sexta-feira, dezembro 26, 2008

Louis Lavelle - O social é o inimigo

Como todos sabem, o social é o inimigo. Origina-se a força do social sempre da inveja ao individual.

A vida social sensaboriza, descora e esgota o pensamento, banaliza-o e materializa-o. Transforma o ser em algo de verbal e falso e obriga-o a discutir, a se defender e atacar. Distancia-o amiúde do centro de si mesmo. Como se abolisse o indivíduo, ela empresta toda sua força ao amor-próprio e sai em busca dum território comum a todos, que há de ser ou a opinião, isto é, o mundo, ou a intimidade de Deus.

É inata ao grupo a abolição de toda comunicação possível entre homens, pois a comunicação se trava entre indivíduos e se dá para além do grupo, no universal. Existem apenas duas formas de comunicação: a amizade e o amor. Mas é inato ao grupo excluí-las. Sob a forma duma presença anônima, pesada e odiosa, o coletivo me esmaga. Perde tempo quem queira conciliá-lo com a existência da pessoa e com as relações interpessoais, pois o coletivo é a negação das duas, é força que exalta o corpo, mas oprime a alma.

Apenas em sociedade encontram o seu arrimo o materialista e o ateu, apenas em solidão o espiritual e o religioso.

Somente a comunhão dos solitários é a verdadeira. Eis o paraíso, em oposição à comunidade das massas, em que se atritam os corpos ou em conjunto emitem os mesmos gemidos.

Evitai o comunismo e até a comunidade, que obrigam os homens a comunicar apenas o lado mais banal de si mesmos. Eia pois, que não se deve comunicar aos outros nem o que dissemos da solidão.

quarta-feira, agosto 20, 2008

Bossuet - Oração fúnebre a Henriqueta Ana da Inglaterra




[...] Considerai, Senhores, as grandes potestades que daqui debaixo contemplamos. Enquanto trememos sob o poderio de sua mão, golpeia-as Deus para nos alertar. Motiva-o a alta posição destas; e Deus, que as não poupa, não sofre em sacrificá-las para instrução do restante dos homens. Cristão, não murmureis se a Senhora foi escolhida para nos instruir. Como vereis a seguir, aqui nada houve de indelicado, porque a salvou Deus pelo mesmo golpe que nos instruiu. Deveríamos já estar convencidos de nosso nada: mas se é mister maravilhar os corações enfeitiçados pelo amor do mundo, este lance é assaz grande e terrível. Ó noite desastrosa! Ó noite lamentável, em que num instante reboou, qual um raio de claridade, esta estupenda novidade: a Senhora morreu, a Senhora está morta! Quem não se sentiu atingido por esse golpe, como se um trágico acidente desolasse sua família? Ao primeiro rumor dum mal tão inaudito, acorreram a Saint-Cloud de todas as partes: tudo era consternação, exceto o coração da princesa. Tudo eram clamores; em tudo se enxergava a dor e o desespero, e a figura da morte. O Rei, a Rainha, o Senhor, a Corte inteira, o povo inteiro, tudo era abatimento, tudo desespero; a mim, parece-me que vejo o cumprimento da palavra do profeta: Chorará o rei, lamentará a rainha, e tombarão de dor e de abatimento as mãos do povo. Mas em vão gemiam os príncipes e os povos , em vão o Senhor, em vão cingia o Rei à Senhora em tão estreitos abraços. Podiam então dizer um ao outro, junto com Santo Ambrósio: “Strigebam bracchia, sed jam amiseram quam tenebam: Cingi os braços, mas já perdera o que tivera”. Escapava-lhe a princesa de entre os abraços tão calorosos, e a morte poderosíssima no-la levava de suas mãos reais. Mas, quê! ela devia morrer tão cedo! Com a maioria dos homens, a pouco e pouco se fazem as mudanças, preparando-as a morte para o derradeiro retoque. Entretanto, a Senhora durou da manhã até à noite, qual a erva do campo. Rebentava, na manhã, e bem sabeis as suas graças; de noite, ressecava, como vimos; e estas rijas expressões, com que exagera a Escritura Santa a inconstância dos negócios humanos, haviam de ser para a princesa o exato e o literal!

domingo, maio 18, 2008

Chateaubriand - Pensamentos, reflexões e máximas



A miséria do homem não consiste somente na fraqueza da razão, na inquietude do espírito, na agitação da alma: está ainda presente num certo ridículo dos negócios humanos. As revoluções sobretudo revelam essa insuficiência da natureza: se vós as considerais em conjunto, parecem imponentes; se lhes penetrais nas sutilezas, percebereis tanta inépcia e baixeza, tantos homens afamados que nada eram, tantas coisas levadas por obra de gênio que se deveram ao acaso, que vós vos admirareis igualmente da grandeza das conseqüências e da pequenez das causas.

Quando se está distante dos fatos, quando não se comparte dos ambientes de facções e facciosos, somente o lado grave e doloroso dos acontecimentos impressiona; assim não acontece quando se é ator ou assistência comprometida, nessas encenações sanguinolentas. Tácito, de natural poeta, pudera ser ridicularizado na sátira de Petrônio caso tomasse assento no senado de Nero: pinta ele a tirania deste príncipe, pois que vivera após ele. Butler, dotado de gênio observador, pudera escrever a história de Carlos I caso não nascesse sob a rainha Ana: contentara-se de rimar Hudibras, pois que testemunhara as personagens da revolução de Cromwell; vira-lhes sempre a parolar sobre virtude, santidade, independência, dando as mãos a todas as correntes, e depois de terem imolado o pai, curvarem-se sob o jugo desprezível do filho.

Há iniqüidades políticas que se não podem perpetrar impunemente, por causa da avançada civilização dos povos. Não confiem que tais povos digam, sem conseqüências, a seus governantes: “Tal o crime, tal a punição por vossa falta”. Até os alicerces do poder se abalam por tais admoestações: caso ao poder falte o respeito às nações, este poder está em perigo.

Numa nação que ainda preserve a inocência primitiva, o vício estrangeiro progride mais rapidamente que numa sociedade corrompida, qual um homem que são morre de ar pestilento, em que vive um homem habituado a este ar.

Alcança-se a liberdade por dois caminhos, os costumes e as luzes. Mas quando faltam por sua vez os costumes e as luzes, quando se não é republicano à moda de Esparta, nem à moda dos Estados-Unidos, pode-se ainda assim conquistar a liberdade, pode-se ainda assim conservá-la.

Rememora a posteridade homens que transformaram impérios, quase nunca os que lhes restabeleceram, a menos que tal restabelecimento não tenha durado. Admira-se o que cria, mas mal se estima o que conserva: uma glória excelente cobre de trevas tudo o que vem depois.

Atormentai-vos em restabelecer a virtude entre um povo que a perdeu – fracassareis. Em tudo, há um princípio de destruição. Para que fim estabeleceu-o Deus? Eis seu segredo.

Alguns se admiram do êxito da mediocridade, mas se enganam. Em si, a mediocridade não tem força, mas nos medíocres que a representam; neste sentido, tem formidável poder. Quando mais baixo é um homem no poder, mais lhe convém todas as baixezas. Cada qual, comparando-se a ele, diz: “Por que não haveria de chegar minha vez?” Não excita ele nenhuns ciúmes: preferem-no os cortesãos, pois que podem desprezá-lo; conservam-no os reis como manifestação de sua onipotência. A mediocridade não possui apenas essas vantagens para permanecer em cena, mas ainda há outra maior: exclui do poder a capacidade. O representante dos tolos e dos imbecis no ministério afaga duas paixões do coração humano, a ambição e a inveja.

Amiúde a mediocridade é secundada por circunstâncias que lhe dão aparência de profundidade. Os homens influentes que, ao olhar da multidão, parecem dirigir a fortuna, são por ela conduzidos; como eles lhe dá a mão, crêem que a controlam.

De ordinário, são os homens de gênio as flores de seu século; constituem-lhe uma como epítome, simbolizando suas luzes, suas opiniões e seu espírito, mas por vezes também nascem cedo ou tarde demais. Se nascem cedo demais, antes de seu século natural, passam ignorados; sua glória é póstuma; se nascem tarde demais, depois de seu século natural, não conseguem realizar obras, não logram uma reputação duradoura. Por curiosidade, prestamos-lhes atenção por um momento, como faríamos com anciãos que passeassem nos lugares públicos vestidos com as roupas de sua época. Os homens de gênio que chegam tarde demais são desconhecidos como os que chegam cedo demais; mas, diferentes destes, não têm porvir, nem posteridade, nem descendentes para lhes estabelecer a glória: só poderiam admirá-los o passado, os predecessores, os mortos, um público silencioso.

Após um período de tristeza e glória, inclina-se um povo ao repouso: e mal submetem-se a instituições toleráveis, deixam-se levar facilmente pelos ministrículos do mundo; isso o distrai e diverte: compara tais pigmeus a gigantes que outrora viram, e se riem. Há exemplos de leões ligados a carros e conduzidos por crianças, mas aqueles sempre terminaram por devorar seus condutores.

Para os verdadeiros santos e homens superiores, a religião é admoestador severo, que lhes ensina a se humilhar e a verdadeira virtude; para os homens passionais e vulgares, tais lições só servem para nutrir o orgulho humano e dar aparências de virtude. “Marcho sobre as cabeças de meus amigos e inimigos: quem contudo pode dizer que me falta humildade? Não me pus a mim de joelhos?”

Escutai este homem a quem chamam de senhor: dir-vos-á ele que não é mais que um vilão, que quer continuar vilão, que não diligenciara em ocupar o posto que ocupa, que a revolução só terá termo quando um vilão como ele não estiver mais entre os primeiros do Estado. Todavia, usa este senhor um barrete vermelho para não mais ser vilão, assim como possui uma roupa bordada e um título para sair da classe dos vilões. Fiai-vos na humildade do senhor, e crede no camponês do Danúbio.

Os mendigos vivem de suas chagas: homens há que se aproveitam de tudo, até do desprezo.

Não existe política sentimental, dizem os ministros. Meu Deus! ficai tranqüilos, não há riscos neste sentido: não conheço muitos homens que conservassem as antigas paixões. Vós não quereis que os amemos: ah, como tendes razão! Mas já que preferis a política dos fatos àquela do direito, aceitai todas as suas conseqüências. Dar-nos-á o fato o direito de examinar se vós ministros servis para alguma coisa, e se não existe outro fato que valha mais que o vosso.

Se uma pessoa vos dá uma bofetada, devolvei-lhe quatro, não importa em qual face.

É salutar prosternar-se em terra quando se cometeu uma falta, mas não é salutar permanecer ali.

Vede este homem ; extremo é seu ressentimento. “Mas como! Queixa-se Teodúlio de tê-lo eu ofendido? Quanta insolência!” Mas, homem poderoso, caso Teodúlio tivesse seu mesmo poder, e não concedesse a ninguém o direito de ultrajá-lo, que haveríeis vós de redargüir? Já é passado o tempo em que um cortesão era temido; não há mais favor nem desfavor possíveis, exceto para os criados de quarto: tudo se reduz ao mérito pessoal. Quem pode dizer: “Tendes precisão de mim, mas eu não tenho precisão de vós”, é atualmente o verdadeiro superior. Talvez, fosse melhor outrora, mas ainda hoje as coisas são como antes. O que perdera o homem em poder, ganharam os homens.

A vida, a felicidade, o infortúnio se conservam num suspiro. Que vós morrais, e duas horas depois ninguém mais pensa em vós. Que vós vivais, e não pensam em vós tampouco. De que valem vossas alegrias, penas e existência, não só para vosso vizinho que jamais vereis, mas ainda para esta turba a quem chamais de amigos? Por que fazer da vida algo tão complicado? Ela não merece a mínima atenção.

De quando em quando, uma pessoa esquece suas dores por um momento; depois, elas regressam como o fardo que depusera um instante para repousar.

Os receios da ternura às vezes se transformam em realidade: a mãe enxerga na face do filho marcas duma doença que não existe. As outras quimeras da vida, as morais e as físicas, produzem as mesmas ilusões, por pena ou gozo.

Uma pessoa se reconcilia como o inimigo que lhe é inferior em qualidades de alma ou de espírito; não perdoa jamais àquele cujas alma e gênio o superam.

Vosso amigo acabou de partir; crede-vos forte contra a ausência: ide visitar a morada de vosso amigo, e ela vos ensinará o que perdestes e o que vos falta.

Quem perpetra o crime, em meio ao risco do perigo e ao tumulto das paixões, não tem tempo de escutar o remorso; mas quem é cúmplice e confidente do crime, sem ter papel ativo nele, escuta o brado vingador da consciência. Em retiro, conta os minutos que passam. “Agora, está acontecendo isto; agora, ele golpeia!” Sim, desgraçado, ele golpeia! É a mão de Deus que pesa sobre ti.

O verme da tumba começa a roer a consciência do indigno, antes de lhe devorar o coração.

Poderia uma causa justíssima, devido às circunstâncias fatais, parecer injustíssima? É possível vislumbrar um caso em que provar a inocência de alguém é impossível, e a vítima que faleceu e o juiz que pronuncia sejam da mesma forma inocentes? Que seria isto senão a justiça humana!

Uma pessoa tem o direito de matar o tirano; este tirano pode ser seu pai: logo, em certos casos é autorizado o parricídio? Quem poderia sustentar uma tal proposição?

Existe um encanto por trás dos sofrimentos, como uma dor por trás dos prazeres: a natureza do homem é a miséria.

Quem sofre por Deus tem a vantagem de estar sempre preparado para a hora derradeira, vantagem que não se oferece a todos os infortunados.

Como as grandes alegrias, as grandes aflições parecem suprimir as horas: tudo quanto absorve a alma impede de contar os instantes.

Há de se ter o coração ao alto para verter certas lágrimas: a fonte dos rios caldalosos encontra-se no cume dos montes que se avizinham do céu.

A alma do homem é translúcida como a água da fonte, enquanto não se agitem as mágoas que jazem no fundo.

A simplicidade vem da alma; a ingenuidade do espírito. Quase sempre um homem simples é um bom homem; um homem ingênuo pode ser um velhaco; contudo, a ingenuidade é sempre natural, enquanto a simplicidade pode ser efeito de arte.

Existem homens que não são eloqüentes, porque sua alma fala demasiado alto, e impede os outros de escutar o que dizem.

Torne a suplicar o manto da inocência ao arrependimento: foi ele que o encontrou, e o devolve aos que perderam.

Lisonjear a virtude sem ser capaz de amar é como apertar as belas mãos duma jovem entre as mãos engelhadas da velhice.

Assim que um pensamento verdadeiro penetra no espírito, lança uma luz que nos faz enxergar uma multidão de outros objetos que antes não percebíamos.

Certa ordem de sentimentos se avolumam na proporção das desditas do objeto amado: é a chama que se propaga mais rapidamente no sopro da tempestade.

Algumas vezes, esquecem-se da virtude durante a passagem neste mundo, mas ela renasce cedo ou tarde; desenterram-na das tumbas como se retira do seio da terra uma estátua antiga, que inspira a admiração dos homens.

Freqüentemente choram as pessoas de bem na mesma hora em que regozijam os perversos: este momento testemunha a consecução duma ação honesta e duma ação culpável. São o vício e a virtude irmão e irmã; engendrou-as o homem. Abel e Caim eram filhos de um só pai.

Há homens para quem a virtude não é aquela que os demais reconhecem como tal; não chamam por esse nome os objetos regulares da existência, mas os inferiores, aquela honestidade vulgar do exato cumprimento dos deveres; para eles a virtude é um impulso da alma que nos arrasta para o bem às expensas da felicidade e da vida, ou uma força que subjuga as mais ardentes paixões. Tais homens se põem acima dos outros homens, mas que benefícios trazem para a sociedade? Como as montanhas na natureza, ou os monumentos gigantescos da arte, estão fora das proporções usuais: quem os observa, tem medo.

O temperamento exaltado em pessoas vulgares é insuportável; juntos a uma grande alma ou a um belo gênio, são arrebatadores. Essas pessoas não querem seduzir, e são sedutoras; acontece que ignoram a sua força, por isso admiram-se de ser a causa da felicidade de uns, e da infelicidade de outros.

A desdita age sobre nós de acordo com o temperamento. Poderia um homem salvar-se se explicando, mas se recusa; crê um outro tudo consertar falando, mas se perde.

Seria estranho pretender o homem uma constância inalterável, ao passo que toda a natureza muda à sua roda: a árvore perde as folhas, o pássaro as plumas, o cervo a galhada. Somente o homem diria: “Minha alma é inquebrantável; como hoje, será ela amanhã”; o homem, cujos sentimentos são mais inconstantes que as nuvens! O homem, que ora deseja e ora não deseja! O homem, que se enjoa dos prazeres, como a criança de seus brinquedos!

Mais das vezes, pessoas que se amam juram, nos primeiros passos de felicidade, deixarem juntos a vida; mas ocorre que elas não andam na mesma velocidade, e quando uma está prestes a atingir a meta, a outra não está mais ou não existe mais.

A malícia é dentre todas as atitudes a mais vulgar. Nada é tão cômodo como perceber o ridículo ou o vício e dele escarnecer: há mister de se ter qualidades superiores para compreender o gênio e a virtude.

Quando uma pessoa fala dos vícios dum homem, caso diga: “Todo o mundo diz”, não acrediteis nele; caso fale de suas virtudes dizendo-vos ainda: “Todo o mundo diz”, crede-o.

Se sofreis de melancolia, fixai os olhos numa criança que dorme, a quem nenhum tormento molesta: tomareis emprestado algo dessa inocência, encontrareis alguma paz.

Por vezes, dois amigos que sofrem passam horas inteiras sem se falar. Que conversa equivaleria a esse comércio do pensamento na linguagem muda da infelicidade?

Parecem os outros sempre mais felizes que nós, e contudo é estranho que o homem que, de bom grado, trocaria de situação, só com muito esforço consentiria em modificar sua pessoa. Talvez quisesse rejuvenescer um pouco, não muito, e andar com firmeza, caso fosse manco; mas conservaria intacto o conjunto de sua pessoa, em que encontra mil afagos e um não sei quê de encantador. Não alteraria a mínima parcela de seu espírito: habituamo-nos a nós e apegamo-nos a esta velha sociedade.

Tornai a visitar no dia do infortúnio o lugar onde habitáveis no tempo da felicidade: dele exala qualquer coisa de triste, formada da lembrança das alegrias passadas e do sentimento dos males presentes. Não está ali a época em que éreis feliz? e agora! Todavia, os lugares são os mesmos: o que mudou então? O homem.

Os que nunca tiveram nada de importante para dizer a um amigo mal sabem o que se sente quando, ao visitá-lo, de alma abalada, não mais encontramos o amigo, nem quem possa dizer onde ele está ou se a morte o arrebatou.

Carece de segredos os reparos da beleza do corpo: não carece de nenhuns para se conservar aquela da alma.

Cada homem possui um lugar em particular no mundo onde pode dizer que fruiu da maior das alegrias: o cálculo é fácil de fazer.

A paixão dominante extingue as demais dentro da alma, como o sol obnubila os astros no resplendor de seus raios.

Alguns homens viajam em caravana, e falam pouco ou nada sobre o caminho. Ainda que oriundos do mesmo país, não concordam ou não possuem a mesma natureza: uns nasceram brancos, outros negros.

A conversação dos espíritos superiores é ininteligível aos medíocres, pois que grande parte do que vai dito subentende-se e adivinha-se.

Uma certa abertura de espírito faz uma pessoa se acostumar rapidamente aos usos estrangeiros, e ter o jeito, meio acanhado, de quem os praticou por toda a vida, que tem lá a sua graça e nobreza.

Pode a nomeada iludir a ponto de inspirar a paixão ao que a natureza tornou desagradável? Não o creio: a glória está para o homem velho como os diamantes para uma mulher velha: eles a enfeitam, mas não conseguem aformoseá-la.

Reproduzidos na memória, os prazeres da juventude assemelham-se a ruínas vistas em meio a chamas.

Esta é uma época em que alguns meses acrescentados à vida bastam para desenvolver faculdades até então sepultadas num coração semi-fechado: uma pessoa dorme criança. e desperta homem.

Há motivos para alarde, porque algumas horas fazem grande diferença para a alma dum homem? Da vida para a morte, basta um minuto.

As penas são parte da ordem do destino: os que, buscando esquecê-las, ocupam-se do porvir, não imaginam que não verão este porvir. Cada qual, ao morrer, transmite o peso da vida a outro; em cada sepulcro, está um homem que recebe o fardo da mão do homem que se vai repousar: o novo mensageiro leva por sua vez o fardo até a próxima tumba.

Vangloriam-se todos os homens ; temos todos à boca esta frase banal: muito se passou de hoje àquela época. Muito se passou! E a vida, quanto dura ela?

Cai a árvore folha por folha: se a cada manhã contemplassem os homens o que perderam na véspera, compreenderiam sua pobreza.

No fundo, o homem não tem aversão à morte; tem mesmo prazer em morrer. A lâmpada que se extingue não sofre.

Segundo os selvagens, a morte é uma mulher alta e belíssima, a quem só falta o coração.

A cinza do morto, fosse quem fosse enquanto vivo o defunto, é sagrada. O resíduo dos tiranos dá lições tão excelentes quanto aquele dos bons reis.

Há dois pontos de vista donde a morte se mostra bem distinta. De um desses pontos, percebeis a morte ao final da vida, como um avantesma na extremidade da longa avenida: a distância fá-la parecer pequena, mas à medida que vos aproximais, cresce; termina o espectro colossal por estender sobre vós as mãos frias, e vos sufocar. De um outro ponto de vista, parece a morte enorme ao termo da vida; mas à medida que marcheis a seu encontro, ela diminui, e quando é chegado o momento de tocá-la, ela se evola. O insensato e o sábio, o poltrão e o corajoso, o ímpio e o religioso, o sensual e o virtuoso – assim diferente vêem a morte em perspectiva.

A voz do homem não se reanima como a voz do eco: o eco pode dormir dez séculos nas dobras do deserto e ao fim desse temoi responder ao viajante que o interroga; o túmulo jamais responde. Tu, que dás a vida e a morte aos homens, que amas os que choram, acolhe a prece do infortunado que sofre a teu exemplo! Sustenta o fardo que o esmaga! Sê para ele o Cirineu que te ajudou a levar a cruz sobre o Gólgota!

quarta-feira, abril 30, 2008

Prosper Mérimée - A Morte de Carmem

Veio-me ao bestunto pôr à lume alguns trechos seletos de obras, traduzidos por este que vos fala. É objeto destes posts, além do salutar exercício que é o traduzir exímios escritores, espicaçar a alheia curiosidade para os livros aqui escolhidos. O critério é o de sempre, qual seja, o do gosto. Na estréia, Mérimée.

Luiz de Carvalho.

Quando terminou a celebração da missa, retornei à venta. Esperava que Carmem já tivesse fugido: ela poderia montar meu cavalo e salvar-se... mas a encontrei ainda lá. Ela não queria ouvir comentários de que eu lhe amedrontara. Durante minha ausência, descosera a bainha do vestido para dali retirar chumbo. Estava então diante duma mesa, olhando para o chumbo - derretido à sua ordem - megulhado no alguidar cheio d’água, onde acabara de o lançar. Ora tomava um pedaço do chumbo e o chacoalhava para todos os lados com semblante triste, ora entoava uma dessas canções mágicas, a evocar Maria Padilha, a amante de Dom Pedro, que foi, segundo dizem, a Bari Crallisa, ou a suprema rainha dos Boêmios:

- Carmem, disse-lhe eu, queres vir comigo?

Ela se levantou, atirou a gamela de lado, e cobriu a cabeça com a mantilha, como se prestes a sair. Trouxeram meu cavalo, ela montou na garupa, e nós ganhamos a estrada. – Assim, disse eu, depois dum pedaço de caminho, minha Carmem, queres tu me seguir, não é?

- Sigo-te para a morte, sim, mas não viverei mais contigo.

Percorríamos uma garganta solitária; sofreei o cavalo.

- É aqui? perguntou ela.

Num salto, desceu ao solo. Retirou a mantilha, lançou-a aos pés, e permaneceu imóvel com a mão fechada na cintura, arrostando-me.

- Queres me matar, sei bem disso, afirmou ela; está escrito, mas tu não me farás recuar.

- Rogo-te, pedi a ela, sê razoável. Escuta-me! o passado está esquecido. Mas, tu o sabes, foste tu que me perdeste; foi por ti que me tornei ladrão e assassino. Carmem! minha Carmem! deixa-me salvar-te e salvar-me contigo.

- José, respondeu ela, pedes-me o impossível. Não te amo mais; tu ainda me amas, e é por isso que me queres matar. Bem que poderia te enredar nalguma mentira, mas o esforço não vale a pena. Entre nós está tudo acabado. Como meu rom, tens o direito de matar tua romi, mas Carmem para sempre será livre. Ela nasceu calli, e calli morrerá. – Então, tu amas Lucas? perguntou ele a ela. – Sim, eu o amei, como a ti, mas só por um instante, talvez um pouco menos que a ti. No presente, não amo mais coisa alguma, e me odeio por haver-te amado.

Arrojei-me a seus pés, implorei-lhe de mãos postas, reguei-as com minhas lágrimas. Relembrei os momentos de felicidade que passáramos juntos. Assenti em continuar como salteador para agradá-la. Tudo, senhores, tudo; ofereci-lhe tudo, à condição de continuar me amando!

Ela me disse:

- Continuar te amando é impossível. Viver contigo não quero.

Tomei-me de furor. Desembainhei a faca. Quis que ela se amedrontasse e me pedisse misericórdia, mas aquela mulher era o demônio.

- Pela última vez, gritei, fica comigo!

- Não, não e não! retorquiu-me ela, batendo o pé. Arrancou do dedo o anel que eu lhe dera de presente e jogou-o no mato.

Dei-lhe duas cutiladas. Já que minha faca havia quebrado, vali-me da do Borgne. No segundo golpe, ela caiu, sem gritar. Creio que ainda posso ver seus grandes olhos a me observar fixamente; depois, embaciaram-se e se fecharam. Fiquei aniquilado por um bom tempo defronte ao cadáver. Depois, lembrei-me que Carmem dizia amiúde que gostaria de ser enterrada na floresta. Cavei um buraco com a faca e depositei-a ali. Eu a pus no buraco, e próximo dela uma cruzinha. Talvez esteja enganado. Logo após, montei no cavalo e galopei até a cidade de Córdoba, e no primeiro regimento de guarda identifiquei-me. Confessei que matara Carmem, mas me recusei a dizer onde estava o corpo. O eremita era um santo homem. Rogou por ela! Celebrou uma missa por sua alma... Pobre criança! São as cales as culpadas, por a terem criado assim.


(Da novela Carmem)


domingo, abril 20, 2008

W. B. Yeats - Para um amigo...

Esta tradução data de fins de 2004. Àquela época, ainda estava gatinhando neste ofício da tradução, de cujos píncaros estou ainda mui distante, mas agora pelo menos eu SEI do que se trata a arte. E sabendo para onde se quer ir, se se não logra alcançar a meta desejada, tem-se a consciência de percorrer o reto caminho - e se vai obrando, o melhor que pode, em meio ao percurso. Enfim, o que quero dizer-vos é que a tradução não está das melhores (provavalmente, está das piores), mas não vou corrigi-la (muito), pois que foi de coração, embora bem se saiba que intenções nem de longe são justificativas para algo mal feito. Contudo, a fim de lhes não privar da beleza da obra, trago à colação o original, para maior escarmento da versão portuguesa.

Luiz de Carvalho


Para um amigo cujo

esforço não deu em nada

Toda verdade está revelada,

Sê discreto e à infamante

Garganta faze-a derrotada,

Na medida em que a ti compete,

Como te conservarás honrado

Ante a quem, por ditos escarninhos,

Provou não se sentir envergonhado

Nem ao menos perante seus vizinhos?

Preparado para maior destino

Que o Triunfo, abandona tais planos,

E como um ridente violino

Onde se agitam loucos dedos ufanos,

Em meio ao escabroso penhascal

Sê discreto e, então, prevaleças,

Pois de todo o sabido afinal

Esta é a mais difícil das empresas.


To a friend whose work

has come to nothing

Now all the truth is out,

Be secret and take defeat

From any brazen throat,

For how can you compete,

Being honour bred, with one

Who, were it proved he lies,

Were neither shamed in his own

Nor in his neighbours´ eyes?

Bred to a harder thing

Than Triumph, turn away

And like a laughing string

Whereon mad fingers play

Amid a place of stone,

Be secret and exult,

Because of all things known

That is most difficult.

quarta-feira, abril 09, 2008

Emil Cioran - Esboços de Vertigem

Emil Cioran era um céptico, é o que falam; em verdade, “céptico” talvez seja um termo fraco para quem se consumiu em dissolver quanto lhe passasse na mente – tentara, num esforço baldado, ir além do ceticismo, mas para um homem que tal, o fracasso só era mais um bom motivo para escrever, senão o principal. Não enlouqueceu nem se suicidou, porque nunca levou demais a sério o que imprimiu em letra redonda. E é com este espírito que devem ler o que vai aqui. Parece-me mui de longe a obra do ilustre escriba uma glosa do “vaidade das vaidades” bíblico (também remete-me aos versículos em que Jó como que lamenta o fato de ter nascido), por isso traduzo os anexins; já seu estilo fecundo e axiomático não pude reproduzir a contento. Além do mais, Emil Cioran é o único escritor que conheço a passar a vida dedicando-se ao ladeira abaixo existencial sem parecer com isso um perfeito idiota - um grande elogio, sem dúvida.

Luiz de Carvalho.


Esboços de Vertigem (excertos)

Não é certo querer facilitar o trabalho do leitor. Não recebereis por isso nenhum agradecimento. Ele ama a incompreensão, o desequilíbrio, o atolamento, ama ser punido. Daí o prestígio dos autores confusos, daí a perenidade do maçador.

“O gosto do extraordinário é característico da mediocridade” (Diderot). ...E ainda se espantam de que o Século das Luzes não entendesse coisa alguma de Shakespeare.

Uma pessoa escreve não porque tenha algo a dizer, mas porque tem vontade de dizer algo.

A verdadeira elegância moral baseia-se na arte de disfarçar as vitórias em derrotas.

Impossível chegar à verdade através de opiniões, pois toda opinião não passa de um ponto de vista louco, sobre a realidade.

Enquanto preparavam a cicuta, aprendia Sócrates uma canção na flauta. “Para que te servirás? lhe perguntaram.” “Para sabê-la antes de morrer.” Ouso recordar esta resposta que os manuais banalizaram, pois que ela me parece a única justificação séria da vontade de conhecer, que se dá até mesmo às portas da morte ou em outro momento qualquer.

Detestar alguém é querer que ele seja qualquer um, menos o que é. T. escreve-me que sou o homem que mais ele ama no mundo... mas ao mesmo tempo adjura-me ao abandono das minhas obsessões, a mudar de rota, tornar-me outro, de romper com a pessoa que sou. O mesmo é dizer que ele recusa meu ser.

Se tudo convergisse para o melhor, os velhos, furiosos de não podê-lo gozar, morreriam todos de desgosto. Felizmente, para eles, o curso tomado pela história desde o começo consola-os, permitindo-lhes morrer sem traço de ciúmes.

No enterro de C. falava eu comigo: “Eis enfim alguém que não teve um só inimigo”. Não que fosse ele medíocre, mas ignorava em grau inaudito a ebriedade de ferir.

Todos estes olhares duros, maldosos. Não ouso imaginar-lhes a expressão, em caso de sedição. A palavra “próximo” não tem sentido em uma grande cidade. É vocábulo legítimo nas civilizações rurais, onde as pessoas se conhecem de perto, onde podem se amar e detestar em paz.

Ser é estar encurralado.

Começar uma família. Creio que me seria mais tranqüilo começar um império.

Só a flor decaída é verdadeira flor, disse um japonês. Estou tentado a falar o mesmo da civilização.

Quando vejo alguém pugnar por uma causa qualquer, procuro saber o que se passa em seu espirito, e donde possa provir esta evidente falta de maturidade. Talvez a recusa da resignação seja sinal de “vida”, mas nunca, em todo caso, de clarividência, ou simplesmente de reflexão. O homem sensato não se rebaixa a protestar. A custo consente ele com a indignação. Levar a sério os negócios humanos testemunha alguma carência secreta.

As pessoas são condescendentes com os obsedados pelo pior, no momento em que reconhecem a justiça de suas apreensões e advertências. São muito mais indulgentes com os que se equivocaram, já que acreditavam ser sua cegueira fruto do entusiasmo e da generosidade, enquanto o outro, prisioneiro da lucidez, não passaria de um covarde, incapaz de assumir o risco da ilusão.

Quanto mais sofremos injustiças, mais arriscamos a mergulhar de cabeça na soberba ou no orgulho. A vítima se convence de ser um eleito às avessas, e como tal reage, sem desconfiar que por isso acaba por se submeter ao mesmo estatuto do diabo.

A bem dizer, nunca conheci a indigência. Em compensação, conheci, se não a doença, ao menos a ausência de saúde, o que me livra do remorso de não ter vivido na miséria.

Quanto mais as pessoas envelhecem, mais correm após as honras. A vaidade talvez não esteja tão ativa quanto às portas do túmulo. Aferram-se a uns nadas para não saberem o que esses nadas escondem, enganam o nada com algo ainda mais nulo.

Passo meu tempo em aconselhar o suicídio por escrito e a desaconselhá-lo pela palavra. No primeiro caso, é uma exploração filosófica; no segundo, um ser, uma voz, uma queixa...

A prova de que o homem execra o homem? Basta encontrar-se em meio à multidão, para sentir-se solidário a todos os planetas mortos.

Só há conversação agradável com os mimados que deixaram de sê-lo, com os ex-ingênuos... Acalmados enfim, deram, a gosto ou a contra-gosto, o passo decisivo em direção ao Conhecimento, esta versão impessoal da decepção.

Que loucura prestar atenção à história! Mas fazer o quê, quando se é traspassado pelo Tempo?

Em face do mar, ruminava minhas vergonhas antigas e recentes. Não me escapou o ridículo de se ocupar de si, quando se tem sob os olhos o mais vasto dos espetáculos. Assim, tratei logo de mudar de assunto.

Pensem profundamente só aqueles não são afligidos pelo senso de ridículo.

A amizade é um pacto, uma convenção. Dois seres se comprometem tacitamente a nunca pôr à luz o que cada um no fundo pensa do outro. Um tipo de aliança fundada em arranjos. Quando um deles assinala em público os defeitos do outro, o pacto está devassado, a aliança rompida. Nenhum amizade dura se uma das partes se nega a jogar o jogo. Em suma, nenhuma amizade atura uma dose exagerada de franqueza.

“É preciso viver, dizeis vós, como se ninguém devesse morrer”. Não sabeis que todos vivem assim, inclusive os obcecados pela Morte?

Quem não sofreu não é um ser, quanto mais um indivíduo.

Tudo que acontece é por seu turno natural e inconcebível. É a conclusão que se impõe, se se considera os grandes e pequenos acontecimentos.

Sinal inescusável de imperfeição espiritual: a reação apaixonada à reclamação, aquela pontada no coração no instante em que nos olham de um modo ou de outro. É o grito do velho Adão em cada um de nós, provando que ainda não vencemos as origens. Enquanto não aspiramos ao desprezo, somos como aqueles que desprezamos.

Cada indivíduo que desaparece carrega consigo o universo: de uma só vez suprime-se tudo, tudo. Justiça suprema que legitima e reabilita a morte. Partamos sem tristeza, pois que nada nos sobrevive, sendo nossa consciência a só e única realidade: ela apaga, tudo é apagado, ainda que saibamos que nada disso é objetivamente verdade, e que de fato nada consente a nos seguir, nem se digna a evaporar conosco.

Qualquer doença pensa mais que um pensador. A doença é disjunção, logo reflexão. Sempre ela nos corta algo, e às vezes tudo. Até um idiota que prova uma sensação violenta de dor supera aí a idiotia; está dela consciente e se alça para além dela, e talvez para além de si mesmo, no memento em que sente que é ele que sofre. Semelhante, deve haver entre as feras graus de consciência, segundo a intensidade das afeções que padecem.

É uma mortificação terrível, mas ainda assim suportável, ter nascido em meio a um povo que nunca se ocupará em falar sobre ele.

Definitivamente, a velhice é a punição por ter vivido.

Enfrentar as grandes questões insolúveis não é o mais difícil, antes dirigir a alguém uma palavra delicada, em que tudo é dito, e nada.

Certamente é mau escritor quem pretende escrever para a posteridade. Não se deve saber para quem se escreve.

Que vale mais: realizar-se na ordem literária ou na ordem espiritual, ter talento ou força interior? Parece a segunda fórmula a preferível, pois mais rara e enriquecedora. O talento destina-se ao olvido, em contrapartida a força interior aumenta com os anos, podendo atingir seu apogeu no momento em que a pessoa expira.

Com dois anos e meio, uma criança que não sorri deve inspirar angústias, é o que parece. Seria o sorriso sinal de saúde, de equilíbrio. O louco, é bem verdade, mais tempo leva a rir que a não rir.

Diante desse acúmulo de túmulos, dir-se-ia que as pessoas não se preocupam com mais nada, senão em morrer.

Todo projeto é uma forma disfarçada de escravidão.

Não é certa a idéia de que a morte nos desembaraça de todo pensamento vil. Ela sequer faz-nos enrubescer de ter tais idéias. Nada corrige-nos de coisa alguma. Permanece o ambicioso tal qual até o último suspiro, perseguindo a fortuna e a nomeada mesmo se o globo estivesse preste a voar pelos ares.

Para que uma nação seja relevante, força é que o mediano seja bom. O que uma pessoa chama de civilização, ou simplesmente sociedade, nada mais é que a excelente qualidade dos medíocres que a compõem.

Provérbio chinês: “Quando um só cão põe-se a ladrar para uma sombra, dez mil cães tomam-na como realidade”. A colocar em epígrafe em qualquer comentário acerca das ideologias.

Conceder à vida mais importância que ela tem é o erro cometido pelos regimes indolentes: daí resulta que ninguém mais está pronto a se sacrificar para defendê-los, que se desmontem aos primeiros golpes que lhe aplicam. Isso é ainda mais verdadeiro para os povos em geral. Desde que começam a considerar a vida como sagrada, ela os abandona, pára de estar a seu lado.

Servo, o povo construía catedrais; emancipado, só constrói horrores.

“A vida do louco não tem alegrias, é agitada, está toda direcionada para o futuro”. Esta opinião de Sêneca, citada por Montagne, é útil para demonstrar que a obsessão pelo sentido da história pode ser fonte de desregramentos, como de fato é: seguir o fluxo ou contrariá-lo dá no mesmo, pois que nos dois casos não cessamos de vislumbrar o futuro, como vítimas consentidas ou arrastadas.

Novalis: “Depende de nós que o mundo conforme-se à nossa vontade”. É exatamente o contrário de tudo que se pode pensar e sentir no final da vida e, com maior razão, no final da história...