segunda-feira, março 30, 2009

Louis Lavelle - Nova tradução de "Graça e Liberdade"

Graça é um movimento em comunhão com outro movimento (o qual se oferece a si) e que por um instante esconde essa comunhão.

Quase sempre se usa a vontade para resistir à graça. A graça é um outro nome para a liberdade. Já a vontade é exatamente o contrário. Foi justamente isso que Sartre não soube enxergar.

Cabe a nós, a cada instante, tornar efetiva a diferença entre natureza e graça, assim como aquela entre alma e corpo, fazendo com que a potência criadora seja em nós ou natureza ou graça.

A sorte não passa de um outro nome para a graça (os que negam a graça só sabem falar do determinismo, que governa um extrato diferente da realidade e não obstante é também uma das formas de expressão deste mundo).

A graça e a liberdade são a mesma coisa, mas a liberdade é confundida com o livre-arbítrio, o qual permite apenas um distanciamento em face do sensível.

Pode-se dizer que o homem é a imagem da liberdade, mas só é lícito dizer isso se ele participa dela (realidade ou ausência de participação, eis aí toda a diferença em relação a Sartre, que não tinha metafísica).

A experiência da liberdade é a experiência do infinito. Ela é uma experiência ainda mais primitiva que a do Cogito. A experiência do infinito é transferida para o espaço e o tempo, definidos como caminhos ou meios de liberdade. Esses caminhos ou meios são a experiência do infinito em potência, que só fará sentido à condição que eu a fundamente sobre o infinito em ato, o qual jamais é um infinito-coisa. Eis aí toda a dificuldade. O problema metafísico é o problema da experiência da liberdade e das condições que ela implica, em oposição à experiência científica, a qual é a experiência do objeto. Era natural que se excluisse a experiência da liberdade enquanto considerássemos a experiência das coisas como o modelo da experiência em si.

A liberdade não pode ser um meio de negar a existência do universo espiritual; ao contrário, é natural ao ser humano estabelecer-se nesse universo.

A liberdade é a interioridade infinita e superação infinita de si (cujas únicas limitações são as obras), se não, torna-se algo de estéril, que se esgota em movimentos de consentimento e recusa.

A liberdade é uma aquisição, é a participação assuminda. De outro modo, seria apenas padecimento. É impossível não exercer a liberdade pela qual exibimos nosso próprio ser.

A liberdade não está na separação, mas na comunhão.

Há de se buscar o ponto em que coincidam a liberdade e o amor. Esse é o ponto que Sartre ignora.

É inerente à liberdade não apenas obrigar-me a escolher entre possíveis no tempo, mas a escolher entre o tempo e a eternidade, ou melhor, a preferir ao tempo a eternidade.

domingo, março 29, 2009

Louis Lavelle: nova tradução de Notas sobre o tempo

Pretendo, se Deus quiser, publicar novas traduções dos textos de Louis Lavelle. Afianço-vos que estão muitíssimo superiores às outras passadas, seja pela linguagem mais corredia, pela eliminação de vários erros de sentido, ou ainda por terem sido feitas por um tradutor quatro anos mais experiente. A todos que se interessam por estas pequenas porém valiosas notas, aconselho que passem doravante a consultar essas traduções, abandonando aquelas que, vistas agora, com olhar mais experiente e maduro, asseguro que são más, não obstante alguns elogios de almas boas e caridosas. Para começar, Notas sobre o Tempo. Luiz de Carvalho


O passado é o campo de exercício da liberdade, um universo que carrego em mim e do qual disponho. A memória é uma potência que eu exerço e não me abala exteriormente. É um mundo inteiro dentro de mim, o qual evoco quando quero. Esse mundo é atemporal e contudo ele deixa subsistir em mim o tempo do qual o evoco. Eis aí o ponto onde se reunem o tempo e a eternidade, onde o tempo, sem se extinguir, se dilui dentro da eternidade.

Mas ainda permaneço livre perante o conteudo do passado, pois que o passado transfiguro-o e sempre lhe dou novos significados, os quais outrora não eram seus (bem diferente do objeto que agora tenho perante mim e que me resta indiferente até que o olhar do artista haja-o penetrado e iluminado). Eu poderia me sujeitar à lembrança enquanto tal, mas isso não passa de uma idolatria que se justifica sob o nome de verdade, se bem que a palavra verdade tenha outro sentido e traduza o ato pelo qual reconheço não o que as coisas são, mas antes seus significados. O passado, por isso, em lugar de me jugular, me liberta... Ele é a transformação do espetáculo que se oferecera a mim em uma potência da qual disponho e cujo exercício desconhece impedimentos e obstáculos...

É um erro gravíssimo pensar que o passado serve para salvaguardar, sob forma descorada, um presente extinto. Se a única utilidade do passado é arvorar-se ilusoriamente num presente que não existe mais, isso seria a extinção da memória. Não é o objeto da memória tão-somente testemunhar que outrora existiram coisas que retornaram, de uma vez por todas, para o nada, mas antes lhes devolver a vida pela qual se fizeram, uma vida espiritual que só começa quando elas não existem mais. Deste modo, não é propriamente um erro pensar às vezes que o espírito é um nada, pois que ele é nada se o quisermos como algo que nos fora dado, mas é tudo se essa coisa se reduzir a uma aparência a qual devemos superar e abandonar, para que possamos possuir interiormente e reencontrar sempre e sempre, por meio de um ato, a essência da coisa, já despojada daquela concha que até então a dissimulava.

Assim verdade é que o passado é um término, mas quando uma coisa termina, longe de dizer que ela não é mais nada, é preciso afirmar que ela cessou de parecer, e começou a ser, o que lança uma luz singular sobre o problema da morte.

Na maioria das vezes, os homens acreditam que quando já não conseguem mais se valer de alguma coisa que lhes foi dada, ela está perdida [para sempre]. Mas é também verdade que toda perda é um ganho, pelo menos se a perda é condição para que doravante cada coisa faça parte de nosso ser espiritual. Cada um de nós sabe que os horrores da guerra permanecem vivos na memória, tão intensamente que ainda guardamos seu significado e sua realidade.

A memória nos faz espectadores da entrada do tempo na eternidade. Mas sentir-se-ia particularmente decepcionado [quem] esperasse encontrar na eternidade uma eternidade de coisas, [pois que] ela é uma eternidade de liberdade, capaz de se doar completamente, à condição precisa de que ela se manifeste conforme sua natureza.

segunda-feira, março 23, 2009

Fulton Sheen - Leia os ditos, veja o filme (se quiser)



Considerando-se o universo um todo contínuo, é perfeitamente possivel que existam seres inteligentes sem corpos, os quais denominamos anjos.


Se existem coisas no universo, é porque participam do Ser de Deus; se existem os seres vivos, é porque são reflexos da vida de Deus; se existem seres dotados de inteligência e vontade – como os homens e os anjos – é porque participam do Intelecto Soberano, que é Deus.


Dizem que a América sofre devido à intolerância – não é verdade. O sofrimento dela se origina da tolerância, já que tolera igualmente o certo e o errado, a verdade e a falsidade, a virtude e o vício, o Cristo e o caos. Comparada à invasão dos dogmáticos, é a invasão dos compreensivos em uma ameaça muito maior a nossa pátria.


A tolerância é uma atitude equilibrada de paciência perante o mal, uma abstenção que nos impede de demonstrar raiva ou infligir alguma punição. Somente as pessoas se podem dizer tolerantes, nunca a verdade.


Na América existe no máximo uma centena de pessoas que odeia a Igreja Católica. Entretanto existem milhões de pessoas que odeiam aquilo que acreditam ser a Igreja Católica – o que é muito diferente.


O princípio democrático é o reconhecimento dos direitos soberanos e inalienáveis do homem como dons de Deus, o qual é a Fonte de toda lei.


Toda a ansiedade está relacionada com o tempo. Os problemas fundamentais da psiquiatria giram em torno do desespero, do pessimismo, da melancolia e de outros complexos inerentes ao passado, ou então do medo, da ansiedade e das preocupações, que são as projeções do que há de vir.


Algumas pessoas se recusam a encarar o sofrimento porque isso gera responsabilidades.


Muitas pessoas são estimadas como boas, quando na verdade são apenas passivas. Em diversas ocasiões se regozijam de terem a mente aberta, mas elas são tão abertas que nunca têm tempo para fechar sua mente e arrumá-la de vez em quando.


Preparo todos os meus sermões diante do Santíssimo Sacramento. Assim como o recreio é mais agradável e proveitoso em um dia ensolarado, assim a criatividade homilética se alimenta perante a Eucaristia. As ideias mais refulgentes se originam do encontro face a face com Deus. É o Espírito Santo, que presidiu a Encarnação, a atmosfera mais propícia à iluminação. O papa João Paulo II tem sempre consigo uma prancheta ou um bloco de anotações quando está na presença do Santíssimo Sacramento. Eu fiz isso minha vida inteira, e estou certo de que ele o faz pelas mesmas razões, porque o amante sempre trabalha melhor na presença do amado.


O pagamento da didrácma do templo foi uma das ocasiões em que Nosso Senhor se associou a Pedro. E é o único momento da Escritura em que Deus se associa com um ser humano sob o pronome pessoal nós. Na época do pagamento da didrácma do templo, ordenou Nosso Senhor a Pedro que a pagasse, afirmando que devia fazê-lo “por mim e por ti”. E depois acrescentou: “convém que nós não sejamos motivo de escândalo”. Nesse momento ele e Pedro eram um só, como ninguém antes o havia sido. Nós, o Cristo e Pedro. Essa é a razão por que as encíclicas papais começam com a palavra nós.


O certo é certo, ainda que ninguém esteja certo; e o errado é errado, ainda que todos estejam errados.


O comunismo é a conclusão lógica da desumanização do homem.


Atualmente o perigo reside na crença de que as pessoas não estão doentes, mas apenas a sociedade.


Uma das funções dos anjos é a iluminação, e a outra é a proteção.


Tu tens a oportunidade de ascender a uma classe muito melhor que aquela a que almejas. Por que te preocupas em manter as aparências? Fica na companhia dos anjos e tão logo serás mais sábio e feliz.


Existem anjos próximos de ti para guiar-te e proteger-te, e para isso basta invocá-los. Eles chegam muito antes do que pensamos, e vivem em mundo muito maior do que pensamos.


Se tu não te comportas como acreditas, terminarás por acreditar como te comportas.


Deve-se examinar a cabeça de qualquer um que vá ao psicanalista.


A maioria das pessoas que vão ao psiquiatra pensam que estão loucas. Quando elas saem de lá, pensam que os psiquiatras estão loucos.


A psicanálise dirá que se uma pessoa chora quando corta cebolas, é porque ela recebera a notícia de que fora deserdada enquanto as cortava, e desde então chora.


Dois psicanalistas estão andando pela calçada, e terminam por se cruzar. Um deles fala: “Oi!”, e o outro pensa: “O que ele realmente quer dizer com isso”.


Quando se registra as memórias de uma vida humana, três pares de olhos as veem sob diferentes ângulos. Eles são a vida como eu a vejo, como os outros a veem, e como Deus a vê.


Cada um de nós inventa seu próprio clima, e determina a tonalidade dos céus no universo emocional onde habita.



Para os que desconhecem o arcebispo Fulton Sheen, ele foi um nobre príncipe da Igreja que, durante cerca de 60 anos, sustentou vigorosa atividade pública nos EEUU, primeiramente no rádio, e após na TV, onde se manteve como um dos líderes de audência com seu programa semanal de 30 minutos "Life is Worth Living", nos períodos de 1952 a 56 (numa cadeia de pequenas redes de televisão) e de 1958 a 1968 (em cadeia nacional). Graças ao You Tube, o público brasileiro angloparlante tem a oportunidade de lhe assistir aos programas e gozar de algumas horas de diversão sadia, contemplando-lhe a bela oratória, o raciocínio ordenado, a didática eficaz e o ferrenho anticomunismo. Além disso, e sobretudo, foi ele o autor de 73 livros que versavam sobre diversos assuntos, desde os princípios da política e as bases morais da sociedade, geralmente dirigidas ao middle-class americano, até às explorações teológicas e filosóficas mais agras e circunspectas. Não sei o que pensava sobre o CVII, mas ao que se me afigura não sustentou qualquer oposição a ele.



quinta-feira, março 05, 2009

Gustavo Corção - Sobre o Amor-Próprio (Parte I)

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É Gustavo Corção, e mais não digo.