quarta-feira, abril 22, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "O Topo da Consciência"

Ele está no topo da alma, onde fica mais perto do céu que a graça de nós: em seguida, [qual um riacho,] descende pelas encostas.

No topo da alma, tudo é suma atividade e sumo repouso, suma exaltação e suma quietude, suma liberdade e suma necessidade.

No entanto, o espaço é tão exíguo que sempre está-se a ponto de cair: o menor movimento é o bastante para se despenhar. É uma espécie de equilíbrio que dá uma sensação de segurança, mas que se sabe contudo que não pode durar, que está sempre prestes a ser rompido.

É um estado de plenitude e gozo, mas tão intenso e profundo que não se saberia distinguir de um estado de sofrimento e angústia.

É uma extraordinária tensão emocional, onde se encontram todos os segredos que a análise nos descortinará a pouco e pouco; é também a união de todos os contrários que a vida está sempre a jogar uns contra os outros: ali não existe diferença entre o eu e o outro, entre o gozo e a dor, entre dar e receber. A consciência não está de modo algum abolida: somos nós que ocupamos o espaço que pertence a ela.

É o momento em que a alma vive em um esquecimento tão profundo de tudo quanto lhe respeita, que até a própria existência se retira dela. A alma passa a não desejar nem a morte nem a vida, todavia as harmoniza miraculosamente: eis o lugar onde irrompe aquele fogo abrasador, no qual a matéria se consome. Daí a alma remonta à fonte da atividade criadora, até o lugar onde o ser e o ato são apenas um.

O topo da alma é o despertar do sumo desejo que nasce no fundo de todas as consciências, contudo esse desejo só pode nascer após se satisfazer naquela inspiração infinita que descobre o absoluto em todos os lugares, tornando-nos indiferentes à situação, ao tempo, ao acontecimento, mas dando sentido a todas as coisas, inclusive às menores. Se não fosse assim, as únicas experiências da consciência seriam a dissipação, a dúvida, a fadiga, o vazio, o tédio e a morte.

Nesse tipo de presença pura do ser, todas as diferenças de nível entre indivíduos estão abolidas. As obras temporais - a ordem em que se produziram, o esforço que dispenderam, o mérito que lucramos delas - arruínam-se num abrir e fechar de olhos. O alcance do objetivo apaga o caminho: o esforço da busca se reduz a nada; é impossível envaidecer-se dele agora. Consiste a verdadeira simplicidade d’alma em agradecer aos Céus os dons recebidos, que ultrapassam em muito os esforços da vontade, e não admirar-se que eles nos tenham levado até lá. Se compararmos a superabundância do dom recebido com o que poderíamos fazer para adquiri-lo, e a eternidade redescoberta com as etapas de nossa peregrinação temporal em sua direção, encontraremos a justificativa para o paradoxo de Mateus, que diz que a recompensa dos trabalhadores da primeira hora é igual a dos trabalhadores da última hora. Contudo, quem ousaria daí concluir pela inutilidade da ação? A ação está a perseguir a Deus a todo instante, e não apenas ao termo.

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