quarta-feira, abril 08, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "A Arte como Revelação"

Dentre todas as criações do espírito humano, a arte está numa situação excepcional. Se a tomamos em suas manifestações mais elevadas, ela dá à consciência uma satisfação gratuita e perfeita que supera as expectativas e as esperanças. Ela põe em movimento todas as potências interiores, que em vez de se entrechocarem umas nas outras, se correspondem, sustentam e unificam. Como se antecipasse ao desejo, a arte desperta-o desde o fundo de nós mesmos, o descobre e suscita. Mas, ao mesmo tempo, o apazigua e enriquece. Na emocão estética, o desejo e o objeto do desejo são dados de uma só vez, e se correspondem como numa oscilação ininterrupta; não obstante, em meio à vida quotidiana, eu não me depare com nenhum objeto que possa se igualar à potência de meu desejo, no caso da arte as relações encontram-se invertidas. O desejável é anterior ao desejo. Temo que nunca encontrarei em mim desejo suficiente para atualizar e possuir esse desejável. Normalmente, o desejo costuma mostrar-me a insuficiência do real, e transportar-me para além dele. Neste caso, dá-se o contrário: é o real que temos diante dos olhos que nos alimenta incessantemente o desejo, sem que este nunca esgote aquele. Para tanto, foi preciso apenas um ligeiro toque de atividade humana que, ao transportar o real para dentro da obra de arte, conferiu ao real, de chofre, uma luz extraodinária, um magnífico plano de fundo, uma afinidade misteriosa conosco. Nasce a arte no momento em que o hiato que separa o real e o espírito é liquidado, em que a contradição entre o sujeito e o objeto, entre a aspiração e o dado foi superada, em que se abre uma porta para a comunicação incessante entre a consciência e a natureza, de tal modo que se entregam uma a outra sem cessar, dando a impressão de que ambas estão por sua vez a dar e a receber.

O mundo, que outrora era um obstáculo, torna-se agora para meu espírito uma senda aberta. Para mim, as coisas deixaram de ser obstáculos: descubro entre elas e mim uma afinidade que é objeto de uma possessão atual, mas que ainda se conserva, e sempre, como uma promessa e uma esperança. O sinal da emoção estética é o gozo que sinto ao perceber que as coisas são, de fato, o que são. Não tenho mais medo de que me escapem, porque é inerente à arte captá-las e oferecê-las, por assim dizer, à minha disposição; elas estão indefinidamente à minha disposição, por isso já não tenho mais medo de que minha possessão sobre elas se esgote e encerre as possibilidades futuras. Além disso, não basta que a emoção estética se renove mais e mais e se regenere à medida que se estenda e aprofunde, mas ainda é preciso que ela multiplique as razões pelas quais queiramos que as coisas sejam exatamente o que são. Assim ela nos permite dar ao tempo seu significado verdadeiro, o de que ele não tira de nós nada daquilo que em verdade possuimos, e se por acaso ele nos impele em direção ao futuro, é só para nos descortinar a plenitude infinita de um valor que está, todavia, sob nossas vistas.

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