sexta-feira, janeiro 16, 2009

Marcel de Corte - A Ortografia e a Educação

O texto abaixo traduzido tem suas notas de carunchoso passado; contudo, ainda guarda úteis observações a seus pósteros, mormente ao espírito que o guia e deveria ser emulado.

Luiz de Carvalho


Termina o verão, está próxima a volta às aulas, e não sei que nostalgia da infância me incita à reflexão sobre o problema da ortografia. A ortografia está desaparecendo – é um fato: ela vai morrendo com as estações. Infelizmente não ressuscita com elas. Pertenço a uma geração que conheceu o apogeu da escritura impecável. Uma luz abundante, semelha àquela do sol de agosto, caia sobre as páginas que escrevíamos. Cada linha, cada palavra, cada sílaba brilhava, fulgurante e pura, gloriosamente madura em seu caule gramatical, como promessa de bom fruto. Os instrutores não eram nem melhores nem piores que os atuais. Talvez sequer fossem muito dedicados, nem devotados. Mas não transigiam na análise e no ditado cotidianos. Uma falha nossa, e lá vinha a procela e o relâmpago do punho daqueles venerandos Jupiteres se abaterem sobre os espíritos invadidos de tórpidas nuvens! Ainda conservo em relicário a vergonha duma concordância esquecida entre sujeito por atração e verbo, anotada com estrondoso desprezo para a criança desmemoriada que por vezes éramos...

Atualmente está morta a ortografia, abafada em meio ao joio luxuriante da “pedagogia” dita nova que os ministros da Instrução Pública germinaram, cultivaram e prescreveram. Quais as crianças que saem da escola primária armadas para a vida com a retidão de escritura, sinal de retidão de pensamento ou mesmo de alma? No curso dos anos de estudo no colégio ou ateneu, os melhores arrastam consigo essa deficiência mortal. E não raro encontram-se, sobre os bancos das universidades, alunos medianos e bons agoniados por uma carência congênita que os deixa como coxos em ortografia, até o fim de seus dias.

Da ortografia à política e à sociologia, não é muita a distância. A correção da escritura, a limpeza da linguagem, a probidade do espírito, o realismo da inteligência que adere às coisas como são e se recusa a transformá-las conforme os demónios que povoam os sonhos – tudo está ligado entre si. Não é exagero dizer que interferir na língua e suas maravilhosas articulações lógicas, as quais os séculos dispuseram e codificaram pacientemente na gramática, é interferir na natureza humana. Se a “honra dos homens”, a “santa linguagem”, como diz o poeta, está pervertida, maculada, sacudida; se corre de boca a boca, de pluma a pluma, negligenciada, andrajosa – como acreditar que ainda corresponda às coisas? Dissolvendo-se a harmonia em discordâncias entre as palavras e a realidade, como poderiam os homens ainda se comunicar efetivamente entre eles?

A incorreção da ortografia que acompanha necessariamente a alteração da linguagem é sinal indubitável de que no homem se está perdendo o sentido do real e suas junturas. Toda uma “política”, se assim é lícito empregar essa bela palavra, decorre daí impetuosa, desenraizando o cidadão e alando-o a regiões lunares e sonambúlicas, onde os ventos do eleitoralismo o manietam como folha morta. A prodigiosa diversidade que oferece o universo - onde cada parte contudo se urde ao conjunto -, fatalmente explodirá em falsas notas de linguagem e de escritura, caso o egotismo do eu feracíssimo e ávido irrompa seus limites naturais e o coletivismo o aplaine sob sua palmatória! Onde se violam as leis políticas e sociais, é de se esperar que se desonrem as leis da ortografia (...)

Em segundo lugar o pedagogo introduziu na escola primária “o estudo do meio”! Denominam isso de “a mesologia”. É isso que vocês ouviram. O “meio” é o alfa e o ômega do ensino atual, a barrica vazia onde se derrama tudo: decâmetros e a conjugação; história e problemas; vocabulário e “exercícios de observação” etc.. Doravante tudo está em tudo. Não se limitaram a terminar com a jerarquia das disciplinas ensinadas, mas misturaram as matérias caoticamente: duplo e imagem perfeitos da sociedade contemporánea. Armada dum lápis e duma folha em branco, parte a criança em descoberta do “meio”, qual repórter ou explorador, em vez de senti-lo de toda alma, como fazíamos antigamente [...]. Se outrora o ajuizado aluno aprendia a língua sob a lâmpada de estudos, por meio da análise dalguns belos textos, enquanto os mecanismos bem montados, bem azeitados pelo instrutor durante a aula engrenavam silenciosamente, hoje ele assalta seu pai e sua mãe com perguntas sobre o “meio”. O resultado da inovação, conhecem-no todos os pais: são eles que fazem agora os deveres das crianças; são eles que pesquisam as imagens do “meio”, que hão de ser coladas em brochura especial; são eles que bem ou mal devem construir os mecanismos essenciais que o pedagogo abandona à ferrugem como sucata durante as horas de aula. Mas esfrega as mãos o pedagogo: ele reina acima do instrutor, acima da criança, acima dos pais – contempla-se a reinar acima do mundo inteiro.

Dir-me-ão mais uma vez “reacionário”, “inimigo do progresso”, “conservador de rotinas” etc.. Pouco se me dá. Apego-me teimosamente aos velhos métodos que já provaram seu valor e têm a vantagem de não amofinar os pais, ao mesmo tempo em que garante fundamentos sólidos à instrução das crianças.


La libre Belgique - 1 de setembro de 1952

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