domingo, novembro 25, 2007

Voltaire, Vol et taire

“O plágio, a cópia”
In:
Pequena Fábrica de Literatura

O plágio é a reprodução pura e simples de um texto ou um fragmento de texto. Plagiar, diz o dicionário Robert, é copiar de um autor, atribuindo a si indevidamente as passagens da obra.

François Maynard (1582-1646)

Os humores teus são governo de estado;
Teu capricho faz calma e tempestade
E tu ris quando vês-me confinado
Em minha vila, longe da majestade.

Cléomedom, tudo sai-me a contento:
É tão belo o deserto em sua guarita,
Reconheço e me rendo a este tempo,
Fujo ao mundo e me torno eremita.

Sou feliz de enrugar sem ter prestia,
De me esconder, viver qual se queria,
Fazer troça do medo e da esperança.

Caso o Céu, que tão bem me recebeu,
Se apiede, de tu e desta França,
O teu gozo seria igual ao meu.


Voltaire (1694-1778)

É teu humor governo de estado;
Tua vontade faz calma e tempestade;
Mas tu ris quando vês-me confinado
Em minha vila, longe da majestade.
Que mal há, enrugar sem ter prestia
Não ter zelos, viver qual se queria?
Ah! Se o Céu, que tão bem me recebeu,
Se apieda, de tu e desta França,
O teu gozo seria igual ao meu.


Vejamos como Voltaire se justificava do procedimento, nas suas Cartas Filosóficas:

“Quase tudo é imitação. O Boiardo imitou o Pulci, e o Ariosto o Boiardo. Os espíritos mais originais emprestam um dos outros. Metastásio compôs a maioria de suas óperas a partir das tragédias francesas. Diversos autores ingleses nos copiaram e calaram isso. Livros são como o fogo das lareiras: toma-se o fogo no vizinho e acende-se em casa, passa-se adiante e ei-lo pertencente a todos.”

quinta-feira, novembro 15, 2007

Aos que lêem o blog Traduções Gratuitas, informo que estou a revisar os textos de Lavelle. Recomendo a quem por acaso os andou gravando off-line copiá-los novamente. Em alguns houve mudanças aqui e ali, mas em outros aconteceu de mudar até uns significados. De forma geral estão mais elegantes, a distribuição de vírgulas está mais à moderna.

Não sei se os senhores notaram, mas esta é uma operação a que me dedico sempre, e não só com os trabalhos de Lavelle. Alguns textos que constavam neste espaço hão sumido, outros modificaram-se bastante. Os longos períodos sem novidades são não poucas vezes interstícios para trabalhos internos, e invisíveis, já que mui raro se percorrer os blogs por inteiro. Este aqui, com todas as deficiências, quer-se mais como biblioteca, pouco importando a ordem em que se lhe consulte - as efemérides aqui não têm vez, com uma exceção ou outra.

Luiz de Carvalho.

P.S.: agradeço publicamente à sugestão do leitor P.S.. Graças a ela este saite foi lincado no da Association Louis Lavelle. É vergonha para o Brasil que meu bloguinho seja a única referência em lingua portuguesa para a obra do filósofo francês.

terça-feira, outubro 16, 2007

Novena de S. Miguel Arcanjo

Esta é uma tradução que fiz duma devoção de especial apreço, a mim e meus amigos - a de São Miguel Arcanjo. Em se navegando pela net, há-de se encontrar uma devoção a São Miguel em português, mas não tão rica e nem indulgenciada como esta que vos apresento. Imagino quantos trabalhos não damos a São Miguel, que de batalhar contra o Lúcifer-Satã, quando da grande rebelião nos céus, passou a nos guiar - os pecadores e seus respectivos anjos da guarda - evitando-nos as pedras de tropeço que os demônios nos põem aos pés.

Luiz de Carvalho.

Novena de São Miguel Arcanjo e dos Nove Coros d’Anjos

Conforme o testemunho piedoso do arquidiácono d’Évreux, o Sr. Boudon, o mais fervoroso apóstolo dos Santos Anjos no séc. XVIII, essa prática devocional obtém “graças extraordinárias”. Por causa dela, ele presenciara “maravilhas... e a ruina dos poderes demoníacos nos misteres mais importantes”. Além disso afiança que esse é um meio eficacíssimo para lograr o socorro do Céu durante as calamidades públicas e as dificuldades pessoais.
A Novena de São Miguel e dos Nove Coros d’Anjos pode se fazer a qualquer tempo, em comum ou sozinho. Não há fórmulas prescritas. Propomos tão-somente as orações abaixo. Pode-se, se for do agrado, adotá-las outras.

Nas condições ordinárias, pode-se lucrar uma indulgência plenária no curso da novena (em dia a se escolher) ou depois de oito dias consecutivos.

Pio IX, 26 de novembro de 1876.


A cada dia:

Recitar o Confiteor, formular o pedido, depois recitar três Pai-Nossos, três Ave-Marias, três Glórias ao Pai.

Encerrar com a seguinte oração (conforme o dia)...


PRIMEIRO DIA

(em honra aos Serafins)

São Miguel Arcanjo, príncipe gloriosíssimo da milícia celeste, defendei-nos no combate contra os principados e potestades, contra as dominações desse mundo de trevas, contra os espíritos malígnos que se espalham pelo ar. Vinde em auxílio dos homens que Deus fez à imagem de Sua própria natureza, e que foram resgatados com grande usura da tirania do demônio. Ámen.

Exorcismo de Léon XIII.


SEGUNDO DIA

(em honra aos Querubins)

São Miguel, príncipe da milicia angélica, peço-vos que me atendais favoravelmente. Eu vos suplico para, naquele grande dia, tomar minha alma sob vossa santíssima guarda e conduzi-la para um lugar de refrigério, de paz e de repouso, onde as almas dos santos esperam em júbilo inefável o julgamento futuro e a glória da ressurreição gloriosa. Quer eu fale ou me cale, quer eu vigie, marche ou descance, guardai-me na consecução de todas as minhas obras, em todos os atos da minha vida. Preservai-me das tentações do demônio e das penas do inferno. Ámen.

Segundo um manuscrito do séc. XV.


TERCEIRO DIA

(em honra aos Tronos)

São Miguel Arcanjo, defensor excelente do povo cristão, para cumprir dignamente a missão que vos foi confiada de proteger a Igreja, esmagai a heresia, exterminai os cismas e confundi a incredulidade. Que a Igreja de Jesus Cristo acolha os neófitos e se cerque de reinos da terra, a fim de que ela possa povoar o Céu de almas eleitas, para a maior glória do Divino Redentor, a quem vós mesmo deveis os triunfos, os méritos e a eterna felicidade. Ámen.

Oração de Leão XIII.


QUARTO DIA

(em honra das Dominações)

Ó vós, que sois o príncipe e o porta-estandarte dos anjos fiéis, auxiliai-me sempre em vossa bondade e salvai-me. Das legiões dos anjos das trevas preservai-me, a fim de que, sob vossa direção, partilhe da luz dos anjos bons. Diante do trono do Supremo Juiz defendei-me, sustentai minha causa e afastai a cólera do Vingador Justo. Que por vosso intermédio sejam prósperos os meus trabalhos e meus repousos, os meus dias e minhas noites; e que meu pensamento esteja sempre disposto para as obras de Deus. Ámen.

Hino do séc. XII.


QUINTO DIA

(em honra às Potestades)

São Miguel Arcanjo, a quem a Santa Igreja venera como guardião e protetor, a vós o Senhor confiou a missão de introduzir na celeste felicidade as almas resgatadas. Implorai ao Deus da Paz para calcar satanás a nossos pés, a fim de que não possa mais reter os homens em cadeias e lesar a Santa Madre Igreja. Apresentai ao Altíssimo nossas orações, para que instantemente o Senhor faça-nos a misericórdia. A vós também imploramos, vós que aprisionastes o dragão, o diabo-satã da antiga serpente, e que o lançastes acorrentado no abismo, para que não mais seduzisse as nações. Ámen.

Exorcismo de Leão XIII.


SEXTO DIA

(em honra às Virtudes)

São Miguel Arcanjo, defendei-nos no combate, a fim de que não pereçamos no dia do terrível julgamento. Principe gloriosíssimo, lembrai-vos de nós, em todo o tempo e em toda a parte. Quando combatestes o dragão, do céu se ouvia uma voz que dizia: “Eis a salvação, o poder e a realeza do Deus Todo-Poderoso!” O mar se revoltou e a terra tremeu, quando descestes do Reino Celeste; vinde pois em socorro do povo de Deus. Ámen.

Traduzido de um responso em Coutances.


SÉTIMO DIA

(em honra aos Principados)

Ó São Miguel, príncipe santíssimo da milícia sagrada, a quem Deus mandou preparar e conduzir as falanges angélicas, digníssimo de todo culto, de todo louvor e de toda gratidão: esclarecei meus sentidos inferiores, fortificai meu pobre coração agitado nas tempestades da vida, elevai às alturas da sabedoria celeste minh’alma inclinada às coisas da terra; firmai meus passos vacilantes e não consenti que eu abandone o caminho que me leva aos Céus; curai as feridas de minh’alma; fazei desaparecer os resquícios de todo sofrimento que em mim engendra as misérias e a infelicidade. Ámen.

Oração de São Sofrônio.


OITAVO DIA

(em honra aos Arcanjos)

São Miguel Arcanjo, que tendes por missão reunir as orações, dirigir os combates e pesar as almas, presto homenagem à vossa beleza – em tudo semelhante a beleza de Deus e que, segundo o Verbo Eterno, como vós não há outro espírito igual. Presto homenagem ainda a vosso poder sem limites em favor daqueles que são vossos devotos, e à vossa vontade toda em harmonia com o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, para o bem dos homens [1]. Defendei-me contra os inimigos da alma e do corpo. Tornai-me sensível à consolação de vossa assistência invisível e aos efeitos de vossa terna vigilância. Ámen.

[1] Ven. Filomena de Santa Colomba.


NONO DIA

(em honra aos Anjos)

Glorioso São Miguel Arcanjo, zelador excelente da glória de Deus e protetor da Igreja Universal, vós a quem o Todo-Poderoso confiou a missão de receber as almas quando da saída do corpo para apresentá-las ao Justíssimo Juiz, dignai-vos socorrer-me no meu derradeiro combate. Acompanhai meu bom Anjo da Guarda, vinde em meu auxílio e afastai para longe de mim todos os espíritos infernais. Não permitis que por eles eu seja atemorizado. Fortificai-me na Fé, na Esperança e na Caridade, a fim de que minh’alma, conduzida por vós ao julgamento, seja tão logo introduzida no lugar do repouso, para alí reinar eternamente com seu Redentor, em comunhão com as almas bem-aventuradas. Ámen.

Segundo uma antiga fórmula de oração.


Nihil Obstat :
Constantiis, die 18 a feb. 1949
L. LERIDEZ
c. d.
Imprimatur
+ JEAN
Évêque de Coutances et Avranches

quarta-feira, setembro 05, 2007

Qu'elle était belle, la France catholique... mais où sont les neiges d'antan!



Capela Saint Roch, em Remollon


"Nous sommes nés au bord de votre Beauce plate
Et nous avons connu dès nos premiers regrets
Ce que peut receler de désespoirs secrets
Un soleil qui descend dans un ciel écarlate...

Un homme de chez nous, de la glèbe féconde
A fait jaillir ici d'un seul enlèvement,
Et d'une seule source et d'un seul portement
Vers votre assomption la flèche unique au monde.

Tour de David, voici votre tour beauceronne.
C'est l'épi le plus dur qui soit jamais monté
Vers un ciel de clémence et de sérénité,
Et le plus beau fleuron dedans votre couronne.

Un homme de chez nous a fait ici jaillir,
Depuis le ras du sol jusqu'au pied de la croix
Plus haut que tous les saints,
plus haut que tous les rois,
La flèche irréprochable et qui ne peut faillir...

C'est la pierre sans tache et la pierre sans faute,
La plus haute oraison qu'on ait jamais portée,
La plus droite raison qu'on ait jamais jetée
Et vers un ciel sans bord la ligne la plus haute..."

Charles Péguy

quinta-feira, junho 28, 2007

Bruno Tolentino




* 12/11/1940 - + 27/06/2007

[...]

Canta a canção do lírio e do alecrim,
essa canção que és e que na treva,
na escuridão da carne, andava perto
da imensidade que te invade. E assim
como o imenso te ampara,
ó voz tão clara
que consolas e elevas,
vem, desperta,
matriz da eternidade e d'O sem-fim,
ó mãe de Deus, canta e roga por mim

Requiescat in pace

sábado, junho 23, 2007

Marcel de Corte - Para onde vai o Islã?

Do extinto saite Orate Pro Nobis
Não é errado afirmar que o Islã ignora-se quase por completo. Esse grande corpo informe está despertando da longa letargia: pálpebras fechadas, mente entorpecida, membros dispersos e sacudidos aqui e acolá por sobressaltos involuntários. A história do Islã manifesta de uma ponta à outra a estranha alternância entre torpor e exaltação.
 
A causa disso, parece, é o nomadismo atávico desse imenso agregado: o Islã só se mexe e sacode quando encontra o condutor, o animador, o füher ou o êmulo de Maomé. Sem a guarda de um pastor e seus cães, o rebanho cai na anarquia e, pouco a pouco, na sonolência. O Islã é semelhante à limalha de ferro, cuja força coesiva depende da ação do ímã. 
Traduzindo, o Islã se apresenta, para o historiador e o sociólogo, qual força magnética prestes a cair em inércia ao faltar-lhe o dínamo da oligarquia dirigente ou a oposição de resistência à sua passagem e expansão. As relações entre o Ocidente e o Islã, desde o séc. VII até hoje, são marcadas por fases de precipitação e de estagnação, ambas incompreensíveis. O comportamento do discípulo de Maomé, como já dissemos em várias ocasiões, não conhece aquela medida entre o excesso e a carência, de que a inteligência grega, enraizada na ordem natural, impregnara o Ocidente já há muito tempo – há exceções, claro. O Islã é instável e descomedido. Daí, é notável a civilização islâmica conhecer momentos de vívido esplendor – seja em Bagdá, seja na Espanha –, justo quando o dom que a Grécia legou ao mundo andava esquecido. Poucas culturas alcançaram ao mesmo tempo aquela efervescência vital e sutileza espiritual.
Essa união durou pouco: o Islã precipitou-se em um movimento pendular, que podemos observar com maior clareza nas pessoas de seus adeptos, sob a forma da brutalidade explosiva revezada com uma inesperada e requintada delicadeza, ou vice-versa. É como se o Islã sempre tivesse de oscilar entre as qualidades e os defeitos da barbárie, e as qualidades e defeitos da decadência.
Talvez encontremos a origem dessa instabilidade dentro da estrutura tipicamente religiosa da mentalidade islâmica e na violenta antítese estabelecida entre Deus e os homens. 
Eu seria, sem Deus, mais vil que a besta impura, diz o Maomé de Victor Hugo. O Islã ignora o Cristo Deus encarnado, renovador da natureza humana, assumida em Sua pessoa. Maomé tem Cristo apenas por profeta. Ignora a noção de natureza renovada pelo Novo Adão. Não existe nada entre Deus e o homem. Victor Hugo exprimiu magistralmente, com outras palavras, a dualidade da alma religiosa islâmica, dividida entre o Céu e a Terra: 
Filho, eu sou vil campo dos sublimes combates
Eu sou homem excelso, e homem de disparates,
O mal, dentro nos lábios, com o bem alterna,
Como é no deserto a areia e a cisterna! 
A islamismo não possui centro de gravidade. Não tem neste baixo mundo um ponto fixo. Não dispõe de critérios imutáveis, falta-lhe o meio termo, o Cristo entre o homem e Deus, falta-lhe a Igreja concebida como corpo místico, tal como Jesus Cristo a espalhou e comunicou. Oscila assim entre o fanatismo estrito, coagulando-se sob uma forma qualquer, e a pulverização entre crenças disparatadas, indo da mística até à superstição grosseira. A fé em Alá, dominante e exclusiva, mistura-se à uma multidão indefinida de seitas, série enumerada pela Enciclopédia Britânica em três colunas de texto bem espremido.
As conseqüências políticas dessa atitude religiosa sempre vacilante e desequilibrada são imensas.
Já é lugar comum dizer que no Islã a política é apenas um prolongamento da religião. O temporal e o espiritual não são dois domínios distintos. O primeiro não se subordina ao segundo. Apesar do atual processo de laicização das elites islâmicas – que vão se tornando incrédulas ou ritualistas e farisaicas -, elas consideram o Islã como o mundo em si, sem fronteiras ou determinações originadas da situação terrestre do homem e da conseqüente diversidade dos agrupamentos humanos. O Islã desconhece a natureza humana e suas implicações, logo desconhece também a idéia de pátria e, no interior desta, a idéia de diferenciação hierárquica entre homens de funções desiguais. Não existe “casta” ou “ordem”, no sentido Ancien Régime: no Islã, há igualdade absoluta entre os fiéis. O muçulmano sente-se em casa onde quer que haja Islã: seu passaporte é sua fé, viva ou aparente. O marroquino ou o tunisiano não é um estrangeiro no Egito.
Assim, o Islã apresenta-se como uma sociedade sem classes, internacional ou, mais exatamente, “anacional”, onde os membros congregam-se imbuídos de uma única concepção das relações entre Deus e o homem, à maneira da sociedade sonhada por Marx, cuja instauração fora intentada pelos seguidores deste na Rússia. Bastaria o arrefecimento religioso das elites dominantes – um processo ativo desde o séc. XIX – para o Islã, assestando o olhar para a possessão da terra e para as relações entre o homem e o mundo material, encontrar-se em posição idêntica a da Rússia. Não por acaso, um dos observadores mais sagazes do comunismo, o Sr. Jules Monnerot, apodou-o de “o novo Islã”. Nesse sentido, são bem acertadas as analogias entre as duas concepções de mundo.
Ademais, o Islã já exibiu no passado, que o empolga em sua presente exaltação, um espírito totalitário idêntico ao do marxismo. Tanto para ele como para o marxismo, a humanidade se divide em duas partes em tudo heterogêneas: os fiéis e os infiéis, os muçulmanos e os ocidentais. A filosofia materialista do marxismo é uma idéia que ainda não tem eco no Islã. Os comunistas muçulmanos são escassos. Mas essa pretensa impermeabilidade do espírito islâmico ao marxismo não vale mais que a imaginária discordância observada entre o espírito inglês ou escandinavo e a doutrina de Marx. Vemos na história recente a Grã-Bretanha e os países nórdicos, apesar de conservarem o verniz ideológico e elegerem uns poucos deputados comunistas, absorverem altas doses de marxismo edulcorado. 
A realização da aliança entre a Rússia e o Islã, sob nossas vistas, não vai contra a natureza. Ela origina-se da correspondência de mentalidades e da sua possível identificação, dentro da atual confusão da história. Os americanos nunca interromperão essa afinidade com seu anticolonialismo pueril, se desconhecem o espírito muçulmano. Será fácil para a Rússia superá-los, ao apelar para a semelhança existente entre a atitude anti-européia do muçulmano e a atitude anticapitalista; será fácil, no momento oportuno, atiçar o primeiro, que já existe e se exaspera, contra o segundo, que ainda está informe, e daí arrastar os Estados Unidos para essa condenação que fulmina o Ocidente. Bem faria a diplomacia americana, sempre mais sensível aos elementos econômicos do problema que aos fatores psicológicos, se percebesse a astuciosa mudança de rumos.
A política estrangeira soviética não mudou desde os famosos episódios – já esquecidos das democracias, desmemoriadas! – entre Zinoviev e Enver Pasha, no Congresso de Bakou, a 1º de setembro de 1920. Ela oferece-nos os frutos de um esforço inabalável, bem diferente da diplomacia dos povos ditos livres, aos quais os fatos obrigam a lastimáveis cabriolas. As duas “guerras santas”, a da Rússia contra o capitalismo e a do Islã contra o Ocidente, vão acabar por se tornar uma só, se a América não abrir os olhos.
Esse quadro é bastante provável, porquanto a moral islâmica abre um campo mais vasto às paixões do espírito e ao ressentimento que a moral cristã. Eis a razão por que o Islã se vai insinuando nas populações primitivas da África: estas adotam a ética islâmica, por menos exigente. Não há quem negue, por outro lado, o florescimento do marxismo por onde se relaxe a moral. Ainda é verdadeiro aquilo de Rivarol: “se aos homens desobrigamos, os estragamos”.
Os futuros historiadores, parece, considerarão a dissolução do Império Otomano, ratificada pelos tratados de 1918, e a estúpida destruição do Império Austro-Húngaro duas pesadas hipotecas a serem cobradas ao séc. XX. A antiga Turquia, saciada de conquistas – por sinal, bem modestas -, continha o avanço do Islã, do mesmo modo que a Áustria-Hungria esfriava a efervescência balcânica.
Além disso, esses dois sistemas constituíam um tampão contra o imperialismo russo. Hoje estamos pagando o preço dessa política cega, em que saíram ganhando o “idealismo” laico e as sórdidas preocupações econômicas. Tomara não nos seja o preço muito alto, já que, citando novamente Rivarol, a pior desgraça é o merecer suas desgraças!
Em todo caso, é certo dizer, os nacionalismos árabes não possuem raízes nas tradições islâmicas, e evoluirão fatalmente em direção ao internacionalismo e ao pan-islamismo. A Rússia, sempre atenta, lhe dedicará mais e mais cuidados na proporção direta dos erros habituais da diplomacia dita atlântica. O único trunfo nas mãos do Ocidente é a debilidade do sentido de Estado em terras islâmicas. Hoje em dia, contudo, constroem-se Estados artificiais por meio da força. O Estado Ocidental, por seu turno, degenerou em Estado Providência, que vampiriza sua energia e suas reações vitais de defesa.
In: “La libre Belgique”, 28 de dezembro de 1956

quinta-feira, maio 03, 2007

Raimundo de Sèze - A defesa de Luís XVI

Antes do mais, esclareço: não sou monarquista.

Luiz de Carvalho.


“Cidadãos, representantes da Nação, enfim é chegado o momento em que Luís, acusado em nome do povo francês, poder-se-á fazer escutar por esse mesmo povo! É chegado o momento em que, cercado daqueles conselhos que a humanidade e a lei lhe outorgaram, pode apresentar à Nação sua defesa e expor-lhe as intenções que sempre o animaram! Cidadãos, falar-vos-ei com a sinceridade de um homem livre: procuro no meio de vós juízes, mas não vejo senão acusadores! Quereis pronunciar a sorte de Luís, e vós mesmos o acusais! Quereis o voto, e vós mesmos já o destes! Quereis pronunciar a sorte de Luís, e vossas opiniões se alastram pela Europa! Luís será o único francês para quem não existem nem lei, nem formalidades! Não gozará nem da antiga, nem da nova condição! Destino estranho e inaudito! Franceses, a revolução regeneradora dotou-lhes de grandes virtudes, mas cuideis de que não se tenha enfraquecido em vossas almas o sentimento de humanidade, sem o que não há virtudes, senão as falsas! Dai ouvidos à história do futuro, ao apregoar seu renome: ‘Luís subiu ao trono com vinte anos, e com vinte anos era exemplo de conduta; não tinha fraquezas culpáveis, nem paixões depravadas; era contido, justo e severo; sempre mostrara-se amigo do povo. O povo desejara a eliminação de um imposto pernicioso: ele o eliminara; o povo pedira a abolição da servidão: ele começara por seus domínios; o povo solicitara reformas na legislação penal, para abrandar a sorte dos acusados: ele a reformara; o povo quisera estender e devolver a milhares de franceses os direitos de cidadania, a quem os rigores do uso haviam privado até agora: ele os concedera por meio das leis’. O povo quisera liberdade, e ele lha dera! Viera ao encontro do povo por seus sacrifícios e, contudo, é em nome desse povo que hoje lhe interrogam... Cidadãos, eu não terminei... EU ENCERRO DIANTE DA HISTÓRIA: vigiai, pois ela julga os vossos julgamentos, e os séculos lhes dá a sentença”.

domingo, abril 29, 2007

Santo Tomás de Aquino - Corrente d'Oiro (2)

EXPLICAÇÃO ENCADEADA
DOS QUATRO EVANGELHOS
POR SANTO TOMÁS

PREFÁCIO DA EXPLICAÇÃO SEGUIDO
DO EVANGELHO DE SÃO MATEUS
POR SANTO TOMÁS


Isaias, o profeta que profetizou com maior claridade os mistérios do Evangelho, relatando em poucas palavras quão sublime é a doutrina evangélica, além do nome e do objeto dela, dirige-se em nome do Senhor ao doutor evangélico, nesses termos: “Subi à alta montanha, e anunciai a boa nova a Sião; elevai com força as vossas vozes, e anunciai a boa nova a Jerusalém; elevai a voz sem receios, dizei às cidades de Judá: Eis vosso Deus, eis o Senhor Deus em sua força, Ele dominará com braço forte e de suas mãos sairá o prêmio da vitória”. (Is 40) Comecemos pelo nome Evangelho. — S. Agost. (contr. Faust. liv. 2, cap. 2.) Evangelho significa em latim boa notícia ou boa nova. Podemos empregá-la sempre que se anuncia uma notícia feliz, mas reservou-se-lhe o uso para designar a mensagem divina, anunciada pelo Salvador. Chamamos propriamente de Evangelistas os sagrados escritores que relataram o nascimento, os atos, as palavras e os sofrimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. — S. Cris. (Hom. 1 sobre S. Mat.) Quem poderia dar-nos uma notícia mais feliz? Deus na terra, homem no céu, nossa natureza novamente na amizade de Deus, fim dessa tão longa guerra, o poder do diabo destruído, a morte liquidada, o paraíso franqueado, e todas as graças superiores à nossa natureza dadas liberalmente, não como recompensa dos esforços, mas como fruto do amor de Deus por nós. — S. Agost. (da verdadeira relig., cap. 16.) Deus, cujos meios para curar as almas são infinitos, de acordo com as circunstâncias favoráveis do tempo de nascimento e com a disposição de divina sabedoria, mostrou-se sumamente bom em face do gênero humano quando seu Filho unigênito, consusbstancial e coeterno ao Pai, dignou-se juntar-se ao homem: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós”, e aparecendo assim em meio aos homens como verdadeiro homem, demonstrou a elevada posição ocupada pela natureza humana dentro da criação. — S. Agost. (serm. sobre a Nativ.) Deus fez-se homem, para o homem fazer-se Deus – eis a graça extraordinária que se deve publicar daí por todos os tempos. O Profeta predisse-a nesses termos: “Eis vosso Deus”. — S. Leão, papa. (Carta 10, cap. 3.) Esse abatimento por que o invisível tornou-se visível, e por que o Criador, o Senhor Deus de todas as coisas, reduziu-se à condição dos mortais, era nele inclinação de misericórdia, não diminuição de poder. A Glosa. (interlin. sobre Isaias, XL.) A vinda de Deus à terra não acarreta o enfraquecimento de seu poder, e para que não acreditassem nisso, acrescentou o Profeta: “Eis que o Senhor vem em sua força”. — S. Agost. (da dotr. crist., liv. 1, cap. 12.) Não veio singrando os espaços, mas apareceu aos olhos mortais, revestido da carne mortal. — S. Leão, papa. (serm. 49 sobre a pass.) Acontece que o Deus verdadeiro, por um milagre de seus poderes inefáveis, revestiu-se de carne passível; o homem, por isso, obteve a glória pelo abatimento, a incorruptibilidade pelo suplício, a vida pela morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. — S. Agost. (do bat. das cr., r, 30.) A efusão do sangue inocente quebrou todas as correntes que submetiam o homem à vergonhosa escravidão do demônio. — A Glosa. (interlin. sobre Isaias, 40.) Mas os homens não se libertaram do pecado por virtude da paixão de Jesus Cristo, mas por estarem submetidos ao imperio de Deus; por isso, aquilo do Profeta: “Dominará com braço forte”. — S. Leão, papa. (serm. sobre a paixão.) Recebemos um benefício tão poderoso de Jesus Cristo que nossa natureza passível libertou-se da submissão da lei da morte, pois é próprio a Nosso Senhor esse privilégio de imortalidade, podendo ressusitar quem estava condenado à morte eterna. — A Glosa. (interlin.) Desta feita, Jesus abre-nos as portas da glória imortal, como exprime o Profeta, ao dizer: “Carrega consigo sua recompensa”; São Mateus declara o mesmo por essas palavras: “Grande é vossa recompensa nos céus”. — S. Agost. (contra Faust., liv. 4, cap. 2.) A promessa da vida eterna e do reino dos céus são privilégios do Novo Testamento; o Antigo só prometia bens temporais.

A Glosa. (sobre Ezequiel, 1.) O Evangelho ensina-nos quatro fatos sobre a pessoa de Jesus Cristo: a divindade uniu-se à natureza humana; a humanidade elevou-se nessa união; a morte do Filho de Deus livrou-nos da servidão, e a ressurreição franqueou-nos a vida eterna, conforme profetizou Ezequiel, na figura dos quatro animais. — S. Greg. (sobre Ezequ., hom. 4.) O Filho unigênito de Deus fez-se verdadeiro homem; ele foi imolado como um touro no sacrifício da nossa redenção; saiu da tumba como um leão; voou como a águia para subir aos céus. — A Glosa. (sobre Esequ., 1, 9.) A glória de sua divindade revelou-se na ascensão. Um homem figura a São Mateus, porque prestigiou sobretudo a humanidade de Jesus Cristo; O leão a São Marcos, porque conta-nos amiúde da sua ressurreição; O touro a São Lucas, porque trata do sacerdócio de Cristo; A águia a São João, porque penetrata os profundos mistérios da divindade. — S. Amb. (pref. sobre S. Luc.) Chamamos, por uma feliz comparação, o Evangelho segundo São Mateus de livro moral, e damos azo a essa interpretação figurada porque os costumes são próprios à natureza humana; São Marcos é a figura do leão, porque começa o Evangelho proclamando o poderio de Deus: “Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”; a figura do touro representa São Lucas, pois que inicia a narração por uma história sacerdotal, e os sacerdotes tinham o touro como uma de suas vítimas propiciatórias; finalmente, atribuem a águia a São João, visto que circunstanciou-nos os acontecimentos miraculosos da ressurreição so Salvador. — S. Greg. (sur Esequ., hom. 4.) O início de cada Evangelho atesta a verdade da interpretação simbólica: O homem é a figura perfeita de São Mateus, porque começa o Evangelho na geração de Jesus Cristo como homem; o leão é a de São Marcos, pois que abre sua narração pelo grito no deserto; o touro a de São Lucas, já que inicia pela descrição do sacrifício; a águia é São João, por começar na geração eterna do Verbo. — S. Agost. (da harmonia dos Evang., liv. 1, cap. 6.) Pode-se dizer também que o leão é figura de São Mateus, porque ele mostrou com brilho a realeza de Jesus Cristo; o touro é a de São Lucas, porque esse animal é uma das vítimas propiciatórias; o homem é a de São Marcos, pois, mesmo que não relatasse a descendência real ou sacerdotal do Cristo, apegou-se à sua humanidade. Os três animais, o leão, o touro e o homem, vivem e se movimentam sobre a terra: assim, os três evangelistas representados neles ocuparam-se sobretudo dos feitos do Cristo sob o cariz mortal. São João, todavia, toma o vôo da águia e divisa a claridade do ser imutável com os olhos argutos do coração. Pode-se tirar daí que os três primeiros evangelistas trataram da vida ativa, e São João da vida contemplativa. — Remi. Os doutores gregos vêem São Mateus na figura do homem, pois ele escreveu a genealogia humana de Jesus Cristo, no leão, São João, pois, como o rugido do leão atemoriza todos os animais, assim fá-lo São João com todos os heréticos; na figura do touro, São Lucas, porque esse animal é uma das vítimas sacrificiais, e também esse evangelista fala amiúde do templo e do sacerdócio; na águia, São Marcos, visto que nas Santas Escrituras, a águia representa de ordinário o Espírito Santo (Dt 32, 11 ; Ez 17, 3 ; Os 8, 1) que falou pela boca dos profetas, e também pelo texto profético logo ao início desse evangelho. — S. Jerônimo. (a Eusébio, prólogo do Evang.) Se se trata do número dos Evangelistas, convém observar a existência dum grande número de escritores, redatores de evangelhos, de acordo com o testemunho do próprio São Lucas: “Pois muitos se dedicaram a pôr em ordem” etc.. Até hoje possuímos provas substanciosas desse grande número de Evangelhos, escritos por diversos autores e fontes de diversas heresias, tais como os evangelhos segundo os egípcios, segundo São Tomé, segundo São Bartolomeu, os evangelhos dos Doze Apóstolos, o de Basilíades, o de Apeles, e outros mais, cuja enumeração seria demasiado longa. Mas a Igreja de Deus, erigida sobre a pedra pela Palavra do Senhor, e dada à existência para ser como o paraíso terrestre com seus quatro rios, orna-se de quatro aros doirados em seus quatro vértices, de modo a ser conduzida sobre quatro varas móveis, semelha à arca do Antigo Testamento, depositária e guardiã da lei divina (Ex 27, 3 ; 25, 12). S. Agost. (do acord dos Evang., liv. 1, cap. 2.) O número quatro pode-se associar também aos quatro cantos da terra, por onde se estende o domínio da Igreja de Jesus Cristo. Ora, a ordem assinalada aos Apóstolos, para dar conhecimento e prédica do Evangelho, não é a mesma seguida pelos escritores sagrados. Os primeiros convocados a conhecer e pregar a verdade são os que seguiram o Senhor em sua vida mortal, escutaram seus ensinamentos, testemunharam seus milagres e receberam da mesma boca a ordem de pregar o Evagelho. Mas, se versamos da composição dos Evangelhos, ordenados certamente por disposição divina, dois dos apóstolos escolhidos por Cristo antes da paixão, São Mateus e São João, ocupam respectivamente o primeiro e o último lugar. Os dois outros evangelistas não eram desse número, mas seguiram Jesus Cristo nas pessoas dos dois Apóstolos [São Pedro e São Paulo], que os receberam quais filhos, e foram postos entre [São Mateus e São João] para que se sustentassem pelos dois lados. — Remi. São Mateus escreve o seu Evangelho na Judéia, sob o reinado do imperador Calígula; São Marcos, em Roma, Itália, sob o reinado de Nero ou de Cláudio; São Lucas, na Acaia ou na Beócia, sob às instâncias de Teófilo; São João, em Efésio, na Ásia Menor, sob o reinado de Nerva. — Beda. É verdade que falam em quatro Evangelistas, mas, antes que fossem quatro os escritores, era uma, só e somente só, a verdade dos quatro livros. Assim dois versos, que versam sobre o mesmo tema, diferentes todavia em expressão e medida, e não por isso deixando de apresentar um só e mesmo pensamento, assim os livros dos Evangelistas, em número de quatro, mas contendo um só e mesmo Evangelho, portadores duma só e mesma doutrina sobre a fé católica. — S. Cris. (hom. 1 sobre S. Mat.) Bastava a um só Evangelista narrar todos os feitos da vida de Jesus Cristo, mas vendo-os, todos quatro, conservar a mesma linguagem, ainda que separados por tempo e espaço e impossibilitados de se concertarem, demonstra-se assim peremptoriamente a verdade. As divergências aparentes são, ademais, grande prova da veracidade, pois se em tudo se acordassem, nossos inimigos poderiam dizer que houve avença no que escreveram. Não há entre eles a menor diferença no essencial, naquilo que tem por objeto as regras de moral e a pregação da fé. E se um nos conta alguns milagres, e o outro aqueloutros não contados pelo primeiro, não vos turbeis. Se um só houvesse contado todos os milagres, a narração feita pelos demais tornar-se-ia inútil; mas, pelo contrário, como sempre contaram diferentes milagres, poderiam inventar a unidade admirável existente entre eles? As variantes no tempo em que se passaram os fatos ou no modo como se deram não destroem em nada a verdade da narração, como mostraremos a seguir. — S. Agost. (do acordo dos Evang. liv. 1, cap. 2.) Parece que todos eles adotam um plano de narração em particular, como se ignorassem a narração daquele que o precedeu, omitindo os fatos já contados – todavia não o adotam. Eles escrevem segundo a inspiração recebida, coadjuvada pela útil cooperação de seus próprios esforços.

A Glosa. A sublimidade da doutrina evangélica consiste antes de tudo na excelência da autoridade de que emana. — S. Agost. (do acordo dos Evang., liv. 1, cap. 1.) Entre os livros revestidos da autoridade divina, o Evangelho ocupa a justo título o lugar mais alto, porque os Apóstolos – seguidores de Nosso Senhor Jesus Cristo, Salvador do mundo revestido da nossa natureza – foram seus primeiros pregadores, e também porque dois dentre eles, São Mateus e São João, tinham por bem consignar, em obras distinas, os fatos por eles testemunhados. Para que não pudéssemos fazer distinção de conhecimento e pregação entre evangelista e evangelista, entre os que seguiram Nosso Senhor e os que creram nos testemunhos, a Providência Divina dispôs os acontecimentos de modo que o privilégio não só da prédica, mas também do escrever o Evangelho, se desse aos discípulos dos primeiros apóstolos. — A Glosa. A autoridade soberana do Evangelho vem de Jesus Cristo, é evidente. Essa é a declaração do profeta Isaias, já citado por nós, ao dizer: “Subi à alta montanha”. A alta montanha é Cristo, conforme o profeta em outro lugar: “A montanha sobre que se construirá a casa do Senhor, no final dos tempos, fundar-se-á por cima dos montes”, i. é, acima de todos os santos, chamados de montanhas – comparam Jesus Cristo também à alta montanha, porque todos nós recebemos de sua plenitude. Com razão, essas palavras, “Subi à alta montanha”, dirigem-se a São Mateus, pois, como dissemos acima, testemunhou em pessoa as ações de Jesus Cristo e aprendeu na sua escola a divina doutrina. — S. Agost. (do acordo dos Evang., liv. 8, cap. 7) Temos de responder agora uma dificuldade que causa impressão a muitos. Por que, dizem eles, o Salvador não escreveu nada de si, e por que temos de dar fé à narração dos seus biógrafos? Respondemos: é falso dizer que o Salvador não escreveu, pois seus membros tão somente transcreveram o dizer de seu chefe; tudo o que nos quis transmitir de seus discursos e ações ordenou escrevê-los, guiando as mãos como se foram as suas. — A Glosa. Em segundo, conforme o testemunho do Apóstolo, o Evangelho é sublime por virtude própria: “O Evangelho é a virtude de Deus, para a salvação dos que crêem”, como as palavras do Profeta, ditas mais ao alto: ‘”Elevai com força as vossas vozes”, palavras dando o modo por que se deve anunciar a doutrina, elevação esta indicando a claridade da doutrina. — S. Agost. (a Volusiano, carta 3.) Todos tem acesso à linguagem simples da Santa Escritura, mas muito poucos são os que lhe penetram a fundo. Oferece sem artifícios as claras verdades contidas nela, como um amigo íntimo, tanto aos corações sábios quanto aos ignorantes. A Santa Escritura não levanta o véu de seus mistérios em socorro a palavras pretenciosas, próprias a afastar as inteligências sem instrução e de raciocínio lento, assim como o pobre é compelido a afastar-se do rico, mas convida a todos os homens, pela simplicidade da linguagem, a alimentar-se da verdade revelada, e mais ainda, a exercer a fé em meio à riqueza dos divinos segredos, seja usando expressões claras, seja cobrindo a verdade dum misterioso véu; e para que a claridade não cause fastio, o véu recobrindo-os excita os santos desejos, que lhes conferem um novo apelo e tornam-lhes mais suave à apreciação. Dessa forma, por um método salutar, os espíritos pervertidos são reconduzidos ao bem, os fracos nutridos, e os espíritos superiores cumulados de doce alegria. — A Glosa. A voz que se eleva estende-se mais além. Vemos, nessa voz, a figura da pregação evangélica, a que Deus ordenou fosse levada a todos os povos, e não só a uma nação, conforme o preceito do Senhor: “Ide, anunciai este Evangelho a toda criatura”. — S. Greg. As palavras: “Toda criatura”, podem significar todos os povos da terra. — A Glosa. Em terceiro, a doutrina evangélica é sublime por sua liberdade inata. — S. Agost. (contra Faust.) No Antigo Testamento, A Jerusalém terrestre, sob o influxo da promessa por bens temporais e da constante ameaça de maldições, gerava tão-só escravos; no Novo Testamento, a Jerusalém eterna, onde a fé acompanha-se da caridade, do sentimento do amor à justiça, e não do temor, gera os filhos libertos.

— A Glosa. Enxergamos a sublimidade da doutrina evangélica naquilo do Profeta: “Elevai a voz sem receios”. Sobra-nos examinar as razões que levaram São Mateus a escrever seu Evangelho, e a quem se destinava. — S. Jer. (prolog. sobre S. Mat.) São Mateus escreveu seu Evangelho na Judéia, na lingua hebraica, pois que se destinava sobretudo aos judeus que haviam abraçado a fé. Após pregar-lhes o Evangelho, ele o escreveu em hebraico, para perpetuar lembrança daquealas palavras na alma dos irmãos, de quem se separava; também havia mister de confirmar a pregação do Evangelho, e dar disso fé, e de combater os heréticos. — S. Cris. (sobre S. Mat.) Eis a ordem em que São Mateus conta os fatos: em primeiro lugar, o nascimento de Jesus Cristo; em segundo, o batismo; em terceiro, a tentação; em quarto, a pregação; em quinto, os milagres; em sexto, a Paixão; em sétimo, a ressurreição e a ascensão. Ao nos apresentar tal ordem, Ele quis dar-nos, além do plano da vida de Jesus Cristo, o plano da vida evangélica. Nada valeria receber a vida de nosso pais, se Deus nos não desse novo nascimento pela água e pelo Espírito Santo. Ainda há-de se lutar com o demônio, após o batismo; ao triunfarmos, por assim dizer, de todas as tentações e tornarmo-nos capazes de instruir os demais, se estivermos prontos, devemos instruir e dar por exemplo à doutrina uma boa vida, tão convincente quanto os milagres; se somos apenas fiéis, devemos inspirar a fé por meio de obras. Devemos, afinal, sair da arena do mundo, e então a recompensa eterna e a glória da ressureição serão os prêmios dos combates e das vitórias.

A Glosa. No passo de tudo o que dissemos, vemos claramente qual o objeto do Evangelho, o número dos Evangelistas, os símbolos figurativos, as divergências, a sublimidade da doutrina, para quem se escreveu o Evangelho e a ordem adotada pelo escritor santo.

terça-feira, abril 24, 2007

Rafael Castela Santos - Crónica de persecución a cristianos



Apedrejavam, pois, a Estêvão que orando, dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.
E pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. Tendo dito isto, adormeceu (Atos, 7.6o)

Hay unos 20 millones de católicos que viven en países musulmanes. La suerte de esta minoría es sistemáticamente silenciada, incluso por el Vaticano. Pero su sino es terrible en los tiempos que corren. Por otro lado, huelga decirlo para quienes vivimos en el viejo continente, los musulmanes en Europa no se integran. En este suicidio de las ideas, que precede al suicidio físico, de la Cristiandad, queda claro la culpa inmensa y ubicua de los musulmanes en la persecución a cristianos.Había un país, Irak, donde la minoría católica caldea era relativamente respetada. Un caso único en el mundo musulmán. Como siempre que los anglosajones meten sus pezuñas en estos territorios, uno de las plagas que irremisiblemente atraen es la radicalización del Islam. Fruto de ello son las decapitaciones de Sacerdotes o la crucifixión de niños católicos en Irak.En Turquía, un enemigo cualificado y sempiterno de Europa que los Estados Unidos siguen presionando para que sea admitido –contra natura- en Europa (o mejor, en esa antesala del Anticristo llamada Unión Europea) vender Biblias te cuesta, literalmente, la cabeza. Degollar cristianos es una tarea en la que los musulmanes llevan acumulada una secular experiencia y destreza. Y hablamos de Turquía, un país “moderado”. En otros países “moderados”, como Egipto, convertirse al cristianismo es garantía segura de persecución. En otros algo menos “moderados”, como Afganistán, la conversión al cristianismo está castigada con la pena capital. Sin embargo la protesta mundial en algún caso ha logrado librar de las garras de la barbarie a algún pobre cristiano.En Israel los cristianos están de facto perseguidos, a veces más por omisión que por acción directa por parte de los judíos. Lo peor en Israel no son, sin embargo, los judíos, sino los musulmanes. En Tierra Santa hay una mafia islámica que persigue sistemáticamente a los cristianos, de una manera organizada. Para escarnio de la estupidez de los racialistas y neonazis, quienes creen que es la raza lo que determina el mundo, se demuestra que es la religión, como es el hecho de la persecución de palestinos cristianos por parte de palestinos musulmanes, como el enlace anterior prueba.En el Líbano los cristianos se ven tan acorralados que han llegado a pedir ayuda a Israel para poder luchar contra el Islam que les persigue. En el país de los cedros, otrora considerado como “la Suiza del Medio Oriente”, se desarrolla una masacre de cristianos a manos musulmanas de las que no se dice apenas nada. En otras latitudes, en Nigeria, país constituido de cientos de tribus y dos comunidades –la cristiana y la musulmana- los ataques, muertes, asesinatos, persecuciones y masacres de cristianos son cosa normal. En Febrero del 2006 un mínimo de 16 cristianos nigerianos fueron matados y centenares heridos por la publicación de unas viñetas sobre Mahoma … ¡en Dinamarca! Y, como en el Líbano, estas matanzas de cristianos cometidas por musulmanes quedan a menudo inéditas y/o se pasa página rápidamente sobre ellas. ¿Qué decir del Sudán, donde –con la aquiescencia de los anglosajones en sus juegos petrolíferos- sigue la matanza de cristianos y animistas del sur a manos de los islamistas del norte?En el internet todavía es posible desmarcarse de los intoxicantes y narcotizantes media. Existen páginas en castellano, como Los Abusos del Islam o Totalitarismo y Terrorismo islámico, donde es posible encontrar denuncias de todo ello. Adviértase que estas bitácoras mencionadas tienen un cierto sesgo liberal y neocon, pero los hechos son los hechos.Las intenciones del Islam de “liberar” la Península Ibérica deberían ser de todos conocidas. Que españoles y portugueses saquen las consecuencias que consideren oportunas. “Al-Andalus”, atavismo con el que el irredentismo musulmán designa a la Península Ibérica, estuvo cientos de años tras el yugo islámico y la vida para los nativos y los no-traidores fue un infierno. La Reconquista (es decir, volver a conquistar lo que ya era nuestro) fue una auténtica ordalía. Más conviene recordar estas cosas.De todas maneras el deseo del Islam de expandirse por todo el mundo y constituir un Estado global sólo es parangonable al similar experimento comunista. No sería pues extraño que este Occidente nuestro, apóstata y perverso, fuera pues castigado por una coalición comunista sinorrusa y una alianza de los países musulmanes. En el Antiguo Testamento leemos que cada vez que Israel se desviaba de los mandatos divinos, era castigado con los pueblos limítrofes. Esta Europa masónica y corrupta limita con rusos por el norte y con musulmanes en el sur y dentro de sí misma. El Islam sería, pues, la quinta columna ideal.Prueba de ese intento de expansión en todos los órdenes ha sido el intento de otros “moderados”, en este caso Arabia Saudí, de hacerse con el control de muchos colegios privados en el área de Madrid. Por una vez, y ojalá sirva de precedente, las autoridades regionales madrileñas tomaron cartas en el asunto y abortaron esto. Lo cual demuestra que una acción política basada en un justo aprecio de la realidad externa, la fundamental distinción amigo-enemigo que Carl Schmitt señalase y una voluntad política decidida todavía pueden hacer muchas cosas. Rusos, chinos y musulmanes darán forma al merecido castigo por nuestros pecados y nuestra apostasía.

Do saite A Casa de Sarto

domingo, abril 22, 2007

Santo Tomás de Aquino - Corrente d'Oiro (1)


Santo Tomás de Aquino
Corrente d'Oiro sobre o
Evangelho segundo São Mateus


Explicação encadeada
dos
QUATRO EVANGELHOS,
da lavra do Doutor Angélico
Santo Tomás de Aquino,
composta dos intérpretes gregos e latinos, mormente
os Santos Padres,
coordenados e encadeados de forma admirável
de modo a perfazer um texto coeso e com justiça
intitulado de

A CORRENTE D’OIRO
Traduzido para o português à partir da

NOVA TRADUÇÃO
de
M. L’ABBE J.-M. PERONNE

Cônego titular da Igreja de Soissons, antigo professor de Sagrada Escritura e de santa eloqüência
Tomo primeiro

PARIS
LIBRAIRIE DE LOUIS VIVÈS, ÉDITEUR
rue Delambre, 9
1868


CONCESSÃO

Do reverendo provincial da província de Paris, da ordem dos Irmãos Predicadores, para a nova edição da Corrente d’Oiro.

Nós, Fr. Étienne Blondel, doutor em teologia da faculdade de Paris e prior, ainda que indigno, da província de Paris dos irmãos predicadores, damos a permissão e facultamos ao R. P. F. Jean Nicolai, doutor em teologia e professor titular em teologia, além de diretor de estudos no convento de São Tiago, publicar a Corrente d’Oiro de Santo Tomás acerca dos quatro evangelhos, corrigido e acrescentado das necessárias notas; facultamos-lhe também a permissão de publicar outras obras, as quais poderá corrigir e anotar, em livreiros de sua escolha, conforme o privilégio real; por isso, recomendamo-la vivamente, pelo desejo de sermos úteis ao público. Dou fé de que lhe conferimos as presentes licenças, as marcas dos selos de nossa secretaria, e as assinaturas de punho próprio, apondo-as ao início da publicação.

Dadas no sobredito convento de São Tiago de Paris, a 2 de maio do ano de 1657.




A NOSSO SANTÍSSIMO PAI URBANO
QUARTO PAPA DE SEU NOME, PELA PROVIDÊNCIA DIVINA.

Frei Tomás de Aquino, da ordem dos Irmãos Predicadores, beija-lhe os pés com pios respeitos.
A fonte da sabedoria, o Excelso e Único Verbo de Deus (Si 1, 5; seguido por Sg 8, 1), por Quem o Pai fez a Criação com sabedoria e ordenou as criaturas com duçor, dignou-se revestir-se de nossa carne no final dos tempos, para que o olhar humano, incapaz de atingir aquelas alturas da divina majestade, pudesse contemplar seu brilho sob o véu da natureza humana. Ele derramou seus raios, as marcas da sua sabedoria, sobre todas as obras da criação; mas, por uma prerrogativa excelentíssima, Ele imprimiu na alma humana o selo da sua semelhança e gravou, com os maiores cuidados, a augusta imagem no coração dos que deveriam receber o dom de amá-lo na abundância de sua graça. Mas, que é a alma humana em meio à imensidão da criação, para que recebesse em toda sua perfeição as impressões da sabedoria divina? Os homens, ainda que cobertos das trevas do pecado e encobertos das nuvens das preocupações temporais, recebem a luz de Deus; e os insensatos, por obnubilados, atribuíram a glória de Deus aos falsos ídolos, e se fizeram indignos, por entregues aos seus sentidos depravados (Rm 1, 21, 23, 28, etc.).

Ora, a divina sabedoria fez o homem para este conhecê-la, e não permitiu-lhe fosse ele privado desse dom excelentíssimo; transportou-se toda para nossa natureza, numa união admirável, a fim de conduzir para si os homens, desviados. O príncipe dos apóstolos fora o primeiro a merecer contemplar o brilho dessa sabedoria através dos véus da mortalidade, e a confessá-la, com vigor e na plenitude duma convicção livre de erro, por essas palavras: “Vós sois o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Ó bendita confissão, não foi nem a carne nem o sangue, mas o Pai celeste que vos revelou. Ela fundou a Igreja na terra, franqueou as portas do céu, recebeu o poder de remir os pecados, e as portas do inferno jamais prevalecerão contra ela. Cuideis bem, santíssimo Pai, como legítimo herdeiro dessa fé e dessa confissão, de que a luz da divina sabedoria inunde os corações fiéis. Não cedais às fantasias insensatas dos heréticos, chamados por isso de portas do inferno. Platão considerava feliz a república cujos cabeças entregavam-se ao estudo da sabedoria, sabedoria essa desfigurada, mais das vezes, pela fraqueza do espírito humano; quão mais feliz então devemos estimar o povo cristão, submetido a vossa governança e agraciado com tanta solicitude dessa sabedoria tão elevada, sabedoria ensinada por meio de palavras e demonstrada por obras pela mesma sabedoria de Deus revestida da natureza mortal? Por efeito dessa solicitude vigilante, Vossa Santidade dignou-se confiar-me a tarefa de explicar o Evangelho de São Mateus, a qual tarefa cumpri na medida das minhas forças, coligindo com método trechos de diversos tratados dos santos doutores, para construir uma exposição encadeada desse Evangelho. Dei o título geral de Glosas às poucas citações tiradas de autores não renomados, constantes em sua maioria dentro das Glosas, para assim distingui-las das passagens dos Santos Padres. Tomei o cuidado de sempre dar o nome dos autores latinos, com a indicação precisa do livro donde tirou-se a citação, exceto os comentários ou explicações que outrem fizeram desse Santo Evangelho. Achei desnecessário dar tal indicação. Assim, por exemplo, se cito São Jerônimo sem indicação do livro ou tratado, quer dizer que a passagem tirou-se de seu comentário sobre São Mateus, e assim com os demais. Contudo, para as citações emprestadas do comentário sobre São Mateus de São Crisóstomo, achei por bem acrescentar “sobre São Mateus”, para distingui-las de outras passagens tomadas das homilias do mesmo Padre. Conveio abreviar partes das citações emprestadas dos Santos Padres, por questão de brevidade e clareza, assim como, para melhor inteligência do texto, alterar por vezes a ordem das frases. Em certas ocasiões, abandonei o texto e dei-lhe somente o sentido, sobretudo nas homilias de São Crisóstomo, cuja tradução é defeituosa. Propus-me como finalidade desta obra não apenas buscar o sentido literal, senão também expor o sentido místico, destruir a vereda aberta pelos erros, e apoiar sobre novas evidências a verdade católica; isso pareceu-me indispensável, porque é sobretudo no Evangelho que encontramos a forma, a perfeição da fé católica, e a regra de toda a vida cristã. Tomara essa obra não pareça longa demais a ninguém. Pareceu-me impossível seguir um itinerário tão extenso sem muito abreviar com a maior concisão possível, pois tinha de citar muitos santos doutores. Vossa Santidade, dignai-vos aceitar esta obra que ora submeto ao exame e correção de vosso julgamento. O trabalho é fruto de nossa solicitude e minha obediência; vós ma impusestes, a vós pertence o julgar em última instância. As flores retornam ao lugar donde saíram (Si 1, 7).



Ao venerabilíssimo Pai em Jesus Cristo
MONSENHOR ANNIBAL
CARDEAL PADRE DA BASÍLICA DOS DOZE APÓSTOLOS

Frei Tomás de Aquino, da ordem dos Irmãos Predicadores, vosso servo.
O soberano autor de todas as coisas, Deus, cuja bondade inspirou a Criação, deu a toda criatura o amor natural do bem, para que, ao amar e buscar naturalmente o bem que lhe é conatural, caminhasse por uma via admirável até o autor do bem. A criatura racional está acima das demais, porque é capaz de contemplar, por meio da sabedoria, a fonte universal do bem, e aí saciar-se com doçura, por meio do amor de caridade. Daí vem ao julgamento da sã razão que se deve preferir acima de todos os outros bens o dom da sabedoria, que nos conduz à fonte primeva de toda a bondade. A sabedoria não gera fastio: alimentamo-nos e ainda temos fome, bebemos e ainda temos sede. Ela aborrece tanto o pecado que as pessoas que se guiam pelas inspirações dela não sucumbem jamais à tentação. Ela oferece aos seus ministros frutos verdadeiramente incorruptíveis, porque aqueles que a manifestam aos homens recebem como recompensa a vida eterna. Sua doçura está acima de todas as volúpias; sua segurança, acima dos tronos e reinos; seus lucros crescentes, acima de todas as riquezas. Depois de provar a sedução de seus favores, tentei expor essa sabedoria evangélica por meio da compilação dos vaticínios dos santos doutores. Desde antes todos os séculos, ela se escondia nas profundezas da eternidade, até a sabedoria encarnada dá-la à luz. Em primeiro, convidou-me a esse trabalho a ordem de Urbano IV, de feliz memória; mas, após a morte do pontífice, faltava-me ainda explicar os três Evangelhos, o de São Marcos, o de São Lucas e o de São João, e não quis conceder à negligência a interrupção do trabalho que a obediência começou; daí revesti-me de escrúpulos para completar a exposição dos quatro evangelhos, seguindo o plano anterior ao citar os santos doutores, sempre fazendo preceder seus nomes.

Mandei traduzir em latim muitas passagens dos Padres gregos, mesclando-as com as dos autores latinos, para tornar esta exposição doutrinal dos santos intérpretes mais completa e encadeada, mas sempre tomando o cuidado de apor seus nomes a cada citação. Como as primícias dos frutos do trabalho convém dá-las aos padres, convenci-me ser meu dever oferecer esta exposição dos Evangelhos, fruto do meu trabalho, ao padre da basílica dos doze apóstolos. Dignai-vos aceitá-la como devida homenagem à vossa autoridade, ao passo em que submetemo-la ao julgamento de vossa eminente ciência. Tomara vossa velha amizade veja aí o testemunho de minha sincera afeição.

segunda-feira, março 19, 2007

Louis Lavelle - Frases

Pílulas espirituais, não para serem lidas de carreirinha, mas tomadas uma a uma e digeridas pelo estômago da inteligência.
Luiz de Carvalho.

1. Narciso exige do olhar nu a contemplação de sua pura essência, mas ele só pode lhe dar a aparência – eis o drama de que padece.
2. O crime de Narciso é preferir, no final das contas, a imagem ao próprio eu.
3. Só se pode amar uma vida que, antes de fazer dom de si, deve-se dar a si mesma o ser.
4. Ser é sempre mais que conhecer. O conhecimento é o espetáculo com que nos regalamos.
5. A potência que tenho em mim para acolher é o que faz que os outros me acolham.
6. Cada consciência tem em si uma aspiração insatisfeita, pois que tem o infinito por objeto.
7. A mentira é a recusa do próprio ser perpetrada pelo eu.
8. A árvore alimenta os frutos de que se carregará, mas ela os ignora: não cabe a ela vê-los nem prová-los.
9. Todos os seres recebem a mesma luz, mas a acolhem de modos desiguais.
10. Qualquer progresso espiritual retira-nos do convívio dos outros homens, que veem em nós um ser que começa a se bastar a si.
11. Só começo ser interessante a outrem quando este sente em mim um perfeito desinteresse... uma indiferença a convencê-lo.
12. O amor começa na contemplação.
13. A docilidade é o polimento do vigor, não o seu contrário.
14. Quanto mais a árvore mergulha as raízes na escuridão da terra, mas a folhagem remonta às alturas.
15. A sabedoria é aptidão para se possuir, e não dominar.
16. A santidade assemelha-se a uma nova natureza: é por sua vez a renúncia e a perfeição da natureza.
17. A consciência só consegue o equilíbrio e a segurança ao alimentar o olhar no infinito, em vez de fazer deste [mundo] a perpetuação de um além.
18. O maior bem que possamos fazer ao próximo não é comunicar-lhe nossa riqueza, mas fazê-los descobrir a deles.
19. Não pode haver real amizade entre os que, antes de tudo, não têm fé nos mesmos valores.
20. Toda duração é espiritual, e não material, pois a duração só conserva o que ela espiritualiza.
LOUIS LAVELLE
http://catho.org/9.php?d=c2s

sábado, março 03, 2007

Serviço de informação pública

Aos que me lêem e aos que me leiam

Por conta de meu nome, sou amiúde confundido com o filho de Olavo de Carvalho, Luiz Gonzaga de Carvalho Neto; daí deparar-me constantemente com mensagens que me não tinham por destinatário. Eis pois o objeto e fecho deste post: comunicar que eu não sou "o filho do Olavo".

Obrigado pela atenção.