para dizer ao interlocutor que o certo é dizer 'nós vamos' e não 'nós vai'. A verdade é que em termos de vocabulário há regionalismos muito interessantes. Um dia eu estava em Belém e pedi uma informação na rua, sobre onde ficava tal escola. O sujeito me disse que era fácil, que era só tomar uma sopa, aquela sopa que estava logo ali junto ao muro. Eu me espantei. Não sabia, mas está lá no dicionário - sopa é a jardineira, o ônibus local.

VEJA - O que o senhor acha das reformas ortográficas feitas periodicamente no português?
ALMEIDA - Vejo como uma forma de comércio. O interesse das reformas ortográficas é financeiro, não intelectual ou prático. Tem por fim o lucro, seja da Academia Brasileira de Letras, seja de alguma editora, seja de algum rato de ministério, como é o caso atualmente no Planalto. Certa vez o Cláudio de Souza, então presidente da ABL, esteve no meu escritório, antes da reforma de 1943, e me perguntou por que eu era contra a reforma ortográfica. Ele me explicou que a Academia tinha despesas com a impressão do vocabulário. Eu disse: meu caro, não acha que a sua resposta deve ser substituída pela reflexão de que o interesse da reforma ortográfica é de caixa, e não de ensino? O escritor interessado quer modificar a ortografia, mas o livro dele, sua gramática, com a nova ortografia, já está pronto. Em 1949, quando saiu um decretinho no Diário Oficial introduzindo a nomenclatura gramatical brasileira, um dos tratantes da comissão já estava com o livro dele, incluindo as modificações, na terceira edição.

VEJA - O acordo de unificação ortográfica entre o português do Brasil e o de Portugal, negociado atualmente pelo ministro da Cultura, Antônio Houaiss, encaixa-se nesse caso?
ALMEIDA - Faço minhas as palavras do jornalista Paulo Francis, num artigo recente. O bom dessa rusga diplomática que está ocorrendo entre Brasil e Portugal é que ela matou o acordo ortográfico do Antônio Houaiss. O Houaiss não é bobo, já admitiu que o acordo foi arquivado por tempo indeterminado. Isso porque ele é editor, paga imposto de renda pelo que edita. Qual seria o seu interesse na reforma senão ser o primeiro a dizer: "O que foi decretado ontem já está em forma de livro?" Vernáculo não é política para viver de alternativas, para alimentar-se de amizades e confrarias. O vernáculo vive de escritores, e estes não se impõem pela quantidade, senão pela qualidade de obras que expressem o belo sem protuberâncias vocabulares nem manifestação de desnutrição, de doenças gramaticais.

VEJA - A unificação da ortografia usada no Brasil e em Portugal, prevista pela reforma, não seria desejável?
ALMEIDA - Que unificação? Não existem duas línguas, apenas uma.

VEJA - Mas muitas palavras são usadas ou grafadas de forma diferente nos dois países.
ALMEIDA - E no Brasil não acontece o mesmo, de região para região? Não há diferenças prosódicas e de significação? Isso não prejudica o idioma de forma alguma. Tome-se, para efeito de comparação, o dicionário Webster da língua inglesa. Para certas palavras ele dá quatro pronúncias diferentes. Outras são mostradas com três grafias diversas. Isso é motivo para um espertalhão querer introduzir uma lei que determine uma só forma ortográfica, uma só pronúncia da palavra?

VEJA - O acordo ortográfico prevê a eliminação de vários acentos nas palavras. Isso não tornaria mais fácil a tarefa de quem escreve, lê ou estuda o português?
ALMEIDA - A acentuação no português é um horror. A ortografia de 1943 está errada, mas se forem mexer vai piorar ainda mais.

VEJA - O que há de mais aberrante na acentuação do português?
ALMEIDA - Tome-se, por exemplo, a palavra auxílio. No idioma espanhol existe essa mesma palavra, com o mesmo significado, mas ao contrário do que ocorre no português ela leva acento na forma verbal, auxilío. O motivo é simples: de cada dez vezes que essa palavra aparece corriqueiramente, talvez apenas uma seja na forma de verbo, nas demais ela aparece como substantivo. Então, nada mais lógico que se deixe o acento para diferenciar o verbo. Há mais bom senso na ortografia espanhola nesse aspecto.

VEJA - O acordo prevê também a volta das letras k, w e y ao alfabeto, assim como a eliminação do trema no u. O que acha dessas propostas?
ALMEIDA - As três letras em questão nunca deveriam ter saído do alfabeto. Precisamos delas no dia-a-dia, na matemática, por exemplo, e também na escrita comum. Quanto ao trema, é inútil, ninguém precisa dele. Na verdade, quem deve ensinar a pronúncia certa é a escola. Eu mesmo não uso acentos quando escrevo meus rascunhos. Para quê? Eu sei ler. Mas para acrescentar o k, o w e o y ao alfabeto, assim como para eliminar o trema, não é preciso fazer uma grande reforma ortográfica. Basta um decretozinho, uma lei que regule o assunto.

VEJA - As gírias atentam contra o bom português?
ALMEIDA - Não sou contra as gírias. Elas são um fenômeno normal, que revela a saúde do idioma. Elas em geral duram seis meses ou um ano. Conforme sua natureza, a gíria entra para o dicionário ou para a gramática. Por que eu investiria contra a expressão 'é sopa' quando ela surgiu? Há quanto tempo não se ouve essa expressão?

VEJA - O senhor é contra os neologismos?
ALMEIDA - O neologismo é uma necessidade. Se há invenções, precisamos dar nomes a elas. Vamos buscar esse nome com radicais e sufixos nossos, ou com radicais gregos, latinos, ou vamos adaptar a forma inglesa, francesa ou alemã à nossa forma. O estudo da etimologia é maravilhoso, embora não tenha utilidade. Mas é curioso. Por exemplo: poucos sabem que a palavra joelho - ou geolho, como se dizia antigamente -, em português, é a mesma palavra knee, em inglês. A origem de ambas é genunculum, em latim. A sílaba inicial ge é gutural forte, corresponde, na pronúncia latina, ao som de k em inglês. O n já está na palavra e a terminação unculum corresponde à nossa terminação lho ou aos dois e do inglês. O estudo do latim é necessário. Foi uma infelicidade jogá-lo fora do currículo escolar no Brasil, mormente para quem vai praticar leis, estudar Direito.

VEJA - A língua portuguesa tem bons dicionários? Quais?
ALMEIDA - Prefiro não propagandear os dicionários que temos. Mas posso elogiar o de Alberto Carlos Silva, um autor de Campinas que morreu mocíssimo.

VEJA - Como o senhor vê as atividades da Academia Brasileira de Letras?
ALMEIDA - Sabe quantas vezes Rui Barbosa esteve na Academia? Uma única. Euclides da Cunha nunca precisou dela. Monteiro Lobato idem. Mas há escritores que são fregueses das academias de letras que se espalham pelo país. A Academia não contribui em nada para a melhora do idioma.

VEJA - Desde quando o brasileiro fala e escreve mal?
ALMEIDA - Pode-se dizer que o início da derrocada da nossa língua data de 1931. Com a Revolução de 30, introduziram-se as férias escolares de julho. Aí ela começou a degringolar. Talvez os próprios pais tenham provocado essa mudança, por querer descansar, mas esse descanso começou a prejudicar o ensino dos filhos.

VEJA - Essa explicação não é demasiado simples?
ALMEIDA - Essa é uma imagem histórica que uso para ilustrar um fenômeno que é bem mais complexo. O erro principal vai mais longe - na pobreza de horas diárias de aula no curso primário, por exemplo. Verifique-se se em algum país dito civilizado existem menos de oito horas de aula por dia no curso primário. Em todo os países o aluno fica na escola oito horas. Mas no Brasil o aluno vai à escola para comer Há também a questão da remuneração dos professores: os que ensinam português não podem ter o mesmo salário dos que ensinam desenho, por exemplo. Que trabalho tem um professor de desenho? Num relance ele dá a nota para o aluno. O professor de português tem que ler palavra por palavra, para ver se o aluno não trocou um c por dois s, um g por j. E ao voltar à sala de aula ele tem que chamar os alunos um por um para explicar os erros. O de Antonio vai servir de esclarecimento para Benedito, todos se aproveitam dos erros de todos, mas esse trabalho tem que ser bem remunerado.

VEJA - Que outras deficiências do ensino fazem com que o brasileiro fale mal seu idioma?
ALMEIDA - Existe hoje uma indústria do livro didático, comandada por indivíduos incapazes de montar ou explorar um colégio, um curso que seja. Esses livros didáticos não têm concorrência, contenham eles as maiores violações gramaticais e asnices ortográficas. O professor chega ao colégio e já encontra nas prateleiras os livros que deve usar. Quer dizer que ele não tem competência para escolher? E quem se julgou competente para escolher? Um interesseiro. O ensino está entregue a um outro tipo de comércio, o das apostilas. Não se dá o texto da matéria, apenas apostilas. E qual é o valor das apostilas no futuro? Nenhum. É progresso encher uma classe de apostilas, de livrinhos e livrecos sem vulto nem tomo, tão inúteis quanto desarrazoados, sem índices nem remissões? O aluno deveria comprar o livro e o professor ter em mãos um texto da matéria que leciona. Até há algum tempo, o professor era obrigado a assinar um diário de aula, relatando que matéria tinha dado naquele dia. Existe isso hoje? Não. Fala-se mau português por causa do sistema escolar.

VEJA - Em que região do Brasil se fala o melhor português?
ALMEIDA - É difícil especificar, mas no Maranhão, certa vez, conheci um professor que, embora muito modesto, divertia-se conversando em latim com a filha. Isso é significativo. Oxalá um dia possamos dizer que o Brasil todo fala uma língua disciplinada, que revele educação, instrução, que revele um país de pessoas formadas para a sociedade.

VEJA - Estamos muito longe disso?
ALMEIDA - A distância é de pelo menos três gerações.