quarta-feira, abril 30, 2008

Prosper Mérimée - A Morte de Carmem

Veio-me ao bestunto pôr à lume alguns trechos seletos de obras, traduzidos por este que vos fala. É objeto destes posts, além do salutar exercício que é o traduzir exímios escritores, espicaçar a alheia curiosidade para os livros aqui escolhidos. O critério é o de sempre, qual seja, o do gosto. Na estréia, Mérimée.

Luiz de Carvalho.

Quando terminou a celebração da missa, retornei à venta. Esperava que Carmem já tivesse fugido: ela poderia montar meu cavalo e salvar-se... mas a encontrei ainda lá. Ela não queria ouvir comentários de que eu lhe amedrontara. Durante minha ausência, descosera a bainha do vestido para dali retirar chumbo. Estava então diante duma mesa, olhando para o chumbo - derretido à sua ordem - megulhado no alguidar cheio d’água, onde acabara de o lançar. Ora tomava um pedaço do chumbo e o chacoalhava para todos os lados com semblante triste, ora entoava uma dessas canções mágicas, a evocar Maria Padilha, a amante de Dom Pedro, que foi, segundo dizem, a Bari Crallisa, ou a suprema rainha dos Boêmios:

- Carmem, disse-lhe eu, queres vir comigo?

Ela se levantou, atirou a gamela de lado, e cobriu a cabeça com a mantilha, como se prestes a sair. Trouxeram meu cavalo, ela montou na garupa, e nós ganhamos a estrada. – Assim, disse eu, depois dum pedaço de caminho, minha Carmem, queres tu me seguir, não é?

- Sigo-te para a morte, sim, mas não viverei mais contigo.

Percorríamos uma garganta solitária; sofreei o cavalo.

- É aqui? perguntou ela.

Num salto, desceu ao solo. Retirou a mantilha, lançou-a aos pés, e permaneceu imóvel com a mão fechada na cintura, arrostando-me.

- Queres me matar, sei bem disso, afirmou ela; está escrito, mas tu não me farás recuar.

- Rogo-te, pedi a ela, sê razoável. Escuta-me! o passado está esquecido. Mas, tu o sabes, foste tu que me perdeste; foi por ti que me tornei ladrão e assassino. Carmem! minha Carmem! deixa-me salvar-te e salvar-me contigo.

- José, respondeu ela, pedes-me o impossível. Não te amo mais; tu ainda me amas, e é por isso que me queres matar. Bem que poderia te enredar nalguma mentira, mas o esforço não vale a pena. Entre nós está tudo acabado. Como meu rom, tens o direito de matar tua romi, mas Carmem para sempre será livre. Ela nasceu calli, e calli morrerá. – Então, tu amas Lucas? perguntou ele a ela. – Sim, eu o amei, como a ti, mas só por um instante, talvez um pouco menos que a ti. No presente, não amo mais coisa alguma, e me odeio por haver-te amado.

Arrojei-me a seus pés, implorei-lhe de mãos postas, reguei-as com minhas lágrimas. Relembrei os momentos de felicidade que passáramos juntos. Assenti em continuar como salteador para agradá-la. Tudo, senhores, tudo; ofereci-lhe tudo, à condição de continuar me amando!

Ela me disse:

- Continuar te amando é impossível. Viver contigo não quero.

Tomei-me de furor. Desembainhei a faca. Quis que ela se amedrontasse e me pedisse misericórdia, mas aquela mulher era o demônio.

- Pela última vez, gritei, fica comigo!

- Não, não e não! retorquiu-me ela, batendo o pé. Arrancou do dedo o anel que eu lhe dera de presente e jogou-o no mato.

Dei-lhe duas cutiladas. Já que minha faca havia quebrado, vali-me da do Borgne. No segundo golpe, ela caiu, sem gritar. Creio que ainda posso ver seus grandes olhos a me observar fixamente; depois, embaciaram-se e se fecharam. Fiquei aniquilado por um bom tempo defronte ao cadáver. Depois, lembrei-me que Carmem dizia amiúde que gostaria de ser enterrada na floresta. Cavei um buraco com a faca e depositei-a ali. Eu a pus no buraco, e próximo dela uma cruzinha. Talvez esteja enganado. Logo após, montei no cavalo e galopei até a cidade de Córdoba, e no primeiro regimento de guarda identifiquei-me. Confessei que matara Carmem, mas me recusei a dizer onde estava o corpo. O eremita era um santo homem. Rogou por ela! Celebrou uma missa por sua alma... Pobre criança! São as cales as culpadas, por a terem criado assim.


(Da novela Carmem)


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