sábado, abril 04, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Sinceridade"

Não consiste a verdadeira sinceridade na correspondência exata entre o que trazemos em nós e o que exprimimos. O exterior não é a imagem do interior, mas uma outra natureza. Dentro de si cada um encontra um mundo de possibilidades. Estando aí, desde o momento que volte os olhos para si, uma pessoa experimenta a impressão de uma riqueza infinita, a qual acredita haver descoberto repentinamente, um mundo onde tudo se lhe oferece de um só lance, onde as coisas atraem-se umas às outras ao invés de se excluirem, onde as coisas desaparecem sem contudo serem retiradas de nós, conservando em meio às flutuações de atenção a mesma presença latente, e que se opõe a nós somente, como primícias de nossa liberdade, quando em estado nascituro. Na unidade móvel de todas as possibilidades, a palavra e a ação estão sempre a escolher uma dentre elas para encarnar. Contudo, [nessa encarnação], ocorre uma mudança de natureza. Com a escolha, comprometemos nossa vida e a pureza espiritual é perdida. A natureza da vida espiritual sempre pede um retorno contínuo, mas não uma permanência contínua. Por tal razão, a prática da sinceridade exige um refinamento singular. Não posso simplesmente tomar posse dos estados que experimento, nem por meio dos pensamentos que tenho sobre eles, nem pelo consentimento que lhes dou. Enquanto não se exponham esses estados à luz do dia, seja com palavras ou atos, ainda haverá neles algo de virtual e inacabado. Mas basta que eu lhes dê um corpo para que mudem de domínio; pode acontecer de eu mesmo já não os reconhecer. Já não me pertecem mais. Diante deles, recuo. Eles estão fora de meu alcance, e por vezes até me surpreendem. Isso é o suficiente para explicar um fenómeno estranho: quando existe um segredo cuja essência é permanecer secreto, a partir do momento em que o traem, nossa sinceridade também é traida, e aquilo que deveria se revelar, acaba por se dissipar. Vós me perguntais qual sentimento experimento. Se o escrúpulo me obriga a declará-lo, a declaração lhe dá uma consistência que ele não tinha, e altera sua qualidade. Ela põe em risco de corrupção a pureza das relações que eu travo convosco e que, devido à confiança que depositava em vós, buscava assegurar e fortificar. Mau grado o paradoxo aparente, é preciso ser muito discreto para ser sincero. Não existem confidências que não se sigam de implicações terríveis, que não corporifiquem o que temíamos fosse inevitável. Mesmo nas confissões, em que Deus é testemunha, existe uma fineza que nem o confessor nem o penitente podem transgredir sem ferir a sinceridade, caso forcem-na até seu limite último.

A sinceridade é uma virtude mais da ação que do conhecimento. Ela é, ao mesmo tempo, a descoberta das potências e sua transformação em ato. O ser já realizado, onde buscamos o que somos, assim acreditamos, dissimula nosso íntimo, que nunca cessou de se manifestar, i. é, de nascer.

A verdadeira sinceridade consiste em ser a si mesmo, i. é, não basta impedir que haja um fosso entre o que se é e o que se mostra, mas antes é preciso fazer-se a si, i. é, ter penetração suficiente para descobrir as próprias potências, e coragem suficiente para transformá-las em ato.

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