domingo, maio 24, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Viver na Verdade"

Em primeiro lugar, é necessário apreender a verdade em uma espécie de intuição sem objeto, cujas verdades particulares são, por assim dizer, suas partes. Essas partes então aparecem, por sua vez, em um movimento adequado e luminoso. Mas uma pessoa que só se apegue às verdades particulares e pensa que em si são bastantes, nelas encontra uma massa sombria onde é inútil penetrar, e a sutileza com que persiste nesse exame, em lugar de esclarecê-la, aumenta sua obscuridade.

Nas ciências, nas artes e na filosofia, a dificuldade está no cumprimento de uma operação dupla que consiste na análise e na recriação do real, e ao mesmo tempo na manutenção habitual do contato com o mesmo real, experimentando vivamente a totalidade dessa presença, fazendo um só corpo com ela, e antes de tudo sabendo que as sucessivas opiniões que podemos ter se referem a ela.

Para descobrir a verdade, ou somente percebê-la, é preciso simplicidade e, se é lícito dizer assim, nudez de coração. A curiosidade e os esforços da razão detêm e embaraçam o espírito nas cadeias da vaidade.

O princípio fundamental do método é que só pode existir experiência de um ato, e que a experiência desse ato é também a realização de um ato.

Não se trata de forçar nosso espírito, mas de alçá-lo até o lugar onde possa descortinar tudo, e enxergar todos os aspectos do real se destacar perante si, antes mesmo que ele intentasse procurá-los. Só então nossa atividade encontra, não um termo, mas a perfeição de seu exercício. Ela não me oferece a possessão permanente de um bem adquirido, antes a livre disposição de uma faculdade que a renova e multiplica indefinidamente. Não posso dizer que fiz alguma coisa por alguém enquanto não conduzi-lo até a esse ponto.

Não se pode afirmar que uma pessoa saiba de algo, se se contenta em guardá-lo sem emprego. Só se adquire um conhecimento no momento em que ele deixa de ser conhecimento, e se torna parte de nós, i. é, meu ser pessoal e agente. É a demonstração que o conhecimento, dentro de um ser, é o mediador da existência, ser esse cuja essência é participante. Justamente quando o conhecimento deixa de ser abstrato e objetivo* (o que dá no mesmo), i. é, quando deixa de ser conhecimento, é que ele incorpora-se ao eu, à própria vida da pessoa; por sua vez, a pessoa é transformada e recriada por ele.

É inerente ao método nos permitir reconhecer esses momentos de lucidez, nos quais a realidade se ilumina, e multiplicá-los, guardá-los na memória e fazê-los a conduta habitual da vida.

É mais importante saber conservar em si as verdades antigas que descobrir verdades novas.

Ninguém poderá lançar jamais uma nova luz sobre uma questão particular. Dentro da pessoa está toda a verdade, se bem que não a abarquemos totalmente, de tal sorte que, quando alguém pensa que ela se avoluma, na verdade está apenas descobrindo-lhe novas riquezas. Todo conhecimento está contido em uma análise de si, e a percepção do mundo é apenas o instrumento [dessa análise].

O conhecimento é uma comunicação espiritual, cujo tipo mais puro é encarnado na amizade: só nela se realiza a forma perfeita da relação entre sujeito e objeto, que se denomina reciprocidade, e da relação entre o mesmo e o outro, que é a comunhão. Além disso, é o modelo a partir do qual se há de regular o conhecimeto da natureza, de si e de Deus.

*quando deixe de ser meramente transitivo, e se arvore em ponte entre o ser e o mundo [N. do T.].

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