sábado, janeiro 17, 2009

A Morte de Robert Brasillach





"Eu vi as fossas de Katyn", diz a manchete do diário "Je suis partout", de Brasillach.


Robert Brasillach morreu, não por colaborar com o governo de Petain, nem sequer pela sua alardeada simpatia ao fascismo, mas somente porque, no ano de 1943, enquanto toda a inteligência mundial - com as honrosas exceções - dava gritinhos feminis diante da "Resistência Soviética" a Hitler, denunciou o execrando Massacre de Katyn, onde cerca de 20.000 militares poloneses, rendidos e inofensivos, foram imolados sobre o satánico altar do comunismo, à laia de recreio das tropas, sob as ordens diretas de Stalin e seus sócios. Os comunistas, cujo poder granjeado em França era essencial para que de Gaulle compusesse a base do governo de restauração, exigiram a execução do inimigo que ousara macular o crepe da vestal vermelha. E de Gaulle, por motivos que ainda hoje vogam em inexatidões várias, recusou o pedido de graças subscrito por diversas personagens de renome (Mauriac, Claudel, Colette, Cocteau, Aymé etc.). Sartre negou-se a assinar.

Luiz de Carvalho


Ata da Execução de Robert Brasillach (6 de fevereiro de 1945)

pelo doutor Isorni, advogado e defensor de Brasillach durante o processo


Às 8 horas e 30 minutos, diante das grades do Palais de Justice, forma-se um cortejo de seis carros pretos que devem conduzir a Fresnes as pessoas requeridas pela lei e pelo uso para a execução. Ao longo de todo o caminho, está presente imponente escolta de agentes de polícia armados de metralhadoras. Na chegada a Fresnes, muito mais pessoas ocupavam-se da segurança. No caminho que leva à prisão, vigias ficam de atalaia. Esperamos alguns instantes, junto a várias pessoas, defronte à grade de acesso ao imenso corredor que conduz à detenção.


Às 9 horas em ponto, encaminhamo-nos, seguidos dum pelotão de vigias, à divisão dos condenados à morte. O comissário do governo francês abre a porta da cela de Robert Brasillach e lhe anuncia, com uma voz seca, que seu pedido de graça foi rejeitado.


Neste momento, penetro na cela em companhia da Dra. Mireille Noel e do capelão. Robert Brasillach abraça-nos os três. Depois ele pede para deixarem-no a sós com o capelão. Dois guardas vieram-lhe retirar as correntes. Após a confissão e alguns minutos de conversa com o sacerdote, mandou-me chamar, assim como a Srta. Noel. Entrega-me suas últimas cartas, escritas para sua mãe, família e amigos, para a Srta. Noel e para mim mesmo.


Ele me entrega igualmente os manuscritos dos poemas escritos na prisão e uma folha com algumas linhas, cujo título era: “Diante da morte” [La mort en face]. De quando em quando, observa-me com um sorriso terno de criança. Desde ontem compreendera que hoje de manhã seria o dia.


“Queres saber, me disse ele, eu dormi muito bem!”


Como devesse vestir-se de trajes civis e retirar o de condenado à morte, a Srta. Noel sai, permanecendo a sós ele e eu.


“Sim, fica perto de mim”, me diz.


Exibe-me a fotografia da mãe e de seus dois sobrinhos.


Ele a enfia na carteira e me exprime o desejo de morrer com elas sobre o coração. Nesse momento, sinto-lhe vacilar um pouco, ele solta um suspiro e lágrimas rolam de seus olhos. Vira-se para mim e diz, como se quisesse se desculpar: “É bem natural. Daqui a pouco não me faltará coragem. Está certo disso”.


Veste-se então tranquilamente, com muito esmero, reparte os cabelos diante de seu espelhinho, e depois, olhando para os lados, tira dum pedaço de pão um canivetinho e uma tesoura que escondera, e mos entrega. Explica-me: “para que ninguém tenha aborrecimentos”.


Ele arruma seus troços num grande saco. Nesse instante, sente sede. Bebe um pouco da água duma gamela. Termina de se aprumar. Está com o mesmo sobretudo azul que vestia durante o processo. Envolveu o pescoço com uma manta de lã vermelha.


Ele pede para falar com o representante do governo, Senhor Reboul.


Este se aproxima. Está comovido, com o rosto alterado e exangue.


Em surdina, Brasillach lhe faz a seguinte declaração:


“Eu não lhe quero mal, Senhor Reboul, eu sei que V.S. acredita agir segundo o dever; mas afirmo que só busquei o serviço de minha pátria. Também sei que o Senhor é cristão como eu. Só Deus é que nos há de julgar. Posso lhe pedir um favor?”


Inclina-se o Sr. Reboul. Continua Robert Brasillach:


“Minha família sofreu muito, meu irmão está na prisão há seis meses, sem motivo algum. Minha irmã precisa dele. Eu lhe peço faça tudo quanto possa para que ele seja libertado. Além disso, era ele meu companheiro de mocidade.”


Respondeu-lhe o representante do governo: “Eu prometo”.


Robert Brasillach lhe disse para terminar: “Permitirá, Senhor Reboul, que eu lhe aperte a mão?”


O representante do governo aperta-a longamente.


Robert Brasillach abraça-me mais uma vez. Abraça também a Dra. Mireille Noel, que acaba de entrar, e lhe diz: “Tem coragem e fica perto de minha pobre irmã”.


Está pronto. Ele mesmo abre a porta da cela. Apresenta-se diante das pessoas que o esperam e diz: “Senhores, estou às ordens”.


Dirigem-se a ele dois vigias e lhe passam as algemas. Ganhamos o grande corredor de saida. Ao passar diante duma cela, com voz límpida Robert Brasillach grita: “Até mais Béraud!”, e alguns metros à frente: “Até mais Lucien Combelle!”.


Sua voz ribomba sob a abóbada, cobrindo o barulho dos passos.


Ao chegarmos ao pequeno pátio, onde aguardava o camburão, volta-se a Srta. Noel e lhe beija a mão, dizendo: “Eu lhe confio Suzanne e seus dois filhinhos”. Acrescenta ele: “Hoje é seis de fevereiro; você pensará em mim e também nos outros que morreram, no mesmo dia, há onze anos”.


Aponto-lhe a viatura que nos levará ao forte de Montrouge. Impassível ele se sentou, segurando minha mão. A partir daquele momento, não falou mais.


Fincaram o poste aos pés duma moita de mato. O pelotão, 22 homens e um suboficial, nos dá as costas. Robert Brasillach me abraça e dá tapinhas sobre meu ombro, para encorajar-me. Um sorriso puro ilumina seu rosto, e seu olhar não é de infeliz. Depois, bem calmo e à vontade, sem o menor tremor, dirige-se ao poste. Afastei-me um pouco do grupo oficial. Ele me olha. Tem a aparência de quem diz: “Bem... é o fim”.


Um soldado se destaca do pelotão para amarrar-lhe as mãos. Mas este se atrapalha e não consegue. Por seu turno, sob as ordens do lugar-tenente, o sargento também tenta. Passam-se os segundos... Escuta-se a voz do lugar-tenente a cortar o silêncio: “Sargento!... Sargento!..”


Roberto Brasillach mexe a cabeça lentamente, da esquerda para a direita. Os lábios desenham um sorriso quase irónico. Enfim, os dois militares se reunem ao batalhão.


Roberto Brasillach está amarrado ao poste, ereto, a cabeça levantada e sobranceira. Acima da manta vermelha, seu rosto está pálido. O escrivão lê a portaria pela qual negaram o recurso.


Depois, com voz possante, Robert Brasillach grita ao pelotão: “Coragem!” e, com os olhos elevados: “Vive la France!”.


Ecoa a salva de tiros. Seu tronco se afasta do poste, parece se erguer ao céu; crispa-se a boca. O sargento se precipita sobre ele e lhe dá o tiro de misericórdia. O corpo desliza suavemente até o solo. São 9 horas e 38 minutos.


O doutor Paul se adianta para atestar o óbito. O capelão e eu o seguimos e nos inclinamos. Aparentemente, o corpo parece intacto. Eu recolho, em nome daqueles que o amam, a generosa gota de sangue que escorre sobre seu rosto.



Dado e passado a Paris, 6 de fevereiro de 1945.

Jacques Isorni

Advogado de Segunda Instância.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

Marcel de Corte - A Ortografia e a Educação

O texto abaixo traduzido tem suas notas de carunchoso passado; contudo, ainda guarda úteis observações a seus pósteros, mormente ao espírito que o guia e deveria ser emulado.

Luiz de Carvalho


Termina o verão, está próxima a volta às aulas, e não sei que nostalgia da infância me incita à reflexão sobre o problema da ortografia. A ortografia está desaparecendo – é um fato: ela vai morrendo com as estações. Infelizmente não ressuscita com elas. Pertenço a uma geração que conheceu o apogeu da escritura impecável. Uma luz abundante, semelha àquela do sol de agosto, caia sobre as páginas que escrevíamos. Cada linha, cada palavra, cada sílaba brilhava, fulgurante e pura, gloriosamente madura em seu caule gramatical, como promessa de bom fruto. Os instrutores não eram nem melhores nem piores que os atuais. Talvez sequer fossem muito dedicados, nem devotados. Mas não transigiam na análise e no ditado cotidianos. Uma falha nossa, e lá vinha a procela e o relâmpago do punho daqueles venerandos Jupiteres se abaterem sobre os espíritos invadidos de tórpidas nuvens! Ainda conservo em relicário a vergonha duma concordância esquecida entre sujeito por atração e verbo, anotada com estrondoso desprezo para a criança desmemoriada que por vezes éramos...

Atualmente está morta a ortografia, abafada em meio ao joio luxuriante da “pedagogia” dita nova que os ministros da Instrução Pública germinaram, cultivaram e prescreveram. Quais as crianças que saem da escola primária armadas para a vida com a retidão de escritura, sinal de retidão de pensamento ou mesmo de alma? No curso dos anos de estudo no colégio ou ateneu, os melhores arrastam consigo essa deficiência mortal. E não raro encontram-se, sobre os bancos das universidades, alunos medianos e bons agoniados por uma carência congênita que os deixa como coxos em ortografia, até o fim de seus dias.

Da ortografia à política e à sociologia, não é muita a distância. A correção da escritura, a limpeza da linguagem, a probidade do espírito, o realismo da inteligência que adere às coisas como são e se recusa a transformá-las conforme os demónios que povoam os sonhos – tudo está ligado entre si. Não é exagero dizer que interferir na língua e suas maravilhosas articulações lógicas, as quais os séculos dispuseram e codificaram pacientemente na gramática, é interferir na natureza humana. Se a “honra dos homens”, a “santa linguagem”, como diz o poeta, está pervertida, maculada, sacudida; se corre de boca a boca, de pluma a pluma, negligenciada, andrajosa – como acreditar que ainda corresponda às coisas? Dissolvendo-se a harmonia em discordâncias entre as palavras e a realidade, como poderiam os homens ainda se comunicar efetivamente entre eles?

A incorreção da ortografia que acompanha necessariamente a alteração da linguagem é sinal indubitável de que no homem se está perdendo o sentido do real e suas junturas. Toda uma “política”, se assim é lícito empregar essa bela palavra, decorre daí impetuosa, desenraizando o cidadão e alando-o a regiões lunares e sonambúlicas, onde os ventos do eleitoralismo o manietam como folha morta. A prodigiosa diversidade que oferece o universo - onde cada parte contudo se urde ao conjunto -, fatalmente explodirá em falsas notas de linguagem e de escritura, caso o egotismo do eu feracíssimo e ávido irrompa seus limites naturais e o coletivismo o aplaine sob sua palmatória! Onde se violam as leis políticas e sociais, é de se esperar que se desonrem as leis da ortografia (...)

Em segundo lugar o pedagogo introduziu na escola primária “o estudo do meio”! Denominam isso de “a mesologia”. É isso que vocês ouviram. O “meio” é o alfa e o ômega do ensino atual, a barrica vazia onde se derrama tudo: decâmetros e a conjugação; história e problemas; vocabulário e “exercícios de observação” etc.. Doravante tudo está em tudo. Não se limitaram a terminar com a jerarquia das disciplinas ensinadas, mas misturaram as matérias caoticamente: duplo e imagem perfeitos da sociedade contemporánea. Armada dum lápis e duma folha em branco, parte a criança em descoberta do “meio”, qual repórter ou explorador, em vez de senti-lo de toda alma, como fazíamos antigamente [...]. Se outrora o ajuizado aluno aprendia a língua sob a lâmpada de estudos, por meio da análise dalguns belos textos, enquanto os mecanismos bem montados, bem azeitados pelo instrutor durante a aula engrenavam silenciosamente, hoje ele assalta seu pai e sua mãe com perguntas sobre o “meio”. O resultado da inovação, conhecem-no todos os pais: são eles que fazem agora os deveres das crianças; são eles que pesquisam as imagens do “meio”, que hão de ser coladas em brochura especial; são eles que bem ou mal devem construir os mecanismos essenciais que o pedagogo abandona à ferrugem como sucata durante as horas de aula. Mas esfrega as mãos o pedagogo: ele reina acima do instrutor, acima da criança, acima dos pais – contempla-se a reinar acima do mundo inteiro.

Dir-me-ão mais uma vez “reacionário”, “inimigo do progresso”, “conservador de rotinas” etc.. Pouco se me dá. Apego-me teimosamente aos velhos métodos que já provaram seu valor e têm a vantagem de não amofinar os pais, ao mesmo tempo em que garante fundamentos sólidos à instrução das crianças.


La libre Belgique - 1 de setembro de 1952

terça-feira, janeiro 13, 2009

Ditos sentenciosos de Léon Bloy



Só os santos e os antagonistas dos santos são capazes de balizar a história;  
A “loucura” dos cruzados foi o que mais honras rendeu à razão humana. Anteriores ao cretinismo científico, sabiam as crianças que o Sepulcro do Salvador é o centro do universo, o eixo e o coração dos mundos; 
Só existe uma tristeza, a de não ser santo;
Os cristãos galopam moderadamente em direção ao martírio;
Por que um homem que vivera como um porco deseja não morrer como um cão?
Combinou-se denominar a deplorável transição “do útero ao sepulcro” – esta vida;
Que Deus nos proteja do fogo, da faca e da literatura contemporânea;
Jesus veio para os pobres, dizeis vós. Ah! Talvez. Mas ele veio também para os ricos, para que se fizessem pobres por amor, e não podeis ignorar que centenas de santos obedeceram; eis o que se deve pregar: Jesus veio para as ALMAS;
Não é de ontem o abuso da palavra ou da escrita em nome do extermínio do pensamento;
Perante a morte duma criancinha, a Arte e a Poesia parecem realmente coisas miserabilíssima;
Fazer o bem a si. – Questão de perímetro. Menos alguém se prolonga, mais bem se faz a si;
Meu caro poeta, é de mister te desembaraçares da crença de que o desgosto da vida é sinal de vocação religiosa;
Não existe acaso, pois o acaso é a Providência dos imbecis, e quer a justiça que os imbecis não tenham Providência;
Fico a me perguntar qual a diferença entre a caridade de tantos cristãos e a malevolência dos demónios;
Não padeci a miséria, mas desposei-a por amor, podendo ter outra companheira;
A alegria de alguns não faz a alegria de outros;
O cemitério é um jardim onde depositamos flores uma vez por ano;
O duelo, penso eu, é uma baixeza ridícula, inventada por saltimbancos. De boa mente o substituiria por chutes nos traseiros uns dos outros;
O mundo moderno: uma Atlântida submersa na fossa séptica;
O penitente leva a fórmula de contrição e o confessor em troca lhe transmite a fórmula de exortação;
O dinheiro é o sangue do pobre. Dele se vive e morre há séculos, resumindo expressivamente todo sofrimento;
O sinal incontestável do grande poeta é a inconsciência profética, a perturbadora faculdade de proferir, para além do tempo e dos homens, palavras inauditas cujo alcance ele mesmo ignora;
Os excelsos pensadores que decretam de profissão a varrição de qualquer noção religiosa caem numa cómica contradição ao exigirem dos cristãos cuja fé resiste a seu esfregão e a sua potassa que sejam, no mínimo, santos;
Formalmente ninguém condenou os indigentes nem ao fogo, nem ao esquartejamento, nem à polé, nem à flagelação, nem à pala, nem mesmo à guilhotina;
Infeliz daquele que jamais mendigou! Mendiga Deus. Mendigam os anjos. Mendigam os reis, os profetas e os santos;
Minha existência é uma planície triste, onde chove sempre;
Nós nos consumimos da nostalgia do Ser;
Dever-se-ia fundar uma cátedra para o ensino da leitura entre linhas;
Não se pode ser e ter sido. – Como não! Pode-se ter sido um imbecil e sempre sê-lo;
Quanto mais alguém se aproxima de Deus, mais está solitário. Eis o infinito da solidão;
Qualquer cristão sem heroismo é um porco;
Nem todas as verdades são boas de dizer. Existem outras, em maior número, que não são melhores de escutar;
Um homem coberto de crimes é sempre interessante. Ele é um alvo da Misericórdia; 
Eis que está tudo esclarecido: há de se renunciar ao exercício da razão ou concluir de boa fé que tudo está bem do lado dos mortos, já que eles nunca nos mandam notícias.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Ditos sentenciosos de Soren Kierkegaard



A verdade eterna, essencial, é a que se relaciona essencialmente com ser existente.

Não conheci a imediatez; logo, sob o ponto de vista humano, não vivi... Eu sou reflexão do começo ao fim.

A primeira condição [para adentrar no mundo adulto] é prosseguir num chão que seja o vosso, mas não é tão fácil encontrá-lo.

A genialidade não é chama de pavio que o vento sopra, mas incêndio que a tempestade atiça.

Todas as pessoas se vingam do mundo.

Relaciono-me com a intensidade, e não com a extensão.

Da mocidade se faz o tempo da estética, da maturidade o do sentimento religioso.

Minha alma é tão grosseira que não há pensamento que possa alçá-la ao éter.

No homem a estética é a razão por que ele é imediatamente o que ele é. O lugar pacífico e seguro onde vive a maioria dos homens.

Meu defeito é arriscar-me numa esfera da vida onde não me sinto em meu lar.

O possível da liberdade é a angústia.

Triunfar é vencer em sentido infinito aquilo que, em sentido finito, tornar-se-ia a padecer.

Uma mulher deveria sempre jurar pela moda, pois assim teria força seu juramento.

Eu costumava manter um relacionamento negativo com a vida.

As guerras ou as calamidades reúnem os homens, enquanto a doença os dispersa em indivíduos.

No mundo corporal uma pessoa pode morrer pela mão de outra, mas no espiritual só pela sua própria.

[Os poetas], essas antenas viventes entre Deus e os homens.

Minha melancolia me incapacitou de dizer “tu” a mim mesmo.

Don Juan não seduz – deseja, e esse desejo tem um efeito sedutor. Ele deseja a feminilidade enquanto tal... Elvira jaz autónoma.

Fausto não encontra onde repousar, então se apodera do amor, porque há no amor um elemento do presente que desvia da inanidade da dúvida a atenção. Defronte ele Margarida cai em aniquilamento.

Uma pessoa sempre ganha a partida, contanto que saiba surpreender.

Sob o céu da estética, tudo é leve, bonito, fugaz, mas quando se mistura nela a ética, tudo se torna duro, anguloso...

A mulher é o sonho do homem... Eis porque Deus, na criação de Eva, faz Adão sucumbir a um sono profundo.

Deve-se desmamar a criança a fim de que ela e sua mãe não mais sejam um, assim também se deve desmamar o homem do mundo a fim de que aprenda para a eternidade.

O triunfo, o valor duma causa não depende do número de seus defensores.

O indivíduo é um ponto exato, e não um momento numa totalidade hegeliana.

O casamento é e será a viagem de descoberta mais importante que um homem possa intentar.

Existe algo mais contrário ao cristianismo que toda a heresia e todo o cisma: é o brincar de cristianismo, qual uma criança que brinca de soldado, suprimindo os perigos.

As chamas inflamam os bastidores dum circo. Aparece o palhaço e adverte o público – aplaudem-no; ele insiste – riem dele às bandeiras despregadas. E assim perecerá o mundo: em meio à felicidade geral das pessoas espirituais que acreditarão na farsa. (S. S. Papa Bento XVI citou esse dito em referência aos teólogos).


E antes que se me esqueça: meus sinceros morras à reforma ortográfica, não obstante me tenha valido vergonhosamente dela.