domingo, abril 22, 2007

Santo Tomás de Aquino - Corrente d'Oiro (1)


Santo Tomás de Aquino
Corrente d'Oiro sobre o
Evangelho segundo São Mateus


Explicação encadeada
dos
QUATRO EVANGELHOS,
da lavra do Doutor Angélico
Santo Tomás de Aquino,
composta dos intérpretes gregos e latinos, mormente
os Santos Padres,
coordenados e encadeados de forma admirável
de modo a perfazer um texto coeso e com justiça
intitulado de

A CORRENTE D’OIRO
Traduzido para o português à partir da

NOVA TRADUÇÃO
de
M. L’ABBE J.-M. PERONNE

Cônego titular da Igreja de Soissons, antigo professor de Sagrada Escritura e de santa eloqüência
Tomo primeiro

PARIS
LIBRAIRIE DE LOUIS VIVÈS, ÉDITEUR
rue Delambre, 9
1868


CONCESSÃO

Do reverendo provincial da província de Paris, da ordem dos Irmãos Predicadores, para a nova edição da Corrente d’Oiro.

Nós, Fr. Étienne Blondel, doutor em teologia da faculdade de Paris e prior, ainda que indigno, da província de Paris dos irmãos predicadores, damos a permissão e facultamos ao R. P. F. Jean Nicolai, doutor em teologia e professor titular em teologia, além de diretor de estudos no convento de São Tiago, publicar a Corrente d’Oiro de Santo Tomás acerca dos quatro evangelhos, corrigido e acrescentado das necessárias notas; facultamos-lhe também a permissão de publicar outras obras, as quais poderá corrigir e anotar, em livreiros de sua escolha, conforme o privilégio real; por isso, recomendamo-la vivamente, pelo desejo de sermos úteis ao público. Dou fé de que lhe conferimos as presentes licenças, as marcas dos selos de nossa secretaria, e as assinaturas de punho próprio, apondo-as ao início da publicação.

Dadas no sobredito convento de São Tiago de Paris, a 2 de maio do ano de 1657.




A NOSSO SANTÍSSIMO PAI URBANO
QUARTO PAPA DE SEU NOME, PELA PROVIDÊNCIA DIVINA.

Frei Tomás de Aquino, da ordem dos Irmãos Predicadores, beija-lhe os pés com pios respeitos.
A fonte da sabedoria, o Excelso e Único Verbo de Deus (Si 1, 5; seguido por Sg 8, 1), por Quem o Pai fez a Criação com sabedoria e ordenou as criaturas com duçor, dignou-se revestir-se de nossa carne no final dos tempos, para que o olhar humano, incapaz de atingir aquelas alturas da divina majestade, pudesse contemplar seu brilho sob o véu da natureza humana. Ele derramou seus raios, as marcas da sua sabedoria, sobre todas as obras da criação; mas, por uma prerrogativa excelentíssima, Ele imprimiu na alma humana o selo da sua semelhança e gravou, com os maiores cuidados, a augusta imagem no coração dos que deveriam receber o dom de amá-lo na abundância de sua graça. Mas, que é a alma humana em meio à imensidão da criação, para que recebesse em toda sua perfeição as impressões da sabedoria divina? Os homens, ainda que cobertos das trevas do pecado e encobertos das nuvens das preocupações temporais, recebem a luz de Deus; e os insensatos, por obnubilados, atribuíram a glória de Deus aos falsos ídolos, e se fizeram indignos, por entregues aos seus sentidos depravados (Rm 1, 21, 23, 28, etc.).

Ora, a divina sabedoria fez o homem para este conhecê-la, e não permitiu-lhe fosse ele privado desse dom excelentíssimo; transportou-se toda para nossa natureza, numa união admirável, a fim de conduzir para si os homens, desviados. O príncipe dos apóstolos fora o primeiro a merecer contemplar o brilho dessa sabedoria através dos véus da mortalidade, e a confessá-la, com vigor e na plenitude duma convicção livre de erro, por essas palavras: “Vós sois o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Ó bendita confissão, não foi nem a carne nem o sangue, mas o Pai celeste que vos revelou. Ela fundou a Igreja na terra, franqueou as portas do céu, recebeu o poder de remir os pecados, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela. Cuideis bem, santíssimo Pai, como legítimo herdeiro dessa fé e dessa confissão, de que a luz da divina sabedoria inunde os corações fiéis. Não cedais às fantasias insensatas dos heréticos, chamados por isso de portas do inferno. Platão considerava feliz a república cujos cabeças entregavam-se ao estudo da sabedoria, sabedoria essa desfigurada, mais das vezes, pela fraqueza do espírito humano; quão mais feliz então devemos estimar o povo cristão, submetido a vossa governança e agraciado com tanta solicitude dessa sabedoria tão elevada, sabedoria ensinada por meio de palavras e demonstrada por obras pela mesma sabedoria de Deus revestida da natureza mortal? Por efeito dessa solicitude vigilante, Vossa Santidade dignou-se confiar-me a tarefa de explicar o Evangelho de São Mateus, a qual tarefa cumpri na medida das minhas forças, coligindo com método trechos de diversos tratados dos santos doutores, para construir uma exposição encadeada desse Evangelho. Dei o título geral de Glosas às poucas citações tiradas de autores não renomados, constantes em sua maioria dentro das Glosas, para assim distingui-las das passagens dos Santos Padres. Tomei o cuidado de sempre dar o nome dos autores latinos, com a indicação precisa do livro donde tirou-se a citação, exceto os comentários ou explicações que outrem fizeram desse Santo Evangelho. Achei desnecessário dar tal indicação. Assim, por exemplo, se cito São Jerônimo sem indicação do livro ou tratado, quer dizer que a passagem tirou-se de seu comentário sobre São Mateus, e assim com os demais. Contudo, para as citações emprestadas do comentário sobre São Mateus de São Crisóstomo, achei por bem acrescentar “sobre São Mateus”, para distingui-las de outras passagens tomadas das homilias do mesmo Padre. Conveio abreviar partes das citações emprestadas dos Santos Padres, por questão de brevidade e clareza, assim como, para melhor inteligência do texto, alterar por vezes a ordem das frases. Em certas ocasiões, abandonei o texto e dei-lhe somente o sentido, sobretudo nas homilias de São Crisóstomo, cuja tradução é defeituosa. Propus-me como finalidade desta obra não apenas buscar o sentido literal, senão também expor o sentido místico, destruir a vereda aberta pelos erros, e apoiar sobre novas evidências a verdade católica; isso pareceu-me indispensável, porque é sobretudo no Evangelho que encontramos a forma, a perfeição da fé católica, e a regra de toda a vida cristã. Tomara essa obra não pareça longa demais a ninguém. Pareceu-me impossível seguir um itinerário tão extenso sem muito abreviar com a maior concisão possível, pois tinha de citar muitos santos doutores. Vossa Santidade, dignai-vos aceitar esta obra que ora submeto ao exame e correção de vosso julgamento. O trabalho é fruto de nossa solicitude e minha obediência; vós ma impusestes, a vós pertence o julgar em última instância. As flores retornam ao lugar donde saíram (Si 1, 7).



Ao venerabilíssimo Pai em Jesus Cristo
MONSENHOR ANNIBAL
CARDEAL PADRE DA BASÍLICA DOS DOZE APÓSTOLOS

Frei Tomás de Aquino, da ordem dos Irmãos Predicadores, vosso servo.
O soberano autor de todas as coisas, Deus, cuja bondade inspirou a Criação, deu a toda criatura o amor natural do bem, para que, ao amar e buscar naturalmente o bem que lhe é conatural, caminhasse por uma via admirável até o autor do bem. A criatura racional está acima das demais, porque é capaz de contemplar, por meio da sabedoria, a fonte universal do bem, e aí saciar-se com doçura, por meio do amor de caridade. Daí vem ao julgamento da sã razão que se deve preferir acima de todos os outros bens o dom da sabedoria, que nos conduz à fonte primeva de toda a bondade. A sabedoria não gera fastio: alimentamo-nos e ainda temos fome, bebemos e ainda temos sede. Ela aborrece tanto o pecado que as pessoas que se guiam pelas inspirações dela não sucumbem jamais à tentação. Ela oferece aos seus ministros frutos verdadeiramente incorruptíveis, porque aqueles que a manifestam aos homens recebem como recompensa a vida eterna. Sua doçura está acima de todas as volúpias; sua segurança, acima dos tronos e reinos; seus lucros crescentes, acima de todas as riquezas. Depois de provar a sedução de seus favores, tentei expor essa sabedoria evangélica por meio da compilação dos vaticínios dos santos doutores. Desde antes todos os séculos, ela se escondia nas profundezas da eternidade, até a sabedoria encarnada dá-la à luz. Em primeiro, convidou-me a esse trabalho a ordem de Urbano IV, de feliz memória; mas, após a morte do pontífice, faltava-me ainda explicar os três Evangelhos, o de São Marcos, o de São Lucas e o de São João, e não quis conceder à negligência a interrupção do trabalho que a obediência começou; daí revesti-me de escrúpulos para completar a exposição dos quatro evangelhos, seguindo o plano anterior ao citar os santos doutores, sempre fazendo preceder seus nomes.

Mandei traduzir em latim muitas passagens dos Padres gregos, mesclando-as com as dos autores latinos, para tornar esta exposição doutrinal dos santos intérpretes mais completa e encadeada, mas sempre tomando o cuidado de apor seus nomes a cada citação. Como as primícias dos frutos do trabalho convém dá-las aos padres, convenci-me ser meu dever oferecer esta exposição dos Evangelhos, fruto do meu trabalho, ao padre da basílica dos doze apóstolos. Dignai-vos aceitá-la como devida homenagem à vossa autoridade, ao passo em que submetemo-la ao julgamento de vossa eminente ciência. Tomara vossa velha amizade veja aí o testemunho de minha sincera afeição.

2 comentários:

Leandro Carvalho disse...

A paz, Luiz!
Você tem planos de traduzir toda a Catena Áurea? Nunca a encontrei em português.
Seria muito bom focasse ao menos um pouco dos seus trabalhos nas obras de doutores de Igreja que não existem em português.
Outro bom foco seria a tradução de um bom livro sobre a história da Igreja.
Enfim, trabalho não falta, e trabalho para um dia (não muito distante) ter tempo e condições para me juntar nessa empreitada de traduções.
Parabéns pelo trabalho, e que Deus te abençoe.
Leandro Carvalho

Luiz de Carvalho disse...

Salve Maria!

A curto e médio prazo, não tenho planos de traduzir a Catena Aurea, pois que me considero incompetente para a tarefa: só alguém conhecedor do latim e frequentador dos santos padres poderia cometer tal empresa.
Já livros de história da Igreja é possível, mas por enquanto não há em plano a tradução de nenhum (embora me venham à mente alguns títulos).
Deus nos dê tempo e inteligência para traduzir e escrever - por que não? - tudo quanto for para a Sua maior glória, se Ele sofrer em servir-se de nós.

Abraço.