terça-feira, abril 14, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Inspiração"

A filosofia dá uma forma racional e humana à uma verdade cuja fonte está acima do homem, e mesmo da razão. Contudo, ela transforma a luz divina em trevas, a partir do momento em que pretende esclarecê-la com uma luz humana, o que é inverter a verdadeira ordem.

Para ficar em estado de constante inspiração e graça, é suficiente se distanciar do corpo e das preocupações do amor-próprio. A purificação espiritual por si só consegue produzir esse efeito, já que nossa essência é toda ela espiritual. É justamente ela o que sobra, e não o nada, quando nos despojamos de tudo o mais.

Escutar a verdade é fácil, mas não aniquilar-se perante ela e deixá-la falar sozinha. Contudo, como quiséssemos nos arvorar em seus arautos e intérpretes, terminamos por mesclá-la com os vapores do amor-próprio, que estão sempre a obscurecê-la e corrompê-la.

O trabalho intelectual não consiste em concentrar esforços para inventar ideias novas e inéditas, nem meramente em esperar que elas venham nos visitar: ele é antes uma atenção purificadora que afugenta da consciência os movimentos do desejo, as procupações do interesse e da vaidade, até que encontremos em nós as puras operações do pensamento, de tal modo que, quando as encontramos, não sabemos se descobrimos algo semelhante a um objeto dado, ou se foi a vontade que as produziu, uma vez que essas operações parecem que se desdobram por si mesmas.

Consciência e inspiração
Existe uma dualidade que é inseparável da consciência, que opõe o eu e o mundo, de tal sorte que o eu, afigura-se-me, é puro poder de pensar e de julgar, e o mundo uma matéria inerte incapaz de respondê-lo e satisfazê-lo. Contudo o eu e o mundo se destacam um do outro no interior do mesmo Tudo, de tal modo que, opondo-se um ao outro, devem comungar entre si, como as duas bordas de uma mesma fissura.

Só acima da consciência é que se encontra a unidade que ela rompeu e sempre busca restituir, como se observa na espontaneidade da natureza, nos movimentos da inspiração ou da graça. Não cabe à consciência produzir ou substituir esses movimentos, mas somente desimpedi-los e recolher seus frutos.

Não devemos pedir por ideias: elas não aceitam que usem de força com elas. É muito difícil para nós reconhecê-las e acolhê-las quando elas vêm. O vazio de meu pensamento está perfurado por todas as ideias que alguma vez atravessaram meu espirito e não fui capaz de reter.

É preciso saber identificar em si aquela advertência sutil, sempre presente, e quase insensível, pela qual aprendo a discernir o real que jaz atrás da aparência, o valor atrás do desejo, a aspiração secreta da alma atrás de tudo aquilo que me impõem ou ordenam.

Ninguém sofre de falta de ideias. Mas elas não surgem ao belprazer. Elas parece que se apresentam quando não temos mais o que fazer com elas, e fogem quando precisamos delas (quando as chamamos). Todavia, se o espírito é desinteressado e puro, a necessidade nascerá no instante em que a ideia se apresentar, de tal sorte que a ideia nunca ficará ociosa, nem a necessidade sem alimento.

Como surge em nós o pensamento, por menor que seja? Ele não surge, mas está dado desde sempre. Ele é uma experiência, contudo é uma experiência espiritual.

As margens da inspiração [são o lugar] onde a consciência, em vez de estar fechada em si por meio da reflexão, mantém relações com a potência criadora.

[É preciso] se conservar em um estado permanente de inspiração, i. é, de pura receptividade interior (sem que haja esforço de entusiasmar-se), e de confiança em si.

A entrada e o caminho da inspiração [são respectivamente] o instante e o tempo. O surrealismo é uma teoria da inspiração, mas como nega o valor da vontade e da razão, dá-lhe como fundamento o acaso.

Só se produz alguma coisa grandiosa na ausência de recordações. Eis aí a inspiração, que é o inverso da memória e, contudo, é idêntica a ela.

Pode-se definir a inspiração como a subordinação do tempo à eternidade, a qual se realiza no instante por uma sorte de ruptura na ordem do devir. Força é permanecer sempre em estado de ruptura.

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