quarta-feira, abril 29, 2009

Louis Lavelle - Nova Tradução de "Reflexões sobre o Ato"

No ato existe um mistério, que é a chave para todos os mistérios. O ato é um primeiro começo, sendo inútil imaginar um ser que seja anterior a ele ou ao qual pertença esse ato, já que o ato é em si o primeiro começo nesse ser. No ser, não existe nada que anteceda o ato, nem nada que possa explicar seu próprio surgimento.

Nada existe que seja tão puramente interior como o ato, devido à iniciativa que lhe tão própria; e é justamente o ato, e não o estado - sempre passivo em relação a um outro - , aquilo que em si define a interioridade. O milagre do ato é ser, ao mesmo tempo, um impulso em direção a um exterior, a um efeito e a um futuro, de tal sorte que poder-se-ia imaginar que ele é um elo entre a interioridade e a exterioridade, seja por que necessite de uma matéria sobre a qual atue, seja por que essa matéria seja por assim dizer o produto de sua atividade. Contudo isso é apenas uma aparência. Como o ato poderia sair de si mesmo? A expansão que supomos exista nele é totalmente interior. E o que denominamos como matéria, efeito ou produto é uma limitação pela qual ele imprime sua marca sobre aquilo que lhe é transitivo e que, à medida que o ato progride, torna-se mais e mais complexo e significativo.

Está-se sempre a considerar o ato e o pensamento como opostos; todavia deve haver entre eles um elo tão estreito que se torne impossível distingui-los. Não existe outro modo desses dois termos alcançarem sua perfeição. A vaidade de nossos atos julga a vaidade de nossos pensamentos. Um pensamento que não chega a ser um ato é tão-somente um possível sem consistência; um ato que não é pensamento reduz-se a um movimento sem significação.

A atividade sempre deve sobrepujar o objeto; se não fosse assim, ela perderia a continuidade e se enredaria no próprio esforço. Não convém de modo algum querer dispender mais forças do que se têm. Contudo acontece a uma pessoa se tornar incapaz para qualquer tarefa, ao pensar que essa está acima de suas forças, quando na verdade estamos nós acima da tarefa.

Eis a dupla ilusão sobre o ato: a de pensar que ele deve ter uma finalidade e um efeito. Todavia ele não tem fim, o presente é-lhe suficiente. Ele é aquilo que não se atualiza. O ato não tem efeitos, ou antes, o efeito é tão-somente um meio pelo qual ele exerce e possui a si mesmo.

quarta-feira, abril 22, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "O Topo da Consciência"

Ele está no topo da alma, onde fica mais perto do céu que a graça de nós: em seguida, [qual um riacho,] descende pelas encostas.

No topo da alma, tudo é suma atividade e sumo repouso, suma exaltação e suma quietude, suma liberdade e suma necessidade.

No entanto, o espaço é tão exíguo que sempre está-se a ponto de cair: o menor movimento é o bastante para se despenhar. É uma espécie de equilíbrio que dá uma sensação de segurança, mas que se sabe contudo que não pode durar, que está sempre prestes a ser rompido.

É um estado de plenitude e gozo, mas tão intenso e profundo que não se saberia distinguir de um estado de sofrimento e angústia.

É uma extraordinária tensão emocional, onde se encontram todos os segredos que a análise nos descortinará a pouco e pouco; é também a união de todos os contrários que a vida está sempre a jogar uns contra os outros: ali não existe diferença entre o eu e o outro, entre o gozo e a dor, entre dar e receber. A consciência não está de modo algum abolida: somos nós que ocupamos o espaço que pertence a ela.

É o momento em que a alma vive em um esquecimento tão profundo de tudo quanto lhe respeita, que até a própria existência se retira dela. A alma passa a não desejar nem a morte nem a vida, todavia as harmoniza miraculosamente: eis o lugar onde irrompe aquele fogo abrasador, no qual a matéria se consome. Daí a alma remonta à fonte da atividade criadora, até o lugar onde o ser e o ato são apenas um.

O topo da alma é o despertar do sumo desejo que nasce no fundo de todas as consciências, contudo esse desejo só pode nascer após se satisfazer naquela inspiração infinita que descobre o absoluto em todos os lugares, tornando-nos indiferentes à situação, ao tempo, ao acontecimento, mas dando sentido a todas as coisas, inclusive às menores. Se não fosse assim, as únicas experiências da consciência seriam a dissipação, a dúvida, a fadiga, o vazio, o tédio e a morte.

Nesse tipo de presença pura do ser, todas as diferenças de nível entre indivíduos estão abolidas. As obras temporais - a ordem em que se produziram, o esforço que dispenderam, o mérito que lucramos delas - arruínam-se num abrir e fechar de olhos. O alcance do objetivo apaga o caminho: o esforço da busca se reduz a nada; é impossível envaidecer-se dele agora. Consiste a verdadeira simplicidade d’alma em agradecer aos Céus os dons recebidos, que ultrapassam em muito os esforços da vontade, e não admirar-se que eles nos tenham levado até lá. Se compararmos a superabundância do dom recebido com o que poderíamos fazer para adquiri-lo, e a eternidade redescoberta com as etapas de nossa peregrinação temporal em sua direção, encontraremos a justificativa para o paradoxo de Mateus, que diz que a recompensa dos trabalhadores da primeira hora é igual a dos trabalhadores da última hora. Contudo, quem ousaria daí concluir pela inutilidade da ação? A ação está a perseguir a Deus a todo instante, e não apenas ao termo.

terça-feira, abril 14, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Inspiração"

A filosofia dá uma forma racional e humana à uma verdade cuja fonte está acima do homem, e mesmo da razão. Contudo, ela transforma a luz divina em trevas, a partir do momento em que pretende esclarecê-la com uma luz humana, o que é inverter a verdadeira ordem.

Para ficar em estado de constante inspiração e graça, é suficiente se distanciar do corpo e das preocupações do amor-próprio. A purificação espiritual por si só consegue produzir esse efeito, já que nossa essência é toda ela espiritual. É justamente ela o que sobra, e não o nada, quando nos despojamos de tudo o mais.

Escutar a verdade é fácil, mas não aniquilar-se perante ela e deixá-la falar sozinha. Contudo, como quiséssemos nos arvorar em seus arautos e intérpretes, terminamos por mesclá-la com os vapores do amor-próprio, que estão sempre a obscurecê-la e corrompê-la.

O trabalho intelectual não consiste em concentrar esforços para inventar ideias novas e inéditas, nem meramente em esperar que elas venham nos visitar: ele é antes uma atenção purificadora que afugenta da consciência os movimentos do desejo, as procupações do interesse e da vaidade, até que encontremos em nós as puras operações do pensamento, de tal modo que, quando as encontramos, não sabemos se descobrimos algo semelhante a um objeto dado, ou se foi a vontade que as produziu, uma vez que essas operações parecem que se desdobram por si mesmas.

Consciência e inspiração
Existe uma dualidade que é inseparável da consciência, que opõe o eu e o mundo, de tal sorte que o eu, afigura-se-me, é puro poder de pensar e de julgar, e o mundo uma matéria inerte incapaz de respondê-lo e satisfazê-lo. Contudo o eu e o mundo se destacam um do outro no interior do mesmo Tudo, de tal modo que, opondo-se um ao outro, devem comungar entre si, como as duas bordas de uma mesma fissura.

Só acima da consciência é que se encontra a unidade que ela rompeu e sempre busca restituir, como se observa na espontaneidade da natureza, nos movimentos da inspiração ou da graça. Não cabe à consciência produzir ou substituir esses movimentos, mas somente desimpedi-los e recolher seus frutos.

Não devemos pedir por ideias: elas não aceitam que usem de força com elas. É muito difícil para nós reconhecê-las e acolhê-las quando elas vêm. O vazio de meu pensamento está perfurado por todas as ideias que alguma vez atravessaram meu espirito e não fui capaz de reter.

É preciso saber identificar em si aquela advertência sutil, sempre presente, e quase insensível, pela qual aprendo a discernir o real que jaz atrás da aparência, o valor atrás do desejo, a aspiração secreta da alma atrás de tudo aquilo que me impõem ou ordenam.

Ninguém sofre de falta de ideias. Mas elas não surgem ao belprazer. Elas parece que se apresentam quando não temos mais o que fazer com elas, e fogem quando precisamos delas (quando as chamamos). Todavia, se o espírito é desinteressado e puro, a necessidade nascerá no instante em que a ideia se apresentar, de tal sorte que a ideia nunca ficará ociosa, nem a necessidade sem alimento.

Como surge em nós o pensamento, por menor que seja? Ele não surge, mas está dado desde sempre. Ele é uma experiência, contudo é uma experiência espiritual.

As margens da inspiração [são o lugar] onde a consciência, em vez de estar fechada em si por meio da reflexão, mantém relações com a potência criadora.

[É preciso] se conservar em um estado permanente de inspiração, i. é, de pura receptividade interior (sem que haja esforço de entusiasmar-se), e de confiança em si.

A entrada e o caminho da inspiração [são respectivamente] o instante e o tempo. O surrealismo é uma teoria da inspiração, mas como nega o valor da vontade e da razão, dá-lhe como fundamento o acaso.

Só se produz alguma coisa grandiosa na ausência de recordações. Eis aí a inspiração, que é o inverso da memória e, contudo, é idêntica a ela.

Pode-se definir a inspiração como a subordinação do tempo à eternidade, a qual se realiza no instante por uma sorte de ruptura na ordem do devir. Força é permanecer sempre em estado de ruptura.

quarta-feira, abril 08, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "A Arte como Revelação"

Dentre todas as criações do espírito humano, a arte está numa situação excepcional. Se a tomamos em suas manifestações mais elevadas, ela dá à consciência uma satisfação gratuita e perfeita que supera as expectativas e as esperanças. Ela põe em movimento todas as potências interiores, que em vez de se entrechocarem umas nas outras, se correspondem, sustentam e unificam. Como se antecipasse ao desejo, a arte desperta-o desde o fundo de nós mesmos, o descobre e suscita. Mas, ao mesmo tempo, o apazigua e enriquece. Na emocão estética, o desejo e o objeto do desejo são dados de uma só vez, e se correspondem como numa oscilação ininterrupta; não obstante, em meio à vida quotidiana, eu não me depare com nenhum objeto que possa se igualar à potência de meu desejo, no caso da arte as relações encontram-se invertidas. O desejável é anterior ao desejo. Temo que nunca encontrarei em mim desejo suficiente para atualizar e possuir esse desejável. Normalmente, o desejo costuma mostrar-me a insuficiência do real, e transportar-me para além dele. Neste caso, dá-se o contrário: é o real que temos diante dos olhos que nos alimenta incessantemente o desejo, sem que este nunca esgote aquele. Para tanto, foi preciso apenas um ligeiro toque de atividade humana que, ao transportar o real para dentro da obra de arte, conferiu ao real, de chofre, uma luz extraodinária, um magnífico plano de fundo, uma afinidade misteriosa conosco. Nasce a arte no momento em que o hiato que separa o real e o espírito é liquidado, em que a contradição entre o sujeito e o objeto, entre a aspiração e o dado foi superada, em que se abre uma porta para a comunicação incessante entre a consciência e a natureza, de tal modo que se entregam uma a outra sem cessar, dando a impressão de que ambas estão por sua vez a dar e a receber.

O mundo, que outrora era um obstáculo, torna-se agora para meu espírito uma senda aberta. Para mim, as coisas deixaram de ser obstáculos: descubro entre elas e mim uma afinidade que é objeto de uma possessão atual, mas que ainda se conserva, e sempre, como uma promessa e uma esperança. O sinal da emoção estética é o gozo que sinto ao perceber que as coisas são, de fato, o que são. Não tenho mais medo de que me escapem, porque é inerente à arte captá-las e oferecê-las, por assim dizer, à minha disposição; elas estão indefinidamente à minha disposição, por isso já não tenho mais medo de que minha possessão sobre elas se esgote e encerre as possibilidades futuras. Além disso, não basta que a emoção estética se renove mais e mais e se regenere à medida que se estenda e aprofunde, mas ainda é preciso que ela multiplique as razões pelas quais queiramos que as coisas sejam exatamente o que são. Assim ela nos permite dar ao tempo seu significado verdadeiro, o de que ele não tira de nós nada daquilo que em verdade possuimos, e se por acaso ele nos impele em direção ao futuro, é só para nos descortinar a plenitude infinita de um valor que está, todavia, sob nossas vistas.

sábado, abril 04, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Sinceridade"

Não consiste a verdadeira sinceridade na correspondência exata entre o que trazemos em nós e o que exprimimos. O exterior não é a imagem do interior, mas uma outra natureza. Dentro de si cada um encontra um mundo de possibilidades. Estando aí, desde o momento que volte os olhos para si, uma pessoa experimenta a impressão de uma riqueza infinita, a qual acredita haver descoberto repentinamente, um mundo onde tudo se lhe oferece de um só lance, onde as coisas atraem-se umas às outras ao invés de se excluirem, onde as coisas desaparecem sem contudo serem retiradas de nós, conservando em meio às flutuações de atenção a mesma presença latente, e que se opõe a nós somente, como primícias de nossa liberdade, quando em estado nascituro. Na unidade móvel de todas as possibilidades, a palavra e a ação estão sempre a escolher uma dentre elas para encarnar. Contudo, [nessa encarnação], ocorre uma mudança de natureza. Com a escolha, comprometemos nossa vida e a pureza espiritual é perdida. A natureza da vida espiritual sempre pede um retorno contínuo, mas não uma permanência contínua. Por tal razão, a prática da sinceridade exige um refinamento singular. Não posso simplesmente tomar posse dos estados que experimento, nem por meio dos pensamentos que tenho sobre eles, nem pelo consentimento que lhes dou. Enquanto não se exponham esses estados à luz do dia, seja com palavras ou atos, ainda haverá neles algo de virtual e inacabado. Mas basta que eu lhes dê um corpo para que mudem de domínio; pode acontecer de eu mesmo já não os reconhecer. Já não me pertecem mais. Diante deles, recuo. Eles estão fora de meu alcance, e por vezes até me surpreendem. Isso é o suficiente para explicar um fenómeno estranho: quando existe um segredo cuja essência é permanecer secreto, a partir do momento em que o traem, nossa sinceridade também é traida, e aquilo que deveria se revelar, acaba por se dissipar. Vós me perguntais qual sentimento experimento. Se o escrúpulo me obriga a declará-lo, a declaração lhe dá uma consistência que ele não tinha, e altera sua qualidade. Ela põe em risco de corrupção a pureza das relações que eu travo convosco e que, devido à confiança que depositava em vós, buscava assegurar e fortificar. Mau grado o paradoxo aparente, é preciso ser muito discreto para ser sincero. Não existem confidências que não se sigam de implicações terríveis, que não corporifiquem o que temíamos fosse inevitável. Mesmo nas confissões, em que Deus é testemunha, existe uma fineza que nem o confessor nem o penitente podem transgredir sem ferir a sinceridade, caso forcem-na até seu limite último.

A sinceridade é uma virtude mais da ação que do conhecimento. Ela é, ao mesmo tempo, a descoberta das potências e sua transformação em ato. O ser já realizado, onde buscamos o que somos, assim acreditamos, dissimula nosso íntimo, que nunca cessou de se manifestar, i. é, de nascer.

A verdadeira sinceridade consiste em ser a si mesmo, i. é, não basta impedir que haja um fosso entre o que se é e o que se mostra, mas antes é preciso fazer-se a si, i. é, ter penetração suficiente para descobrir as próprias potências, e coragem suficiente para transformá-las em ato.