quarta-feira, abril 09, 2008

Emil Cioran - Esboços de Vertigem

Emil Cioran era um céptico, é o que falam; em verdade, “céptico” talvez seja um termo fraco para quem se consumiu em dissolver quanto lhe passasse na mente – tentara, num esforço baldado, ir além do ceticismo, mas para um homem que tal, o fracasso só era mais um bom motivo para escrever, senão o principal. Não enlouqueceu nem se suicidou, porque nunca levou demais a sério o que imprimiu em letra redonda. E é com este espírito que devem ler o que vai aqui. Parece-me mui de longe a obra do ilustre escriba uma glosa do “vaidade das vaidades” bíblico (também remete-me aos versículos em que Jó como que lamenta o fato de ter nascido), por isso traduzo os anexins; já seu estilo fecundo e axiomático não pude reproduzir a contento. Além do mais, Emil Cioran é o único escritor que conheço a passar a vida dedicando-se ao ladeira abaixo existencial sem parecer com isso um perfeito idiota - um grande elogio, sem dúvida.

Luiz de Carvalho.


Esboços de Vertigem (excertos)

Não é certo querer facilitar o trabalho do leitor. Não recebereis por isso nenhum agradecimento. Ele ama a incompreensão, o desequilíbrio, o atolamento, ama ser punido. Daí o prestígio dos autores confusos, daí a perenidade do maçador.

“O gosto do extraordinário é característico da mediocridade” (Diderot). ...E ainda se espantam de que o Século das Luzes não entendesse coisa alguma de Shakespeare.

Uma pessoa escreve não porque tenha algo a dizer, mas porque tem vontade de dizer algo.

A verdadeira elegância moral baseia-se na arte de disfarçar as vitórias em derrotas.

Impossível chegar à verdade através de opiniões, pois toda opinião não passa de um ponto de vista louco, sobre a realidade.

Enquanto preparavam a cicuta, aprendia Sócrates uma canção na flauta. “Para que te servirás? lhe perguntaram.” “Para sabê-la antes de morrer.” Ouso recordar esta resposta que os manuais banalizaram, pois que ela me parece a única justificação séria da vontade de conhecer, que se dá até mesmo às portas da morte ou em outro momento qualquer.

Detestar alguém é querer que ele seja qualquer um, menos o que é. T. escreve-me que sou o homem que mais ele ama no mundo... mas ao mesmo tempo adjura-me ao abandono das minhas obsessões, a mudar de rota, tornar-me outro, de romper com a pessoa que sou. O mesmo é dizer que ele recusa meu ser.

Se tudo convergisse para o melhor, os velhos, furiosos de não podê-lo gozar, morreriam todos de desgosto. Felizmente, para eles, o curso tomado pela história desde o começo consola-os, permitindo-lhes morrer sem traço de ciúmes.

No enterro de C. falava eu comigo: “Eis enfim alguém que não teve um só inimigo”. Não que fosse ele medíocre, mas ignorava em grau inaudito a ebriedade de ferir.

Todos estes olhares duros, maldosos. Não ouso imaginar-lhes a expressão, em caso de sedição. A palavra “próximo” não tem sentido em uma grande cidade. É vocábulo legítimo nas civilizações rurais, onde as pessoas se conhecem de perto, onde podem se amar e detestar em paz.

Ser é estar encurralado.

Começar uma família. Creio que me seria mais tranqüilo começar um império.

Só a flor decaída é verdadeira flor, disse um japonês. Estou tentado a falar o mesmo da civilização.

Quando vejo alguém pugnar por uma causa qualquer, procuro saber o que se passa em seu espirito, e donde possa provir esta evidente falta de maturidade. Talvez a recusa da resignação seja sinal de “vida”, mas nunca, em todo caso, de clarividência, ou simplesmente de reflexão. O homem sensato não se rebaixa a protestar. A custo consente ele com a indignação. Levar a sério os negócios humanos testemunha alguma carência secreta.

As pessoas são condescendentes com os obsedados pelo pior, no momento em que reconhecem a justiça de suas apreensões e advertências. São muito mais indulgentes com os que se equivocaram, já que acreditavam ser sua cegueira fruto do entusiasmo e da generosidade, enquanto o outro, prisioneiro da lucidez, não passaria de um covarde, incapaz de assumir o risco da ilusão.

Quanto mais sofremos injustiças, mais arriscamos a mergulhar de cabeça na soberba ou no orgulho. A vítima se convence de ser um eleito às avessas, e como tal reage, sem desconfiar que por isso acaba por se submeter ao mesmo estatuto do diabo.

A bem dizer, nunca conheci a indigência. Em compensação, conheci, se não a doença, ao menos a ausência de saúde, o que me livra do remorso de não ter vivido na miséria.

Quanto mais as pessoas envelhecem, mais correm após as honras. A vaidade talvez não esteja tão ativa quanto às portas do túmulo. Aferram-se a uns nadas para não saberem o que esses nadas escondem, enganam o nada com algo ainda mais nulo.

Passo meu tempo em aconselhar o suicídio por escrito e a desaconselhá-lo pela palavra. No primeiro caso, é uma exploração filosófica; no segundo, um ser, uma voz, uma queixa...

A prova de que o homem execra o homem? Basta encontrar-se em meio à multidão, para sentir-se solidário a todos os planetas mortos.

Só há conversação agradável com os mimados que deixaram de sê-lo, com os ex-ingênuos... Acalmados enfim, deram, a gosto ou a contra-gosto, o passo decisivo em direção ao Conhecimento, esta versão impessoal da decepção.

Que loucura prestar atenção à história! Mas fazer o quê, quando se é traspassado pelo Tempo?

Em face do mar, ruminava minhas vergonhas antigas e recentes. Não me escapou o ridículo de se ocupar de si, quando se tem sob os olhos o mais vasto dos espetáculos. Assim, tratei logo de mudar de assunto.

Pensem profundamente só aqueles não são afligidos pelo senso de ridículo.

A amizade é um pacto, uma convenção. Dois seres se comprometem tacitamente a nunca pôr à luz o que cada um no fundo pensa do outro. Um tipo de aliança fundada em arranjos. Quando um deles assinala em público os defeitos do outro, o pacto está devassado, a aliança rompida. Nenhum amizade dura se uma das partes se nega a jogar o jogo. Em suma, nenhuma amizade atura uma dose exagerada de franqueza.

“É preciso viver, dizeis vós, como se ninguém devesse morrer”. Não sabeis que todos vivem assim, inclusive os obcecados pela Morte?

Quem não sofreu não é um ser, quanto mais um indivíduo.

Tudo que acontece é por seu turno natural e inconcebível. É a conclusão que se impõe, se se considera os grandes e pequenos acontecimentos.

Sinal inescusável de imperfeição espiritual: a reação apaixonada à reclamação, aquela pontada no coração no instante em que nos olham de um modo ou de outro. É o grito do velho Adão em cada um de nós, provando que ainda não vencemos as origens. Enquanto não aspiramos ao desprezo, somos como aqueles que desprezamos.

Cada indivíduo que desaparece carrega consigo o universo: de uma só vez suprime-se tudo, tudo. Justiça suprema que legitima e reabilita a morte. Partamos sem tristeza, pois que nada nos sobrevive, sendo nossa consciência a só e única realidade: ela apaga, tudo é apagado, ainda que saibamos que nada disso é objetivamente verdade, e que de fato nada consente a nos seguir, nem se digna a evaporar conosco.

Qualquer doença pensa mais que um pensador. A doença é disjunção, logo reflexão. Sempre ela nos corta algo, e às vezes tudo. Até um idiota que prova uma sensação violenta de dor supera aí a idiotia; está dela consciente e se alça para além dela, e talvez para além de si mesmo, no memento em que sente que é ele que sofre. Semelhante, deve haver entre as feras graus de consciência, segundo a intensidade das afeções que padecem.

É uma mortificação terrível, mas ainda assim suportável, ter nascido em meio a um povo que nunca se ocupará em falar sobre ele.

Definitivamente, a velhice é a punição por ter vivido.

Enfrentar as grandes questões insolúveis não é o mais difícil, antes dirigir a alguém uma palavra delicada, em que tudo é dito, e nada.

Certamente é mau escritor quem pretende escrever para a posteridade. Não se deve saber para quem se escreve.

Que vale mais: realizar-se na ordem literária ou na ordem espiritual, ter talento ou força interior? Parece a segunda fórmula a preferível, pois mais rara e enriquecedora. O talento destina-se ao olvido, em contrapartida a força interior aumenta com os anos, podendo atingir seu apogeu no momento em que a pessoa expira.

Com dois anos e meio, uma criança que não sorri deve inspirar angústias, é o que parece. Seria o sorriso sinal de saúde, de equilíbrio. O louco, é bem verdade, mais tempo leva a rir que a não rir.

Diante desse acúmulo de túmulos, dir-se-ia que as pessoas não se preocupam com mais nada, senão em morrer.

Todo projeto é uma forma disfarçada de escravidão.

Não é certa a idéia de que a morte nos desembaraça de todo pensamento vil. Ela sequer faz-nos enrubescer de ter tais idéias. Nada corrige-nos de coisa alguma. Permanece o ambicioso tal qual até o último suspiro, perseguindo a fortuna e a nomeada mesmo se o globo estivesse preste a voar pelos ares.

Para que uma nação seja relevante, força é que o mediano seja bom. O que uma pessoa chama de civilização, ou simplesmente sociedade, nada mais é que a excelente qualidade dos medíocres que a compõem.

Provérbio chinês: “Quando um só cão põe-se a ladrar para uma sombra, dez mil cães tomam-na como realidade”. A colocar em epígrafe em qualquer comentário acerca das ideologias.

Conceder à vida mais importância que ela tem é o erro cometido pelos regimes indolentes: daí resulta que ninguém mais está pronto a se sacrificar para defendê-los, que se desmontem aos primeiros golpes que lhe aplicam. Isso é ainda mais verdadeiro para os povos em geral. Desde que começam a considerar a vida como sagrada, ela os abandona, pára de estar a seu lado.

Servo, o povo construía catedrais; emancipado, só constrói horrores.

“A vida do louco não tem alegrias, é agitada, está toda direcionada para o futuro”. Esta opinião de Sêneca, citada por Montagne, é útil para demonstrar que a obsessão pelo sentido da história pode ser fonte de desregramentos, como de fato é: seguir o fluxo ou contrariá-lo dá no mesmo, pois que nos dois casos não cessamos de vislumbrar o futuro, como vítimas consentidas ou arrastadas.

Novalis: “Depende de nós que o mundo conforme-se à nossa vontade”. É exatamente o contrário de tudo que se pode pensar e sentir no final da vida e, com maior razão, no final da história...

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