terça-feira, janeiro 13, 2009

Ditos sentenciosos de Léon Bloy



Só os santos e os antagonistas dos santos são capazes de balizar a história;  
A “loucura” dos cruzados foi o que mais honras rendeu à razão humana. Anteriores ao cretinismo científico, sabiam as crianças que o Sepulcro do Salvador é o centro do universo, o eixo e o coração dos mundos; 
Só existe uma tristeza, a de não ser santo;
Os cristãos galopam moderadamente em direção ao martírio;
Por que um homem que vivera como um porco deseja não morrer como um cão?
Combinou-se denominar a deplorável transição “do útero ao sepulcro” – esta vida;
Que Deus nos proteja do fogo, da faca e da literatura contemporânea;
Jesus veio para os pobres, dizeis vós. Ah! Talvez. Mas ele veio também para os ricos, para que se fizessem pobres por amor, e não podeis ignorar que centenas de santos obedeceram; eis o que se deve pregar: Jesus veio para as ALMAS;
Não é de ontem o abuso da palavra ou da escrita em nome do extermínio do pensamento;
Perante a morte duma criancinha, a Arte e a Poesia parecem realmente coisas miserabilíssima;
Fazer o bem a si. – Questão de perímetro. Menos alguém se prolonga, mais bem se faz a si;
Meu caro poeta, é de mister te desembaraçares da crença de que o desgosto da vida é sinal de vocação religiosa;
Não existe acaso, pois o acaso é a Providência dos imbecis, e quer a justiça que os imbecis não tenham Providência;
Fico a me perguntar qual a diferença entre a caridade de tantos cristãos e a malevolência dos demónios;
Não padeci a miséria, mas desposei-a por amor, podendo ter outra companheira;
A alegria de alguns não faz a alegria de outros;
O cemitério é um jardim onde depositamos flores uma vez por ano;
O duelo, penso eu, é uma baixeza ridícula, inventada por saltimbancos. De boa mente o substituiria por chutes nos traseiros uns dos outros;
O mundo moderno: uma Atlântida submersa na fossa séptica;
O penitente leva a fórmula de contrição e o confessor em troca lhe transmite a fórmula de exortação;
O dinheiro é o sangue do pobre. Dele se vive e morre há séculos, resumindo expressivamente todo sofrimento;
O sinal incontestável do grande poeta é a inconsciência profética, a perturbadora faculdade de proferir, para além do tempo e dos homens, palavras inauditas cujo alcance ele mesmo ignora;
Os excelsos pensadores que decretam de profissão a varrição de qualquer noção religiosa caem numa cómica contradição ao exigirem dos cristãos cuja fé resiste a seu esfregão e a sua potassa que sejam, no mínimo, santos;
Formalmente ninguém condenou os indigentes nem ao fogo, nem ao esquartejamento, nem à polé, nem à flagelação, nem à pala, nem mesmo à guilhotina;
Infeliz daquele que jamais mendigou! Mendiga Deus. Mendigam os anjos. Mendigam os reis, os profetas e os santos;
Minha existência é uma planície triste, onde chove sempre;
Nós nos consumimos da nostalgia do Ser;
Dever-se-ia fundar uma cátedra para o ensino da leitura entre linhas;
Não se pode ser e ter sido. – Como não! Pode-se ter sido um imbecil e sempre sê-lo;
Quanto mais alguém se aproxima de Deus, mais está solitário. Eis o infinito da solidão;
Qualquer cristão sem heroismo é um porco;
Nem todas as verdades são boas de dizer. Existem outras, em maior número, que não são melhores de escutar;
Um homem coberto de crimes é sempre interessante. Ele é um alvo da Misericórdia; 
Eis que está tudo esclarecido: há de se renunciar ao exercício da razão ou concluir de boa fé que tudo está bem do lado dos mortos, já que eles nunca nos mandam notícias.

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