quinta-feira, maio 21, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução para "Desejo e Amor"

É perigoso arrebatar do amor a ponte do desejo, a fim de torná-lo mais puro. Deste modo, arriscamo-nos aniquilá-lo. O desejo há de ser limitado, e não sufocado. Ele morre quando satisfeito, mas se fortalece ao mudar de objeto. Quando não busca seu termo em uma satisfação instantânea, não cessa de produzir novos frutos para a eternidade.

De modo claríssimo e vivíssimo, o amor resume todas as características da consciência. Nele observa-se melhor o pensamento oscilar entre a recordação e o desejo, despertar a recordação pelo desejo, alimentar o élan em direção ao porvir com imagens do passado, e buscar – sem sucesso – um estado de estabilidade pelo qual identificar-se-iam desejo e recordação; a recordação seria o suficiente para despertar o desejo e satisfazê-lo: tal satisfação triunfaria sobre o tempo, sobre a resistência e até sobre a dualidade entre sujeito e objeto. Ainda que não fosse [um estado] permanente, estaria pelo menos disponível sob a forma espiritual.

Recusa do Desejo
Quando se diz que uma pessoa se contenta com pouco, é errado considerá-la um cego insensível às possibilidades que lhe poderiam ser dadas; no mais das vezes, essa pessoa tem um espírito lúcido e vigoroso, capaz de descobrir naquilo que se ofereceu a ela riquezas infinitamente maiores do que as sugestões de uma imaginação incerta e volátil, a qual está sempre a fugir do real e é incapaz de se fixar nele.

O desejo mais profundo
Quando damos à luz aquele desejo, o mais profundo dentre todos, ele termina por não se distinguir mais de sua própria satisfação. Nele confundem-se movimento e repouso, é um ato que se transformou em estado. Ele não precisa sair de si, e contudo está inteiramente fora de si mesmo e perante aquilo que o satisfaz.

Qualquer esforço na vida tende a abolir os desejos particulares, e a criar um desejo sem objeto e constante – é o que dá às nossas ações uma significação absoluta e um valor infinito.

Quando uma pessoa padece o tormento dos desejos particulares, o que ela denomina em si como o desejo mais profundo, também pode chamar de o dever.

Não existe possessão de si que não seja em si uma exigência de possessão do mundo. Consiste a sabedoria em contentar-se com aquilo que é exigido de nós (como participação), e em ser capaz de cumprir, em face de tudo o mais, um ato de aceitação.

Quem condena à miudo o desejo, pensa que nós nos limitamos a padecê-lo. Todavia é preciso também aceitá-lo e consenti-lo. É o desejo que cria o elo entre a natureza e o mundo, sustentando ao mesmo tempo nossa sujeição e nossa independência. Depende de nós aceitar esse dom, que é uma carência com a qual devemos consentir, para que as coisas mesmas se encarreguem de preenchê-la.

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