domingo, março 29, 2009

Louis Lavelle: nova tradução de Notas sobre o tempo

Pretendo, se Deus quiser, publicar novas traduções dos textos de Louis Lavelle. Afianço-vos que estão muitíssimo superiores às outras passadas, seja pela linguagem mais corredia, pela eliminação de vários erros de sentido, ou ainda por terem sido feitas por um tradutor quatro anos mais experiente. A todos que se interessam por estas pequenas porém valiosas notas, aconselho que passem doravante a consultar essas traduções, abandonando aquelas que, vistas agora, com olhar mais experiente e maduro, asseguro que são más, não obstante alguns elogios de almas boas e caridosas. Para começar, Notas sobre o Tempo. Luiz de Carvalho


O passado é o campo de exercício da liberdade, um universo que carrego em mim e do qual disponho. A memória é uma potência que eu exerço e não me abala exteriormente. É um mundo inteiro dentro de mim, o qual evoco quando quero. Esse mundo é atemporal e contudo ele deixa subsistir em mim o tempo do qual o evoco. Eis aí o ponto onde se reunem o tempo e a eternidade, onde o tempo, sem se extinguir, se dilui dentro da eternidade.

Mas ainda permaneço livre perante o conteudo do passado, pois que o passado transfiguro-o e sempre lhe dou novos significados, os quais outrora não eram seus (bem diferente do objeto que agora tenho perante mim e que me resta indiferente até que o olhar do artista haja-o penetrado e iluminado). Eu poderia me sujeitar à lembrança enquanto tal, mas isso não passa de uma idolatria que se justifica sob o nome de verdade, se bem que a palavra verdade tenha outro sentido e traduza o ato pelo qual reconheço não o que as coisas são, mas antes seus significados. O passado, por isso, em lugar de me jugular, me liberta... Ele é a transformação do espetáculo que se oferecera a mim em uma potência da qual disponho e cujo exercício desconhece impedimentos e obstáculos...

É um erro gravíssimo pensar que o passado serve para salvaguardar, sob forma descorada, um presente extinto. Se a única utilidade do passado é arvorar-se ilusoriamente num presente que não existe mais, isso seria a extinção da memória. Não é o objeto da memória tão-somente testemunhar que outrora existiram coisas que retornaram, de uma vez por todas, para o nada, mas antes lhes devolver a vida pela qual se fizeram, uma vida espiritual que só começa quando elas não existem mais. Deste modo, não é propriamente um erro pensar às vezes que o espírito é um nada, pois que ele é nada se o quisermos como algo que nos fora dado, mas é tudo se essa coisa se reduzir a uma aparência a qual devemos superar e abandonar, para que possamos possuir interiormente e reencontrar sempre e sempre, por meio de um ato, a essência da coisa, já despojada daquela concha que até então a dissimulava.

Assim verdade é que o passado é um término, mas quando uma coisa termina, longe de dizer que ela não é mais nada, é preciso afirmar que ela cessou de parecer, e começou a ser, o que lança uma luz singular sobre o problema da morte.

Na maioria das vezes, os homens acreditam que quando já não conseguem mais se valer de alguma coisa que lhes foi dada, ela está perdida [para sempre]. Mas é também verdade que toda perda é um ganho, pelo menos se a perda é condição para que doravante cada coisa faça parte de nosso ser espiritual. Cada um de nós sabe que os horrores da guerra permanecem vivos na memória, tão intensamente que ainda guardamos seu significado e sua realidade.

A memória nos faz espectadores da entrada do tempo na eternidade. Mas sentir-se-ia particularmente decepcionado [quem] esperasse encontrar na eternidade uma eternidade de coisas, [pois que] ela é uma eternidade de liberdade, capaz de se doar completamente, à condição precisa de que ela se manifeste conforme sua natureza.

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