domingo, maio 18, 2008

Chateaubriand - Pensamentos, reflexões e máximas



A miséria do homem não consiste somente na fraqueza da razão, na inquietude do espírito, na agitação da alma: está ainda presente num certo ridículo dos negócios humanos. As revoluções sobretudo revelam essa insuficiência da natureza: se vós as considerais em conjunto, parecem imponentes; se lhes penetrais nas sutilezas, percebereis tanta inépcia e baixeza, tantos homens afamados que nada eram, tantas coisas levadas por obra de gênio que se deveram ao acaso, que vós vos admirareis igualmente da grandeza das conseqüências e da pequenez das causas.

Quando se está distante dos fatos, quando não se comparte dos ambientes de facções e facciosos, somente o lado grave e doloroso dos acontecimentos impressiona; assim não acontece quando se é ator ou assistência comprometida, nessas encenações sanguinolentas. Tácito, de natural poeta, pudera ser ridicularizado na sátira de Petrônio caso tomasse assento no senado de Nero: pinta ele a tirania deste príncipe, pois que vivera após ele. Butler, dotado de gênio observador, pudera escrever a história de Carlos I caso não nascesse sob a rainha Ana: contentara-se de rimar Hudibras, pois que testemunhara as personagens da revolução de Cromwell; vira-lhes sempre a parolar sobre virtude, santidade, independência, dando as mãos a todas as correntes, e depois de terem imolado o pai, curvarem-se sob o jugo desprezível do filho.

Há iniqüidades políticas que se não podem perpetrar impunemente, por causa da avançada civilização dos povos. Não confiem que tais povos digam, sem conseqüências, a seus governantes: “Tal o crime, tal a punição por vossa falta”. Até os alicerces do poder se abalam por tais admoestações: caso ao poder falte o respeito às nações, este poder está em perigo.

Numa nação que ainda preserve a inocência primitiva, o vício estrangeiro progride mais rapidamente que numa sociedade corrompida, qual um homem que são morre de ar pestilento, em que vive um homem habituado a este ar.

Alcança-se a liberdade por dois caminhos, os costumes e as luzes. Mas quando faltam por sua vez os costumes e as luzes, quando se não é republicano à moda de Esparta, nem à moda dos Estados-Unidos, pode-se ainda assim conquistar a liberdade, pode-se ainda assim conservá-la.

Rememora a posteridade homens que transformaram impérios, quase nunca os que lhes restabeleceram, a menos que tal restabelecimento não tenha durado. Admira-se o que cria, mas mal se estima o que conserva: uma glória excelente cobre de trevas tudo o que vem depois.

Atormentai-vos em restabelecer a virtude entre um povo que a perdeu – fracassareis. Em tudo, há um princípio de destruição. Para que fim estabeleceu-o Deus? Eis seu segredo.

Alguns se admiram do êxito da mediocridade, mas se enganam. Em si, a mediocridade não tem força, mas nos medíocres que a representam; neste sentido, tem formidável poder. Quando mais baixo é um homem no poder, mais lhe convém todas as baixezas. Cada qual, comparando-se a ele, diz: “Por que não haveria de chegar minha vez?” Não excita ele nenhuns ciúmes: preferem-no os cortesãos, pois que podem desprezá-lo; conservam-no os reis como manifestação de sua onipotência. A mediocridade não possui apenas essas vantagens para permanecer em cena, mas ainda há outra maior: exclui do poder a capacidade. O representante dos tolos e dos imbecis no ministério afaga duas paixões do coração humano, a ambição e a inveja.

Amiúde a mediocridade é secundada por circunstâncias que lhe dão aparência de profundidade. Os homens influentes que, ao olhar da multidão, parecem dirigir a fortuna, são por ela conduzidos; como eles lhe dá a mão, crêem que a controlam.

De ordinário, são os homens de gênio as flores de seu século; constituem-lhe uma como epítome, simbolizando suas luzes, suas opiniões e seu espírito, mas por vezes também nascem cedo ou tarde demais. Se nascem cedo demais, antes de seu século natural, passam ignorados; sua glória é póstuma; se nascem tarde demais, depois de seu século natural, não conseguem realizar obras, não logram uma reputação duradoura. Por curiosidade, prestamos-lhes atenção por um momento, como faríamos com anciãos que passeassem nos lugares públicos vestidos com as roupas de sua época. Os homens de gênio que chegam tarde demais são desconhecidos como os que chegam cedo demais; mas, diferentes destes, não têm porvir, nem posteridade, nem descendentes para lhes estabelecer a glória: só poderiam admirá-los o passado, os predecessores, os mortos, um público silencioso.

Após um período de tristeza e glória, inclina-se um povo ao repouso: e mal submetem-se a instituições toleráveis, deixam-se levar facilmente pelos ministrículos do mundo; isso o distrai e diverte: compara tais pigmeus a gigantes que outrora viram, e se riem. Há exemplos de leões ligados a carros e conduzidos por crianças, mas aqueles sempre terminaram por devorar seus condutores.

Para os verdadeiros santos e homens superiores, a religião é admoestador severo, que lhes ensina a se humilhar e a verdadeira virtude; para os homens passionais e vulgares, tais lições só servem para nutrir o orgulho humano e dar aparências de virtude. “Marcho sobre as cabeças de meus amigos e inimigos: quem contudo pode dizer que me falta humildade? Não me pus a mim de joelhos?”

Escutai este homem a quem chamam de senhor: dir-vos-á ele que não é mais que um vilão, que quer continuar vilão, que não diligenciara em ocupar o posto que ocupa, que a revolução só terá termo quando um vilão como ele não estiver mais entre os primeiros do Estado. Todavia, usa este senhor um barrete vermelho para não mais ser vilão, assim como possui uma roupa bordada e um título para sair da classe dos vilões. Fiai-vos na humildade do senhor, e crede no camponês do Danúbio.

Os mendigos vivem de suas chagas: homens há que se aproveitam de tudo, até do desprezo.

Não existe política sentimental, dizem os ministros. Meu Deus! ficai tranqüilos, não há riscos neste sentido: não conheço muitos homens que conservassem as antigas paixões. Vós não quereis que os amemos: ah, como tendes razão! Mas já que preferis a política dos fatos àquela do direito, aceitai todas as suas conseqüências. Dar-nos-á o fato o direito de examinar se vós ministros servis para alguma coisa, e se não existe outro fato que valha mais que o vosso.

Se uma pessoa vos dá uma bofetada, devolvei-lhe quatro, não importa em qual face.

É salutar prosternar-se em terra quando se cometeu uma falta, mas não é salutar permanecer ali.

Vede este homem ; extremo é seu ressentimento. “Mas como! Queixa-se Teodúlio de tê-lo eu ofendido? Quanta insolência!” Mas, homem poderoso, caso Teodúlio tivesse seu mesmo poder, e não concedesse a ninguém o direito de ultrajá-lo, que haveríeis vós de redargüir? Já é passado o tempo em que um cortesão era temido; não há mais favor nem desfavor possíveis, exceto para os criados de quarto: tudo se reduz ao mérito pessoal. Quem pode dizer: “Tendes precisão de mim, mas eu não tenho precisão de vós”, é atualmente o verdadeiro superior. Talvez, fosse melhor outrora, mas ainda hoje as coisas são como antes. O que perdera o homem em poder, ganharam os homens.

A vida, a felicidade, o infortúnio se conservam num suspiro. Que vós morrais, e duas horas depois ninguém mais pensa em vós. Que vós vivais, e não pensam em vós tampouco. De que valem vossas alegrias, penas e existência, não só para vosso vizinho que jamais vereis, mas ainda para esta turba a quem chamais de amigos? Por que fazer da vida algo tão complicado? Ela não merece a mínima atenção.

De quando em quando, uma pessoa esquece suas dores por um momento; depois, elas regressam como o fardo que depusera um instante para repousar.

Os receios da ternura às vezes se transformam em realidade: a mãe enxerga na face do filho marcas duma doença que não existe. As outras quimeras da vida, as morais e as físicas, produzem as mesmas ilusões, por pena ou gozo.

Uma pessoa se reconcilia como o inimigo que lhe é inferior em qualidades de alma ou de espírito; não perdoa jamais àquele cujas alma e gênio o superam.

Vosso amigo acabou de partir; crede-vos forte contra a ausência: ide visitar a morada de vosso amigo, e ela vos ensinará o que perdestes e o que vos falta.

Quem perpetra o crime, em meio ao risco do perigo e ao tumulto das paixões, não tem tempo de escutar o remorso; mas quem é cúmplice e confidente do crime, sem ter papel ativo nele, escuta o brado vingador da consciência. Em retiro, conta os minutos que passam. “Agora, está acontecendo isto; agora, ele golpeia!” Sim, desgraçado, ele golpeia! É a mão de Deus que pesa sobre ti.

O verme da tumba começa a roer a consciência do indigno, antes de lhe devorar o coração.

Poderia uma causa justíssima, devido às circunstâncias fatais, parecer injustíssima? É possível vislumbrar um caso em que provar a inocência de alguém é impossível, e a vítima que faleceu e o juiz que pronuncia sejam da mesma forma inocentes? Que seria isto senão a justiça humana!

Uma pessoa tem o direito de matar o tirano; este tirano pode ser seu pai: logo, em certos casos é autorizado o parricídio? Quem poderia sustentar uma tal proposição?

Existe um encanto por trás dos sofrimentos, como uma dor por trás dos prazeres: a natureza do homem é a miséria.

Quem sofre por Deus tem a vantagem de estar sempre preparado para a hora derradeira, vantagem que não se oferece a todos os infortunados.

Como as grandes alegrias, as grandes aflições parecem suprimir as horas: tudo quanto absorve a alma impede de contar os instantes.

Há de se ter o coração ao alto para verter certas lágrimas: a fonte dos rios caldalosos encontra-se no cume dos montes que se avizinham do céu.

A alma do homem é translúcida como a água da fonte, enquanto não se agitem as mágoas que jazem no fundo.

A simplicidade vem da alma; a ingenuidade do espírito. Quase sempre um homem simples é um bom homem; um homem ingênuo pode ser um velhaco; contudo, a ingenuidade é sempre natural, enquanto a simplicidade pode ser efeito de arte.

Existem homens que não são eloqüentes, porque sua alma fala demasiado alto, e impede os outros de escutar o que dizem.

Torne a suplicar o manto da inocência ao arrependimento: foi ele que o encontrou, e o devolve aos que perderam.

Lisonjear a virtude sem ser capaz de amar é como apertar as belas mãos duma jovem entre as mãos engelhadas da velhice.

Assim que um pensamento verdadeiro penetra no espírito, lança uma luz que nos faz enxergar uma multidão de outros objetos que antes não percebíamos.

Certa ordem de sentimentos se avolumam na proporção das desditas do objeto amado: é a chama que se propaga mais rapidamente no sopro da tempestade.

Algumas vezes, esquecem-se da virtude durante a passagem neste mundo, mas ela renasce cedo ou tarde; desenterram-na das tumbas como se retira do seio da terra uma estátua antiga, que inspira a admiração dos homens.

Freqüentemente choram as pessoas de bem na mesma hora em que regozijam os perversos: este momento testemunha a consecução duma ação honesta e duma ação culpável. São o vício e a virtude irmão e irmã; engendrou-as o homem. Abel e Caim eram filhos de um só pai.

Há homens para quem a virtude não é aquela que os demais reconhecem como tal; não chamam por esse nome os objetos regulares da existência, mas os inferiores, aquela honestidade vulgar do exato cumprimento dos deveres; para eles a virtude é um impulso da alma que nos arrasta para o bem às expensas da felicidade e da vida, ou uma força que subjuga as mais ardentes paixões. Tais homens se põem acima dos outros homens, mas que benefícios trazem para a sociedade? Como as montanhas na natureza, ou os monumentos gigantescos da arte, estão fora das proporções usuais: quem os observa, tem medo.

O temperamento exaltado em pessoas vulgares é insuportável; juntos a uma grande alma ou a um belo gênio, são arrebatadores. Essas pessoas não querem seduzir, e são sedutoras; acontece que ignoram a sua força, por isso admiram-se de ser a causa da felicidade de uns, e da infelicidade de outros.

A desdita age sobre nós de acordo com o temperamento. Poderia um homem salvar-se se explicando, mas se recusa; crê um outro tudo consertar falando, mas se perde.

Seria estranho pretender o homem uma constância inalterável, ao passo que toda a natureza muda à sua roda: a árvore perde as folhas, o pássaro as plumas, o cervo a galhada. Somente o homem diria: “Minha alma é inquebrantável; como hoje, será ela amanhã”; o homem, cujos sentimentos são mais inconstantes que as nuvens! O homem, que ora deseja e ora não deseja! O homem, que se enjoa dos prazeres, como a criança de seus brinquedos!

Mais das vezes, pessoas que se amam juram, nos primeiros passos de felicidade, deixarem juntos a vida; mas ocorre que elas não andam na mesma velocidade, e quando uma está prestes a atingir a meta, a outra não está mais ou não existe mais.

A malícia é dentre todas as atitudes a mais vulgar. Nada é tão cômodo como perceber o ridículo ou o vício e dele escarnecer: há mister de se ter qualidades superiores para compreender o gênio e a virtude.

Quando uma pessoa fala dos vícios dum homem, caso diga: “Todo o mundo diz”, não acrediteis nele; caso fale de suas virtudes dizendo-vos ainda: “Todo o mundo diz”, crede-o.

Se sofreis de melancolia, fixai os olhos numa criança que dorme, a quem nenhum tormento molesta: tomareis emprestado algo dessa inocência, encontrareis alguma paz.

Por vezes, dois amigos que sofrem passam horas inteiras sem se falar. Que conversa equivaleria a esse comércio do pensamento na linguagem muda da infelicidade?

Parecem os outros sempre mais felizes que nós, e contudo é estranho que o homem que, de bom grado, trocaria de situação, só com muito esforço consentiria em modificar sua pessoa. Talvez quisesse rejuvenescer um pouco, não muito, e andar com firmeza, caso fosse manco; mas conservaria intacto o conjunto de sua pessoa, em que encontra mil afagos e um não sei quê de encantador. Não alteraria a mínima parcela de seu espírito: habituamo-nos a nós e apegamo-nos a esta velha sociedade.

Tornai a visitar no dia do infortúnio o lugar onde habitáveis no tempo da felicidade: dele exala qualquer coisa de triste, formada da lembrança das alegrias passadas e do sentimento dos males presentes. Não está ali a época em que éreis feliz? e agora! Todavia, os lugares são os mesmos: o que mudou então? O homem.

Os que nunca tiveram nada de importante para dizer a um amigo mal sabem o que se sente quando, ao visitá-lo, de alma abalada, não mais encontramos o amigo, nem quem possa dizer onde ele está ou se a morte o arrebatou.

Carece de segredos os reparos da beleza do corpo: não carece de nenhuns para se conservar aquela da alma.

Cada homem possui um lugar em particular no mundo onde pode dizer que fruiu da maior das alegrias: o cálculo é fácil de fazer.

A paixão dominante extingue as demais dentro da alma, como o sol obnubila os astros no resplendor de seus raios.

Alguns homens viajam em caravana, e falam pouco ou nada sobre o caminho. Ainda que oriundos do mesmo país, não concordam ou não possuem a mesma natureza: uns nasceram brancos, outros negros.

A conversação dos espíritos superiores é ininteligível aos medíocres, pois que grande parte do que vai dito subentende-se e adivinha-se.

Uma certa abertura de espírito faz uma pessoa se acostumar rapidamente aos usos estrangeiros, e ter o jeito, meio acanhado, de quem os praticou por toda a vida, que tem lá a sua graça e nobreza.

Pode a nomeada iludir a ponto de inspirar a paixão ao que a natureza tornou desagradável? Não o creio: a glória está para o homem velho como os diamantes para uma mulher velha: eles a enfeitam, mas não conseguem aformoseá-la.

Reproduzidos na memória, os prazeres da juventude assemelham-se a ruínas vistas em meio a chamas.

Esta é uma época em que alguns meses acrescentados à vida bastam para desenvolver faculdades até então sepultadas num coração semi-fechado: uma pessoa dorme criança. e desperta homem.

Há motivos para alarde, porque algumas horas fazem grande diferença para a alma dum homem? Da vida para a morte, basta um minuto.

As penas são parte da ordem do destino: os que, buscando esquecê-las, ocupam-se do porvir, não imaginam que não verão este porvir. Cada qual, ao morrer, transmite o peso da vida a outro; em cada sepulcro, está um homem que recebe o fardo da mão do homem que se vai repousar: o novo mensageiro leva por sua vez o fardo até a próxima tumba.

Vangloriam-se todos os homens ; temos todos à boca esta frase banal: muito se passou de hoje àquela época. Muito se passou! E a vida, quanto dura ela?

Cai a árvore folha por folha: se a cada manhã contemplassem os homens o que perderam na véspera, compreenderiam sua pobreza.

No fundo, o homem não tem aversão à morte; tem mesmo prazer em morrer. A lâmpada que se extingue não sofre.

Segundo os selvagens, a morte é uma mulher alta e belíssima, a quem só falta o coração.

A cinza do morto, fosse quem fosse enquanto vivo o defunto, é sagrada. O resíduo dos tiranos dá lições tão excelentes quanto aquele dos bons reis.

Há dois pontos de vista donde a morte se mostra bem distinta. De um desses pontos, percebeis a morte ao final da vida, como um avantesma na extremidade da longa avenida: a distância fá-la parecer pequena, mas à medida que vos aproximais, cresce; termina o espectro colossal por estender sobre vós as mãos frias, e vos sufocar. De um outro ponto de vista, parece a morte enorme ao termo da vida; mas à medida que marcheis a seu encontro, ela diminui, e quando é chegado o momento de tocá-la, ela se evola. O insensato e o sábio, o poltrão e o corajoso, o ímpio e o religioso, o sensual e o virtuoso – assim diferente vêem a morte em perspectiva.

A voz do homem não se reanima como a voz do eco: o eco pode dormir dez séculos nas dobras do deserto e ao fim desse temoi responder ao viajante que o interroga; o túmulo jamais responde. Tu, que dás a vida e a morte aos homens, que amas os que choram, acolhe a prece do infortunado que sofre a teu exemplo! Sustenta o fardo que o esmaga! Sê para ele o Cirineu que te ajudou a levar a cruz sobre o Gólgota!

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